sábado, 18 de fevereiro de 2017

De Eliot a Chandler “the women come and go talking of Michelangelo”

Em sua História da literatura ocidental, Otto Maria Carpeaux (1900-1978) sustenta que a literatura policial teria se originado do romantismo gótico do século XVIII, a partir de obras como o drama em versos Fausto, de Wolfgang Goethe (1749-1832),  os contos de suspense e mistério do alemão Ernest Hoffmann (1776-1822) e o já popularesco Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851). 
Acredita-se que o marco do surgimento do gênero se deu em 1841, quando Edgar Allan Poe (1809-1849) publicou nas colunas de um periódico da Filadélfia, o Graham's Magazine, o conto The murders in the Rue Morgue (Assassinatos na Rua Morgue).
Edgar Allan Poe
Nos anos seguintes, mais duas histórias de Poe com o mesmo formato policialesco foram publicadas: The nustery of Marie Rogêt (O mistério de Mary Roget), em 1842, e The purloined letter (A carta roubada), em 1845.
Paralelamente, Poe publicava contos de outra natureza – fantásticos, de horror, de suspense, de ficção histórica e outros gêneros – reunidos mais tarde no volume Histórias extraordinárias, como foram denominadas no Brasil.
A gênese da literatura policial está associada ao advento da cultura de massa, principalmente a partir de meados do século XIX, que possibilitou a popularização dos jornais, revistas e folhetins.

Outros gêneros popularescos similares surgiram nesse período: a literatura fantástica, a literatura de ficção científica e a literatura de horror e suspense.
Mas realmente o DNA de todos remete mesmo aos folhetins góticos do romantismo, como assevera Carpeaux...



Os contos de Poe e, mais tarde, de seu principal herdeiro, H.P. Lovecraft (1890-1937), eram destinados aos leitores mais xucros. Para a elite bem-educada sequer eram considerados literatura.

H.P.Lovecraft
O gênero policial passou a ser amplamente vendido por meio de livros de bolso, nos quais sequer constavam os nomes dos autores. Eram narrativas moralistas (isso mesmo!).
O criminoso é apresentado como um ser estranho à ordem social; portanto um modelo a não ser seguido por nenhum dos leitores. O detetive ou policial representa o lado exemplar, da razão, da inteligência e respeito às convenções sociais.
A maior parte dos primeiros contos e romances policiais resulta em desfechos para comprovar que o crime não compensa. As tramas demonstram não haver crime perfeito e nem lugar para a impunidade. Ou seja, que todo crime leva à punição.
Seu formato padrão requer que seja bem simples: um criminoso, um crime misterioso e um investigador (com ou sem ajudante) em torno de cujo trabalho e perspicácia se desenvolverá a trama. O crime e a identidade do autor devem ser revelados por etapas; só se saberá de tudo no final.
Da mesma forma que os outros gêneros populares citados acima – literatura fantástica, de ficção científica, de horror e suspense – o universo da literatura policial sempre envolve medo, mistério, investigação, curiosidade, espanto e inquietação.
Desde as primeiras histórias de Poe, o gênero policial sugestiona ao leitor uma releitura, pois a solução do mistério, só revelada no final, é evidente desde o início, o que o força a revê-la para identificar os indícios não notados.
Quase sempre há mais de um suspeito para o crime (roubo, furto, assassinato, sequestro, golpe, etc.), mas a identidade do culpado só é revelada aos poucos.
Neste século e meio de existência, os heróis da literatura policial foram se diversificando. Não se limitam mais aos policiais ou detetives de carreira. Alguns romances são protagonizados por advogados, promotores, juízes, jornalistas e até escritores.
Um dos seus clichês é atribuir métodos científicos ao herói na busca pela verdade. Há uma obra policial protagonizado por um médico (não legista) que usa seus conhecimentos de combate a doenças e epidemias para elucidar um crime.
Nos EUA e na França, concomitantemente, surgiu na primeira metade do século XX o mais sofisticado subgênero da literatura policial, denominado pelos críticos e editores noir (negro),  presumivelmente mais intelectualizado.
Os detetives desse tipo de histórias têm educação refinada, são mais perspicazes que valentes, mas são também mundanos: sedutores, bebem, fumam muito (um deles é até usuário de ópio), se envolvem em romances perigosos e fazem sexo o tempo todo.
No fundo, figuras tão atípicas quanto os próprios criminosos que caçam.
A literatura policial noir também tem estrutura construtiva mais complexa. Costuma ter tramas paralelas, de modo que a história não gire em torno de apenas um fato ou enredo, mas de vários.
Na sequência deste texto tratarei daquele que, para mim, é o principal autor da literatura policial noir: o norte-americano Raymond Chandler (1888-1959).

Raymond Chandler
Também abordarei seu trabalho ensaístico, seu interesse por literatura em geral, poesia (daí a convergência para a obra de Eliot citada no título), artes plásticas, cinema e, entre outras atividades, o enxadrismo.
Chandler, o próprio, era um personagem muito interessante...



Raymond Chandler e seu contemporâneo Dashiell Hammett (1894-1961) representam o auge da literatura policial noir, com suas tramas enxutas, ágeis, diretas, irônicas, situações inesperadas repletas de mulheres perigosas e policiais de idoneidade dúbia envolvidos em tramas próximas dos crimes reais.

Chandler e Hammett
 A obra de ficção de Chandler – em especial a que tem à frente o detetive Philip Marlowe – traz sempre mulheres sedutoras e pouco confiáveis, homens durões e atormentados, policiais desonestos e arrogantes que fazem o que podem para tornar a realidade mais moralmente corrompida do que é.
Seu cenário social são os EUA dos anos 1930, de recessão econômica, caos político e muito desemprego. Por isso, a maioria de suas histórias se passa em ambientes sórdidos: hotéis fuleiros, bares sempre lotados por desocupados, ruas molhadas e pouco iluminadas, cabarés enfumaçados, pontos de prostituição, etc.
Os diálogos são cínicos, ditos por homens e mulheres amorais, nada confiáveis, que fazem as coisas por conveniência.
Além de grande romancista, Chandler foi  contista, poeta, roteirista de cinema e crítico. Publicou em jornais e revistas vários artigos e ensaios sobre literatura (não só policial) e outras artes.
Era de uma família irlandesa fixada em Chicago. A partir de 1895, após o pai alcoólatra ter desaparecido, mudou-se para a Irlanda, terra natal de sua mãe.
Em Londres teve rígida formação educacional como interno em um colégio de religiosos anglicanos. Onde estudou grego, latim, francês e alemão. Leu os clássicos gregos e latinos a partir dos originais.
Ainda na capital inglesa, iniciou muito jovem atividades profissionais como repórter policial free-lancer.
Retornou aos EUA em 1912 para trabalhar como contabilista autônomo.
Em 1917 alistou-se no Exército Canadense e combateu na França durante a 1ª Guerra Mundial.
Após o armistício, mudou-se para Los Angeles, Califórnia, onde iniciou seu longo caso com a pianista Cissy Pascal, dezessete anos mais velha que ele.
Cissy foi o grande amor de sua vida. Era uma mulher de vanguarda. Posava nua e varava as noites bebendo e dançando.

Cissy Pascal posando de estátua
Estabeleceram um festivo e harmonioso relacionamento aberto. Ela não fazia conta de que Chandler tivesse uma multidão de outras amantes, nem ele se importava com suas frequentes aventuras com rapazes ou moças mais jovens.
Mas quando precisavam sossegar os demônios interiores, um recorria ao outro.
Em 1932, Chandler ocupava a vice-presidência na Dabney Oil Syndicate, uma empresa petrolífera em Signal Hill, Califórnia, mas acabou por perder o emprego bem remunerado devido a problemas de alcoolismo e, dizem, por assédio a mulheres no ambiente de trabalho.
A Grande Depressão pôs fim de vez à sua carreira de executivo.
Em 1933, com quarenta e cinco anos e completamente sem dinheiro, Chandler decidiu escrever histórias de detetive como forma de sobrevivência.
As pulp magazines da época pagavam razoavelmente bem. Passou a se dedicar febril e intensamente ao ofício. Teve de passar por esse processo nada prazeroso – mas essencial – de entender que a sua educação clássica e os anos cosmopolitas na Europa não o habilitavam a produzir uma boa história policial.
Mergulhou nos autores de referência do gênero e também nos autores modernos que eram suas referências pessoais. Buscou conhecer toda a parte técnica do escuso mundo dos crimes, leu sobre medicina legal e direito criminal, pesquisou detalhes sobre armas, fez amizade com gente do meio (policiais, viciados, prostitutas e bandidos em geral). Tudo para se familiarizar com os procedimentos de rotina que iriam permear suas histórias.
Vendeu seus primeiros contos para a revista Black Mask Magazine. Em 1939 publicou The big sleep (À beira do abismo), seu primeiro romance policial, no qual aparece pela primeira vez o detetive Philip Marlowe.
Seu personagem foi inspirado no controverso poeta e dramaturgo elisabetano Christopher Marlowe (1564-1593). Marlowe foi um dos principais renovadores do teatro do seu tempo, junto com William Shakespeare. Entre outras obras, escreveu a primeira versão do Fausto, na qual se basearia mais tarde Wolfgang Goethe (1749-1832) para escrever sua obra principal.
O dramaturgo Marlowe, qual o detetive Marlowe de Chandler, era mulherengo, beberrão e briguento. Teve vida curta: foi morto numa briga de taberna.
Philip Marlowe foi herói de Chandler em outros seis grandes romances: Farewell my lovely (Adeus minha adorada), de 1940, High window (Janela para a morte), de 1942, Lady in the lake (A dama do lago), de 1943, The little sister (A irmãzinha), de 1949, The long goodbye (O longo adeus), de 1953, e Playback, de 1958.
Em 1954, completamente arrasado após a morte de Cissy, Chandler embarcou no alcoolismo pesado e chegou a ser internado numa clínica psiquiátrica.
Enquanto duas de suas amantes mais rotineiras disputavam na justiça parte dos seus direitos autorais, antes mesmo de o autor ter sido espichado num caixão, Chandler chutava o balde na bebida em completa solidão.
Em 1955, pessoas não desejáveis (credores) o encontraram num hotel fuleiro, onde se hospedara sob nome falso. Estava completamente bêbado. Trancou-se no banheiro com um revólver e ameaçou se matar.
Foi um pampeiro e tanto. Dezenas de policiais cercaram o local e passaram a negociar sua desistência e entrega da arma. Quando tudo parecia resolvido, ouviram vários disparados no interior do banheiro.
Supondo que ele havia cumprido a ameaça, arrebentaram a porta do banheiro e encontraram Chandler de roupão, inteiro. Calmamente entregou a arma como uma breve ressalva:
– Já que não permitiram um uso mais nobre, resolvi aproveitar as balas.
 Atirara para todas as direções: em lâmpadas (do lavatório e do teto), no espelho e na vidraça da janela.
Embora vendesse milhares de livros em vários idiomas e em vários países, a arrecadação de direitos autorais de sua época era péssima. De modo que mesmo sendo um persistente negociador, vivia falido.
Porém o que o abateu para valer foi ter perdido Cissy.
Chandler se tornou agressivo e passou a esnobar aqueles que o prestigiavam. A começar pela elite cultural que começara aos poucos a reconhecer sua obra.
Já era então aclamado como um dos melhores roteiristas da história do cinema. Diferente de William Faulkner e Bertolt Brecht, que fracassaram como roteiristas em Hollywood, Chandler deixou sua assinatura em filmes marcantes: Double indemnity (Pacto de sangue), de Billy Wilder, de 1944, The blue dahlia (A dália azul), de George Marshall, de 1946, e de Strangers on a train (Pacto sinistro), de Alfred Hitchcock, de 1951.

Alfred Hitchcock
Também foram realizados vários filmes a partir de seus livros. Entre eles o romance The big sleep, de Howard Hawks, em 1946, que teve como protagonistas as estrelas Lauren Bacall e Humphrey Bogart; este interpretando Philip Marlowe.
Bogart, como Marlowe, e Lauren Bacall
Mais tarde, o diretor Robert Altman levaria para as telas The long goodbye (1973) e Farewell my lovely (1975).
Mas Chandler, em artigos escritos para jornais,continuou a disparar sua metralhadora na direção de tudo aquilo que não lhe agradava. Apontava a ignorância de críticos literários de prestígio e esculhambava os romancistas mais conhecidos.
Mas as críticas mais severas foram para o meio que lhe rendia mais dinheiro: o cinema.
Declarou que detestava a afetação dos bastidores de filmagens. Que os produtores não davam mínima importância aos roteiristas, haja vista que seus nomes sequer eram citados nos expedientes dos cartazes.
Um artigo publicado em 1958 na revista Atlantic Monthly – Writers in Hollywood –, causou enorme mal-estar ao tratar o pessoal da indústria cinematográfica de maneira jocosa e nada cordial. Referiu-se aos “comitês de sicofantas”.
Atacou especialmente os produtores, que para ele tinham “a moral de uma cabra, a integridade artística de uma máquina caça-níqueis e os modos de um vendedor de rua com mania de superioridade”.
Chandler, que começara a escrever como um maluco aos quarenta e cinco anos, terminou prestigiado, porém com pouco dinheiro e muito desiludido com tudo.
Faleceu de pneumonia, sozinho, enchendo a cara até o último suspiro.
O tradutor de Chandler no Brasil é o paraibano Braulio Tavares. Graças a seu esforço, podemos ler boas traduções de seus principais romances e contos. Algumas trazem cartas e artigos teóricos escritos pelo autor.
Simples arte de matar
Raymond Chandler deixou obra teórica referencial sobre a história e as técnicas da literatura policial. O livro publicado no Brasil com o título A simples arte de matar traz alguns contos e vários desses seus ensaios teóricos.
Nos quais explica a gênese de algumas de suas obras. Em um deles assinala porque ocasionalmente deixa o investigador Marlowe contar a própria história.

“O leitor vê o que ele vê: acrescenta-se aí a uma percepção semelhante de ‘honestidade’ e conhecimento da subjetividade do personagem, de suas impressões, temores, riscos.”
Nos seus primeiros artigos sobre literatura, ainda da época dos seus primeiros contos policiais, já são encontrados detalhes de técnicas que utilizaria em suas obras da maturidade: a ironia, os personagens que transitam entre o certo e o errado, as tramas imprevisíveis, a simultaneidade narrativa e as descrições entremeadas por sutis referências críticas.
Nos comentários an passant do detetive Philip Marlowe, que está sempre lendo algum livro ou pensando a respeito de assuntos de alto repertório, encontramos referências a várias obras dos poetas e prosadores que Chandler admirava.
Num simples quadro de The long goodbye, o detetive Marlowe faz piadinha envolvendo a frase “in the room/the women/come and go/ talking of/Michelangelo” (na sala/mulheres/cá e lá/ falando de Michelangelo)
É referente ao poema The love song of J. Alfred Profrock (Canção de amor de J. Alfred Profrock), de TS Eliot, de 1912, cuja versão apresento no final deste artigo.

T.S. Eliot
Eliot escreveu o poema numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e ao período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial.
Longo, angustiado e angustiante, procura mostrar o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência perdida e o envelhecer, a ansiedade de transitar em novos ambientes urbanos e a necessidade de se alienar neles.
Prufrock é um homem sensível que oscila entre a erudição e a superioridade dos sentimentos.

Contrapondo-se ao que idealiza, enxerga o grotesco do cotidiano. O personagem  começa com o desejo e a intenção de levar a amada para um quarto de hotel, mas acaba por se revelar estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor. Mas com uma inquietante brisa que sopra sobre a hesitação perene, os sentimentos petrificados pela existência e oscila entre a transgressão do desejo e a estabilidade do tédio.
Na tradução priorizo a manutenção dos jogos de palavras, aliterações, assonâncias, humor nonsense e referências popularescas.

A canção de amor de J. Alfred Prufrock

 
S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mais tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cìo che giammai di questo fondo
Non tornò viva alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.


(Se cresse que por minha réplica pudesse
Tornar ao mundo na pessoa que sou
Esta chama estaria intensa, porém fosca
Nem por de menos nem mais a gosto
Alguém que de vero vai ao fosso
Seja por temor ou pela infâmia exposto)

(palavras de Guido de Montefeltro a Dante no Inferno, Divina Comédia, Canto XXVII)

             
Vamos lá, você e eu
Enquanto a tarde se expande contra o céu
Como anestesia no sangue de um moribundo
Vamos lá, por certas ruas que se arrulham desertas
Murmúrios recolhidos ao incerto
Impaciência noturna em noitadas por pensões
Restaurantes às moscas fedendo a ostras
Ruas que se trançam como tramas impiedosas
Para levar até você a irresistível questão
Ó, não precisa responder agora, “O que é isto?”
Vamos ver o que é

Na sala as mulheres lá e cá
falando de Michelangelo

A neblina amarela se esfrega às claras nas janelas
A fumaça amarela esfrega as fuças nas vidraças
Lambidas línguas nos cantos da tarde se enlaçam
Ela está farta das poças d’água sem jeito nas sarjetas
Coloca-se abaixo das falanges da fuligem
Cai do terraço
Dá um súbito salto
Ao ver que esta é apenas outra noite de outubro
Torna à casa e nela se enclausura possessa

Decerto haverá tempo
Para a fumaça amarela se escorregar sobre ruas
A esfregar as ancas nas reentrâncias das janelas
Haverá tempo, muito tempo
Para preparar tua cara (e a minha) e espremer o ânimo
Existirá tempo para tentar e tramar
Metas para todos os tipos de temas
Erguer o fardo, jogar no prato uma questão
Tempo para você, tempo para mim
Tempo para umas cem digressões
Outras sem visões e revisões
Antes de tomar teu café com pão

Na sala as mulheres lá e cá
falando de Michelangelo

E decerto existirá tempo
Para questionar: “Me atrevo?”, “Te atreves?”
Tempo para subir e descer escadas
Com a mancha da careca espelhada no escudo do crânio
Eles dirão: “Como teus cabelos estão brancos!”
Teu casaco de inverno, tua corrente colada ao peito
O black-tie miserável, o colarinho fincado com alfinete
Eles dirão tão bem: “Como tuas pernas e braços estão finos!”
Poderão desafiar um distúrbio do universo?
Em um minuto existirá tempo, muito tempo
Para decisões e revisões com mais um minuto ao reverso

Para ter tudo pronto e conhecer outro tanto
Reconhecer a noite, a manhã e o entardecer
Ter medido cada dia com colheres de sal
Ouvido vozes moribundas em agonia profunda
Baixado p volume da música numa sala sem musas
De que maneira ir adiante?

E já que tenho olhos abertos, conhecerei todos
Os olhares que se fixam numa frase formulada
Quando espertos se espetam
Com alfinetadas insinuadas pelas expressões

Então, só para começar
Escarro as baganas das minhas idas e dias
De que maneira ir adiante?

E já que tenho os braços prontos, abraços, prantos
Braços braceletes despidos
Na semi-luz que reluz dos pelos
Que tal o perfume
Travestido revestido em tudo?
Braços se embaraçam, xales com casacos se alcançam
De que maneira ir adiante?
Por onde me acho?

Devo dizer: tenho vivido no escuro das vielas
Assistido à fumaça que sobe das janelas
Aspirado o pó das veias de um homem sem mangas
Devo então ter um par de garras esfarrapadas
Para correr conciso o piso silencioso até o oceano?

E à tarde, à noite, dormir pacificamente
Alisar as presas da serpente
Anestesiado... dedicado... doente...
Estendido pelos pisos, aqui bem perto da gente
Devo, depois do chá, do bolo, do confete
Ter ainda energia para um momento de pileque?
Embora tenha chiado, orado quase chorando
E tenha a careca (menosprezada cabeça) degolada num prato
Molhada de pranto – um grande assunto!
Assisto sem centelhas de grandeza
Às centenas de homens fúteis
Com seus casacos e casos inúteis

E teria tido algum valor, depois de tudo
Depois das xícaras, da marmelada, do chá
Entre louças, conversas loucas
Teria ainda assim valido a pena
Dar uma dentada no assunto
Comprimir o universo como uma bolha de sabão
Girar em torno de questões opressivas
Para dizer: “Sou Lazarus, venho dos mortos
Venho a você dizer tudo”
Tenho dito, ponho os olhos em teu traseiro
E mais digo:
“Isto não quer dizer muito... Isto é tudo?”
E teria tido algum valor
Teria ainda assim valido a pena
O abandono nas badernas dos poemas
Depois romances baratos, xícaras de chá
Desencanto pelos cantos
O que mais pode ser dito?
Como se uma lanterna mágica varasse os nervos da página
Teria ainda assim valido a pena
Limpar a bunda com teu xale de letras
E atravessar a vidraça para dizer apenas:
“Isto não é tudo,
Tudo isto é o que não significa”

Não! Eu não sou Hamlet, nem represento muito
Sou só um criado ou lord bem-criado a serviço do mundo
Propago o progresso, enceno uma cena ou duas
Advirto príncipes com argumentos estúpidos
Tento ser contente com meus textos
Ludibrio políticos com discursos
Altas sentenças um bocado obtusas
Às vezes me sinto farto
E quero acabar com tudo

Estou velho... velho...
Hei de afundar os abusos num atraso sem fundo

Partirei meus cabelos ao meio? Passarei a comer pêssegos?
Vestirei as calças de flanela branca e andarei como um fresco?
À margem das sereias ainda cantarei: “Cada dia uma”, “cada dia uma”
Não penso que me encantarão
As vejo vagando mar adentro das ondas
Penteando os cabelos brancos nas vagas que se vão

Enquanto o vento trava um tranco contra as tábuas da proa
Eu me seguro na imagem do mar
Pelas garotas da praia com suas miçangas sem ângulo
E por todas as vozes humanas que aclamam pelo afo
gamento

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