sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Grandes violonistas populares brasileiros

Mencionar todos os bons violonistas da música popular brasileira é o equivalente a tentar fazer o mesmo com os nomes dos nossos craques ao longo da história do futebol.

Você sempre deixará vários de fora. Cometerá injustiças cabeludas, pois são tantos que ninguém é capaz de se lembrar de todos.

A começar, o violão é o principal instrumento do país. Daí cada qual tem seus gostos e elegerá os seus.

Puxa-se pelos que tiveram maior visibilidade: Garoto, Dilermando Reis, João Gilberto, Paulinho Nogueira, Baden Powell, João Bosco, Toquinho, Raphael Rabello, Egberto Gismonti, Guinga, Yamandu Costa, etc.


Dilermando Reis

Lógico que a relação é muitíssimo maior. Mesmo entre os que fazem as função de instrumentista solo e, por isso, aparecem mais.

Se formos incluir os grandes violonistas que são ou foram músicos acompanhantes, a coisa desembesta para citações sem fim.

Como disse, é qual relacionar os craques do futebol. Normalmente se parte daqueles que estiveram nas várias formações da Seleção Brasileira. Mas e os que foram tão bons quanto e, por uma razão ou outra, não estiveram selecionados?

Não gosto muito de virtuoses, caso da maioria dos nomes citados acima. Vez ou outra ouço, por exemplo, Raphael Rabello. Técnica impressionante. Mas muito perfeito, excessivo para meu deleite amador.

Vou me limitar aqui aos craques do violão no Brasil dos quais mais gosto.

No texto abaixo destacarei Villa-Lobos, dois dos nomes acima – Dilermando Reis e João Gilberto –, mais Canhoto da Paraíba, Renato Piau e alguns intérpretes/compositores que foram especiais no instrumento: Noel Rosa, Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho, Gilberto Gil, Jorge Ben, Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Morais Moreira.

Evidente que torcerão os narizes por eu ter me esquecido de fulanos, beltranos e sicranos.

Sobre cada um dos citados apresentarei uma ou mais gravação, os motivos por que os escolho e informações bem resumidas, para não tornar este artigo demasiado longo e cacete.

Começo por Dilermando Reis, por motivação pessoal...



Dilermando Reis é paulista de Guaratinguetá (SP), mas sua carreira se deu toda no Rio de Janeiro. Compôs choros, valsas, peças para repertório de violão clássico, entre outras.

Gravou mais de trinta álbuns de música instrumental, o que é um grande feito no país.

Qual o campineiro Paulinho Nogueira, deixou obra didática referencial para quem estuda o instrumento.

Por muitos anos foi apresentador de um programa sobre música popular numa rádio carioca que ouvíamos bastante no interior paulista.

Isso na primeira metade dos anos 1960, quando morávamos num sítio meu pai, meu irmão e um primo. Minha mãe falecera em circunstâncias trágicas e a casa era uma tristeza só.

Ao entardecer, ouvíamos rádio até certa hora. No início da noite, meu primo tocava ao violão as músicas que conhecia. Dentre elas a valsa Abismo de rosas, de Dilermando Reis.

O título da canção me parecia bastante condizente com o clima da casa. Dado as circunstâncias, soava triste, trágico. Hoje, não.

Segue a gravação de Abismo de rosas com o próprio Dilermando:




Popular/erudito

O Heitor Villa-Lobos (1887-1959) que vou mencionar não é o principal compositor modernista da música erudita sul-americana.

É o Villa-Lobos out, putanheiro, boêmio e bebedor de cachça que participava das rodas de choro como ótimo violonista, tendo Donga, Pixinguinha e outros como parceiros de copo, som e farra.

Villa iniciou a integração das músicas erudita e a popular como uma de nossas marcas culturais. Compôs dezenas de peças instrumentais para violão, algumas mais populares, outras mais eruditas.

Essa integração popular/erudito por ele iniciada teve prosseguimento nas obras de compositores como Radamés Gnattali, Tom Jobim, Edu Lobo, Raphael Rabello, Egberto Gismonti, Guinga, Milton Nascimento e outros.

Gnattali, que era também exímio pianista, deixou importante obra didática sobre ensino de violão.

Ouçam a gravação de Choro nº 1, de Villa-Lobos, com Turíbio Santos, um dos principais intérpretes de sua obra para violão.



A seguir, Toquinho e Yamandu Costa tocam juntos Bachianinha nº 1. Na conversa, Toquinho faz referência a seu mestre Paulinho Nogueira.

Canhoto da Paraíba (1926-2008), menos conhecido no eixo Rio/São Paulo, está entre os melhores do instrumento no país nessa mesma vertente que mistura o popular ao erudito.

A seguir, Canhoto em seu choro Tua imagem:
 


Canhoto tocava com as cordas do violão investidas. Ocorre que em sua casa, em João Pessoa, o pai e os irmãos eram também músicos e só havia um instrumento. O único canhoto era ele, por isso teve de aprender a tocar assim, com as cordas sequenciadas para os destros.

Segue apresentação do mestre paraibano com Paulinho da Viola (este ao cavaquinho).


Rithmn’n’blues com sal do soul

Depois da revolução da bossa nova, cuja figura seminal foi o violonista e cantor João Gilberto, esta é a vertente mais renovadora da música popular instrumental brasileira de meados dos anos 1960 para cá, nela inserindo elementos da música pop (rock, rithmn’s’blues, soul, etc.).

Um dos seus núcleos é o quarteto formado por Tim Maia, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge Ben. Todos compuseram ao violão, mas Jorge foi o principal ritmista dos quatro ao instrumento.

Só para lembrar, um acústico dele com sua canção Jorge da Capadócia:
 


Gilberto Gil foi outro grande ritmista ao violão. A seguir, em sua canção Expresso 2222.
 


Mas os violonistas mais sofisticados desta vertente, a meu ver, foram Jards Macalé, Lanny Gordin (mais conhecido como guitarrista) e Renato Piau.

Os tropicalistas Caetano, Gil e Gal tiveram uma de suas melhores fases sob a batuta do trio Macalé/Gordin/Tuti Moreno (baterista).

Vejam os exemplos da canção-colagem Triste Bahia, do álbum Transa, de Caetano Veloso, e Vapor barato (de Macalé e Waly Salomão), do álbum Gal Total. Na primeira há também o importante aporte do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos.
 


Vapor barato começa com a batida simplória de Gal ao violão, sustentada por sua especialíssima voz, depois entram Macalé, Lanny e os demais músicos, dando outro colorido à canção.
 


Renato Piau foi fundamental para as carreiras de Tim Maia, Luiz Melodia e Sérgio Sampaio. Mas tocou e vem tocando com vários outros intérpretes. Dentre a enorme lista, o “rei” Luiz Gonzaga e seu herdeiro Dominguinhos.

Abaixo, Piau e Melô em Congênito, composição deste.
 


A batida blues e voz de Piau em Que loucura, de Sérgio Sampaio.


Sérgio Sampaio também foi bom violonista com batida blues. Certifiquem-se, a seguir, com ele na voz e no violão interpretando a linda Em nome de Deus.
 


Intérpretes com toques especiais

Começo por João Gilberto, que motivou uma revolução de inspiração jazzista na música popular brasileira apenas com a voz e o violão. A precisão e sutileza em Odete (de Dunga-Herivelto Martins) dispensam comentários.
 


Noel Rosa começou como violonista, como Carlos Gardel, cuja revolução no tango teve grande influência na música popular brasileira.

Há várias gravações de Noel acompanhando outros intérpretes, inclusive em canções que não eram de sua autoria.

Depois se consagrou como intérprete (sempre ao violão) e um dos principais compositores da música popular brasileira.

A batida de Noel era especialíssima. Junto com o grande violonista paulista Garoto deixou várias parcerias, dentre elas a instrumental Choro.
 


Dorival Caymmi foi outro compositor/intérprete com toque especial que nunca se desgrudou do instrumento.


Nelson Cavaquinho (nunca tocou o instrumento do seu codinome) tinha um trato próprio com os bordões – cordas graves – para acompanhar seus sambas.

Sua batida recheada de toques duplos nos bordões é esquisitíssima, se ouvida em separado, mas junto com os demais instrumentos soa perfeita.
 


Outro que tem uma batida para lá de esquisita para tocar sambas é Morais Moreira. Ouçam-no ao violão na interpretação de Samba da minha terra, de Caymmi, ainda na época dos Novos Baianos.


Influência da batida nacional (não se trata de caipirinha) lá fora

Em música popular não tem essa de ufanismo nacionalista. As influências sempre se deram e sempre ocorrerão. De fora pra cá, de cá pra fora.

Músicas de outros países nos ajudaram a criar a nossa e a renová-la, assim como a nossa influencia a deles.

A maioria dos compositores e violonistas do musical arquipélago africano Cabo Verde, berço de Césaria Évora, é altamente afinada com a música brasileira, sobretudo instrumental.

Músicos caboverdeanos tocam um violão que só se ouvindo. A seguir, a ótima banda de Césaria em Sodade (de Armandio Cabral/Louis Morais).


O cantor e violonista guianense Henri Salvador parece João Gilberto cantando em francês.
 


Para encerrar, o virtuose do violão flamenco Paco de Lucia começou a se exibir, ainda bastante jovem, interpretando o choro brasileiro Tico tico no fubá (de Zequinha de Abreu).
 



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