quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Aníbal (conto)



            Corríamos da sala para os quartos, cozinha, varanda, alpendre e terreiro. Pega aqui! Pega ali! Saltávamos janelas, batíamos portas, passávamos por baixo dos móveis derrubando objetos, alguns quebráveis. As brincadeiras eram várias. Em dado momento um de nós era Tarzan, o rei dos macacos. Outro primo era um leão caolho assassino que mancava de uma das pernas só para fazer graça. Os demais, eu incluído, éramos reles bandidos figurantes, cuja função era apanhar do herói. De repente começamos a quebrar o pau para valer uns com os outros e foi uma gritaria que só. Vovó Antônia perdeu as estribeiras e correu atrás de todos disposta a nos dar umas cacetadas com um cabo de vassoura. Com seu rompante frustrado, gritou enfurecida:

            Ocêis tão me deixano doida! Parem já com isso, pelo amor de Deus!

            Nem bem ela acabou de falar, o primo Tarzan, o maior da turma, continuou a correr desembestado, pulou sobre o parapeito da janela da sala como um legítimo macaco e de lá se jogou para apanhar um cipó imaginário. Caiu do outro lado, no terreiro, com um dos pés descalços sobre o corte de uma enxada que ele próprio largara ao lado do pé de sabugueiro. Eis os ais e o acidente pôs fim à fuzarca. Vovó obrigou o primo a lavar o ferimento com água e sabão. Depois o banhou sem dó com álcool canforado. O rei das selvas urrou como o mais cagão dos mortais.

Bem naquele instante vovô Ananias vinha chegando com as duas mulas repletas de sacolas de pano com coisas da cidade.  Deu-me uma das sacolas para carregar. Vi que havia de um dos lados macarrão, farinha de trigo, sal, açúcar, extrato de tomate, bolachas, haleu, goiabada cascão... Mas não houve tempo de conferir o resto porque vovó a tirou rispidamente das minhas mãos e me deu um puxão de orelha para conter a curiosidade. Ela então pediu que vovô falasse das novidades. Ele desconversou:

            – Muitas e nenhuma.

            Enquanto um dos netos labutava para arrancar-lhe a botina nova, resmungou que a mulher de um partira com o marido de outra, que o prefeito continuava a não fazer nada e os vereadores estavam em vias de serem escorraçados da cidade por terem votado aumento dos próprios salários num momento de crise.

            O de sempre...

            Tinha mais o que falar, sim, mas disse que estava por demais agoniado para se ver livre daquelas malditas botinas que ela o obrigara a calçar para ir à cidade. Reclamou que nem fazia ideia da tortura que fora suportá-las o dia todo. Gemeu teatral enquanto o neto se esforçava para arrancá-las. Vovó apenas fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito. Quando enfim vovô pôde pôr os pés macucos para fora, parecia que seus dedões tinham voltado a respirar. Só então desembuchou mais proseio:

            Tenho novidades pra te contar sim, Tonha. E das tirstis.

            A-pois conte...

            Te lembra do Aníbal?

            Sim, sim.

            Morreu.

            Num diga!

            Lamuriou aturdida, como que a não aceitar o que acabara de ouvir. Vovô virou-se para mim e ordenou que coçasse suas costas. Eu detestava aquilo. Sua pele era suarenta e cheia de pelos. Além disso, ficava o tempo todo dando ordens sobre onde e como coçar. Por um raio do azar eu estava mais uma vez por perto e lá ficou ele a ditar o que eu devia fazer:

            Um pouco mais pra riba. Aí! Pode passá a unha com força...

            Algo me chamou a atenção e parei.

            – Vô...

            – Qui foi?

            – Há uma pinta aqui que parece ter pernas.

            – Então não é pinta, ué. Pinta não tem perna.

            – Me parece que é carrapato.

            – Dos qual?

            – Daqueles chatos que dão em bicho de mato.

            – Então num mexe não. Vá inté o fogão e traz um graveto com brasa.

            Fui e voltei.

            Encosta a brasa na bolota do bicho inté isturricá.

            Assim fiz. Logo o carrapato caiu incólume sem deixar o ferrão preso à sua pele. Enquanto devolvia a lenha com brasa ao fogão, ouvi minha avó perguntar pesarosa:

            Cumé que o cuitadinho do Aníbal murreu, Nania?

            Matado.

            Ai, Jisuis!

            Nós, os netos, ficamos aflitos por saber o que tinha se passado. Vovô mirou nossa curiosidade a piscar miúda e sapecou por cima sua conversa graúda:

            Aníbal morreu rapazinho, quase tão moleque quanto ocêis. Se a gente tivesse acudido em tempo, era capaz de fazê dele arguem que prestasse. Não é, Tonha?

            Vovó fez de conta que não ouviu. Seo Ananias baixou os olhões azuis e, sem que ela percebesse, acrescentou para que só nós ouvíssemos:

            Me curpo por...

            Estávamos cada vez mais ansiosos com nossa pouca ou nenhuma compreensão. Seria possível que nosso avô, tão manso e reservado, tivesse tido um surto de destempero e matado o tal Aníbal nessa sua ida à cidade? Um dos primos atalhou-me a dúvida:

            Foi o senhor quem matou o Aníbal?

            Vovô olhou para ele surpreso e nem respondeu. Pediu a esse mesmo primo que fosse buscar o embornal com fumo. E depois ordenou ao cujo:

            – Agora tu vai lá fora e fica varreno o terreiro.

            – Pra quê?! A vovó já varreu tudo hoje.

            – Tem importância não. Ocê vai varrê de novo pra num ficá priguntano o que num deve.

            O primo já havia apanhado a vassoura quando vovó interferiu:

            – Vai varrê terreiro coisa ninhuma, menino. Deixa de sê besta! Isso é graça do teu avô.

            Vovô Ananias passou a encher o cachimbo feito de baga de jequitibá com aquele seu tabaco fedorento. Depois triscou com capricho o capucho da binga. O fumo virou brasa abusiva e a fumaça fedida se impôs, levando as aranhas do teto a fugirem para os espaços vagos entre os caibros do telhado. Vovô baforou pacientemente extasiado, lançando fumaça para todas as direções. Também nos afastamos dele. Nossa curiosidade era tanta que nos chegava a remoer o estômago.

            Conta, vô!

            – Conta, vá!

            Seo Ananias ficou de pé num impulso teatral, atirou o cachimbo no terreiro e depois gritou com todos:

            Credincruis! Ninguém aguenta ocêis. Mal chego de uma viagem e já querem sabê de tudo.

            Aquilo era uma presepada à qual estávamos acostumados. Vovô sabia de antemão que não havia remédio senão engrenar algum causo que nos satisfizesse. Mandou então que um dos primos fosse apanhar o cachimbo no terreiro. Este havia perdido a maior parte do fumo. Limpou-o com a ponta do canivete e preparou nova cachimbada. Depois ordenou:

            Assentem-se pra ouvi. E não me interrompam, que hoji eu tô carente de paciência.

            O primo Tarzan se aproximou com o pé enfaixado para acompanhar a conversa mais de perto. Ao vê-lo pulando como saci-pererê, vovô quis apurar:

            Ô Tonha, quê se assucedeu a este carniça?

            Arte, ué.

            Terminou de encher o cachimbo com fumo fedido e novamente triscou a pedra no pavio da binga. Com o catingudo outra vez aceso, olhou para nós e chacoalhou a cabeça de um lado para o outro.

            Aníbal era miudinho, bem mais franzino que ocê – apontou o primo Tarzan, o de pé enfaixado – porém valia por bem mais que um bando de homens grandões como eu. Conheci-o aqui mesmo, em casa, há coisa de um ano.

             Vovó:

            Cê tá caducano, Nania? Já se passaram quatro anos!

            Vovô:

            Que xeja. Pois Aníbal de vero rondou por decá e pediu pouso. De princípio nóis nem sabia quem era. Um rapazinho bem novinho, quase sem barba, daí fiquei ansim-assim se acolhia aquele estranho. Intuí que era malandrinho não e mandei que fosse pra casinha dos fundo mode usá uma das redes de apoitá peão boiadeiro. Despois que acomodasse as coisa, pedi que viesse mode comê um engasga-gato com nóis.

            Vovó Antônia comentou baixinho:

            – Engasga-gato é a puta que o pariu...

            Vovô contou que o visitante foi ao poço onde o gado alivia a sede e por lá se lavou de noitinha. Ficou na dele só assuntando, como se nada visse. No que o tal voltou do poço, passou na casa da sede para dizer que não era preciso se incomodar, pois não queria nada de comer não. Vovô insistiu que entrasse na cozinha nem que fosse para fazer uma boquinha. Tanto repetiu o convite que o rapazinho não teve como recursar. Enquanto ciscava com o garfo o prato que lhe foi servido, o visitante se dirigiu a vovó Antônia:

            “Por acaso a dona senhora tem cadinho de arcu canfurado mode me imprestá?”

            Tinha, sim, mas ela quis saber para que era. Pois caso precisasse de mais alguma coisa, já tratava de tentar achar em sua farmácia doméstica. O visitante:

            “É mode desinfetá uns trem. Perciso de mais nada não, dona senhora.”

            Vovô notara que ele respirava com dificuldade. Perguntou a respeito e o rapazinho desconversou:

            “Ói, fulano siô, tô aqui de favor e agradeço muito tua bondade. Mas num me aperreie com muita priguntação não.”

            Insolente, foi o que logo pensou meu vovô. Mas deu de se calar para evitar desentendimento. Era seu hábito ser educado com os de fora, mesmo que esses não o fossem na mesma medida. Matutou que no dia seguinte pela manhã pediria ao coisinho ruim que procurasse outro canto. Pois desgostava de ouvir malcriações. Achava que era direito de qualquer um ser tratado com educação.

Naquela noite choveu à reveria. Mesmo sob o barulho das águas, da ventania e dos trovões, conseguiu ouviu os gemidos do rapazinho visitante lá na casinha dos fundos. Quando a borrasca se acanhou, acendeu a lamparina e foi ver o que era. No que abriu a porta, foi intimado a não dar mais um só passo. Explicou que estava ali para ajudar. O outro disse que era para não se preocupar não, pois iria juntar suas coisas e sair naquela horinha mesmo da casa. Seo Ananias se opôs. Não, não iria deixá-lo ir embora com aquele tempo duvidoso e judiado sabe-se lá do quê. Se quisesse atirar, que atirasse, mas teria de explicar porque daqueles ais-ais. Fracote sabia que não era. Então escondia o quê? O visitante deu de falar:

            “Vim pra cá com febrão danado, siô. O que mais me aperreia é um rebite que tá aqui cravado nas altura das costelas.”

            Vovô deu uma olhada rápida e o rapazinho esclareceu:

            “Tentaram fazê pineira d’eu, siô. Só treis rebites me pegô. Dois varô afora e deixô pra trás só os estrago. Agora esse unzinho que ficou aqui drento tá numa desgraceira só.”

            Vovô disse que precisava tirar aquilo o quanto antes. Porém o tal cismou de mais querer se explicar:

            “O siô não quer saber se eu...”

            Queria saber de coisa alguma. Urgente mesmo era remover aquilo. Ademais, não se interessava pela vida alheia, menos ainda a de sujeitinhos pouco educados como ele. Ao que o rapazinho acrescentou respeitoso:

            “Me adesculpe, siô. Não tive a intenção de...”

            Vovô interrompeu o proseio para mais uma vez acender o fedorento. Mais uma vez baforou pesaroso, olhou para todos nós com o pouco-caso e prosseguiu:

            Punhemo o coisinho aí nesse banco aí e fumo caçá o rebite na carne dele. Nem em criação havia visto troço tão feio. Os bigato mexia lá drento. Esquentei a lâmina do canivete, aquele um ali que uso pra capá porco, e me pus a abrir o buraco. Tive de arredar o que tava podre do que era bom, inté chegá ao rebite incrustado. Tava em meio a uma sangueira danada na costelas.

            O visitante aguentou calado. Vovô fez a dispensável observação de que qualquer de nós no lugar dele teria se borrado inteiro. Após ter a bala removida, o rapazinho apenas pediu um copo de pinga e quis mais se explicar. Cismou que de antão em diante teria muita consideração com vovô Ananias e vovó Antônia, por estes terem salvo sua vida. Ainda assim assinalou senões:

            “Que o siô e a dona senhora não faça coisa ruim pra eu, porque daí eu fico ruim tumém. Tá me entendeno?”

            Vovô o interceptou para dizer que dentro de sua casa não tinha quem lhe dissesse o que devia ou não devia fazer. Ali, só ele, vovó Antônia e os urubus que esperam pelas mortes de todos nós nas alturas tinham a devida medida das coisas. Portanto que não desdissesse nada. Outra vez o rapazinho se desculpou. Contou que estava daquele jeito, enervado, porque há muito vivia no acuo.

            “Não sô de pidi arjitória, siô. Mas é que ando de verdade percisado.”

            Falava de coração, nos disse vovô, e logo sentiu que ele era um sujeitinho bom, mesmo que dissesse ou fizesse o que não devesse. Pois então Seo Ananias abriu o patuá dos sentimentos e disse ao visitante que podia desembuchar o que sentisse necessidade. Este atinou sobre o que mais contar:

            “Pois que o siô e a dona senhora não se assustem, mas sou Aníbal... o Vieira. Devem tê ouvido falá di eu. Ultimamente tudo o mundo tá contra Aníbal. Quando tô pru riba, eles são tudo bãozinho. No que me afraquejo, se avalenteiam e viram macaco pirseguidô. Deixa ‘stá, siô! Não é que eu seja de visões, conforme o padre Santo Bilarmino lá de Patrocínio, mas sei que o mundo dos Gerais ainda percisa muito de Aníbal pra repará injustiça. Moço rico que fez mal a moça pobre tem de tê um cabra como eu mode fazê ele intendê o que não se deve.”

            Vovô Ananias disse que se sentiu apreensivo com aquela situação. Não por medo de Aníbal propriamente, mas de a Captura descobrir que ele estava por ali e vir com tudo à sua caça. Se isso ocorresse, não só ele e vovó, mas todos nas redondezas do Córrego da Consulta estariam na linha de fogo. Por outro lado, não podia deixar um camarada prestimoso como aquele morrer à míngua. Vovô lhe assegurou:

            – Pode ‘stá, seo Aníbal. O siô tem aqui o tempo que percisá mode se restabelecer.

            Aníbal desautorizou:

            Não percisa se preocupá em me protegê não, siô. Eu merminho me cuido. Antes deles chegá, eu farejo. Sinto catinga de macaco de longe. Daí eu chamo os fidaputa pro matinho lá em riba e nóis vê quem pode mais. Só conto essas coisas mode ocêis não mi intendê mal. Sei que ando fazeno o de errado. Vivo mêmo desconfiado inté de sombra. Volta e meia rebite passa de fino por mim. Falam que tenho parte com o Demo, que meu corpo é fechado. Se eu tivesse corpo fechado taria assim varado como tô agora?! Só não morri porque inté hoje não me acertaram pra valer. Quem atira treme na hora por temor e erra mêmo. Daí eu vou lá e, sacapunga!, queimo o cabra. Pois é isso, siô...”

            “...Nania”, emendou vovô.

            “Siô Nania, saiba que eu sempre pensei em só fazê o bem. De antes eu só matava quem não prestasse. Tá me entendeno? Fiz asnices, sim. Fazendeiro pançudo falô... ‘Amigo Aníbal, tem prefeito em Itapagipe que não presta. Vá lá e faz justiça.’ Eu, bobo, ia lá e fazia injustiça. Político pançudo falô... ‘Amigo Aníbal, tô percisano que tu faça aquele fazendeiro fidaputa por mim.’ Eu ia lá e fazia maldade achano que era bondade. Um padre de Fructal me explicou que não era certo não. Depois que entendi fiquei raivoso demais da conta. Fui atrás do fazendeiro pançudo e, papapá!, matei ele. Fui atrás do político pançudo e, papapá!, matei ele. Tava errado, siô? Tava não. Quero avivê do que é certo. É o que sempre quis. Sapequei aqueles cabras em Rio Preto prunque eles fez mal à minha irmãzinha e ao meu papaizinho. Titio me deu garrucha e disse mode eu ir pra chacrinha dele treiná. Podia deixá minha mãezinha e os irmãozinhos por conta dele, que ele cuidava por mim. Quando estivesse arrancando cabeça de forfi a tiro podia dá o merecido fim àqueles cães tarados.”

            Vovô conta que nesse ponto Aníbal virou o enredo pelo avesso:

            “Tenho de reconhecer que matei quem não devia. No que penso nisso sofro em quietude cristã, pois sei que o que morre não tem mêmo jeito de avivá. Ainda ansim persisto mode corrigi os malfeito. Cheguei aos Gerais fugino dos paulista. Passei uns tempos de coração arriado inté sentir que haviam se esquecido d’eu. Adespois saí campeano moço que tinha feito mal a moça e não havia dado ao erro o devido reparo. Eu ia lá, trazia o cabra mode pedir perdão aos pais da infeliz e casava os dois. Riscava inté uma cruz na certidão do cartório a fim de ajuizá que era padrinho. Daí dizia ao moço, na frente das testemunhas, para que não maltratasse a esposa. Se fizesse alguma coisa de ruim a ela, podia estar certo que eu voltava de onde estivesse mode caçá ele inté nos quinto dos inferno. Tava errado, seu Nania? Tava não! A gente toda dos Gerais me deu razão. Inté fidaputa do Exército e macaco da Captura ficou amigão de Aníbal na ocasião.”

            Parou para pensar se devia dizer algo mais. E disse:

            “Verdade é que sô meio padre, siô. Nunca fui de boli as vergonha das moça. Não gosto. Prefiro sê como sô, puro desde a nascença. Embora minha missão seja  justiçá, na casa de Deus o que de mais apreceio é vê padre rezá missa. É bonito demais da conta aqueles sins de o homem se vestir sagrado e falá das coisas do divino ispirto santo. Lacrimo só de ouvir. O latim, muito embora não compreenda, é coisa bonita demais da conta. Nas missas eu chego sempre atrasado e fico quietinho lá no fundo da igreja mode ninguém me vê e atrapaiá o culto. O povo, besta que é, acha que eu vô à igreja fazê eles sê mais cristão. Então rezam alto, com medo d’eu chumbá quem não se mostrar devoto. Demolivre! Na casa de Cristo sou quarqué um. Ali, se quiserem, me matam, pois sou incapaz de tirar arma onde o cão não mostra a língua.”

            Vovô quis saber por que voltara ao seu estado de origem, São Paulo, mesmo sabendo que por aqui era tão procurado. Aníbal explicou que aquele seu retorno não fora proposital. Começou seguidamente a contar como havia ocorrido.

            “Foram seis as traições que me pregaram nas terras dos Gerais. Das vezes fico inté achano que não posso acreditar em mais ninguém. Sei não se devo confiá no siô e na dona senhora... Muita gente que me pareceu boa deu tino de Aníbal pros macaco. Tenho tanta intenção de fazê o bem, de corrigir o errado com o certo, mas não me dão nenhuma chancha. Daí me arreivo e, sacapunga!, atiro pra ouvir a queda do defunto que se foi. Ansim tem sido meu inferno.”

            Tudo bem, arremedou vovô, mas ainda não dissera como chegara ao Estado de São Paulo e por quê.

            “Carminha, siô! Deixa por minha conta que chego lá. Meus derradeiro dias nos Gerais foram nervosos. Entrei numa vendinha lá do Corgo da Égua e um negão tição oiô de tresveio. Eu, pá!, matei ele . Era meramente um sapateiro consertadô de botina veia. Noutra venda um sujeitinho arrastô o pé por destrás e eu, pá!, matei sem nem conferir quem havia morrido. Outro veio me abraçar, me confundindo com sei lá quem, e quando vi já tava estrebuchando. Entonce um sitiante do Corgo das Fror me deu pouso. Tava desconfiado, meio que pressentindo. Pois se mui silêncio faz, a desgraça há de ser mais. O cansaço me venceu e quando me dei por mim tava comendo rebite de todos os lados. Era os macaco! Escapei do cerco e corri léguas varado com o rebite que o siô tirô de mim. Os macacos vinham destrás papapapá. E eu papapapá na direção deles.  A valência foi chegá às barrancas do Rio Grande. Pulei n’água de roupa e tudo. Quando achei que tinha chegado morto ao céu, havia atravessado a nado pro estado de cá, o de São Paulo, onde nasci. Que pensem que morri. Ainda vão ver com quantos paus se mata uma cobra. Tô quase sarado, siô. Loguinho vorto aos Gerais pra revertê a caçada.”

            Sarado nada, pois nosso avô acabara de tirar dele uma bala. Perdera muito sangue. O ferimento poderia arruinar com o esforço físico e ele morrer por infecção. Aníbal escancarou a boca desdentada e debochou dos seus conselhos:

            “Qui nada, siô! Praga qui nem eu é pió que carrapicho. Se corta, a semente gruda e rinasce mais forte noutro canto. Ni que ninguém tivé pensano em Aníbal, lá tô eu em riba deles de novo. Primeiro quero matá o sitiante que me entregô. Adespois vô pegá um por um dos macaco que me atocaiô.”

            Vovô perguntou o que faria da vida quando a vingança acabasse e ele mudou de tom:

            “Quero voltar a ser bom, siô. Para que as pessoa tudo me tenham respeito como quando cheguei aos Gerais.”

            O primo Tarzan, o mais grandalhão de nós, roncava no colo de vovó Antônia. Todas as férias dava um jeito de se machucar para que ela o tratasse com os devidos dengos. Hoje é engenheiro de minas, cheio de mandos e desmandos com os subordinados. Outros dois primos também dormiam, encostados uns nos outros. Hoje um deles é comerciante, o outro é advogado que ganha a vida com as desgraças dos outros. Um quarto primo, que naquele instante já tinha ido dormir, morreu jovem num acidente de motocicleta. Seo Ananias notou que somente eu e vovó ouvíamos seu causo, portanto era o momento de dar fecho ao desfecho.

            Quando no outro dia acordemo, não havia sinal de Aníbal. Deixô esta faca aqui em agradecimento. Foi feita com ferro de mola de caminhão. É boazinha de corte...

            Entregou-me para conferir. Pus-me a rapar os pelos dos braços e Vovô Antônia a tirou de mim antes que fizesse alguma besteira. Vovô concluiu:

            – Anibal vortô tempos depois pros Gerais. Ficô de permeio por lá, como se nem mais existisse. Soube que foi ao sítio do homem que o delatô. Ocorre que a Captura anteviu seu retorno e pôs os homens de campana. Moleque valoroso aquele, embora cadinho insensato. Teria feito dele um peão e tanto.

2 comentários:

  1. Muito bom o seu conto, Aderval. A narrativa passando por diversos narradores, cada um com uma visão, mas a meada sendo tecida sem perda do rumo. Gostei muito. Não conheci a Vieira. Tenho por mim que o sucesso do Lampião no imaginário popular e sua persistência deve-se ao árabe Benjamim Abraão que fixou sua imagem em fotografias e celuloide para a posteridade. Daí a criatura ter ficado maior que o criador.

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