terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Arif (conto)



sim arif para quem reluz a vida
não fira quem das trevas se serve
sim arif para quem virtude é tudo
não fira quem se compraz a cumprir
sim arif para quem a causa é justa
não fira quem com lastros se ilustra
sim arif para quem quer se superar
não fira quem vê valor em louvar

            Naquela noite Ali Sabah chegou tarde, acordou uma por uma de suas mulheres e falou a respeito de uma corrida de cavalos que assistira na América. O golpe do nevoeiro. Contou detalhes de como os malandros o aplicavam. Uma imensa nuvem de poeira levantava-se após a passagem dos animais. O vento a soprava na direção do público, que não conseguia ver por algum tempo o que estava se passando em uma parte da pista. Enquanto isso, um dos jóqueis se escondia na nuvem de pó. Quando os demais passavam, saía à frente e vencia a corrida.
Disse às suas mulheres que nessa viagem estivera em cassinos, boates, desfiles de moda e vários outros ambientes expressamente proibidos aos membros do governo saudita. Não era a primeira vez que viajara ao Ocidente. Quando jovem passou longo período em Londres como estudante. Mas as lembranças da estadia na capital inglesa estiveram limitadas às salas de aula, à extensa avenida arborizada que podia ver das janelas do apartamento e às frequentes visitas à mesquita. Formado em direito internacional e ciências econômicas, retornou à Arábia, onde o indicaram para um alto cargo no Ministério do Petróleo, sob o comando do sheik Ahmed Zaki Yamani.
Foi quando surgiu a oportunidade de viajar para a América. Yamani achou que deveria conhecer o centro financeiro do planeta para ganhar experiência. A essa altura, Ali Sabah já se encontrava em conflito com os homens do clero e jurou consigo mesmo que não acataria a certas determinações. Aqueles que vencem a própria avareza são os vitoriosos. Cavalos, jogos, prostituição e frivolidades à parte, tudo isso tivera mínima influência sobre a crise de consciência nele latente. Nunca se sentiu tentado por nada daquilo. Apenas queria ver de perto como era esse outro mundo. Tão logo retornou à Arábia, os religiosos o chamaram a Tã’f e o repreenderam severamente. Obedecei ao Mensageiro, pois Ele não ama os descrentes. Sua reação foi pedir afastamento do ministério, a fim de se manter em silêncio até que dele se esquecessem.
Após ter contado a suas mulheres outros detalhes pitorescos sobre a viagem à América, disse que narraria fatos perdidos no tempo e com evidências pouco comprováveis. Mas que tais episódios, referentes a uma época em que as tribos semitas ainda não haviam se dividido e nem era possível imaginar que um dia surgiria o Profeta, eram sobremaneira elucidativos sobre o momento presente. Que tivessem, portanto, a tolerância de ouvi-lo.
Consta que foram estas suas palavras...
            Nuvens negras cobrem a abóbada celestial de Artz. É a estação do porvir. Terremotos remexem adormecidos nos intestinos do continente. Filhotes de furacões rodopiam velozes. Trombetas cigarreiam incessantes para anunciar a chegada de El Enon, o ARETE DA MASCULINIDADE, aquele que após as batalhas redime o peso das armas com a leveza das mais belas. Os portões de Artz rangem ao serem abertos para revelar à multidão a soberba de El Enon e seu vitorioso exército. No céu o demônio sorri mordaz.
Tropas alinham-se diante do templo, onde não são recebidas pelos galhardetes branco esperma conforme reza a tradição. Para surpresa do GRANDE COMANDANTE, do alto do templo é desfraldado o feminino estandarte vermelho amarelado. A multidão se aproxima cabisbaixa. El Enon fá-la afastar-se com gestos de repulsa. Suas esporas trinem nos degraus por onde sobe imponente. Os trajes de combate cintilam projetados na grande porta esculpida em ílax.
            No auge da civilização o templo fora conhecido como o UMBIGO DO ESTADO ou, ainda, o OLHO DO UNIVERSO. Tudo agora parece mudado. As frestas encontram-se vedadas à luz solar. Por dentro predominam as cores em tons cinza de Tanit, a IMPIEDOSA. Oficiais inclinam-se diante do altar, mas El Enon ordena que não façam qualquer mesura. Sacerdotes deixam os altares e aproximam-se cautelosos. O prédio se estremece com a voz do GRANDE COMANDANTE:
            – Quem foram os responsáveis pela nova ordem?
            Os sacerdotes mantêm-se calados. El Enon os olha com espanto. São homens de estirpe superior, mas naquele momento mais parecem desprezíveis lacaios. Ironiza:
            – Não fazem mais uso de vossas línguas, sacerdotes de Artz?
            O mais venerável dentre eles se aproxima:
            – Não tivemos a intenção de ofendê-lo, muito menos contestar vossa suserania.
            – Quem ousou tapar as frestas, expondo o interior do templo às cores inferiores?
            – A rainha, senhor.
            O sacerdote subitamente se curva para beijar seus pés, mas El Enon não permite. Afasta-se de costas para o altar, em explícita afronta à nova ordem. Um criado vem avisá-lo que, conforme o costume, doze virgens o aguardam na banheira real. Dizem os mercadores que as essências aromáticas de Artz são as melhores em toda a Terra. Odor incomparável exala-se de onde agora as ninfas se assanham. Quando encurraladas, mergulham na espuma e escapam ao seu domínio. El Enon solta estrondosas gargalhadas cada vez que uma delas foge escorregadia.
Seu membro arfa intumescido. Finalmente prende uma delas entre as pernas e a levanta pelos cabelos. É uma mocinha muito branca e magra. Choraminga apavorada, de olhos fixos no imenso falo ereto. As demais vibram enquanto El Enon a prende à borda da banheira e a possui ofegante. Seus gemidos de prazer são ouvidos por todo o palácio. As demais ninfas urram em uníssono para glorificar o êxtase do senhor e se solidarizar com o sofrimento da companheira.
            Seguido ao coito, seis ninfas enxugam os suores de El Enon com toalhas aromatizadas e massageiam sua pele com cremes revigorantes. As demais ninfas cuidam dos ferimentos daquela que foi por ele possuída e, doravante, terá a honra de ser uma de suas serviçais. No dia em que o GRANDE COMANDANTE for para sua morada pós-vida, será honrosamente sacrificada para lhe servir de companhia por toda eternidade. Um mensageiro pede licença para entregar uma mensagem da rainha. Esta quer um encontro urgente no próprio templo por ela profanado. Quanta petulância! Antes da Guerra de Polopoloque, o templo não era acessível às mulheres. Nos cultos era máxima a exaltação aos homens.
            É nesse mesmo templo que rei e rainha agora se encontram frente a frente.
El Enon:
            – Soube que foste responsável pelas mudanças...
            – Durante tua ausência decidi dar poder à deusa das trevas.
            – Para nos remeter à barbárie?!
            – Insistes em chamar de barbárie à verdadeira fé. Quis tão só libertar Nyx e Érebo para que Tanit possa ser celebrada por todo o povo.
            – À merda com tua deusa negra! Minha preocupação é com Artz. Pensa que não sei o quanto foi ridícula a guerra contra os aiztains? Meti-me nesse combate inútil apenas para nos fazer crer que ainda somos os melhores. Todo esse tempo nas planícies em perseguição àqueles pastores idiotas serviu apenas para estimular nossas tropas. Nossos homens precisavam de ação, pois há muito nossas lanças não eram manchadas com o sangue inimigo.
            – Nem por isso podes impedir nossa fé.
            – Posso sim! Posso mudar o destino de todos, inclusive o teu. Que se dane o curso natural das coisas. O que importa é a sobrevivência de Artz.
            – Foi por isso que te traí. Na escuridão de Tanit somente os deuses devem decidir.
El Enon a observa. Mulher alguma deveria interferir nos cultos. No entanto ali está ela, a própria rainha, uma criatura franzina, apática, quase sem carne, contrariando a legitimidade instituída. Bem que sua mãe o avisara para não desposar uma mulher mais velha e tão magra. Aleb o advertira que aos homens cabe erguer civilizações, mas que certas mulheres podem destruí-las num piscar de olhos.
Tradicionalmente celebrado nas festas da dessacralização do vinho, o Eleutério prenuncia a abertura de um novo ciclo. Ao comemorar sua alegria fez-se a era da masculinidade, durante a qual os artzianos, abdicando-se de uma vida sedentária, dominaram os povos do Médio Oriente. Mas muito antes disso foram as mulheres que governaram Artz. Os homens de antão eram obedientes guerreiros e nas noites escuras testemunhavam passivamente suas mulheres saírem pelos bosques para render culto a Tanit.
Os códigos da escrita estavam estritos a um pequeno grupo de desocupados que vivia da caridade pública. Poucos homens tinham os dons das letras. Nelos foi o primeiro escrevinhador a se introduzir nos cultos a Tanit. Seus conhecimentos seduziram a GRÃ-SACERDOTISA da época e ela própria autorizou que as frestas solares incidissem sobre o antro de escuridão. Para as adoradoras de Tanit, era preciso governar a luz solar para que seu poder ocasional não incidisse sobre o curso natural das coisas. Mas Nelos despiu a escuridão de Tanit, fê-la clara e em poucas décadas seus domínios escuros foram anulados pela incidência incandescente de luz.
Tendo como suporte a popularização da escrita, surgiu então o Estado guerreiro e expansionista que tornou os artzianos o povo mais poderoso do Médio Oriente. O mesmo Estado que agora passa por uma de suas piores crises. Sem fronteiras para onde se expandir, o vigor solar tem perdido nitidez e nem o brilho dos tesouros acumulados pôde conter a ressurreição de Tanit.
As baixas da ofensiva contra os itinerantes aiztain ocorreram mais em virtude da natureza inóspita nas planícies do que pela real resistência dos pastores. Apesar de ter retornado vitorioso, El Enon encontra Artz cada vez mais avessa à soberba masculina. O encontro com a rainha em pleno templo é prova disso. Os olhos de El Enon percorrem detalhes das colunas majestosas talhadas em granito. Cada contorno foi esculpido por mãos masculinas. Estranho contraste entre a obra magnânima e aquela pequena mulher aparentemente frágil que caminha na direção do altar ostentando a indisfarçável cobiça pelo poder.
            El Enon fica possesso. Grita palavrões e faz com que sua voz ecoe de canto a canto do templo. Só interrompe a gritaria quando ouve um aedo satirizar a Guerra de Polopoloque. Sua cantoria vem dos jardins externos. Um pequeno público ri às gargalhadas a cada estrofe jocosa. El Enon corre aos jardins e diante do público estupefato esmigalha a cabeça do cantor contra uma pilastra de granito.
            O SOL INVICTO, aquele que nasceu para contemporizar os ideais de um grande povo, está sem prisma. Após ter assassinado barbaramente um cidadão da polis, retorna ao templo e espanca sem clemência a pequenina rainha. Mas esta não se intimida e grita, para que todos a ouçam, que já não o idolatra, que está farta de se submeter a seu comando doentio, que quer exercer sua própria suserania e conceder ao povo o negror conceptivo de Tanit. A cada frase, El Enon nela defere bofetadas mais e mais violentas. Com o rosto desfigurado, sangrando pela boca e pelas narinas, Elaine ainda consegue murmurar:
            – Co... var... de!
            Até a guerra contra os aizteins, a rainha fora o centro das atenções para El Enon. Nem mesmo os filhos dividiam com ela seu afeto. Muito diferente do que ocorrera com Liana, a primeira rainha que morrera à míngua, abandonada durante o parto dos gêmeos. Comenta-se que após a morte de Liana o GRANDE COMANDANTE nem amargou viuvez. O IMPETUOSO teria se servido de Aleb, sua própria mãe.
            Elaine também lhe deu outro casal de gêmeos, com a diferença de que não foi por ele rejeitada e nem sucumbiu ao parto. Ocorre que um amor vibrante translada em ódio de igual magnitude. Após a ter esmurrado, El Enon sente o peso de morsa do remorso. Toma crateras de vinho, uma após a outra, até cambalear e desfalecer-se ao lado da rainha mutilada.
            A rainha é quem primeiro se recupera. Depara-se com El Enon inerte sobre o piso do templo, ainda alcoolizado. Mal consegue deter o impulso de apunhalá-lo. Porém decide protelar a vingança, a fim de propiciar maior sofrimento àquele amontoado de músculos. Enquanto o GRANDE COMANDANTE ronca em sono profundo, a rainha conclama os sacerdotes a preparar o templo para uma grande celebração, com todos os sacrifícios necessários para aplacar a fúria primordial.
Horas depois, o soberano desperta em meio ao templo lotado por fiéis. Todos se encontram concentrados nas reverências à deusa negra, tendo à frente, no púlpito, a GRÃ-SACERDOTISA mascarada a conduzir a cerimônia. Ao perceber que El Enon acaba de se restabelecer, a MESTRA MALSÃ ordena às servas que tragam duas crianças encapuzadas. Fiéis cambaleiam dopados pelo incenso de aquilária. Ela abre os braços para mostrar a meia-lua brilhante em suas vestes cinza. Sob ruídos de guizos, toda a gente se inclina para saudá-la.  O calor é intenso. Escorre suor por suas vestes, fazendo reluzir as malhas douradas do peitoril.
Rumores se intensificam quando as duas crianças são levadas à borda do caldeirão de fervura. O público vibra entusiasmado. Repiques de tambores somam-se ao trinir dos guizos. A GRÃ-SACERDOTISA autoriza a entrada do oráculo e questiona-o a respeito do futuro próximo. Este faz previsões que a desagradam. Irritada, ela ordena às servas que o oráculo seja atirado ao caldeirão. Os gritos do infeliz são prontamente abafados pelo esturricar do seu corpo no metal líquido.
            Com gestos precisos e rápidos, a GRÃ-SACERDOTISA tira os capuzes das crianças e também as empurra para dentro do caldeirão. Do lado oposto do templo, El Enon parte em doida correria escadarias abaixo, derrubando todos que o interceptam no trajeto. Diante do caldeirão de fervura confirma o que suspeitara ter visto: entre bolhas pululantes as cabecinhas de seus dois filhos submergem ao poderoso engenho de destruição.
            El Enon abandona o templo aos berros, estrangulado pela dor. Acompanham-no dezenas de guardas da segurança real. Os soldados, também narcotizados pela fumaça de incenso, causam grande tumulto ao se retirar, provocando pânico entre os fiéis. Dezenas de pessoas despencam para dentro do caldeirão, outras morrem pisoteadas. Um guarda real tenta acalmar El Enon no jardim do templo. O soberano toma-lhe o faim, degola-o sem clemência e depois golpeia o próprio ventre várias vezes.
Quando outros guardas chegam, encontram o companheiro morto e El Enon agonizando entre fezes e sangue. O acesso ao local é vedado. Espalha-se de imediato o boato de que o GRANDE COMANDANTE acaba de ser assassinado. Como manada de bovinos ante a tempestade, o povo aglomera-se em histérica ansiedade. A versão mais cogitada é de que o PRIMOROSO fora vítima de um atentado aiztain.
            Populares propagam detalhes fantasiosos sobre como os assassinos teriam invadido a cidade para pôr fim à vida do SUPREMO. Outras versões são difundidas. Oposicionistas dizem que se trata de um blefe, que El Enon nada teria sofrido e que os boatos foram mera artimanha para chamar a atenção do povo contra as celebrações a Tanit. Finalmente um emissário vem a público com a versão oficial:
            – O valoroso El Enon e os igualmente valorosos príncipes Saintz e Iczacs estão mortos, vítimas de aiztains infiltrados na multidão. Tão logo praticaram o crime, os criminosos se evadiram levando a rainha como refém. Asseguramos que a Guarda Real haverá de libertá-la em breve, para que venha ocupar o trono que lhe é de direito.
            São decretados magníficos festejos por três dias e três noites em memória do suserano morto. Jogos fúnebres dos tempos remotos são autorizados em seu louvor. Os festejos prosseguirão até a data da cremação, quando será instituído luto por todo o reino até que a rainha cativa seja libertada.  As cinzas do GRANDE COMANDANTE serão jogadas em água corrente. Só então os artzianos poderão se desfazer de suas alegorias e entrar em profundo estado de prostração, em um período no qual nem os chantageados deverão ter ânimo de erguer suas armas contra seus detratores.
            Os olhos da ficção avançam acima dos espasmos da realidade. Fixam-se num sítio distante, onde próceres entoam glosas de dez décimas e o astro soberano infiltra apenas parte de seus raios sobre o horto ao alvorecer. Sob sombras de árvores dos tempos diluvianos, distingue-se um casebre ermo em meio à floresta onde Elaine, a rainha que se supõe cativa, e o ex-sacerdote El Íxito entrelaçam amiúdes carícias.
            Quem não se lembra dele? Há anos El Íxito substituíra El Enon nas celebrações ao Eleutério. Era, então, o nobre sacerdote mais próximo ao SUPREMO. Tanto que El Enon, ao voltar a contrair núpcias, fez questão que El Íxito fosse o primeiro a se deitar com Elaine, a nova rainha. Ao possuí-la, o sacerdote estaria copulando simbolicamente todas as fêmeas artzianas. Ocorreu que Elaine se deu a ele não apenas por motivações religiosas. Também se abriu ao homem que havia no sacerdote.
            Durante a Guerra de Polopoloque, a ausência de El Enon permitiu que o que antes era rito se tornasse consecutivo e passassem a compartilhar assiduamente o mesmo leito. Agora, na alcova, Elaine fala com excitação:
            – Ele me possuía por trás e gemia ao balbuciar o nome dela!
            El Íxito tenta remediar:
            – Na certa te queria como os homens primitivos faziam em tempos primordiais.
            – Você promete...
            – O quê?
            – Que nunca me fará filhos.
            – Não se preocupe, meu sêmen é estéril e detesto crianças.
            – Pari os dois monstrinhos por conveniência. Aquilo foi uma maldição que ele pôs em mim... para me destruir. As coisinhas malditas me socavam o útero e não paravam de crescer, até que finalmente pude expulsá-las para fora.
            – Eu penso que...
            – Aquele desgraçado só fazia coisas duplas. Ele as punha nos úteros das mulheres para matá-las. Foi assim com a princesinha olimpiana e ocorreria o mesmo comigo se eu não...
            – Mudemos de assunto, pois essa conversa está começando a me encher.
            – Desde que pari os monstrinhos, só pensava em uma forma de matá-los. Tinha de ser assim. Tanit, arrite sutanit eh ô!
            – Farei uma caminhada pelo bosque até que você se acalme e deixe de falar nisso. Espero que no meu retorno te encontre mais tranquila.
            Que a Guerra de Polopoloque fora insensata, disso ninguém mais tem dúvida. Antes de deflagrada, os aiztains eram pastores tribais. De quando em quando um grupo deles vinha a Artz vender queijos, peles, carne dessecada e tripas defumadas. Sentavam-se à porta do mercado e ali permaneciam discretos, entoando seus cantos monocórdios. Ao contrário de outros mercadores, não ofereciam seus produtos. Apenas esperavam pacientemente que os poucos interessados viessem procurar por eles. Quando isso não ocorria, guardavam as mercadorias e com elas retornavam aos confins da planície.
            Por que os eugenes artzianos foram perseguir esse povo primitivo, que não tinha outro meio de vida senão a seca e quente Polopoloque? Aquela batalha estúpida custara a vida de centenas de jovens artzianos da melhor estirpe. Uma vez ocupada a planície, o Exército Imperial não teve o que fazer por ali e a abandonou aos poucos aiztains sobreviventes, pois somente estes eram capazes de viver naquele ambiente impróprio.
            Não bastassem as agruras da guerra, o Exército Imperial prepara-se agora para nova campanha militar contra os infelizes pastores, para vingar a morte do GRANDE COMANDANTE e reaver a rainha cativa. Desta vez há a promessa de extinguir os aiztains, até o último homem. Enquanto nova carnificina é organizada, sábios céticos espalham rumores pela cidade, a pretexto de abalar a idolatria ao SUSERANO morto.
            Questionam as várias incursões militares por ele comandadas e pedem que o povo não dê ouvidos aos seus generais. Quanto à rainha cativa, sugerem que a deixem à própria sorte, já que não era mesmo grande coisa. Tais rumores só cessam quando o corpo de um dos sábios aparece empalhado em frente á entrada do templo. Os demais, temerosos pela própria sorte, prontamente se calam.
            Em madrugada de denso nevoeiro, um carro chega lentamente à cidade e para discreto numa das vielas. Dele descem dois vultos. O condutor, após ter deixado os passageiros, golpeia os animais e desaparece na neblina. A umidade torna escorregadio o calçamento àquela hora. Os dois caminham com dificuldade. Único prédio com luzes acesas naquele horário, os recém-chegados se dirigem ao templo. É regra entre os sacerdotes não negar hospitalidade aos viajantes. De modo que suas portas estão sempre abertas para acolhê-los.
Os vultos desconhecidos ganham forma na medida em que se aproximam da área iluminada. É um casal de jovens. O rapaz, bastante agitado, insiste com o vigia que deseja falar com o sacerdote superior. Este repete seguidas vezes que não há um sacerdote superior naquele templo e, sim, uma GRÃ-SACERDOTISA, que é a própria rainha, a qual se encontra cativa dos bárbaros aiztains. A moça, de aparência mais cansada, senta-se em um canto do saguão de entrada e ali adormece.
Se não há um superior, insiste o jovem, que o vigia acorde os demais sacerdotes. Este apenas sorri. Diz que são pessoas idosas, para as quais o sono de repouso tem particular importância. Ainda assim o jovem reitera o quanto é imprescindível que todos estejam acordados para ouvi-lo. Como que em transe, diz que veio à cidade para salvá-la. Despertado pelo alvoroço provocado pelo viajante recém-chegado, um dos venerandos sacerdotes vem ver do que se trata. Ao ouvir a parte final das palavras do jovam, comenta:
            – Sua missão é louvável, meu caro. Realmente precisamos de quem se disponha a salvar nossa cidade. Se for capaz, obviamente. Mas com tal indiscrição não creio que possa levar tal propósito adiante. Os ânimos por aqui andam acirrados. Aconselho-o a ser moderado, do contrário tua visita a Artz terá curta duração e terminará com resultados trágicos.
            Outros sacerdotes saem dos seus aposentos. O jovem, cada vez mais exaltado, aponta para determinada direção, como que sacramentando o ponto ao qual se dirige:
            – Vim banir o ódio e o mal desta terra e proclamar a unidade da vida no reino dos mortos.
            Um dos sacerdotes o aplaude em tom de zombaria:
            – Grande ator! Mas a situação na qual nos encontramos requer qualidades adicionais àquelas de um bom comediante.
            Duas lágrimas descem dos olhos do jovem enquanto torna a vociferar:
            – Tudo o que eu fizer por esta terra será para reparar um terrível mal que cometi ao nascer.
            Os sacerdotes olham-se uns para os outros surpresos. O jovem então balbucia:
            – Eu matei!
            Sucede-se certo zunzunzum seguido desta indagação:
            – Como ele pôde ter matado ao nascer?!
            O visitante persiste:
            – Podem não acreditar, mas é a crua verdade.
            Um dos clérigos comenta debochado:
            – Que assassino prodígio!
            Todos riem e fazem seguidas perguntas ao jovem. Este muda habilmente o rumo da conversa e passa a falar da necessidade de os homens serem livres e se solidarizarem uns com os outros. Como que censurando os homens santos, salienta:
             – Todos devem ser solidários, inclusive os cativos.
Um sacerdote observa rindo:
            – Esse é um problema já não nos diz respeito, pois há muito que abolimos a escravatura.
            – Mas me disseram que...
            – As palavras, ora, as palavras quase nunca correspondem aos seus usuais significados.
            O jovem então inquire:
            – Mas quem trabalha por aqui?
            – Os ex-cativos, agora na condição de cidadãos livres. Muitos deles residem nos subterrâneos deste prédio, onde funcionam as oficinas e escolas para artesãos. Você mesmo poderá comprovar ao amanhecer.
            O jovem prossegue monologando. Disserta sobre o direito de os homens levarem vida errante. Um sacerdote sugere que fale baixo:
– Um dos nossos perdeu a cabeça recentemente por dizer coisas bem menos impactantes.
Outros sacerdotes o aconselham a não levar a público certas opiniões. Explicam que o rei foi assassinado e a rainha, raptada. Por consequência, a população encontra-se altamente propensa a cometer atrocidades. Como o jovem não os ouve e continua a discursar como se nada pudesse detê-lo, os sacerdotes comentam, em tom de ironia, que nunca tinham ouvido alguém proferir tamanhas asneiras com tanta convicção.
            – Será mais um candidato a pensador?
            – Um artista de gênio?
            – Ou meramente um ingênuo?!
            O jovem, ao ouvir tais referências a ele dirigidas, proclama:
            – Costumo ser reprovado pelos crentes porque me apoio na razão e pelos sofistas porque me inspiro na magia. Somente o mal é verdadeiro. O bem é apenas partículas de intenções. Assim como a perfeição jamais será alcançada pela inteligência, o bem está predestinado a ser irrealizável.
            Os sacerdotes batem palmas e riem ao mesmo tempo. Como que desinteressado por tudo, o jovem se deita ao lado da companheira e adormece. Um dos sacerdotes põe uma manta sobre ambos. Nem ao menos suspeitam que aquele rapaz é o MEDICÂMAGO DAS SENTENÇAS, o POETÓRICO DO VIGOR, o PITÓCRITO EMERGENTE, o GOCERDOTE sem o qual Artz terá liquidado suas mais baixas definições.
Somente o demônio mexe as peças desse jogo supremo entre demaines e bufones. Em seu antro, cercado por seus pares, agitou-se a cada palavra há pouco lançada pelo jovem em desatino. Até aquele instante, apenas o demônio sabe de antemão que o jovem sobre quem os sacerdotes há pouco fizeram comentários maledicentes é Elez, o filho olimpiano do primeiro casamento de El Enon. E a jovem, sua irmã Eliz. Mas só a fatalidade levará esses homens santos a descobrir quem realmente eles (Élez e Elis) são.
Durante vários dias de permanência no templo, o inflamado rapaz e sua meiga irmã conquistam a simpatia de todos. Passam a frequentar a escola para artesãos e, sem revelar suas identidades, investigam o que teria de fato ocorrido com seu pai. Como as versões apresentadas são um tanto descabidas, desconfiam, com razão, do que ouvem. Cada vez mais suspeitam que o SUSERANO não foi morto por nenhum aiztainz.
            Longe dali, o sono tumultuado da rainha é tomado por um terrível pesadelo. Um feto de duas cabeças suga-lhe a vida pelas trompas, devorando-a por dentro. Tenta agarrar-se a algo, em esforço desesperado para subir, não se sabe para onde. Mas não consegue se mexer. O feto insaciável continua a devorar-lhe as entranhas. De repente se vê dentro de um útero gigante, ao qual ela própria está ligada por um gigantesco cordão umbilical. A criatura de duas cabeças avança na direção do cordão, disposta a rompê-lo e desconectá-la do único elo com a vida.
            Acorda trêmula, molhada de suor, com a impressão de que por várias vez naquela noite teve o mesmo pesadelo. El Íxito, ao seu lado, continua em sono profundo, alheio a seu tormento. Veste-se sem fazer ruídos, de modo a não despertá-lo, e sai de casa em plena escuridão. Sob o clarão da lua e os miados prolongados dos insones guepardos, caminha por quilômetros até chegar ao Jardim dos Jazigos. A madrugada aos poucos revela os contornos dos túmulos, dentre os quais vê dois jovens. Conforme se aproxima nota, pelos seus trajes, que são estrangeiros.
Tão logo distingue as feições do rapaz, dirige-se a ele em tom cerimonioso, porém impositivo. Muito solícito, o jovem prontamente corresponde a seu chamado. A jovem mantém-se distante, calada, com a atenção absorvida pelo indescritível. Pensa que não será de toda ingrata com El Íxito se passar algumas horas com aquele moço na alcova se, em troca, levar a ele aquela jovem em flor. Procura seduzir o casal com tal proposta. Élez consulta a irmã, que resiste a princípio, mas logo a convence. Ambos acompanham Elaine a caminho da alcova.
O amarelado do sol aos poucos rasga a escuridão da floresta. Após quilômetros de caminhada, Elaine indica aos acompanhantes um casebre em meio às árvores. Sequer podia imaginar que os dois jovens são os filhos de El Enon, do primeiro casamento real. Porém El Íxito os conhece, pois esteve com eles em Olímpia nas várias ocasiões que foi até lá levar presentes e mensagens a pedido de El Enon. Élez inclusive se afeiçoou a ele e ambos realizaram passeios pela orla marítima, mantendo calorosas discussões sobre assuntos genéricos envolvendo uma possível aproximação entre os dois reinos.
Quando Elaine entra com os dois, El Íxito, já desperto, não consegue disfarçar o impacto. Tomado pelo pavor diante de tão inesperadas aparições, inquire sua amante:
            – Você enlouqueceu? Como pode trazer aqui justamente os filhos do morto?!
            Antes que Elaine possa entender o que se passa, Élez avança na direção de El Íxito e pergunta:
            – Quem é essa mulher que nos trouxe e quais a relação entre vocês?
            El Íxito, com os olhos tomados pelo pavor, aponta para a rainha:
            – Foi ela, meu príncipe, foi ela quem matou vossos meio irmãos e levou vosso pai à loucura.
            Ainda sob estupefato com a revelação, o rapaz fica pensativo:
            – Mas por que ela faria isso, El Íxito?
            – Ela é a rainha, meu príncipe.
            – Mas se a rainha matou nossos meio irmãos e levou nosso pai ao desespero, por que você se encontra aqui com ela?
O delator não tem tempo de esboçar um gesto ou emitir uma só palavra, pois a adaga de Élez cruza os raios de luz emergentes e rasga-lhe a garganta. Após matar El Íxito, o filho de El Enon grita, geme, chora e morde os lábios até que sangrem. Quando se volta para Elaine, a rainha prontamente despe o colo e deixa os seios expostos. Élez vê aqueles seios descobertos e vacila. A rainha faz menção de se afastar. Eliz grita para que não a deixe fugir. Élez então a golpeia com a adaga, abrindo consecutivos sulcos sangrentos em seus seios desnudados. A rainha cai. Seu sangue jorra longe. Élez, enfurecido, continua a golpeá-la. Eliz tenta detê-lo e por pouco que também não é ferida.
O piso da alcova está repleto de sangue. Elaine jaz inerte, mas Élez continua enfurecido. A irmã procura ampará-lo:
            – Tua arete há de permanecer invicta, meu irmão.
            Seu tormento não se arrefece.
            – Sou como papai... um compulsivo!
            – Não, você não é como ele. Foi apenas um momento de fraqueza.
            – Como tirar os malditos seios da cabeça? Não fosse o ódio por tudo de ruim que a maldita fez a todos, eu... eu... Ainda bem que você está aqui comigo.
            Vira-se para buscar o amparo da irmã e se surpreende ao abraçar a maciez dos seus ombros expostos. Ele a afasta e vira-se de costas para não vê-la sem roupas.
            – O que pretende com isso?!
            – Quero me unir para sempre à tua arete. Olhe-me, veja como meus seios são tão ou mais perfeitos que os da traidora. Toque-os! Só possuindo a mim você não será tentado a se macular com outras.
            Eliz então se coloca à frente do irmão para que ele possa vê-la por inteiro. Toma as mãos do rapaz e as põe sobre os próprios seios. Élez aos poucos perde a resistência. Quando se dá conta, já tocou, beijou, amou cada parte daquele corpo em quase tudo similar ao seu. A velha criada de Elaine chega naquele instante para sua jornada diária de trabalho. Somente ela sabia do paradeiro da rainha. Ao se deparar com os corpos de ambos, corre à cidade e comunica o duplo assassinato à Guarda Imperial.
            Boatos rumorosos rapidamente se espalham. Em pouco tempo a população enfurecida junta as armas e debanda desordenada pela floresta, onde supõe encontrar os odiados assassinos aiztains. Alheio a tudo, Élez, após ter encerrado o coito, encontra-se deitado sobre um tapete de pele, abraçado à nudez de Eliz. Enquanto a acaricia, monologa:
            – Quando phílis e neikos se configuram, não podem mais ser separados, pois há risco de que cesse todo movimento e a realidade se reduza à perene imobilidade, onde toda natureza dos seres se perde. Que phílis e neikos lutem entre si. É preciso que cada um domine a seu tempo, proporcionando tensão e repouso, a fim de que a realidade dos seres imantados de vida com tal suceda.
            Ouve a gritaria da multidão que se aproxima. Nem ao menos suspeita do perigo iminente. A irmã encontra-se adormecida em seus braços. Sua prepotência, somada à ingenuidade cega, fá-lo acreditar que os artzianos vêm aclamá-lo soberano, como um dia previra o oráculo de Olímpia. Displicentemente nu, abre a porta da alcova e caminha na direção da turba. Chega a fazer gestos de reverência antes de ser agredido com ferocidade por centenas de pessoas enlouquecidas pela ira.
Eliz acorda em tempo de assistir ao trágico desfecho. Grita em vão, pois a fúria coletiva abafa-lhe os apelos e não consegue fazer com que cesse o espancamento do irmão. Quando enfim consegue se fazer ouvida, já é tarde. Com a face deformada pelo horror, revela a todos que aquele corpo retorcido é do filho de El Enon. Assim, acaba de morrer pelas mãos do próprio povo de Artz aquele que seria o último homem capaz de unifica-la. O desespero é geral. Agressores beijam o corpo destroçado do jovem, na vã esperança de que ainda reste nele algum naco de vida. Mas Élez jaz, para sempre, como um amontoado de ossos e carne esfacelados. Os agressores partem em debandada pela floresta, a mutilar-se uns aos outros com as próprias armas.
Nuvens negras cobrem agora os espectros infernais de Artz. Algumas são atraídas por phílis, outras por neikos. Forma-se na abóbada celeste imenso aglomerado de gases, como prenúncio de temporal. A terra treme em transe. Prédios e muralhas de Artz começam a ruir, soterrando os moradores. O furor elementar destrói, em segundos, obras milenares da mais gloriosa civilização do Médio Oriente, arrastando-as para o rio subterrâneo onde urge o magma elementar. Árvores e pedras rolam das encostas. Fendas gigantescas se abrem para engolir as pessoas em fuga.
Eliz vê o que restou do corpo do irmão ser levado pela fúria devoradora. Sabe que phílis está se somando a neikos para também arrastá-la ao vau da destruição. Com o olhar fixo, intransponível, caminha até ser tragada às profundezas. O demônio então pede licença a seus pares, tira a máscara, sob a qual mantinha oculta a face com cavidades sem olhos, depois diz:
            – Uma quis unir pela glória e acabou em desgraça. O outro quis combater o ódio e pelo ódio foi liquidado. O destino é constante separador de intenções. Somente o acaso unifica a todos e corporifica a matéria. Vem, ó tempo, apague o fogo opaco dos meus olhos sem brilho e leve tua avareza para longe do céu e da terra!
            Voltemos a Riyad...
Após a prolongada narrativa, Ali Sabah disse a suas esposas:
            A vocês pode parecer que a história termina aqui, mas para mim é apenas o começo. Outras histórias haverei de revelar, se Alá me permitir a honra do bom estilo. Que minhas esposas me perdoem, mas acabou nossa época de opulência, já que não voltarei a servir o governo da Arábia. Doravante seguirei os caminhos difíceis, pois os fáceis, o Profeta me revelou, só servem como trilha dos fracos. Meu ideal, agora o sei, é o da perseverança. Que intentem contra mim da forma como quiserem. Afastarei-me de vez da política. O que significa que doravante não me preocuparei mais em ser um vencedor. Acima de tudo, o que importa daqui por diante é me manter na trilha dos justos.
            Ali Sabah acariciou os rostos de cada uma de suas mulheres, chamou-as pelos nomes e concluiu consternado:
            O futuro é sempre incerto, talvez só por isso nos reserve o livre arbítrio. Minhas histórias haverão de provar que em toda renascença primam as obras dos homens que tiveram a ousadia de não se dobrar às opiniões consensuais. Aquelas que dentre vocês decidirem me acompanhar, compartilharão meu infortúnio. Aquelas que me abandonarem, da mesma forma terão abrigo no coração de Ali. Glória ao Todo-Poderoso!