terça-feira, 28 de março de 2017

Johnny is not B. Goode tonight

Chuck Berry (1926-2017) decerto foi o mais talentoso instrumentista, letrista, intérprete, compositor e performer do rock. 
Junto com Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Bill Haley, Little Richards e outros, ele paira entre os artistas seminais do gênero. Espécies de deuses malucos do mais popular dos gêneros de música popular de todos os tempos.


Chuck Berry e sua dança do pato
O rock and roll, mais conhecido rock'n'roll, já existia desde os anos 1940, mas seu primeiro grande estouro de popularidade se deu em meados dos anos 1950 com Chuck Berry incendiando o público.
Como gênero musical, o rock veio no vácuo de outros gêneros mais antigos como country, blues, rhythm’n’blues, jazz de ritmo acelerado de New Orleans, gospel e boogie woogie.
A batida do rock, uma mescla de blues com country acelerado, rapidamente se espalhou pelos EUA, Grã-Bretanha e resto do mundo.

Dada sua popularidade entre jovens de quase todos os idiomas e culturas, é provável que o rock se constitua no movimento cultural de maior impacto social dos nossos tempos.
Muito além de gênero musical, influenciou estilos de vida, moda, atitudes e linguagens. Houve época em que até os guerrilheiros de esquerda e padres da igreja católica tinham aparência de roqueiros.
Os artistas originais do rock eram músicos negros e brancos do circuito entre New Orleans (Luisiana) e Memphis (Tenessee), acompanhando o lento trajeto dos músicos de blues Mississipi acima, rumo ao Norte do país.

O fim dessa trajetória seria o surgimento do poderoso blues de Chicago (Illinois), na região dos Grandes Lagos.
Chuck Berry
, Elvis, Haley, Cash e Lewis começaram tocando blues e country. Eram todos caipiras de origem mais ou menos rural. Berry tinha descendência negra e apache.

Apresentação dos jovens Berry e Presley nos anos 1950
Bill Haley (no alto) e seus Cometas
Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Presley (ao piano) e Cash
Lewis, Berry e Little Richard

Mas Berry era aquele que nas letras achava os termos e expressões mais precisos, os quais logo as massas transformavam em gíria e em moda. E, com isso, vários outros artistas inevitavelmente gravaram aos tufos suas canções.
Sua influência é soberana até hoje. Nenhum dos grandes compositores seminais do gênero conseguiu manter na memória coletiva tantas canções como Roll over Beethoven, Sweet little sexteen, Johnny B. Goode, Nadine, Havana moon e outras.
Do outro lado do Atlântico, na Grã-Bretanha, na virada dos anos 1950 a grande sacada de um bando de jovens foi se ligar não só nos sucessos de momento do rock, mas em outros gêneros que lhe deram origem, principalmente o
rhythm’n’blues.
Da Inglaterra saiu a segunda grande explosão de popularidade do rock em meados dos anos 1960. Aliás, a maior delas, vindo a influenciar inclusive o rock norte-americano.
Mas toda essa geração de jovens talentosos bebeu das mesmas fontes: o rock'n'roll do Sul dos EUA e seus vários congêneres musicais.  
Inclusive um sujeitinho com cara de marginal chamado Keith Richards, filho de imigrantes galeses, assim como Jerry Lee Lewis, um dos patriarcas do rock americano.

Jerry Lee Lewis e Keith Richards
Richards, em sua autobiografia, diz que já gostava de rock'n'roll e blues desde moleque. Cresceu fã de Elvis Presley, Lewis, Chuck Berry, Muddy Waters e Willie Dixon, entre outros.
Na escola reencontrou o amigo de infância Mick Jagger, também aficionado em blues e country, e aí começa a longa trajetória da principal banda de rock de todos tempos: Rolling Stones.
Richards foi o principal responsável pela introdução do rhythm'n'blues no repertório da banda, o qual desenvolveu junto com o outro guitarrista, Brian Jones.
 
Keith Richards e Brian Jones

Considerado um dos maiores criadores de riffs da história do rock, Richards e seus companheiros de banda estouraram no Reino Unido e em todo o planeta a partir da segunda metade dos anos 60, fazendo uma música crua e de letras provocativas, misturando rock, blues, folk, pop, soul, country e gospel, vendendo milhões de discos e arrebatando plateias e fãs em todos os cantos do mundo.
Os Stones faziam a imagem dos meninos maus do rock, em contraponto aos Beatles, que eram os bonzinhos do gênero.
Ainda hoje paira a imagem de Keith Richards como um sujeito brigão e drogado incorrigível. Seu presumível heroísmo teria sido conseguir sobreviver a tudo isso. Mas a verdade é que Richards sempre foi o sujeito mais centrado do grupo.
Richards e o também inglês Eric Clapton – outro identificado com a imagem de doidão – foram os dois mais boa gente da panaceia internacional do rock a partir dos anos 1960.


Eric Clapton e Keith Richards
Não só pela importância do seu trabalho pessoal, mas por ter ajudado a recuperar a base da coisa toda, contribuindo para revelar músicos importantes que não haviam tido o devido reconhecimento nem nos EUA.
Há uma semana, quando soube da morte de Chuck Berry, pensei em escrever sobre algo que sempre me espezinhou a seu respeito.
Não quis jogar merda no ventilador num momento em que todos o enalteciam e lamentavam sua perda. Evidente que adoro suas músicas e apenas postei no Facebook uma versão de seu clássico Johnny B. Goode, interpretada em ritmo de reggae pelo jamaicano Peter Tosh.
Mas há questões esquisitas em sua trajetória, principalmente no que diz respeito ao Johnny real no qual se inspirou para escrever a letra de sua canção mais popular...



Não vem ao caso o fato de Chuck Berry ter sido preso por roubo quando ainda era um desconhecido e nem por ter sido preso uma segunda fez, já famoso, em 1959, por ter traçado uma indiazinha apache menor de idade.
Neste quesito, seu amigo Jerry Lee Lewis, outro pioneiro do rock, já havia feito o mesmo com uma prima de 13 anos. Casou-se com ela na marra, depois de preso, e o moralismo norte-americano quase levou sua carreira para o buraco.


Jerry Lee Lewis sendo preso
Mas o buraco mais duvidoso, no caso de Berry, limita-se às fronteiras musicais.
Seu sucesso inicial se deveu não apenas ao seu desempenho na guitarra e ao poder de suas músicas.
Ele reuniu uma das melhores bandas de rock de todos os tempos, que tinha ao piano o excelente Johnnie Johnson (o homenageado da canção Johnny B. Goode), no baixo Willie Dixon, na batera Fred Below e o próprio Berry na guitarra.



Berry e sua famosa banda

Para se ter ideia, no início dos anos 1950 o ex-colhedor de algodão Johnnie Johnson era considerado o melhor pianista de blues pelas grandes cidades situadas ao longo das barrancas do Mississipi.
No final dos anos 1950, em pleno auge do sucesso, Chuck Berry despediu todos os seus músicos, inclusive Johnson, porque achava que gastava muita grana com eles.
Para ganhar mais, preferiu ver sua a carreira declinar nos anos seguintes. Terminou bem de grana, porém com a imagem arranhada, pois a ganância o levou a perder muito da consolidada popularidade.
O público não é besta. Com o tempo sacou que ele só se apresentava com músicos iniciantes ou medíocres, aos quais pagava cachesinhos de merda ou nem pagava. Bruce Springsteen foi um dos muitos garotos iniciantes que tocou com ele nessa época.
Mas a pior das cagadas foi Berry ter excluído o nome de Johnnie Johnson das parcerias, para não dividir com ele os direitos autorais. Quase todas as suas grandes composições foram feitas em parceria com Johnnie, inclusive a clássica Johnny B. Goode.
Berry escreveu essa letra para contar a história de um apanhador de algodão que virara músico. Só que na letra o sujeito é guitarrista e o Johnny real era pianista. Um grande pianista!

O modo de compor de Berry era sempre o mesmo: ele e Johnson iniciavam improvisos, cada qual no seu instrumento, e a letra ia surgindo aos poucos, ali mesmo. Mas nenhuma das parcerias dos dois foi registrada com o nome Johnson. Só aparece o de Berry.
Os Rolling Stones sempre procuraram promover grandes compositores/intérpretes que os influenciaram: Muddy Waters, John Lee Hooker, Jerry Lee Lewis e uma infinidade de grandes músicos, alguns dos quais convidaram para participar de seus álbuns.
Em 1986, os Stones estavam em sua pior crise, próximos do fim. Mick Jagger anunciou que decidira pela carreira solo e até autorizou o grupo a organizar uma turnê sem ele.
Não só comunicou os companheiros a respeito, como também os principais tabloides ingleses. Sem meias palavras, disse ao mundo que os Stones sem ele não existiam, mas que ele brilharia sem os Stones.
Nada deu certo conforme ambicionara. A turnê solo foi um desastre e Jagger, mais tarde, teve de voltar ao grupo para se reencontrar como músico.
Richards aproveitou a parada dos Stones para realizar projetos pessoais. Um deles foi armar a grande volta de Chuck Berry aos palcos, em comemoração ao seu 60º aniversário.

Berry andava esquecidíssimo a essa altura. Ainda assim, o guitarrista dos Stones teve de enfrentar escaramuças atrás de escaramuças para tratar com o gênio difícil do homenageado.
Entre outros caprichos, Berry quis que fossem usados seus próprios amplificadores nos dois concertos que planejaram, porém exigiu que a produção do show pagasse pelos aluguéis dos equipamentos.
Isso deixou Richards puto. O show era para tirá-lo do ostracismo e lá estava ele querendo ganhar dinheiro em cima dos próprios equipamentos!

O pior é que Berry começou a chamar músicos menores para tornar a coisa toda “mais barata”. Aí Richards encrespou. Não só impôs a contratação de músicos de alto nível, como exigiu que o pianista Johnnie Johnson, que a essa altura voltara a tocar blues em casas noturnas do Sul, fizesse parte.
Realizaram dois estupendos concertos em outubro de 1986. Segundo os músicos mais próximos de Berry, aqueles foram os melhores shows de sua carreira.
Entre os artistas que se apresentaram com ele estiveram Linda Ronstadt , o próprio Keith Richards, Eric Clapton, Robert Cray, Etta James, Steve Jordan, o saxofonista Bobby Keys (dos Stones), Julian Lennon, Joey Spampinato... e seu “parceiro” Johnnie Johnson.
Johnson não só o acompanhou como arrebentou nos dois concertos e, a partir daí, passou a ter carreira solo mundo afora, embora suas parcerias com Berry nunca tenham sido reconhecidas.
Os dois concertos resultaram no álbum ao vivo Hail! Hail! Rock 'n' roll, lançado em 1987. No mesmo ano também foi lançado o documentário com o mesmo nome, dirigido por Taylor Hackford.
O filme apresenta cenas dos ensaios para os shows, entrevistas com Berry, com membros de sua família, dos músicos participantes e de vários músicos conhecidos, como Bo Diddley, The Everly Brothers, John Lennon (de arquivo), Jerry Lee Lewis , Roy Orbison, Little Richard e Bruce Springsteen.
Também foram registradas as brigas hilárias de Berry e Richards nos bastidores.
A seguir, cenas do documentário:



Conversa entre Berry e Robbie Robertson, do The Band, também do documentário:
 


Johnnie Johnson ao piano, já reconhecido internacionalmente como grande músico de rock, blues e jazz:
 


E mais...
Canja dos Stones num show de Muddy Waters, em 1981, em um clube de Chicago:



Keith Richards e Jerry Lee Lewis num show deste de 1983:


Para encerrar, alguns da trupe da segunda grande explosão do rock'n'roll (George Harrison, Ringo Starr, Mick Jagger, Bruce Springsteen, Billy Joel, Jeff Beck, Bob Dylan, John Fogerty e outros) reunida no mesmo palco, em 1988, em New York:


4 comentários:

  1. O Willie Dixon também foi co autor de algumas músicas não creditadas.Na autobiografia do Keith Richards ele cita o fato num encontro que teve com Dixon.

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  2. Obrigado pelo acréscimo de informação.

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