quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Línguas e dialetos criados ou disseminados pelos judeus


As chamadas línguas judaicas se constituem em um conjunto de idiomas falados ao longo da história pelo povo judeu, geralmente tendo como base a língua da região onde estavam radicados ou de onde receberam influência.


Como os judeus se espalharam por todos os continentes, há de se considerar que as influências que tiveram das várias culturas e línguas em meio às quais se entremearam foram vastas.



As principais línguas judaicas foram: hebraico, aramaico, judeu-árabe, ladino ou judeu-espanhol, iídiche, dzhidi e karaim. Mas existiram outras.



Foto do físico alemão de origem judaica Albert Einstein
O hebraico é normalmente a língua litúrgica usada em sinagogas, na leitura da Torá. Torá é o nome dado aos cinco primeiros livros bíblicos que constituem o texto central do judaísmo.



Conta os relatos sobre a criação do mundo, a origem da humanidade, o pacto da Divindade com Abraão e seus filhos, a libertação dos filhos de Israel do Egito e sua peregrinação de quarenta anos até a terra prometida.



Inclui também os mandamentos e instruções que foram dadas a Moisés para que os ensinasse ao povo de Israel.



Aramaico foi a língua administrativa e religiosa de diversos impérios da Antiguidade, além de ser o idioma original dos livros bíblicos de Esdras e Daniel, assim como do Talmude.



Alfabeto aramaico
O Talmude é um livro sagrado dos judeus no qual se encontram os registros das discussões rabínicas relativas às leis, à ética, aos costumes e à história do judaísmo.



O aramaico foi falado por Jesus e ainda hoje é a língua materna de algumas pequenas comunidades no Oriente Médio, especialmente no interior da Síria...



O judeu-árabe é uma forma de hebraico com fonética árabe. Também é escrito em alfabeto árabe.



Foi a língua usada para Maimônides (1138-1204), importante pensador e médico judeu do norte da África, escrever a maioria dos seus tratados. Maimônide foi conselheiro do vizir al-Fadil, do Egito, aliado do grande chefe militar curdo Saladino.



Alfabeto árabe
O judaico-árabe é, na verdade, uma coleção de dialetos árabes falados por judeus originários de países árabes, particularmente na Idade Média.



O judeu-espanhol ou ladino é uma língua românica semelhante ao castelhano. Estima-se que ainda seja falado por cerca de 150 mil indivíduos em comunidades sefarditas de Israel, dos Balcãs, do Oriente Médio e do norte de Marrocos.



Também é conhecido como espanhol sefardita e judeo-espanhol.



Era a língua usada pelos judeus de Espanha e Portugal. Compunha-se de uma mistura de palavras hebraicas usadas no dia a dia com a língua da região, que podia ser o castelhano, o português, o árabe, o catalão e o provençal.



A maioria já deve ter ouvido falar do iídiche, uma língua da família indo-europeia pertencente ao subgrupo germânico. Foi a língua adotada pelos judeus de descendência alemã e holandesa, particularmente na Europa Central e na Europa Oriental.



É germânica, mas escrita em caracteres arameu-hebraico.



Sua composição é complexa. Parte dos idiomas germânicos, mas assimila aspectos de dialetos dos idiomas eslávicos, do polonês, do ucraniano, do bielorrusso e do russo.



Sua gramática tem derivações do hebraico e do aramaico.



Atualmente, o iídiche, que tem importante literatura, é falado por comunidades judaicas da Alemanha, Argentina, Estados Unidos, Bélgica, França, Israel, Lituânia, Rússia, Brasil, Ucrânia e Canadá.



A língua dzhidi ou judeu-persa é o nome dado ao conjunto de dialetos falado pelos judeus originários do atual Irã, que organizaram comunidades naquela região desde o império Aquemênida, de VI a.C.

Alfabeto persa

O karaim é uma língua turcomana influenciada pela língua hebraica. É falada pelos judeus karaítas, que vivem nos repúblicas turcomanos da antiga União Soviética e em áreas da Ucrânia, Polônia e Lituânia.



O karaim foi escrito inicialmente em alfabeto hebraico. Hoje adotou alfabetos locais.



Miscigenação étnica e cultural



Os judeus são um povo altamente miscigenado.



Muito antes das várias diásporas, já flanavam por regiões da Europa, norte da África e da Ásia, nesta como integrantes das caravanas comerciais que aproximaram as antigas civilizações do Ocidente com as do Oriente.



Os traços estereotipados dos judeus como um povo moreno, baixinho, com narizes aduncos valem mais para os sefarditas.



Mas há judeus altos e louros em regiões de povos germânicos e eslavos, amulatados no norte da África, Oriente Médio e Índia, negros na Etiópia, de olhinhos puxados na China e na Mongólia, com cara de turcos nas estepes eurasianas e com cara de persa no atual Irã.



Graças à expertise de sobrevivência adquirida após as várias diásporas, sua vasta cultura também se miscigenou às dos povos que os adotaram e, com isso, tiveram importante papel para a difusão das várias línguas, dialetos, respectivas literaturas e artes em geral.



Os judeus lourões, com miscigenação germânica e eslava, são chamados de askenazi.



Seu núcleo ao longo do vale do Rio Reno foi muito importante para o desenvolvimento econômico daquela região europeia que abrange Suíça, norte da França, Áustria, Alemanha e Holanda.



Durante as cruzadas, nos séculos XI e XII, os askenazi foram perseguidos e migraram em massa para países da Europa Oriental, para onde levaram a linguagem germano-renana que falavam.



Era uma mescla de idiomas sui gêneris, uma espécie de esperanto antigo que misturava as muitas variações das três línguas germânicas em evidência no vale do Reno (alemão, holandês e frisão).



Tratava-se de um idioma de comerciantes que se fazia compreensível em quaisquer das localidades da bacia do Reno nas quais os judeus tinham atividades comerciais.



Sefardita é, literalmente, “judeu da Espanha” em hebraico. As relações comerciais dos judeus com os vários povos do Mediterrâneo, tanto da Europa quanto do norte da África, são muito antigas.



Calcula-se que os judeus já viviam efetivamente na Península Ibérica desde os tempos de Salomão. Há registros bíblicos sobre naus de Salomão que iam buscar prata na Espanha, Sardenha e outras localidades do Mediterrâneo.



Com a invasão árabe no século VIII, a porção islâmica da Espanha ficou apinhada de judeus. Esses judeus falavam o citado idioma judeu-arábe, escrito em árabe.



Atualmente, sefardita designa os judeus morenos em geral, sejam de Portugal, Espanha, Itália e norte da África.



Na Itália, a presença judaica é anterior à civilização romana. Os judeus venezianos falam um dialeto italiano próprio, o chamado ítalo-judaico.



Na Espanha medieval os judeus espanhóis falavam o chamado romanche ibérico, com múltiplas variações que deram origem a várias línguas e dialetos românicos.



Tal como no Vale do Reno, os judeus ibéricos desenvolveram o ladino, uma espécie de esperanto românica que permitia com que fossem compreendidos onde se falava italiano, napolitano, francês, provençal, espanhol, catalão, português e outras línguas românicas.



Era, obviamente, uma mistura de todas elas.



Com a diáspora motivada pelas perseguições da Inquisição, judeus sefarditas migraram em massa de Espanha e Portugal para a Grécia, Turquia, Romênia, Bulgária, sul da Iuguslavia, Albânia, Hungria e norte da áfrica, para lá levando o seu dialeto ladino.



Os judeus ibéricos inventaram até uma mistura de ladino com árabe, chamado haquitia, para se fazerem entendidos nas negociações com os invasores árabes.



A grande difusão dos judeus pelo mundo também foi incorporada ao seu principal idioma, o hebraico.



Este hoje é repleto de neologismos de herança latina – das várias línguas românicas –, ao lado de influências germânicas, eslavas, árabes, gregas e turcas. E, claro, também é rico de neologismos provenientes dos vários dialetos judaicos falados pelo mundo.



Um aspecto interessante do hebraico é ter preservado o antiquíssimo alfabeto arameu-hebraico.



Os judeus abissínios são negros como toda a população etíope e se expressam por meio dos dialetos locais.



Os judeus de Coxim, no sul da Índia, mantiveram suas sinagogas e seus idiomas litúrgicos, mas falam idiomas locais e se submetem às mesmas separações (discriminações) do sistema indiano de castas.



A presença de judeus nos países do Cáucaso ao Mar Negro é também antiquíssima. Os judeus montanheses do Azerbajão falam o parsi-tati, uma língua ancestral do persa moderno.



Os judeus do Usbequistão, chamados bocarianos, falam o dialeto do tajique (mistura de tajique, persa, línguas turcomanas e hebraico), que é escrito com letras arameu-hebraicas.



Há núcleos comunitários judaicos muito antigos na China, cuja origem nem seus próprios historiadores conseguem precisar.



Vivem ao longo do vale do rio Amarelo (Hoang-ho), na China oriental. São idênticos aos demais chineses e mantêm pouca identidade linguística e cultural.



O fim dos judeus chineses é um dos casos do desaparecimento de uma comunidade judaica por progressiva assimilação. Há outros.



No México, por exemplo, há uma comunidade judaica altamente mesclada com um povo indígena local que fala um dialeto chamado haláquico. Mas também preserva poucas tradições da cultura judaica.



O mesmo ocorre com os caboclos e caboclas de origem judaica que vivem nos vilarejos ao longo da bacia do Rio Amazonas, nos estados brasileiros do Amazonas e do Pará.



Costumam utilizar correntinhas nas quais penduram a estrela de seis pontas, símbolo do judaísmo, em lugar de santinhos. É seu único vínculo com o judaísmo. Se perguntarem o que são dirão apenas que são “filhos de David”.



No geral, os judeus são o povo que mais preservou e valorizou dialetos e línguas de várias origens pelo mundo afora. E, paradoxalmente, o povo que melhor soube preservar sua própria cultura.

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