sábado, 22 de julho de 2017

Mulatos democráticos


Gilberto Gil, em um vídeo disponível pelo YouTube, conta como ele e Chico Buarque compuseram a canção Cálice. Fala sobre a escolha das metáforas fortes e de outras referências que os levaram a elaborar a letra e a melodia juntos, da forma como ficou.
Gil vem de família do Recôncavo Baiano, como seu companheiro do movimento tropicalista Caetano Veloso. Tiveram ambos educação severa, mas liberal, com apreço pela boa educação, cordialidade e serenidade ao se expressar. A certa altura do vídeo, o compositor diz que até hoje se encrespa ao cantar o refrão de duplo sentido: “Pai, afasta de mim esse cálice...”
Conta que sempre que o entoa sente desconforto pelo tom impositivo, que é o oposto do seu modo de pensar tolerante e ponderado. Ainda mais por se referir ao "pai", seja como figura divina ou como o pai propriamente, já que ele e seu pai de verdade, um médico, se davam muito bem.
O compositor diz no vídeo que essa coisa de mandar Deus ou quem quer que seja se calar nunca lhe moveu as ideias e, por isso, até hoje não gosta da canção tanto quanto seu público. Por fim, cita um ou outro verso que também lhe causam certo mal-estar ao cantá-la, por destoarem do que realmente sente e pensa.
Para quem quiser conferir, segue o link do vídeo:


Um dos álbuns mais intrigantes de Caetano Veloso é Araçá azul, lançado em 1973. É oposto a Transa, de dois anos antes, este um disco muito bem definido, com repertório redondo e músicos de primeiro time.
Em Araçá azul tudo é experimental e até um tanto improvisado. Um disco comparável ao que foi o álbum duplo branco e preto dos Beatles, de 1968, também experimental e pouco convencional no conjunto da produção do grupo britânico.
Caetano gravou Araçá azul sozinho em estúdio. Uma das faixas é a canção-colagem Sugar cane fields forever, na qual o compositor cita a composição dos Beatles Strawberry fields forever. A canção de Caetano diz num trecho:

“Sou um mulato nato
No sentido lato
Mulato democrático do litoral”...



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beligerância do ser (conto)


            Tragédias são instantâneos da realidade destinados a serem esquecidos, seja qual for a proporção. Quanto mais expressivas, efêmeras. Há pessoas que a elas se dão, outras procuram a todo custo evitá-las. Também há os quem têm mórbido prazer de especulá-las. Porém poucos são aqueles que se presta a esboçá-las antes que aconteçam, como Davi Burliesco, o “repórter do futuro”. Gente como Burliesco dá voz às vicissitudes do incomum e acaba escrava de um estigma.

            Não é fácil conviver com essa capacidade de antecipar situações que incidam sobre as vidas de outros. É como se essa faculdade tão peculiar lhe imputasse certa dose de cumplicidade com o que está por vir. Quando enfim a previsão se consuma, é tomado por atávica impotência e sofre silenciosamente ao comprovar que o destino consumiu de verdade os que foram abarcados por suas premonições.

            Como último recurso, Burliesco empenha-se para que a memória dos que sucumbiram não desapareça sem deixar vestígios. Faz o que pode para que suas lembranças persistam. Infelizmente, a realidade é provida por uma lógica sinistra que caminha noutra direção. E tende a relegar ao esquecimento a existência daqueles que já se encontram ausentes, muitas vezes minutos após a ocorrência. Tal como se limpa o lixo de uma casa, o presente se desfaz daqueles que já não se encontram a mercê de seus desígnios.

            As recordações dos que já se foram dão lugar aos novos acontecimentos, que ao entrarem em evidência empurram para fora do cenário os que há pouco o precederam. No caso das tragédias, centelhas do que foram os vitimados persistem por algum tempo nas mentes dos mais próximos; ainda assim numa esfera fronteiriça, com um rito de passagem que nunca se complementa. As adversidades sob as quais sucumbiram os lançam na alienável travessia para um plano do qual se sabe que nunca terão retorno.

            Nesse campo transitório de ocorrências mais ou menos impactantes – e que estão por vir – atua o principal colunista do Diário do Amanhã, site comandado pela austera editora Ana Colutus. O “repórter do futuro” Prediz o aleatório, na medida de sua capacidade de apreendê-lo; uma profissão tão incomum quanto pouco qualificável. Narra episódios conforme vêm à mente, com desprendimento, humor e picardia. A população segue atenta aos episódios por ele narrados, porque sabe que de alguma forma ocorrerão. Graças a Burliesco, o Diário do Amanhã é um dos sites mais acessados em Madreincitá e até dá a impressão de que o jornalismo ainda existe e pode ter sua importância em nossos dias.

            Mais uma madrugada se encerra. Logo, o frenesi diurno imporá seu turbilhão de ruídos e movimentação insensata de veículos, pessoas. A redação do Diário do Amanhã se encontra no momento vazia, pois há pouco foram para suas casas os repórteres e profissionais do período noturno. Dentro de meia hora começará a chegar a leva do diurno. Entre os que trabalharam à noite, somente Burliesco continua de pé. Ultimamente não deixa a redação por nada.

            Será por que a realidade e seus instantâneos nunca cessam? Realmente, os acontecimentos de impacto, conforme ele os narra, se sucedem num moto-contínuo circunstancial, qual se tivessem por trás mecanismos ocultos para encadeá-las numa rede factual predeterminada. Parece ser essa a lógica oculta que Burliesco obstinadamente persegue. Razão pela qual quase nunca dorme; trabalha até o quanto seu corpo permite, no limite entre a razão e o delírio...