sábado, 5 de novembro de 2016

Literatura fescenina

O viés satírico-fescenino é tão tradicional na literatura ocidental quanto o oficialesco e preponderante modelão clássico greco-latino.

Malícia zombeteira, sem compromissos morais e ideológicos, a veia satírica-fescenina tem pouco a ver com a pornografia ou com a sensualidade cult tão comum em nossos dias. Não tem nada dessa coisa masturbatória, promíscua e dada à perversidade.

É essencialmente jocosa e iconoclasta, como parcela significativa da cultura popular da qual proveio.



O nome “fescinino” tem como referência Fescênia, cidade da Etrúria, civilização que ocupou a região de Toscana, no centro da atual Itália, e cujo apogeu se deu de 800 a 700 a.C.

Essa arte grosseira e licenciosa foi uma das três tradições importantes deixadas pelos etruscos aos romanos. As outras duas foram ainda mais importantes: as letras do alfabeto e os numerais.

Muito do caráter obsceno, licencioso e lascivo dos “latinos” vem desses seus antecessores etruscos. Vale salientar que tanto os etruscos quanto os latinos foram povos que migraram da Europa Oriental para aquela região.

Além de bons comerciantes e navegadores, os estruscos eram um povo festeiro, que amava as artes, a luxúria e os prazeres lascivos em geral.

Os gregos eram severos críticos do sistema de vida anárquico desses seus vizinhos, mas o caráter orgiástico da produção cultural etrusca acabou por também influenciá-los.
 
Imagem de afresco etrusco


Os romanos herderam dos etruscos o gosto pelas abusivas comezaimas, o culto a deuses rústicos (às vezes cruéis) e o amor lubérrimo, que facilmente se estende para a obscenidade.

Graças primeiramente aos gregos e depois aos romanos, o humor fescenino de origem etrusca conquistou espaço definitivo na literatura ocidental – e também na oriental – sendo encontrado nas obras de autores de todas as escolas, povos e épocas.


Muitos escritores clássicos, tidos como eruditos sérios, sóbrios, sisudos e austeros, escreveram literatura satírica e erótica nos bastidores, utilizando-se muitas vezes de pseudônimos.

Há, inclusive, importantes nomes ligados às religiões que deixaram obras fesceninas.

Na antiguidade clássica, a tradição fescenina encontra-se, principalmente, na dramaturgia do grego Aristófanes (445-385 a.C) e na dos latinos Plauto (255-185 a.C.) e Terêncio (186-159 a.C.).

Na Idade Média, está nas cantigas de "mal-dizer" dos trovadores provençais, nas farsas interpretadas em barracões de feiras, nas obras do saxão Geoffrey Chaucer (1343-1400) e do florentino Giovanni Boccaccio (1313-1375).

No Renascimento, encontra-se nas obras do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), do francês François Rabelais (1494-1553) e do inglês William Shakespeare (1564-1616).

Rabelais
Por milênios esse humor debochado e desbocado vem acompanhando senão toda, pelo menos parte da produção dos homens de letras.

A malícia fescenina é uma das formas da humanidade gozar dela própria, sorrir, satirizar, pilheriar, debochar da tragicomédia da condição humana e dos seus podres poderes instituídos.

Há escritores mais identificados com esse gênero de arte como os franceses Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), Jean-Baptiste de Boyer (1704-1771), Marquês d'Argens (1703-1771), e o português Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (1765-1805) e o belga Pierre Louÿs (1870-1925).


Marquês de Sade
No Brasil, há vários expoentes da literatura oficialesca com obras que integram essa historiografia literária.

Dentre os quais Gregório de Matos (1636-1696), Francisco Moniz Barreto (1804-1868), Laurindo Rabelo (1826-1864), Bernardo Guimarães (1825-1884), Olavo Bilac (1865-1918), Humberto de Campos (1886-1934), Arthur Azevedo (1855-1908), Cesar de Castro (1886-1930), Carlos Vasconcelos (1881-1923), Adelino Magalhães (1887-1969), Gastão Cruls (1888-1959) e Múcio Teixeira (1857-1926).


Mas, que eu saiba, o único autor essencialmente fescenino é recente e está vivo: é o poeta paulista Glauco Mattoso, nascido em 1951.

Glauco Mattoso
Em todo o mundo, grande parcela de escritores fizeram algum tipo de literatura fescenina, mesmo que não publicamente revelada ou revelada por meio de pseudônimos, como a “escritora” popular Suzana Flag (na verdade, Nelson Rodrigues).

A literatura fescenina nos permite questionar os códigos morais ou que parecem se estabelecer como moralmente aceitáveis em cada época.

Várias obras fesceninas são paródias de obras consensualmente aceitas. Há numerosas imitações grotescas de dramas clássicos, de poemas épicos, de romances filosóficos, de contos conhecidos, etc.

Mescla-se, assim, exemplos lapidares à mais desbragada verve orgiástica, sob linguagem chula e grosseira, para tratar de temas proibitivos. Algumas dessas obras têm, até hoje, reprodução clandestina.

Bem, demonstrarei adiante alguns exemplos de obras literárias fesceninas satíricas, sarcásticas, irreverentes, burlescas, escabrosas, escandalosas, agressivas, ofensivas, chulas, grosseiras, etc.


A coisa é assim mesmo, não adianta querer amaciar. Todos os adjetivos para qualificar a literatura fescenina são dessa lavra.

A maioria dos escritores compôs alguma obra direta ou indiretamente identificada com essa corrente literária, mesmo que não a tenha assumido.

O que há de comum entre a farta e diversa produção literária fescenina? Põem em relevo, na forma de zombaria deslavada, o ridículo das convenções sociais, políticas e literárias...


A seguir, citarei trechos e títulos de obras fesceninas de vários autores.

Poucos foram especialistas nesse tipo de literatura, com nomes plenamente identificados a ela. A maioria a fez como algo de menor monta ou à parte de suas principais atividades literárias.

Propositadamente, citarei autores brasileiros mesclados a estrangeiros, sem seguir cronologia e escola literária.

Deixarei vários autores de fora. Elejo aqui àqueles que, a meu ver, realizaram obras fesceninas relevantes.

Gregório de Matos (1633-1696) e a fonte de todos os prazeres



Uma dama dormindo junto a uma fonte, como aparece no soneto a seguir de Greogório de Matos, consiste em uma imagem erótica tipicamente barroca.

Quanto mais perto da água, mais erótico é o poema. A água é o princípio de vida.

Durante sua vida, Gregório de Matos Guerra escreveu, a um só tempo, poesia satírica, erótica e religiosa. Influenciado por Gôngora e Quevedo, foi um dos nossos principais poetas barrocos.

“ERÓTICA
(A uma dama dormindo junto a uma fonte)

À margem de uma fonte, que corria,
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme Silvia, não vestia
Oh céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silêncio entra as flores,
Calava o mar, e rio não se ouvia,

Não dão o parabéns à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Silvia os dois diamantes,
Tudo a Silvia festejava, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.”

Glauco Mattoso (n. 1951), um “podosmófilo assumido

Glauco Mattoso é o pseudônimo do poeta e jornalista paulista Pedro José Ferreira da Silva.

Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão.

Trata-se também de uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Sua forma de poesia é o convencional soneto, mas em linguagem coloquial.

“SONETO BIZARRO

Coprófilo é quem gosta de excremento.
Pedófilo só trepa com criança.
Defunto fresco em paz jamais descansa
nos braços do necrófilo sedento.

Voyeur assiste a tudo, sempre atento
ao exibicionista, que até dança.
O fetichista transa até com trança,
e o masoquista adora sofrimento.

Libido, pelo jeito, é mero lodo.
A sensualidade faz sentido
conforme a morbidez sob a qual fodo.

Não basta o pé, precisa ser fedido.
Se tenho de escolher, pois, um apodo,
serei  um podosmófilo assumido.”

“SONETO HIGIÊNICO

Se o orifício anal é um olho cego,
que pisca e vai fazendo vista grossa
a tudo que entra e sai, que entala ou roça,
três vezes cego sou. Que cruz carrego!

Porém não pela mão me prende o prego,
mas pela língua suja, que hoje coça
o cu dos outros, feito um limpa-fossa,
e as pregas, como esponja escrota, esfrego.

O “beijo negro” é o último degrau
desta degradação em que mergulho,
maior humilhação eu chupar pau.

Sujeito-me com náusea, com engulho,
ao paladar fecal e ao cheiro mau,
e, junto com a merda, engulo o orgulho.”

“SONETO DOS DESCUIDOS CHULOS

Palavras são palavras... Se Chicago
é nome de cidade, sem falar
de Boston, Praga, Mérida, não cago
se chamo um nome sério de vulgar...

Se Bulhões de Carvalho eu batizar
a rua dum puteiro, nada vago
será o sentido dado. Esse lugar
do Rio sempre teve o pato pago...

Quem manda haver num nome som sacana?
Um cara de Timor chama Xanana,
não chama? E o mafioso era Buscetta!

Depois querem que eu seja cuidadoso!
Ou não me chamarei Glauco Mattoso,
ou gafes nada impede que eu cometa!”

Rubem Fonseca e seu diário erótico-afetivo

Em Diário de um fescenino, o protagonista Rufus é um escritor que decide começar um diário no primeiro dia do ano.
 


O personagem registra suas aventuras amorosas com Henriette, Lúcia, Clorinda e Virna, ao mesmo tempo que reflete, com bom humor e fina erudição, sobre o fazer literário e o sentido das relações eróticas afetivas.

Não vou citar trechos. Comprem o livro e deliciem-se com o todo.

Erotismo confessional em tragicomédia de costumes

Principal dramaturgo do país e um dos melhores prosadores do século XX, o pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) conciliou aspectos aparentemente opostos: o erotismo exacerbado e o rigor moralista.
 


Rodrigues teve como principais referências o prosador português Eça de Queirós (1845-1900), o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906),  e o dramaturgo e contista russo Anton Tchékov (1860-1904).

Sua formação é quase toda voltada para a obra deixada por esta tríade.

Não vou citar trechos de sua obra. Toda ela, direta ou indiretamente, é indiretamente fescenina.

Bertolt Brecht (1898-1956)

Muitos dos autores aqui citados imaginaram o erotismo, mas tiveram vidas regradas e pouco licenciosas.

Bertolt Brecht, embora tenha sido militante comunista que seguiu à risca as cartilhas dogmáticas, era fogo em matéria de sexualidade. A qual deixou transparecer em parte significativa de sua grande poesia e dramaturgia.
 


Escreveu poesia e prosa erótica por diversão. Sua prosa erótica foi produzida nos EUA, como tentativa de ganhar dinheiro com romances populares.

Inspiração é o que não lhe faltava na época. Vivia numa mesma casa com quatro jovens assistentes amantes, a esposa Helene Weigel, e teve eventuais casos com pessoas dos dois sexos.

Sua poesia erótica é diletante, tanto que a excluiu de sua antologia poética.

“O USO DAS PALAVRAS OBSCENAS

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).”

(Tradução de Aires Graça)

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
 


“A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.”

Paulo Leminski (1944-1989)

 


“SOSSEGUE CORAÇÃO

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa”

Florbela Espanca (1894-1939)
 


“FRÊMITO

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e mel.
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te.

Olhos buscando os teus por toda parte,
Sede de beijos, amargos de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel.
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...”

Augusto dos Anjos (1884-1914)
 


“DEPOIS DA ORGIA

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia,
Às decomposições da natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!”

Mário Quintana (1906-1994)
 


“ME ENTREGO PARA VOCÊ

Me leva,
Por caminhos de amor e prazer
Se inflame na chama do meu corpo
Me sufoca
Me enrosca
De forma natural
Se entregue
Me pega
Me laça
Me abraça
Vem me induzir aos seus anseios
E aos meus desejos tão loucos
Que aos poucos vão nos consumindo
De tanto amor e prazer.
Eu quero o seu amor a qualquer preço
Quero que você me tenha por inteiro
Quero seus beijos ardentes
Tão doces...tão quentes...
E me embriagar no perfume do seu corpo
Para que possamos viajar
Nesse amor tão bonito.”

John Donne (1572-1631)

 


“ELEGIA: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atlanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.”

(Tradução: Augusto de Campos)

Manuel Bandeira (1886-1968)

“NU            

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
— Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos —

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Boio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...”

Pierre Louÿs (1870-1925)
(do Manual de civilidade destinado às meninas para uso nas escolas)
 


“Não diga: ‘Minha buceta’.
Diga: ‘Meu coração’.

Não diga: ‘Estou com vontade de foder’.
Diga: ‘Estou nervosa’.

Não diga: ‘Acabo de gozar como uma louca’.
Diga: ‘Sinto-me um pouco fatigada’.

Não diga: ‘Vou masturbar-me’.
Diga: ‘Vou voltar’.

Não diga: ‘Quando eu tiver pentelho no cu’.
Diga: ‘Quando eu for grande’.

Não diga: ‘Eu prefiro a língua ao pau’.
Diga: ‘Só gosto de prazeres delicados’.

Não diga: ‘Entre as refeições só bebo porra’.
Diga: ‘Sigo uma dieta especial’.

Não diga: ‘Tenho doze consolos em minha gaveta’.
Diga: ‘Nunca me entedio quando estou só’.

Não diga: ‘Os romances honestos me chateiam’.
Diga: ‘Eu gostaria de ter algo interessante para ler’.

Não diga: ‘Quando se lhe mostra uma pica, ela se zanga’.
Diga: ‘É uma original’.

Não diga: ‘É uma menina que se masturba até quase morrer’.
Diga: ‘É uma sentimental’.

Não diga: ‘É a maior puta da terra’.
Diga: ‘É a melhor menina do mundo’.

Não diga: ‘Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam’.
Diga: ‘Ela flerta um pouco’.

Não diga: ‘Ela é uma lésbica raivosa’.
Diga: ‘Ela não flerta de jeito nenhum’.

Não diga: ‘Eu a vi ser fodida pelos dois buracos’.
Diga: ‘É uma eclética’.

Não diga: ‘Ele dá três sem tirar da buceta’.
Diga: ‘Ele tem o caráter muito firme’.

Não diga: ‘Ele gozou em minha garganta e eu na dele’.
Diga: ‘Trocamos algumas impressões’.

Não diga: ‘Seu pau é demasiado grosso para minha boca’.
Diga: ‘Sinto-me bem pequena quando converso com ele’.

Não diga: ‘Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las’.
Diga: ‘É um simplório’.

Marquês de Sade (1740-1814)
(da Histoire de Juliette)

“Ó, meus amigos! eu lhes pergunto: um homem cheio de bondade plantaria em seu jardim uma árvore que fosse produzir frutos deliciosos, mas envenenados, e se contentaria em impedir seus filhos de comer deles, dizendo-lhes que morreriam se ousassem tocá-los? Se sabia que havia uma tal árvore em seu jardim, esse homem prudente e sábio não demonstraria ser mais atencioso derrubando-a, sobretudo sabendo bastante bem que, sem essa precaução, seus filhos não deixariam de perecer comendo de seu fruto, nem de arrastar sua posteridade à  miséria? Entretanto, Deus sabe que o homem vai pôr a perder a si e à sua raça se comer do fruto, e não apenas coloca nele o poder de ceder, mas leva a malícia ao ponto de lhe fazer seduzir. Ele sucumbe e está perdido; faz aquilo que Deus permite que faça, o que Deus o anima a fazer, e ei-lo eternamente infeliz. Não há nada no mundo mais absurdo e cruel! Sem dúvida, e eu repito, não pegaria da pena para combater um tal absurdo se o dogma do inferno, de que desejo aniquilar a vossos olhos o mais ligeiro traço, não fosse sua horrenda consequência.”

(Tradução de Dirceu Villa)

Arquíloco (teria vivido de 680 a 645 a.C.)

“Voraz tesão, mofino, arfante, inclina-me
 Na areia as moles carnes, e mais nada:
 Pois a ossatura já moeram os deuses na porrada.”

(Tradução de Antonio Medina Rodrigues)

Safo (teria nascido em 641 a.C.)
 


“Igual a um deus esse homem me parece,
O que sentado está, defronte a ti,
E a voz te ouvindo, nela se entorpece,
E tal por ti,

Pela visão de um riso aos lábios teus,
Meu peito se consome, e a teu olhar,
Que finge vir-me, a voz e o verbo meu
Sinto que somem.

E se me parte a língua, e em tez e pele
Espalha-se um tremor por mil sentidos,
Embaçam-me as pupilas, e um zumbir
Me implode ouvidos,

Um suor o seio e púbis me percorre,
E presa eu sou da angústia, e em mais palor
Me pinto que uma ervilha, e morte ocorre
Em mim ansiada.

Mas tudo, ó Agálida, se irá tentar.”

(Tradução de Antonio Medina Rodrigues)

Marcial (teria nascido entre 38 e 40 d.C.)
(Epigramas)

“Livro III, 51

Quando cubro de elogios
tuas pernas, tuas mãos,
“Nua agrado mais", Galla,
você me diz então.

Mas um banho, nós dois,
está fora dos seus planos.
Acaso, Galla, o medo é
me ver sem estes panos?”
    
“Livro IX, 69

Quando fode, Polycarmo costuma cagar.
quando é fodido, o que Polycarmo fará?”
    
“Livro XII, 86

Trinta garotos e mais tantas garotas tens pra ti:
e tens um só pau que não está nem aí.”

(Tradução Dirceu Villa)

Petrônio (27 a 66 d.C.)
(do Satyricon)

    “Ofendido com minha perfídia, o garoto fechou a cara pra mim. Mas dali a dias, voltei a atacar. De novo, o acaso voltou a nos favorecer, ouvi que o pai roncava, e comecei a implorar ao garoto que fizesse as pazes comigo, vale dizer, me deixasse voltar às delícias de antes. Gastei, nisso, toda a lábia que o desejo costuma ditar.
    Ele, no entanto, furioso, só sabia dizer:
    —      Volte a dormir, senão eu conto pro meu pai.
    Nada é tão difícil que a teimosia não consiga atingir. Ele dizia "vou acordar meu pai", e eu já estava em cima dele, agarrando-o à força e satisfazendo meu tesão. Não resistiu muito. Não parecia aborrecido com minha violência. Disse que tinha sido objeto da zombaria dos colegas da escola, por causa da minha avareza.
    —      Mas eu não sou avarento com você. Pode me comer de novo, se quiser.
    Eu, feitas as pazes, fiz com o garoto o que o meu desejo queria, e caí no sono. Mas o garoto, com toda sua disposição juvenil, queria levar mais.
    Me despertou de repente:
    —      Não quer mais?
    Eu ainda tinha um restinho de tesão, fiz o melhor que pude, e, suando e resfolegando, consegui satisfazê-lo mais uma vez. Exausto, voltei a dormir, cansado de tanto gozar. Dormi só um pouquinho, ele me cutucou:
    —      Vamos transar de novo.
    Acordando furioso, devolvi sua ameaça:
   — Ou você dorme, ou eu conto tudo pro seu pai.”

(Tradução de Paulo Leminski)

Francesco Colonna (1433-1527)
(do Hypnerotomachia Poliphili)

"Agora prove este beijo apaixonado," (aqui ele me abraçou de modo virginal) como prova do meu coração em flamas, concebido pelo meu amor excessivo. E assim que nos abraçamos fortemente, minha pequena e redonda boca púrpura misturou sua umidade com a umidade da dele, saboreando, sugando, e aplicando doces mordidas enquanto nossas línguas se entrelaçavam, após eu tê-lo abraçado como um pólipo".

(Tradução de Dirceu Villa)
    
Pietro Aretino (1492-1556)
(dos Sonetos luxuriosos)
 

“Gentis espectadores que admirais
Esta que em cona e cu pode saciar-se,
Em mil modos de foder deleitar-se
E a seu modo gozar na frente e atrás.

Os três contentes, certo, bem estais.
Por minha fé que escassos de encontrar-se
São o gosto, o gozar, o deleitar-se.
Eis que os três a um só tempo desfrutais.

Podes os três a um tempo comprazer,
Dama gentil. Será coisa excelente,
Gostosa e delicada. É só querer.

Tola não te achará a sábia gente
De a dois amantes dar igual prazer,
Um por detrás e o outro pela frente.

É coisa inteligente
Ao mesmo tempo três serem servidos,
Eles e tu, em ambos os sentidos.”
    
(Tradução de José Paulo Paes)

Giacomo Casanova (1725-1798)
(de Aventura da religiosa de Aix-en-Savoie)
 


    “Tirou a touca e deixou cair a cabeleira; desatei-lhe o corpinho, e, num piscar dolhos, tive diante dos meus uma dessas sereias como se veem nos mais belos quadros de Corregio. Não pude contemplá-la por mais tempo sem a cobrir com meus ardentes beijos, e, comunicando-lhe desse modo meu ardor, vi-a prontamente chamar-me para junto de si. Senti que não era o momento de refletir, que a natureza  falava e que o amor exigia que eu agisse no instante de tão doce fraqueza. Precipitei-me sobre ela, e, os lábios colados à sua boca, apertei-a em meus braços amorosos, preludiando assim a suprema felicidade.
    Mas, no meio de meus ardentes preparativos, ela tombou a cabeça, cerrou as belas pálpebras e adormeceu. Afastei-me um pouco, afim de melhor poder contemplar os admiráveis tesouros que o amor punha à minha disposição. A divina freira dormia: não podia aproveitar-me do sono; mas mesmo que estivesse apenas fingindo, podia eu, mau grado, saber que era astúcia de sua parte? Não, certamente; pois verdadeiro ou fingido, o sono de uma mulher que se adora deve ser respeitado por um amante delicado, sem todavia se privar dos gozos que ele permite. Se o sono é verdadeiro, não corre nenhum perigo; se é apenas simulado, é responsável pelos desejos que o inflamam. É perigo somente medir suas carícias de maneira a assegurar que são doces  ao objeto. M. M., porém, dormia realmente; o clarete havia entorpecido seus sentidos, e ela cedera à ação sem segunda intenção. Enquanto a contemplava, percebi que sonhava; seus lábios articulavam palavras incompreensíveis, mas a volúpia que se desenhava em sua fisionomia radiosa fez adivinhar o motivo de seu sonho. Despi-me e em dois minutos encontrei-me colado ao seu belo corpo, sem saber muito bem se imitaria seu sono, ou se tentaria despertá-la para tentar o desfecho de um drama que me parecia não poder mais adiar.
    Não fiquei por muito tempo na incerteza, pois os movimentos instintivos que ela fez assim que sentiu junto ao santuário do amor o ministro que devia concluir o sacrifício, me convencera de que acompanhava seu sonho, e que eu só a podia tornar feliz transformando-o em realidade. Desviando docemente os obstáculos e acompanhando os movimentos que minhas carícias imprimiam ao seu belo corpo, levei a cabo o doce furto; e quando, no fim, não podendo mais me governar, abandonei-me com todas as forças do sentimento, ela acordou com um suspiro de felicidade, dizendo:
    —      Ah! Deus! então é verdade!
    —      Sim, deliciosa verdade. Sentes-te feliz, meu anjo?”

(Tradução de Álvaro Gonçalves)

Voltaire (1694-1778)
(de Cândido ou o otimismo)
 


    “Um dia, Cunegundes, passeando perto do castelo, num pequeno bosque a que chamavam parque, viu entre os arbustos o doutor Pangloss, que dava uma lição de física experimental à aia de sua mãe, pequena morena bem alegre e bem dócil. Como a senhorita Cunegundes tinha bastante disposição para as ciências, ela observou, sem fôlego, as experiências reiteradas de que foi testemunha; viu claramente a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e retornou toda agitada, toda pensativa, toda repleta do desejo de ser douta, sonhando que ela bem podia ser a razão suficiente do jovem Cândido, que podia, por sua vez, ser a sua.
    Voltando ao castelo, encontrou Cândido e enrubesceu; Cândido enrubesceu também; ela lhe disse "bom-dia" com uma voz conturbada, e Cândido lhe falou sem saber o que dizia. No dia seguinte, ao deixarem a mesa após o jantar, Cunegundes e Cândido se encontraram atrás de um biombo; Cunegundes deixou cair seu lenço, Cândido o apanhou; ela inocentemente apertou sua mão; o rapaz beijou inocentemente a mão da jovem senhorita com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda particular; suas bocas se encontraram, seus olhos se inflamaram, seus joelhos tremeram, suas mãos vaguearam. O senhor barão de Thunder-ten-tronckh passou perto do biombo, e, vendo esta causa e aquele efeito, expulsou Cândido do castelo com belos chutes no traseiro; Cunegundes desmaiou: levou umas bofetadas de madame baronesa assim que voltou a si; e todos ficaram consternados no mais belo e mais agradável dos castelos possíveis.”

(Tradução de Dirceu Villa)

Bocage (1765-1805)
(dos Sonetos)
 


“SONETO VI

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milões de vezes putas têm reinado.

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
 
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.”

“SONETO XIII

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro, tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhe agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.”

Oscar Wilde (1854-1900)
(de Salomé)
 


    “Salomé — Ah! não permitirias que eu beijasse tua boca, Iokanaan. Bem, eu vou beijá-la agora. Eu vou mordê-la com meus dentes como se morde uma fruta fresca. Sim, eu vou beijar tua boca, Iokanaan. Foi o que eu disse; não foi? Foi o que eu disse. Ah! eu vou beijá-la agora... Mas por que não olhas para mim, Iokanaan? Teus olhos que eram tão terríveis, tão cheios de raiva e desprezo, estão fechados agora. Por que estão fechados? Abre teus olhos! Ergue tuas pálpebras, Iokanaan! Por que não olhas para mim? Tens tanto medo, Iokanaan, que não olharás para mim?... E tua língua, que era como uma cobra vermelha espalhando veneno, já não se move, não diz uma palavra, Iokanaan, aquela víbora escarlate que cuspia seu veneno sobre mim. É estranho, não achas? Como pode a víbora rubra não mais se mexer?... Nada querias comigo, Iokanaan. Me rejeitaste. Disseste palavras más contra mim. Punha-te diante de mim como se diante de uma puta, como se diante de uma vadia; eu, Salomé, filha de Herodias, princesa da Judeia! Bom, ainda estou viva, mas tu estás morto, e tua cabeça me pertence. Posso fazer com ela o que quiser. Posso jogá-la aos cães e aos pássaros do ar. O que os cães deixarem os pássaros do ar devoram... Ah, Iokanaan, Iokanaan, foste o único a quem amei entre os homens! Todos os outros me eram odiosos. Mas tu eras belo! Teu corpo era uma coluna de marfim posta sobre pés de prata. Era um jardim  cheio de pombas e lírios de prata. Era uma torre de prata adornada com anteparos de marfim. Nada havia no mundo de tão branco quanto teu corpo. Nada havia no mundo de tão negro quanto teus cabelos. No mundo todo nada havia de tão vermelho quanto tua boca. Tua voz era um incensário que esparzia estranhos perfumes, e quando olhava para ti eu ouvia uma estranha música. Ah! Por que não olhaste para mim, Iokanaan? Com o manto das tuas mãos, e com o manto das tuas blasfêmias, escondeste teu rosto. Puseste sobre teus olhos o velame daquele que via seu Deus. Bem, tu viste teu Deus, Iokanaan, mas a mim, a mim nunca viste. Se me tivesses visto, tu me amarias. Eu te vi e te amei. Oh, como te amei! Eu te amo ainda, Iokanaan. Amo apenas a ti... eu tenho sede da tua beleza; eu tenho fome do teu corpo; e nem vinho nem maçãs podem aplacar o meu desejo. O que devo fazer agora, Iokanaan? Nem as cheias nem as grandes águas podem saciar minha paixão. Eu era uma princesa, e me desprezaste. Era uma virgem, e não quiseste tomar de mim a minha virgindade. Era casta, e encheste minhas veias de fogo... Ah! ah! por que não olhaste para mim? Se me tivesses olhado, tu me amarias.  Sei bem que me terias amado, e o mistério do Amor é maior do que o mistério da Morte (...)
    Ah! Beijei tua boca, Iokanaan, Beijei tua boca. Havia um sabor amargo nos teus lábios. Seria o sabor de sangue?...Não; mas talvez fosse o sabor do amor... Dizem que o amor tem um sabor amargo... Mas o que importa? o que importa? Beijei tua boca, Iokanaan, beijei tua boca.”

(Tradução de Dirceu Villa)

Guillaume Apollinaire (1880-1918)


 


“POEMA PARA LOU”

Minha querida Lou eu te amo
Minha cara estrelinha palpitante eu te amo
Corpo deliciosamente elástico eu te amo
Vulva que aperta como um quebra-nozes eu te amo
Seio esquerdo tão rosa e tão insolente eu te amo
Seio direito tão suavemente rosado eu te amo
Mamilo esquerdo como o ressalto na testa dum veadinho que nasce eu te amo
Mamilos feitos ninfas pelos contatos eu os amo
Nádegas lindamente ágeis que se empurram bem para trás eu as amo
Umbigo como uma lua vazia na sombra eu te amo
Tosão claro como uma floresta no inverno eu te amo
Axilas penugentas como um cisne ao vir ao mundo eu as amo
Caída de ombros tão pura eu te amo
Coxas de contorno estético como colunas de templo antigo eu as amo
Orelhas orladas com pequenas joias mexicanas eu as amo
Pés sábios pés que se retesam eu os amo
Rins cavalgadores rins potentes eu os amo
Busto que nunca usou espartilho busto flexível eu te amo
Costas maravilhosamente feitas e que se curvam para mim eu as amo
Boca ó minha delícia meu néctar eu te amo
Olhar único olhar-estrela eu te amo
Mãos de que adoro o movimento eu as amo
Nariz singularmente aristocrático eu te amo
Andar onduloso e dançante eu te amo
Ó pequena Lou te amo te amo te amo”

(Tradução de Paulo Hecker Filho)
    
Jean Cocteau (1889-1963)
 


“DE SÓCRATES

O que distingue essa tumba
Das outras, dito de passagem,
É que aqui não vêm as pombas,
Mas dois cordeiros da pastagem.

Visitadora, não vos vexe
Esta sábia vítima dos tolos:
Foi a graça do vosso sexo
Que ele amou nos garotos.”

(Tradução de Dirceu Villa)
    
Oswald de Andrade (1890-1954)
(de Serafim Ponte Grande)
 


“PROPICIAÇÃO

Eu fui o maior onanista de meu tempo
Todas as mulheres
Dormiram em minha cama
Principalmente cozinheira
E cançonetista inglesa
Hoje cresci
As mulheres fugiram
Mas tu vieste
Trazendo-me todas no teu corpo”
    
Anaïs Nin (1903-1977)
(do conto A casa do incesto)
 


    “Não existe troça entre as mulheres. Cada uma se deita em paz como se no próprio peito.
    Vem comigo, Sabina, vem para a minha ilha. Vem para a minha ilha de pimentões que crepitam em lentos braseiros, de potes de cerâmica mourisca guardando a água dourada, de palmeiras, de gatos bravos em luta, de um burro que soluça na alvorada, os pés entre os recifes de coral e anêmonas-marinhas, o corpo coberto de algas longas, cabeleira de Melisande sobre o varandim da Opéra Comique, diamante inexorável de luz do dia, horas pesadas e flácidas nas sombras-violeta, rochas cor de cinza e oliveiras, limoeiros de limões suspensos como lampiões num garden party, rebentos de bambu em constante vibração, som macio das alpargatas, romãs explodindo sangue, o canto-flauta mouro, longo e persistente dos homens que lavram a terra, trinando, blasfemando, louvando e injuriando, lançando na terra o suor e as sementes.
    A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável.”

(Tradução de Isabel Hub Faria)

Allen Ginsberg (1926-1997)

(do livro A queda da América)
 


“DEPOIS DO ATO

Quando ele beijou meu mamilo
senti arrepio no cotovelo —
Quando lábios tocaram meu ventre
cócega chegou até a orelha

Quando tomou a cabeça do meu pau para lamber
um tremor contraiu esfíncter, júbilo
estremeceu minhas veias
Respirei fundo suspirando ahh!

Me espelholhando, penteando
barba grisalha luzídia
Eu considerado olhar penetrante
 atraente pros jovens?
Mágica má ou coisa assim —
Mágica besta provavelmente.”

(Tradução de Paulo Henriques Britto)    

Hilda Hilst (1930-2004)

(do livro Contos D'Escárnio)
 



    “Eu já havia completado dezoito anos, mas sempre fui muito tímido, talvez por causa do nome, talvez por causa do nome, talvez por causa do jeito que papai morreu. Todo quando me via dizia: lá vai o Crasso, filho daquela crassa putaria. Eu ficava com os olhos úmidos mas logo em seguida, apesar da minha timidez, mostrava o pau.

    Otávia tinha pelos de mel.
    A primeira vez que me beijou a caceta
    Entendi que jamais seria anacoreta
    Não me beijou com a boca
   Me beijou com a boceta.

    Dessa Otávia me lembro agora. E já nem sei se devo continuar a minha história aí de cima. Otávia é um nome muito bonito. Um nome-mulherão. Ah, tudo que eu fiz com e por Otávia. Ela tinha trinta anos e todas as sugestões que o nome carrega: altivez, um pouco de fúria, cabelos negros, olhos grandes, escuros, e dizer Otávia na hora do gozo é como gozar com mulher e ao mesmo tempo com general romano, com rapagão e com Otávia inteira mulher de general. Gosto muito de mulheres grandalhonas e peitudas, como papai gostava, e belas e consistentes mãos que saibam acolher um caralho.
    Na minha primeira bandalheira a mãozinha fofa e curta de Lina foi insuficiente. Tive que sobrepor a minha mão à sua porque a cadelinha além de dizer que nunca havia visto uma pica também se recusava a ver. Virava a loira cabeça para o lado e fazia cara de nojo. Era uma poetisa lá da minha terra. Rimava balões com sultões, meio metidinha a sebo, magra mas com umas tetas de gente grande. Como aquela punheta a quatro mãos não dava certo, espremi minha cara entre os dois suculentos melões e fui metendo desengonçado e suarento. Ela não dava um pio. Nem suspirava nem gemia.
   Assim que esporrei quis ver a cara de Lina. Estava de olhos abertos olhando o teto. Quero dizer o céu, porque foi no campo essa insossa trepada. Ao lado de uma amoreira. Não fiquei embaixo da amoreira de medo que aquelas frutinhas despencassem e se esborrachassem nas minhas nádegas. Sempre me impressionei com a cor vermelha.

    foi bom pra você, Lina?
    doeu.
    só isso?

    Aí veio a surpresa. A Lina magricela poetisa e peituda desabotoou uma linguagem digna de estivador:

    puta que pariu, caralho, eu era uma donzela seu bastardo escroto!”

Aderval Borges (nascido em 1955)

(do livro de poemas Amarte)

“CARA-CUCA E DORABUNDA

Cara-cuca ficou solteiro
Dorabunda deu-lhe no rabo
chute de impacto, certeiro
sem rimar beira com eira

ele, um chato-boy grosseiro
a outra, primava pelo traseiro
dariam-se bem a vida inteira
não fossem tão interesseiros

ele gabava de ser poeta
ela só queria estar certa
de que o prazer é verdadeiro
se pleno em plano primeiro

Cara-cuca, desrabado
sem o anteparo de Dorabunda
quis encontrar outros rabos
em que pudesse ir a fundo

Dorabunda, num só segundo
achou profundos entrudos
deitou-se com gaiatos tantos
que se sentiu em destrato

também se encheu Cara-cuca
enfadou-se de bundas dadas
de tanto tê-las comido
acabou-se em comida dado

um entrudo de pica dura
fez-lhe das pregas frangalhos
e o outrora enrabador
viu-se feliz enrabado

veja a sina doidivana:
Dorabunda agora cansada
do dentre-mexe nas nádegas
encontra-se bem mudada

comprou tradução augusta
da serpente do Valéry
e sem qualquer alusão ao sexo
quer somente se sentir

Cara-cuca, pelo contrário
despiu-se do velho intelecto
co’o quadril arreganhado
vive se dando e sendo dado

assim se encerra esta farsa
de moral abnegada:
termina a bunda na cuca
a cuca no rés da cara” 


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