sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beligerância do ser



            Tragédias são instantâneos da realidade destinados a serem esquecidos, seja qual for a proporção. Quanto mais expressivas, efêmeras. Há pessoas que a elas se dão, outras procuram a todo custo evitá-las. Também há os quem têm mórbido prazer de especulá-las. Porém poucos são aqueles que se presta a esboçá-las antes que aconteçam, como Davi Burliesco, o “repórter do futuro”. Gente como Burliesco dá voz às vicissitudes do incomum e acaba escrava de um estigma.
            Não é fácil conviver com essa capacidade de antecipar situações que incidam sobre as vidas de outros. É como se essa faculdade tão peculiar lhe imputasse certa dose de cumplicidade com o que está por vir. Quando enfim a previsão se consuma, é tomado por atávica impotência e sofre silenciosamente ao comprovar que o destino consumiu de verdade os que foram abarcados por suas premonições.
            Como último recurso, Burliesco empenha-se para que a memória dos que sucumbiram não desapareça sem deixar vestígios. Faz o que pode para que suas lembranças persistam. Infelizmente, a realidade é provida por uma lógica sinistra que caminha noutra direção. E tende a relegar ao esquecimento a existência daqueles que já se encontram ausentes, muitas vezes minutos após a ocorrência. Tal como se limpa o lixo de uma casa, o presente se desfaz daqueles que já não se encontram a mercê de seus desígnios.
            As recordações dos que já se foram dão lugar aos novos acontecimentos, que ao entrarem em evidência empurram para fora do cenário os que há pouco o precederam. No caso das tragédias, centelhas do que foram os vitimados persistem por algum tempo nas mentes dos mais próximos; ainda assim numa esfera fronteiriça, com um rito de passagem que nunca se complementa. As adversidades sob as quais sucumbiram os lançam na alienável travessia para um plano do qual se sabe que nunca terão retorno.
            Nesse campo transitório de ocorrências mais ou menos impactantes – e que estão por vir – atua o principal colunista do Diário do Amanhã, site comandado pela austera editora Ana Colutus. O “repórter do futuro” Prediz o aleatório, na medida de sua capacidade de apreendê-lo; uma profissão tão incomum quanto pouco qualificável. Narra episódios conforme vêm à mente, com desprendimento, humor e picardia. A população segue atenta aos episódios por ele narrados, porque sabe que de alguma forma ocorrerão. Graças a Burliesco, o Diário do Amanhã é um dos sites mais acessados em Madreincitá e até dá a impressão de que o jornalismo ainda existe e pode ter sua importância em nossos dias.
            Mais uma madrugada se encerra. Logo, o frenesi diurno imporá seu turbilhão de ruídos e movimentação insensata de veículos, pessoas. A redação do Diário do Amanhã se encontra no momento vazia, pois há pouco foram para suas casas os repórteres e profissionais do período noturno. Dentro de meia hora começará a chegar a leva do diurno. Entre os que trabalharam à noite, somente Burliesco continua de pé. Ultimamente não deixa a redação por nada.
            Será por que a realidade e seus instantâneos nunca cessam? Realmente, os acontecimentos de impacto, conforme ele os narra, se sucedem num moto-contínuo circunstancial, qual se tivessem por trás mecanismos ocultos para encadeá-las numa rede factual predeterminada. Parece ser essa a lógica oculta que Burliesco obstinadamente persegue. Razão pela qual quase nunca dorme; trabalha até o quanto seu corpo permite, no limite entre a razão e o delírio.
            Até os trinta anos foi outra pessoa. Um artista de vanguarda, cuja sinopse autobiográfica consta em todas as enciclopédias de consulta. Um misto de pintor, poeta, cineasta, dramaturgo e demiurgo. Veio de família proeminente. Antes de se tornar celebridade estudou na França, Alemanha, Itália e, por fim, Grécia. Ao retornar ao país, casou-se com uma moça da alta sociedade, com a qual teve um filho. Os dois saíam nas colunas sociais como o casal mais belo e apaixonado da cidade. Segundo alguns, o eram de fato. Até a mulher e o filho pequeno sucumbirem em um desastre aéreo. Depois disso, Burliesco desapareceu de cena, recluso em sua dor.
            Ressurgiu das cinzas vinte anos depois, como colunista do Diário do Amanhã, que o anunciou como tal como é conhecido: o “repórter do futuro”, aquele que antevê os fatos. Por que caiu nas graças do público? Em primeiro lugar, porque suas premonições têm natureza diversa. Além de acontecimentos trágicos, envolvem crimes de corrupção, atentados terroristas, catástrofes naturais, acidentes, reviravoltas na economia, vexames esportivos, escândalos de celebridades, entre outros.
            Suas narrativas premonitórias permeiam todas as seções editoriais do site. Com uma única e essencial diferença em relação aos demais repórteres e colunistas: enquanto aqueles publicam notícias ou comentários sobre o que ocorreu, Burliesco chama a atenção para o que está por vir. Seu público, cada vez mais numeroso, teve várias oportunidades de comprovar que o que sai de seus vaticínios é perfeitamente possível.
            Na alvorada de um novo dia, a rigorosa editora Ana Colutus se depara com Burliesco concentrado diante de um pequeno espelho a desenhar arabescos na própria face. Uma mania da época em que era artista plástico. O que deixa a editora muito contrariada. Quando faz isso, teme que lhe volte o interesse pelas artes e deixe de realizar aquilo no que realmente é muito bom. Ana gostaria de encontrá-lo em plena atividade, dedicado a abastecer o site com novo episódio premonitório de impacto. Sem sequer lhe dar bom-dia, ela já chama sua atenção:
– E aí, Davi, não é hora de publicarmos algo?
O “repórter do futuro” boceja evasivo.
– Estou sem inspiração.
A editora insiste:
            – Só se espanta a indolência com labor, meu caro. Vamos lá, ponha-te a narrar algo que desperte teus poderes oraculares.
            – Já disse que não tenho poder algum. Os acontecimentos me encontram e deixo que suas revelações me guiem.
            – Você não anteverá nada se não começar a trabalhar. 
            – Eu já estou trabalhando.
            – Não parece.
            – Distraio-me por alguns minutos para receber lampejos de fatos futuros. Sinto que estão por aí, muito próximos... embora ainda não os tenha captado.
            – Lampejos?! Não me venha com besteira. Faz mais de quinze anos que você deixou de ser um intelectual. Sem essa de estética, psicologia ou sociologia por aqui, meu caro. Jornalismo de autoria, então, nem me fale. Exauriu-se no momento em que deixou de ser impresso.
            – Não precisa repetir isso. Conheço essa lenga-lenga tão bem quanto você.
            – Então não me force a lembrá-lo de que é preciso muito trabalho para manter este site interessante.
            Depois de Ana Colutus, a segunda pessoa do turno diurno a aparecer é a secretária Maura Alice. Entra toda lépida, de banho tomado, com o decote evasivo cheirando Anais Anais. Burliesco inspira profundamente, mira aqueles pares de seios quase à mostra e fica instantaneamente alienado, como se tivesse entrado em transe. Parece-lhe que os seis da secretária estão prestes a saltar fora do pouco tecido que os cobre. Não, não pode pensar tanto sobre a dona daqueles seios. De modo algum! Vai que lhe vem à mente algum lampejo premonitório. Que nenhuma ocorrência trágica os ponha em risco. Ana Colutus nota o quanto Burliesco fica transtornado após a entrada de Maura Alice e a interpela:
            – Senhorita, por favor, seja breve! Já disse para não atrapalhar a concentração dos meus profissionais.
             Toda eufórica, a secretária desconversa:
            – Chegaram mais pedidos de anúncios.
            Ana Colutus se entusiasma:
            Oh, dona Maura Alice, é sempre muito bom ouvir isso. Quantos?
            – Até o momento são vinte e sete, sendo doze só para a seção do Davi. Acho que teremos de rever algumas abas editoriais para encaixá-los todos. Posso marcar uma reunião com a equipe de arte?
            – Claro. Trate de agendar já. Tão logo termine a conversa com Burlesco, irei à sala de reuniões para ter uma conversa com os rapazes.
            Maura Alice faz cara de sofrimento:
            Não vi nenhum deles até o momento...
            – Aqueles vagabundos na certa estão fumando maconha com os manobristas do estacionamento. Chame-os à sala de reuniões e peça para que não tirem os traseiros fedorentos de lá até que eu consiga pôr esta criatura para trabalhar.
            Burliesco continua diante do espelho a desenhar arabescos na própria face e faz de conta que o assunto não tem nada a ver com ele. Mas Maura Alice tem algo mais a dizer:
            – Há outro probleminha, chefe.
            A editora ficar impaciente.
            – O que é desta vez?
            – O Berardi Milazzo... aquele escritor que manca de uma das pernas... telefonou para avisar que virá receber certa quantia.
            – Quantia?!
            Maura Alice ri fingidamente nervosa.
            – A senhora deve ter se esquecido daquela denúncia de plágio...
            – Deus do céu, esse Milazzo é um piolho de saco. Não desiste! Tudo o que fizemos foi promover o trabalho dele... que, cá para nós, é uma merda. Lá vem ele nos chantagear mais uma vez. Na certa acha que nadamos em dinheiro.
            Burliesco:
            – Por falar em dinheiro, quando você vai me pagar?
            Ana nem responde. Volta a se dirigir à secretária:
            – Algo mais, senhorita?
            – Com sua licença.
            – Por favor.
            Depois que Maura Alice se retira a editora volta-se enfaticamente para Burliesco:
            – Não podia ser mais discreto?
            – O que fiz de errado?!
            – Já te disse milhões de vezes que questões salariais são tratadas entre nós dois e mais ninguém. Você é o maior salário deste site. Ganha uma exorbitância! Não posso falar sobre acertos com você na frente dos demais.
            – Exorbitância?! Mas eu não ganho é nada!
            – Você já deveria, sim, ter produzido um novo episódio. O último entrou às duas da madrugada. Estamos há quase cinco horas sem publicar uma premonição. Isto aqui é ou não é o Diário do Amanhã?!
            – E quando vamos tratar do assunto dinheiro? Trabalho dia e noite há meses, sem parar. Nem tenho mais ideia de quanto tempo faz que não deixo a redação. Faço as refeições aqui, defeco aqui, durmo aqui... tudo aqui. E continuo sem um centavo para alugar um cantinho só meu. Não mereço isso!
            – Você recebe quinhentos reais por semana. Deveria se dar por satisfeito. São raros os profissionais de comunicação que ganham isso hoje em dia.
            – Mas cadê esses quinhentos reais?
            – São abatidos do que você me deve.
            – E quanto te devo no momento?
            – Cinquenta mil.
            – Não acredito!!!
            – Lembre-se de que limpei teu nome na Receita Federal. Teu salário vem sendo abatido do que tive de gastar na época.
            – Aquela dívida da Receita era de apenas vinte mil reais. Em lugar de ter diminuído, aumentou para mais que o dobro!
            – Você é tão inteligente para umas coisas, mas completamente estúpido para outras. Lembre-se de que também me deve por usar o espaço do site para publicar o que escreve em teu nome. Isso está no nosso contrato... é só ler com atenção.
            – Você nunca me deu cópia do contrato.
            – Só não te dei porque você não me pediu. Há uma cláusula lá que diz que você tem de pagar pelo aluguel do espaço editorial todas as vezes que publicar algo em teu nome. Ou você acha que este site me sai de graça?
            – Acabei de ouvir a Maura Alice falar do aumento de anúncios. Disse que nesta edição haverá doze novos só para a minha coluna. Não é o caso de destinar parte do faturamento para o meu bolso?
            – Deixe de ser sonso! Acione logo o software de transcrição e trate de prever um novo episódio. Se conseguir bolar algum, depois falamos nisso.
            Burliesco boceja e se senta diante do equipamento de trabalho:
            – Que se há de fazer, não é mesmo?
            Estala os dedos de forma característica e dá início à narrativa. Começa a contar que todas as manhãs, ainda escuro, certo alguém sairá de casa para levar a esposa até uma avenida próxima de onde moram.
            Ana Colutos:
            – Certo alguém... numa avenida... nada tem nome nessa porra?!
            – Calminha. Mas comecei a contar e você já vem com um presta atenção. Espera até que eu chegue lá.
            – Dê logo um nome ao sujeito e à avenida perto de onde o casal mora, para que os leitores comecem a identificá-los. Precisamos da participação do público!
            – Chamemos o camarada de Olegário Turvo.
            – Não tem outro nome menos afetado?
            – Sossegue, chefinha, você logo verá que faz sentido. Bem, o Olegário Turvo estará caminhando com a esposa a um ponto da avenida... avenida Desembargador Furtado.
             Segundo Burliesco, o homem acompanhará a esposa até um ponto da avenida para que esta pegue carona no veículo de uma colega até o local de trabalho. Faz isso diariamente. E sempre leva consigo aquele seu enorme cacete. Ficou muito traumatizado em certa época, após ter sido vítima de um assalto. Por isso só sai de casa munido com aquele... cacete. Ana Colutus:
            – Há quantos anos o cidadão foi vítima do assalto?
            – Quatro... talvez mais... ainda não sei ao certo.
            Desde então Olegário Turvo não larga o... cacete. A editora esbraveja:
            – Pare de falar no cacete do homem e mantenha coerência com o que for narrado daqui por diante.
            Burliesco:
            – Você está me atrapalhando!
            A editora acende um cigarro e faz sinal para que ele prossiga. O “repórter do futuro” conta que há coisa dois anos Olegário Turvo foi forçado a se aposentar por consequência de um surto; decorrente dos mencionados traumas do assalto. Repentinamente, como se estivesse a ver ou a ouvir coisas, tomou o revólver de um segurança do local onde trabalhava e o fez refém. O prédio foi cercado pela polícia. A negociação se estendeu. De forma muito confusa, porque não se sabia ao certo o que ele queria. Horas depois, Olegário finalmente entregou a arma, sem conseguir explicar de forma condizente porque fizera aquilo.
            Internaram-no em uma clínica psiquiátrica particular. Depois que teve alta não foi aceito de volta ao trabalho e teve de se aposentar por invalidez. Os vizinhos asseguram que se tornou então um homem muito problemático. Passou a ter postura agressiva com todos e não se desgruda daquele... cacete. Não se trata de um cacete qualquer. É de madeira maciça, compacto e pesado como um taco de basebol. Sua própria esposa teme, com razão, aquele... cacete.
            Ana Colutus suplica:
            Davi, mencione menos o objeto.
            Até o assalto e o consecutivo surto psicológico, Olegário fora um esposo dedicado, afetuoso com os filhos, inteiramente devotado à família. Fazia o tipo do marido pacato do qual qualquer esposa se orgulha. O problema é que após a alta da clínica psiquiátrica passou a querer controlar a todos. Tornou-se inflexível, exigindo tudo a seu modo. Tornou-se mais obsessivo. Nem as idas periódicas ao terapeuta que o acompanhava e as muitas medicações que tomava todos os dias pareciam amenizar a fixação por querer dominar os entes mais próximos.
            Mas o pior de tudo era viver agarrado àquele... cacete. Que os leitores compreendam o colunista, mas não há como não falar do... cacete. Evidente que sua esposa morre de vergonha de andar ao lado dele com aquilo exposto. As pessoas olham assustadas. Ela tem pavor de encontrar conhecidos quando está com ele e o... cacete. Muitas vezes tentou em vão chamá-lo à razão. Se um assaltante o abordasse com uma arma de fogo, como é comum nos nossos dias, de que valeria o cacete? Para nada!
            Desde que lhe ocorrera aquilo, é muito difícil convencê-lo. Quando quer algo, ninguém o faz mudar de ideia. Solicitou porte de arma à Polícia Federal, que não autorizou, sob alegação de que não tinha aptidão psicológica. Ainda bem. Caríssimos leitores, até aqui o narrador fez breve apresentação sobre apenas um dos personagens do episódio. Voltemos os olhos para as futuras ações, para que os demais entrem em evidência.
            Em algum momento do futuro de sua vida, Olegário estará acompanhando a esposa até a avenida para que esta pegue a costumeira carona até onde trabalha... ele munido do cacete... e algo de estarrecedor ocorrerá. Após minutos de espera, a amiga de sua esposa encosta o veículo para apanhá-la. Enquanto se despede de Olegário, a esposa terá a sensação de que algo de muito ruim está para ocorrer. Nem conseguirá se concentrar na conversa da colega, que fala sobre os problemas financeiros da empresa. Dada à impossibilidade de Olegário voltar a trabalhar, evidente que a esposa também deveria ficar preocupada com a perspectiva de que a organização encerre as atividades e venha a perder o emprego.
            Seguem-se quarenta minutos paradas no trânsito. A esposa ficará intrigada ao ouvir um ruído de sirene de ambulância a rasgar o corre-corre daquela manhã. Indício de que alguém precisa de cuidados urgentes em alguma parte da cidade. Fará o sinal da cruz para afastar os pensamentos ruins. Sua colega continua a falar dos problemas da empresa; ao mesmo tempo em que dirige, atende o celular, consulta a agenda, faz ligações telefônicas, digita respostas e passa maquiagem se vendo no pequeno espelho embutido no quebra-sol. Seus comentários são dos mais pessimistas.
            Naquele mesmo momento dessa manhã do futuro, em seu vasto apartamento no centro de Medreincitá o deputado Clemêncio Barbosa também terá a concentração atrapalhada pelo ruído melancólico da ambulância. O veículo ficará parado no engarrafamento do concorrido semáforo abaixo de sua janela e persistirá com a sirene acionada a toda altura, a pedir passagem. Ao volante, o paramédico que a dirige fala alto pelo telefone com alguém. Pede aos gritos detalhes de onde fica o endereço para onde se dirige; mas não consegue ouvir quase nada devido à barulheira do seu próprio veículo. Demora a entender que se trata da avenida Desembargador Furtado.
            No alto do seu apartamento, o deputado Clemêncio ouvirá tudo o que ele diz. O motorista pede detalhes para avaliar se é preciso recorrer a apoio de mais veículos. Sempre aos gritos, pede também informações precisas da altura da avenida em que ocorreu o incidente, para que possa acionar o localizador GPS. O deputado desiste de escrever. Irritado com a balbúrdia, encosta a janela para abafar parte dos ruídos e irá à cozinha apanhar uma xícara de café. Que falta de bom senso gritar ao telefone àquela hora da manhã!
            O deputado se sente muito cansado. Desde as duas da madrugada vem tentando redigir o discurso que apresentará no dia seguinte à Câmara dos Deputados em Diteincitá. De início até pensou em improvisá-lo, mas começaram a lhe vir tantas ideias e considerações que achou melhor levá-lo por escrito para ler na íntegra à plenária. No texto defende medidas enérgicas e radicais de combate à violência. Essa é a maneira de Clemêncio Barbosa tirar a atenção da mídia sobre suas principais atividades políticas de bastidores.
            Seu empenho maior como parlamentar é junto à Comissão Nacional de Zoneamento Metropolitano, por meio da qual procura alterar as restrições da legislação ambiental vigente aos novos empreendimentos imobiliários. Evidente que isso não pode vir a público. Digamos que não poderiam, porque o Diário do Amanhã, por meio desta reportagem, agora as revela de primeira mão a todos os leitores. O certo é que Clemêncio Barbosa ao defender a redução etária para a maioridade penal se expõe por questão que nada tem a ver com o que de fato representa como político.
            O deputado tem uma preocupação pessoal que mexe muito mais com sua consciência do que as maracutaias políticas: a enteada Clara. Quando desposou a socialite Virgínia Stricer, esta já tinha a menina. Clara é da mesma idade da filha legítima do deputado, Semíramis, do seu casamento anterior. Infelizmente a pobrezinha da enteada é rejeitada pelo canalha do pai. E talvez por isso tenha se envolvido com o consumo de drogas.
            Clemêncio ama muito a menina, mais até que Semíramis, sua filha legítima. Sofre quando pensa em sua situação. “Clarinha”, como ele a chama, tem passado dias ausentes de casa. Retorna acabada, embora sempre com algum fio de beleza e doçura em meio aos estragos causados pelo vício. O pior é que os interesses escusos daqueles que o deputado representa no Congresso Nacional não só colaboram com o aumento da violência na cidade, como favorecem a disseminação das substâncias das quais sua protegida se tornou dependente.
            O “repórter do futuro” Davi Burliesco agora trabalha com afinco em sua divisória na redação do Diário do Amanhã. Mas de repente solta um bocejo barulhento e interrompe a narrativa como se tivesse sido tomado por um súbito desvio de personalidade. Fica com o olhar passado, vazio, observa as teias de aranha na conjunção da parede com o teto, distrai-se por alguns segundos e só então percebe que a atenta editora Ana Colutus não tira os olhos dele.
            Esta está à espera que ele dê prosseguimento ao episódio. Ocorre que Burliesco perdeu o fio da meada e não se lembra de nada do que vinha narrando. Tenta manter a aparência de que tudo está sob controle, apanha um copo com água vazio e o leva a boca para disfarçar. Mas nada, nada de o fio da meada voltar. Finalmente se lembra da ideia de amarrar o enredo ao som da sirene da ambulância e comenta a respeito cm Ana Colutus:
            – Você entendeu a analogia?
            – Sim, mas me parece um artifício um tanto tosco.
            – É preciso imaginação para que as coisas ganhem forma, minha cara. Tomara que pelo menos os leitores compreendam isso.
            – Digamos que seja uma boa ideia ter a sirene como eixo de amarração. Mas o que ocorrerá em seguida? É isso o que eu e todas as pessoas lúcidas desta cidade estamos à espera. Que tal se você nos contemplasse com os devidos desdobramentos?
            – Já vai, chefe. Já vai!
            Na mente de Burliesco as coisas estão longe de se clarearem. Paira pelos seus neurônios a névoa da indefinição. Há minutos tinha diferentes alternativas para prosseguir, porém lhe veio esse lapso momentâneo e agora não se lembra de nem dos nomes dos personagens envolvidos na trama. Ana Colutus está desconfiada e Burliesco faz tremendo esforço para disfarçar. Procura manter-se calmo, mas seu coração palpita apreensivo, lançando jatos de adrenalina na corrente sanguínea. Felizmente a secretária Maura Alice reaparece para relaxar o clima. Quase tem o ímpeto de se lançar de cara entre suas protuberâncias volumosas para chorar copiosamente toda sua angústia. A secretária dirige-se a Ana Colutus:
            – Chefinha, os rapazes da equipe de arte já estão na sala de reunião e também há dois senhores aguardando na recepção.
            – Aguardando quem, a mim?! Minha cara, sou eu quem autoriza a quem devo ou não receber.
            – São aqueles policiais ridículos... o alto e o baixinho. Talvez queiram...
            Faz sinal com os dedos para sugerir que vêm receber propinas.
            – Que esperem, dona Maura Alice. Que esperem! Enrole-os por quanto tempo que for necessário.
            Burliesco:
            – Chefe, sugiro que vá atendê-los. Esses meganhas têm pouca tolerância. Quem sabe se na tua ausência eu consiga um pouquinho de sossego para continuar episódio de onde parei.
            – Mas é justamente por isso que ainda não saí daqui. Estou curiosa para saber o que ocorrerá com a ambulância. E não só! O que ocorrerá com o Olegário e o... tal cacete? Com a mulher dele e a colega fuxiqueira com quem ela pega carona. Com o deputado e a enteada dependente de drogas. Lembrou-se agora de todos? Isso é que dá fumar tanto Skank!
            A editora-chefe anda de um lado para o outro irritadíssima.
            – Davi, tenha a bondade de apanhar o cacete do personagem, metê-lo nas mãos do cujo e fazê-lo dar umas bordoadas na cabeça de alguém. Não é isso que ocorrerá pela frente?
            Maura Alice se retira e Burliesco confessa à editora-chefe:
            – Fico com déficit de atenção por causa dela.
            – Já percebi.
            – Mas não é pelo que você está pensando. Sempre que a vejo me vem à mente um assunto que muito me interessa.
            – Seja explícito!
            Faz sinais com os dedos para imitar o gesto de Maura Alice ao se referir a dinheiro.
            – O que mais me estimula a escrever é o que menos tenho na carteira há meses. Daí por que ando tão pouco inspirado.
            – A verdade é que você perdeu o fio da meada, está tentando retomar o episódio há uns vinte minutos e não faz ideia de como prosseguir. Volte os fatos já registrados no software de transcrição. Veja lá o que você prescreveu até o momento e haverá de se lembrar.
            – Ah, parece que os sinais estão voltando. Já consigo ouvir com distinção o ruído excitante da ambulância.
            – Você acha mesmo que uma ambulância emite ruídos excitantes?! Teus vícios estão te enlouquecendo. Pare de fumar aquela porcaria e mire-se exemplo do Graciliano.
            – Por que o Graciliano?!
             – Seja como ele. Breve e conciso.
            Os indícios do episódio futuro realmente voltam intensos à mente de Davi Burliesco. Ele conta que a essa altura o ruído insistente da ambulância já terá passado pela existência de outras pessoas em curso no futuro amanhecer. Terá sido escutado pela multidão que se acotovela ante a entrada da Estação de Metrô Catedral Metropolitana. Pelo desenhista de histórias em quadrinhos que registra as primeiras incursões de raios de sol do alto de um edifício em ruínas.
            Terá entrado pela janela do minúsculo apartamento de um jovem que se veste apressado para mais uma entrevista de emprego. Causará pavor ao idoso que se vê pantomímico nos reflexos da vitrine logo abaixo do prédio onde reside. Estará perfeitamente audível à moça sonolenta que retorna de uma aventura amorosa e sobe as escadas até o segundo andar do edifício. Entra no apartamento, tomo um banho ligeiro, com a maquiagem esconde a exaustão para encarar todo um dia de trabalho.
            A sirene será ouvida pelo entregador de volantes de publicidade ignorado pelos transeuntes. Pelo vendedor de churrasco grego que sobrepõe fatias de carne no espeto e sente pena dos que consumirão aquela porcaria mais tarde. Quase todos que tramitam pela região central da cidade ouvirão nessa manhã do futuro o lamento triste e ininterrupto da sirene. Todos?! Não será ouvido pelos consumidores de crack que escondem os dorsos magros sob um viaduto. Muito menos pelo corpo inerte do cão na calçada, cuja apurada percepção auditiva não fora útil para antever a fúria de um motorista apressado.
            Saldado o festival de incômodos, o barulho da sirene se esvairá cada vez mais, afastando-se da região central e das cercanias do apartamento do deputado Clemêncio Barbosa, que agora se esforça para esboçar mais um parágrafo do discurso. Seus dedos finos ficam estáticos sobre o teclado sempre que lhe volta à mente a imagem da enteada Clara. Que menina mais frágil. Mas tão linda, sensível, afetuosa e inteligente. Tivesse dez anos menos, ousaria tomá-la como esposa. Ah, se Clara pudesse ser só sua! Seria o novo alvorecer de sua vida.
            Clara sempre foi muito instável, pouco predisposta a enfrentar as dificuldades. Tudo parece predestinado a se somar aos motivos que julga conduzi-la à destruição. Ela e Semíramis, a filha legítima, tiveram a infelicidade de se apaixonar pelo mesmo rapaz. Clara, para complicar as coisas, engravidou-se do moço. Desde então Semíramis encontra-se arrasada e a culpa por sua infelicidade. Acorde, deputado! Não se deixe dispersar com questões emotivas. Já são quase oito horas e você mal terminou a segunda página do discurso. Trate de se concentrar!
            Nos bairros residenciais mais afastados por onde agora passa com seu choro evasivo, a ambulância despertará os que ainda se encontram em casa e têm o privilégio (ou infelicidade) de iniciar mais tarde o turno de trabalho. É o caso da médica Glauce Clotilde. O caos no pronto-socorro do qual é coordenadora proporcionou a ela minguadas três horas de sono. Veio usufruí-las em casa para também dar comida ao gato, ração ao peixe e regar as plantas. Acorda esbaforida com o ruído da ambulância e salta da cama achando que ainda se encontra no quarto de descanso reservado aos médicos no hospital.
            Enquanto escova os dentes, consulta o relógio. Poxa vida, poderia ter dormido mais meia hora, não fosse a maldita sirene. É inútil se deitar outra vez. Agitada como está, não conseguirá dormir. Pelo menos terá a compensação de poder passar na padaria próxima de casa para tomar um tranquilo café da manhã. Não consegue fazer isso há meses. Daqui a pouco terá de voltar àquele inferno, no qual tem hora para chegar, mas nunca para sair.
            Ao dar ré no automóvel, o celular toca, ela se distrai e raspa a lateral do veículo na coluna da garagem. Quando finalmente consegue achar o aparelho no fundo da bolsa, a ligação cai. O retrovisor se encontra desalinhado e ela raspa o outro lado do carro na face entreaberta do portão. Na saída da garagem quase atropela o filho menor da vizinha quando este sai de casa correndo rumo à escola. Glauce segue pelas ruas em zigue-zague. Enquanto dirige, consulta mensagens pelo celular. Quarteirões adiante verá um estranho acúmulo de pessoas na calçada da avenida, mas nem procura averiguar do que se trata.
            O celular acusa outra chamada. É doutor Cafrando que liga do pronto-socorro todo esbaforido para pedir... socorro. Faz rápido panorama da situação: há um sujeito esfaqueado, três garotas vítimas de um acidente de carro (uma delas em estado grave), um rapaz que cortou uma das mãos com uma serra elétrica, um sujeito em surto que acabou de assassinar a própria mãe, um rapaz atropelado sem documentos, outro que caiu do mezanino do escritório e parece ter fraturado uma das vértebras.
            Dezenas de estropiados, um pior que o outro e somente ele, há 15 horas sem dormir, para atender a todos. Glauce desiste do café da manhã e promete ao colega que em vinte minutos estará por lá. Quando tenta fazer o retorno no primeiro balão, passa com um dos pneus por cima da sarjeta e quase capota o carro. Várias de suas contas estão vencidas e não tem como pagá-las. A Prefeitura nem sinalizou quando depositará os salários atrasados.
            Na qualidade de coordenadora do pronto-socorro, representou o hospital em recente reunião do Conselho Municipal de Saúde, constituído por pessoas meio gagás obcecadas por aquilo que é do interesse das instâncias que representam. Como em outras reuniões, foi apresentada uma infinidade de pautas sem qualquer perspectiva de encaminhamento prático. Horas de discussões para nada. Enquanto isso os problemas bombam no pronto-socorro, que só tem a ela e ao pobre do Cafrando para segurar as pontas. Falta de tudo por lá, principalmente médicos.
            Glauce não vê a mãe idosa há semanas. Precisa enviar sua parte do dinheiro para que a irmã providencie a compra de medicações e pague os cuidadores. Mas até evita telefonar, pois não faz ideia de quando receberá o que a prefeitura lhe deve. Seu irmão mais novo ligou há dias para reclamar. Ela se encontrava em meio a um atendimento de emergência. O irmão a acusou de só querer saber de cuidar da saúde de estranhos e ser relapsa no que diz respeito aos cuidados com a mãe. Felizmente a ligação caiu e nenhum dos dois a retornou.
            Sente-se cada vez mais martirizada, destruída pelas demandas e incertezas do trabalho. Quaisquer questões relativas à vida pessoal perdem importância frente às situações pelas quais tem de se empenhar como uma louca todos os dias para achar solução. Até quando conseguirá se submeter a tudo isso? Talvez só venha a ter sossego quando tiver partido desta vida de maneira tão brutal e trágica quanto os muitos pacientes atendidos por ela e Cafrando todos os dias.
            Nesse tempo futuro a que os leitores têm conhecimento por meio desta narrativa premonitória, o motorista da ambulância diminuirá a velocidade e desligará finalmente a sirene após o GPS apontar que acaba de chegar ao local da ocorrência. Verá a distância um aglomerado de pessoas na calçada. Um policial militar sinalizará onde deve parar, mas não o atenderá de propósito. É antiga a rixa entre policiais militares e paramédicos. Estes acham os PMs uns petulantes que pensam que podem mandar em tudo.
            O motorista encaminha a ambulância na direção de um vulto coberto por um plástico escuro, em torno do qual há maior aglomeração de curiosos. Só pode ser a vítima. Com o veículo posicionado, ele e o paramédico seu parceiro descem, abrem a porta traseira, apanham a maca e os demais equipamentos. Ao remover o plástico sobre a presumível vítima, seu colega observa:
            Esse negrinho tá todo espatifado, não há o que fazer por ele. Os meganhas se enganaram. Deveriam ter acionado os papa-presuntos para removê-lo.
            Um policial militar chega para esclarecer:
            Não é para esse aí que vocês foram chamados. Meu pedido é para que levem aquele lá (aponta para Olegário).
            Explica que o homem está em visível estado de choque após ter deferido pancadas no garoto. Mostra o cacete com marcas vermelhas de sangue.
            – Deu um monte de bordoadas. Várias pessoas testemunharam. Mas não adianta levá-lo ao distrito nesse estado. Não se encontra em condições de ser interrogado. E se for colocado numa cela, os outros presos vão acabar com ele.
            O motorista parece desnorteado:
            – O que você quer que a gente faça? Não somos assistentes sociais!
            O policial se encrespa:
            – Quero que levem o elemento para ser medicado, porra. Só isso! Depois a Polícia Civil passará no hospital para ver o que fazer com ele.
            Até aquele momento futuro, Olegário Turvo, o homem do cacete, fora um sujeito metódico, organizado, que gostava de ter tudo sob controle. Suas obrigações diárias eram muito bem planejadas. Trazia anotadas numa pequena caderneta as atribuições do dia. O que mais o animava era cumpri-las nos prazos estabelecidos, sem imprevistos. Desde quando lhe ocorrera aquilo – nem vamos lembrar – passou a ter crises de ansiedade ante quaisquer situações inesperadas.
            Daí por que procurava manter a vida na rotina, sem alterações. A descoberta de um vazamento de chuveiro em casa era bastante para lhe alterar o humor. Gostava dos cultos religiosos, mais por sua natureza metódica, repetitiva, do que propriamente por crença. Ultimamente, só ia somente às celebrações de padre Vicente, de perfil mais conservador, pois costumava dizer que não frequentava paróquias de padres que tivessem vergonha de usar batina.
Mantinha rigorosamente varrida a frente de casa. À empregada cabia cuidar das limpezas internas, das lavagens de roupas, do preparo das refeições, mas a frente da casa era dele, só dele. Por questões de segurança, dizia, pois se algum estranho se metesse a besta de querer invadi-la, recorreria ao poderoso cacete.
            Desde que lhe ocorrera aquilo evitava contrariedades. Esposa e filhos tinham de votar nos políticos por ele indicados. Mas ele próprio não votava, para evitar decepção caso seu candidato não fosse eleito. Não se envolvia em discussões. Até deixara de ver jogos de futebol para evitar frustrações! Tinha um único projeto de vida: ir à Terra Santa obter alguma relíquia religiosa memorável; um pedaço do Santo Sudário, uma lasca da cruz em que Cristo fora crucificado ou algo tão importante quanto da velha lista de Queiroz.
            Os dois filhos puxaram ao pai. Eram acomodados, discretos, de poucas ambições. Saíram de casa já quarentões. Um deles montou uma oficina para conserto de eletrodomésticos na própria casa onde morava com a família. O filho mais novo nem se casara e morava sozinho num pequeno apartamento da região central. Só tivera aquele emprego na agência do Correios. Causava preocupações por ter tendências depressivas e tomar pesadas medicações para os nervos.
Olegário conseguia manter vigilância cerrada sobre a esposa e os dois filhos. Sempre estava a par do que faziam. Era ele quem autorizava ou desautorizava as decisões acerca dos rumos que deveriam dar às suas vidas. Cada passo dos três tinha de ser comunicado diariamente a ele por telefone, para saber se tudo corria bem com cada um deles. A mulher, no trabalho, tinha de telefonar várias vezes ao dia para evitar que ficasse preocupado.
            Nos domingos reunia a todos para o almoço familiar após a missa. Enquanto a nora e a esposa preparavam o cardápio – sempre empadão, frango assado, macarrão com molho de carne moída, salada e vários litros de refrigerantes – ele e os filhos assistiam aos programas de auditório pela TV. Para escapar do clima de severidade que pairava pela casa, os netos brincavam no corredor ladrilhado, longe das advertências do avô.
            O televisor era muito antigo. A imagem de péssima qualidade e o sistema de som repleto de chiados. Em certa ocasião o filho mais velho quis presenteá-lo com um aparelho novo. Recusou determinantemente a oferta e até se ofendeu. Ameaçou nem tirar o presente da caixa se ele viesse mesmo a comprar o aparelho. Garantiu que preferia seguir com aquele televisor antigo, cujos comandos conhecia bem e no qual não via nada de errado.
            Olegário nunca gostou de cumprimentar as pessoas. Achava um cuidado desnecessário. Depois daquilo já não queria conversa com mais ninguém que não fosse bastante conhecido, para não ter de se envolver com os problemas alheios. Os vizinhos, para ele, era uma gente de natureza inferior. Comentava com a mulher que o filho do dono da casa à direita, o marceneiro, era usuário de drogas. A família da casa à esquerda era pior: vivia às turras, só faltando trocar tiros uns com os outros.
            Do outro lado da rua moravam uns tipos que também não lhe inspiravam confiança. Ultimamente passou a desconfiar que planejavam assaltar sua casa. Caso resolvessem fazer isso, refletia junto à mulher, é óbvio que não deixariam testemunhas. Por isso deixava o cacete bem próximo da porta de entrada, ao alcance para quando fosse atender à campainha. Se alguém tentasse algo, já se sabe o que ele faria.
            Devido às tais suspeitas, passou a não permitir que estranhos entrassem em sua casa para realizar consertos. Ele próprio tratava de solucioná-los. Para os reparos de eletrodomésticos recorria ao filho mais velho, que era um especialista. Suas desconfianças chegaram ao ponto de não se consultar com médicos. Recorria a um velho farmacêutico amigo da família a quem chamava por “doutor” Nelson. Para qualquer problema de saúde, dizia à esposa e aos filhos:
            Vá ao doutor Nelson. Remédios recitados por ele curam de tudo. É batata!
            Sua principal incumbência nos dias úteis da semana era aquela de acompanhar a esposa à avenida em suas idas e vindas ao trabalho, sempre nos mesmos horários e no mesmo trajeto. Achava-se útil fazendo aquilo. Também cuidava das compras e dos pagamentos das contas – nos mesmos dias e na mesma agência bancária. Para tudo que fosse fazer fora de casa levava consigo o... cacete. Segundo o policial que lavrara a ocorrência, o pedaço de madeira tinha peso suficiente para causar estragos a qualquer um, em especial quando nas mãos de um agressor com o bom preparo físico de Olegário.
            Fora de casa ficava extremamente apreensivo, sentindo-se altamente vulnerável, sempre com os olhos atentos às pessoas que encontrava. Todas representavam algum tipo de ameaça. Fazia mil e umas conjecturas fantasiosas a respeito daquelas com os quais se deparava com maior frequência em suas idas e vindas até a avenida para acompanhar a esposa.
O camarada que tomava ônibus fretado levava consigo uma mochila. Para Olegário, ele escondia mercadorias ilícitas. Na verdade, tratava-se de um pacato bancário que passava cerca de cinco horas por dia no trajeto até o longínquo local de trabalho. Havia dentro da mochila um notebook, algum livro para ler, uma agenda, um carregador de celular, uma marmita para economizar com gastos de alimentação e medicações para conter as crônicas crises de azia.
            O vidraceiro que mancava por ter uma perna mais curta que a outra era tido por Olegário como um sujeito perverso, que caminhava daquele jeito para dar aparência de fragilidade e, assim, dissimular o que podia fazer de ruim. A manicure que desfilava seu corpo volumoso rumo ao salão de beleza devia ser uma “mundana”, pois só uma delas usaria trajes tão curtos e justos naquele horário. Eram roupas velhas que a pobre moça emprestava da irmã mais nova, de menor estatura, para fazer a faxina no salão todas as manhãs. Terminada a faxina, vestia as roupas normais de trabalho levadas numa sacola de mão.
            Um sujeito idoso costumava parar o carro do outro lado da avenida, no posto de gasolina bem a frente do local onde Olegário permanecia à espera da carona ao lado de sua esposa. Depois esse senhor atravessava a pista para ir à padaria, de onde voltava com sacolas enormes repletas de pães. Aquilo lhe parecia muito estranho. Por que esse senhor comprava tantos pães?
            De todas as pessoas que encontrava, a que mais lhe inspirava confabulações era um negrinho de aparência agitada. Este se encontrava com ele todos os dias pela manhã voltando da padaria com uma pequena sacola com pães. Costumava andar muito rápido, balançava os braços de forma característica e tinha a irritante mania de cumprimentá-lo. Olegário, que nunca foi dado a licenciosidades, não respondia a seus acenos.
            Desconfiava que o negrinho fosse viciado em entorpecentes. Talvez aqueles pães fossem para alimentar usuários de drogas como ele, que se escondiam sob o arvoredo de uma praça próxima para fazer uso das substâncias ilícitas. Passava pelo negrinho bastante ressabiado, achando que este o cumprimentava só para ganhar confiança e apanhá-lo desprevenido, pois acreditava que os viciados adquirem drogas mediante furtos, assaltos, latrocínios. De modo que ao se deparar com o negrinho, segurava firme o cacete, pronto para se defender caso fosse necessário.
            Caros leitores do Diário do Amanhã, adiantemos a narrativa para a manhã do futuro que é objeto desta narrativa, quando Olegário encontra o negrinho mais efusivo que de costume. Àquela altura sua esposa já terá se embarcado no automóvel da colega rumo ao trabalho. Além de dizer bom dia, o negrinho vem com uma das mãos estendida na sua direção e a outra voltada para trás. Olegário pressente que tem uma arma escondida. Tão logo o negrinho fica ao seu alcance, defere nele a primeira cacetada, depois outra, mais outra, até se certificar de que conseguiu imobilizá-lo e não pode lhe oferecer mais nenhum perigo.
            Imediatamente uns homens saem do posto de gasolina aos gritos, derrubam Olegário e tiram de suas mãos o cacete ensanguentado. Não esboça qualquer reação. Outras pessoas se juntam, todas bastante enfurecidas, gritando impropérios. Só então descobre que o negrinho não tinha nenhuma arma, que talvez quisesse lhe dar a mão tão só para cumprimenta-lo. Sua alegria e agitação também nada tinham a ver com consumo de drogas. Eram meras consequências de ser portador de um déficit cognitivo.
            Por ser hiperativo, a mãe o mandava comprar pães pela manhã a fim de ter alguns minutos de sossego. Dirá aos policiais militares, entre lágrimas, que nunca imaginara que um maluco pudesse cometer com ele tamanha brutalidade. O corpo do negrinho permanece agora impassível na calçada, sem qualquer agitação.
            Enquanto o motorista da ambulância reposiciona o veículo na sua direção, Olegário continuará sentado na guia, guardado por policiais. Sente-se num vazio profundo. O que será de sua vida daqui por diante? Se for preso, quem levará e buscará sua esposa todos os dias? Quem zelará pelos filhos? Quem pagará as contas de cada mês? Quem varrerá as folhas na calçada de casa? Quem cuidará da segurança? Quem fará os consertos domésticos? Quem ajudará padre Vicente nas celebrações? Quem ligará e desligará os eletrodomésticos das tomadas para evitar danos durante as tempestades? Quem se oporá a todas essas ameaças que pairam? Quem?!
            Se ao menos lhe devolvessem o cacete... Ora, fez aquilo por puro instinto. Não podem culpá-lo pelo que aconteceu. Nem ao... cacete. Sequer teve a intenção de matar ou ao mesmo ferir aquele infeliz. Queria imobilizá-lo, apenas isso, e evidente que passou um pouquinho da conta. Não podia supor que o negrinho era um “débil mental”; se lhe contassem isso antes, a desgraça teria sido evitada. Infelizmente era sua sina ser sempre o último a saber e o último a ter razão. Depois do surto deram-lhe a mixuruca aposentadoria. Alguém veio consultá-lo para ver se estava de acordo?
            Um policial militar puxa bruscamente seus pulsos para trás, mete neles as algemas e ordena que se levante para entrar na ambulância. Obedece cabisbaixo. Por que tudo isso, meu Deus?! É tratado como um criminoso, justo ele que sempre esteve em ativa vigilância contra os marginais. Os policiais, dos quais sempre foi árduo defensor, o chamam de bandido. Pior que isso: querem deixá-lo aos cuidados daqueles enfermeiros efeminados. Um deles até fala em medicá-lo. Medicar contra o quê?! Se tiver de tomar remédios irá à farmácia do “doutor” Nelson, que é quem realmente sabe do que ele precisa.
A ambulância parte com Olegário. Novamente a sirene é acionada. Dentro de pouco tempo, Glauce Clotilde se encontrará em frente do pronto-socorro para a chegada de Olegário ao hospital. A maquiagem da médica está borrada, pois a fez enquanto dirigia o carro de casa até o local de trabalho. Dormiu menos de três horas. Já perdeu as contas de quantas horas de plantão fez durante o mês. Não há outro jeito. São quatro vagas para médicos a serem preenchidas e não consegue mais nenhum candidato. Como contratar novos profissionais se a prefeitura não paga os salários dos que já estão contratados?!
            O motorista da ambulância explica a Glauce que o cidadão algemado encontra-se surtado após ter cometido um crime gravíssimo. Ressalta que se trata de um sujeito perigoso, com o qual precisa ter muito cuidado. A médica evita perder tempo com detalhes. Diz que a função de todos ali é socorrer pessoas em situação de emergência, não importa quem sejam. O motorista insiste para que leia a cópia da ficha de ocorrência, a fim de ter noção de quem é o paciente. Glauce nem responde. Apanha a ficha e a põe na pasta dos prontuários, onde certamente será esquecida.
Olegário é transferido para uma maca do hospital. No corredor de entrada do pronto-socorro, a médica se esbarrará com os investigadores Vargas e Rufino, seus velhos conhecidos. O primeiro é alto, magro, um tanto desengonçado.  O outro é quase anão e gorducho. Vargas informará Glauce que estão incumbidos do caso do homem do cacete. A médica dirá que ainda não sabe que raios de caso é esse, pois o homem chegou sem nenhum tipo de cacete e ainda por cima algemado. Vargas esclarece:
            – Ele tinha um cacete, sim senhora. Dos grandes! A arma está no distrito. Portanto não menospreze o elemento, doutora. Já deu provas de que é um assassino frio e impiedoso.
            O policial pede a Glauce que seja ágil na atenção a ser dada ao paciente, a fim de que possam levá-lo ao interrogatório no distrito. A médica responde que ali no pronto-socorro as coisas não funcionam da forma como ele acha que devam funcionar. Rufino salienta que não podem esperar o dia todo, pois a polícia está sob pressão, visto que se trata de um caso com grande repercussão. Glauce perde a paciência:
            – Problema de vocês. Ele será examinado por um clínico geral, que sou eu, a chefe e única médica de plantão deste pronto-socorro. Depois será encaminhado ao psiquiatra, que sou eu mesma, já que não consigo contratar um médico da especialidade. Será esse o caminho...
            Rufino:
            – Peraí! Ao menos dê uma estimativa de quando podemos vir buscá-lo?
            – Sei lá!
            Vargas:
            – Pelo amor de Deus, doutora. Precisamos interrogar o elemento ainda hoje.
            – Vão ter de esperar. O paciente não será liberado como querem, pelo menos enquanto estiver sob minha responsabilidade.
            Vargas para Rufino:
            – V’ambora! Com essa doutora não tem acerto.
            Glauce:
            – Tem mais, ô salsichão... se a psiquiatra, que sou eu, decidir pela internação, o paciente ficará sob os cuidados da rede de saúde por semanas, meses, talvez anos.
            Os policiais conversam confusamente entre eles. Rufino então se volta para Glauce:
            – Passaremos a bola para o Ministério Público. A senhora que se entenda com os procuradores.
            Vargas:
            – Com licença, doutora (solta a algema de um dos pulsos de Olegário e a fixa numa das barras da maca).
            Glauce protesta:
            – Aqui dentro não é preciso mantê-lo com isso.
            – Claro que é. Se ele fugir ou agredir alguém, a responsabilidade será nossa. Manterei um dos braços livres para que o homem possa fazer as necessidades, mas tome cuidado e não deixe nada ao alcance que permita a ele ferir alguém, inclusive a senhora.
            Glauce pede a uma enfermeira para que conduza a maca de Olegário até o salão de espera do pronto-socorro, apelidado pelos funcionários de “Vietnam”. Será deixado entre centenas de outros pacientes à espera do atendimento emergencial. Naquele mesmo instante, no alto de um apartamento na área nobre de Madreincitá, o deputado Clemêncio Barbosa interromperá a redação do seu discurso justamente no trecho em que enfatiza a necessidade de nova redução da maioridade penal.
            Paralisa o trabalho para acompanhar a cobertura de um dos veículos de comunicação ao assassinato brutal do garoto negro. Nota que a tragédia, saída pouco do forno dos acontecimentos, poderá ser muito útil como exemplo a ser citado na sessão da Câmara no dia seguinte. Há duas décadas o país adotou penas mais severas para crimes cometidos por jovens acima de 16 anos. A criminalidade continuou em alta. Em nova reforma, reduziu a maioridade criminal para 14 anos. A criminalidade persistiu alta. Clemêncio está entre os parlamentares que defendem a redução para 10 anos. Um deputado contrário ao projeto ironizou na última sessão:
            Se formos seguir as recomendações dos nobres colegas, logo mais os recém-nascidos já sairão dos berçários algemados.
            Devido à sua atuação nos bastidores da política, é fundamental que Clemêncio mantenha a imagem pública de um político austero, conservador, preocupado com a moralidade e a segurança de cada cidadão. Ele e os colegas estão constantemente se digladiando na plenária, mas fora dela inexistem conflitos. Alguns dos seus adversários na plenária são seus principais parceiros fora dela. Deputados de diferentes legendas dividem as mesmas propinas.
            Clemêncio telefona para um dos seus assessores:
            – Veja o que você acha, Batista... é algo recente, quentíssimo. Se bem conduzido, pode se tornar uma prova cabal de que os jovens com mais de 10 anos precisam de um tratamento judicial à altura dos crimes que cometem. Não podem mais ser vistos como crianças, uma vez que perderam a inocência e têm noção das con­sequências dos seus atos.
            O assessor do outro lado da ligação:
            – Doutor Clemêncio, estou acompanhando o caso e me parece que o menino morto nem era um marginal.
            – Eu sei, eu sei. Com algum esforço de oratória posso fazer parecer que era.
            – Mas o menino era um retardado... digo, um deficiente mental!
            – Não pense como uma toupeira, meu caro. Esse cidadão honesto, o Olegário, era cumpridor de seus deveres, exemplar pai de família e cristão devotado. Sua vida ilibada estará arruinada daqui por diante. Ninguém mais acreditará nele. A família não terá recursos para pagar bons advogados, portanto é óbvio que será submetido a júri popular e condenado. Esse pai de família, tido agora como um cruel assassino, será lançado numa cela com bandidos de verdade, para ser tratado como se fosse um deles. Está prestes a ser linchado pela sociedade devido a uma cruel inversão de valores. Devemos mostrar que a verdadeira vítima é ele, que foi transformada em agressor. Haveremos de comprovar que esse garoto, ao contrário do que diz a imprensa, era, sim, um marginal.
            – Sinceramente não acho que devamos insistir por aí, mas é o senhor quem manda...
            – Vá por mim, Batista. Sei do que estou falando.
            Em sua longeva carreira parlamentar, Clemêncio Barbosa fez da teimosia uma virtude. Seus pontos de vista, por mais absurdos que pareçam, sempre foram defendidos com obstinada determinação, doam a quem possam doer. Ninguém na Câmara acredita que a redução da maioridade penal, por si só, vá diminuir a violência; nem ele próprio acredita nisso. Só a defende por ser um assunto polêmico, que lhe dá visibilidade e aparência de que exerce liderança conservadora como parlamentar. Você, leitor deste site, terá oportunidade de conhecer o trecho do discurso no qual o deputado fará referência ao caso aqui narrado:
            “A sociedade precisa reagir quando se ameaça um cidadão de bem, cumpridor dos seus deveres e exemplar pai de família. Logo seremos todos atacados por hordas de meninos enfurecidos, sem sequer termos o direito de nos defender, pois os próprios organismos sociais estão contra nós, os homens de bem. A população não suporta mais a impunidade desses jovens que assaltam, matam, roubam e estu­pram. A eles falta educação, religião, patriotismo, entre outros princípios. É uma gente destituída de valores, para a qual não há perspectivas de recuperação.”
            No momento presente, Ana Colutus, editora-chefe do Diário do Amanhã, bate na mesa e Burliesco, que cochilava por alguns minutos, sobressalta assustado:
            – O que foi desta vez?!
            – Mude o rumo da história, Davi. Mude isso já!
            – Isso não é uma história, chefinha. É um fato que irá ocorrer de verdade e não tenho como mascarar as evidências.
            – Então mude ao menos a forma de narrá-lo. Tem coisas no texto que me estão cheirando a merda. Já tenho problemas demais para resolver. Não quero saber de encrencas com o Legislativo, muito menos com o Judiciário. Tire já o nome do deputado, o trecho do discurso e todas as referências a seu nome. Esse sujeito pode se insurgir contra nós e fechar nosso site.
            – Não posso, chefe. Isso já foi publicado. Muitos leitores leram e não posso voltar atrás.
            – Pode, sim. Trate de apagar todas as menções ao nome do deputado. Eu exijo!
            – Só me sentirei motivado a atendê-la se retomarmos aquela nossa conversa.
            – A que catso de conversa você se refere?
            – Sobre dinheiro... money.
            Maura Alice entra com os investigadores Vargas e Rufino. A secretária procura se desculpar:
            – Pedi aos dois senhores para que esperassem, mas eles me obrigaram a encaminhá-los até aqui.
            Ana Colutus:
            – Tudo bem, senhorita Maura Alice. Darei um jeito de atendê-los.
            A editora-chefe os cumprimenta com leves apertos de mão.
            – Tomam um trago comigo?
            Rufino:
            – Não bebemos durante o expediente.
            A editora:
            – Nós, jornalistas, somos o oposto. Bebemos justamente porque estamos no expediente. Qual o motivo da visita de vocês?
            Vargas aponta para Davi Burliesco:
            – Queremos que esse idiota nos tire da história maluca que acaba de contar.
            Burliesco:
            – Assim não dá! Ninguém me deixa trabalhar em paz. Parece até que todos estão de complô contra o que faço.
            Vargas:
            – Escuta aqui, ô animal, eu e Rufino estamos numa investigação sigilosa, real e tudo que não queremos no momento é publicidade.
            Burliesco:
            – Não entendo vocês. Há momentos que quase suplicam para aparecer e agora querem anonimato.
            Ana Colutus:
            – Davi, atenda aos dois e apague qualquer referência aos nomes deles do episódio.
            – Não posso.
            – Como não pode?! Reveja os trechos a partir dos quais aparecem, reedite-os e cite-os de modo genérico, sem revelar os nomes. Também tire todas as referências ao deputado Clemêncio Barbosa. Cite-o apenas como “certo deputado”.
            Burliesco:
            – Puta que os pariu! Assim vou ter de encerrar o episódio quase sem personagens.
            Rufino para Burliesco:
            – Tem mais uma coisa... Achei de um mau gosto terrível aquela ênfase no cacete do homem e na sirene da ambulância.
            Burliesco:
            – Eu tenho de apresentar os fatos conforme me ocorrem.
            Vargas:
            – Mas é mesmo necessário todo esse realismo exagerado?!
            Burliesco:       
            – É assim que as coisas acontecem e é assim que devo narrá-las.
            Ana Colutus apanha sua bolsa e fala com os investigadores:
            – Sei do que vocês precisam para deixar meu redator em paz...
            Tira várias notas, conta-as e oferece metade a cada um.
            – Cem dólares estão de bom tamanho para vocês?
            Vargas olha rapidamente para Rufino e não pega o dinheiro.
            Rufino:
            – Não é o que pensávamos, senhora Colutus. Acho prudente termos uma conversa reservada, sem que o disparatado do teu repórter ouça o que vamos comentar.
            Ana Colutus volta a guardar as cédulas na carteira. Nesse instante entra o escritor Berardi Milazzo, seguido pela secretária Maura Alice, que fala esbaforida:
            – Fiz o possível para detê-lo, mas parece que hoje todos os visitantes decidiram invadir nossa redação.
            Ana para policiais:
            – Senhores investigadores, façam o favor de aguardar em minha sala. Vou atender rapidamente ao signor Milazzo.
            O escritor para a editora:
            – Você e o Burliesco são uns vendedores de mentiras. Uns safados! Ficam por aí em negociatas com Deus e o Diabo, para depois tirar proveito de humildes escritores de ficção como eu. Pensam que sou trouxa?!
            Ana Colutus:
            – Por favor, Milazzo, modere o linguajar e vá direto ao assunto de seu interesse.
            Maura Alice interfere:
            – Chefinha, gostaria de lembrá-la de que os rapazes da arte estão bastante inquietos, pois faz mais de hora que a aguardam para a reunião.
            Ana Colutus:
            – Minha cara secretária, eles são da casa, portanto que esperem.
            Volta-se para o visitante:
            – Signor Milazzo, a que devo a honra de tua visita?
            O escritor:
            – Com a história de hoje é o terceiro plágio que este cidadão (aponta para Burliesco) me aplica. O homem do cacete é um personagem do meu conto “O êmulo do escurecer”.
            Ana dirige-se a Burliesco:
            – É verdade o que ele diz, Davi?
            – Sei lá eu. Leio e escrevo tanta coisa! Posso até ter citado o conto dele, mas foi involuntário.
            A editora:
            – Filho de uma cadela! Quantas vezes pedi a você para trabalhar com enredos e personagens originais?
            – Tem momentos que não estou muito inspirado e o que me vem à cabeça transfiro para as transcrições. Sem que perceba, menciono personagens e episódios de outros autores. Mas faço sem intenção de plagiar.
            Ana Colutus apanha a bolsa e pergunta a Milazzo:
            – Quanto?
            – Seiscentos e noventa e sete ao todo. Mas pode arredondar para seiscentos. Desta vez farei um abatimento...
            Ela entrega a ele uma quantia e diz:
            – Pois vou te pagar logo oitocentos, com a condição de que desapareça por várias semanas daqui e deixe meu colunista trabalhar em paz.
            Berardi Milazzo apanha as notas, conta-as mais de uma vez e comenta com a editora:
– Fico muito agradecido. É sempre bom negociar com você.
            A secretária Maura Alice:
            – Chefinha, o que digo ao pessoal da arte? Está muito difícil segurá-los na sala de reuniões.
            Ana Colutus:
            – Menos, dona Maura Alice. Menos, pelo amor de Deus! Não dá para resolver todos os problemas de uma só vez. Acabo de ser extorquida pelo signor Milazzo e também serei extorquida pelos dois que aguardam em minha sala. Os rapazes da arte que me esperem.
            Maura Alice se retira e Ana Colutus segue para a sala reservada, onde os dois policiais a aguardam. Burliesco balbucia consigo mesmo:
            – Todos conseguem tirar alguma coisa dela, menos eu.
            Enquanto encaixa o bolo de cédulas recebido na carteira, Milazzo pergunta a Burliesco:
            – Por curiosidade, como é que você engendra a ficção na realidade?
            – Não se trata de ficção o que faço. Parto de fagulhas de impressões e os acontecimentos naturalmente vão se agregando, até chegar à futurologia dos fatos. Uma coisa leva à outra, quase que de forma automática.
            – Mas você parte de algum conhecimento adquirido. Claro que parte!
            – Aí é que você se engana. O conhecimento adquirido, sim, é que deixa influenciar pelo que faço.
            – Sejamos francos... você aprendeu com os que te antecederam, como ocorre com todos que escrevem. Isso é inegável!
            Burliesco se levanta e o segura firme pelos ombros, como se tivesse o ímpeto de agredi-lo.
            – Você acha mesmo que eu tenho intenção de plagiar teus contos? Nunca consegui ler mais de dois parágrafos de nenhum deles. Ultimamente ando tão absorvido por fagulhas de acontecimentos futuros, que não disponho de tempo para ler nada.
            – É nítido o quanto você é um sujeito tosco, porém o que mais me intriga é o motivo por que faz empréstimos literais do que escrevo. Só por isso consigo chantagear tua chefe com tanta desenvoltura. Ela sabe que se eu processar o site, não há a menor chance de defesa.
            – Você é um engodo, meu caro. Teus livros não vendem nada e os únicos trocados que você consegue ganhar são por meio desse tipo de chantagens.
            – Mudando de assunto... Há algum bar decente aqui por perto?
            – Próximo das redações sempre existem bares decentes. A turma daqui costuma ir ao Pinga Fogo. Fica na primeira esquina à direita, logo após a saída do prédio.
            – Quer tomar um trago comigo?
            – Gostaria, mas não posso. Tenho de levantar informações sobre o negrinho assassinado. Quero fazer um bom obituário sobre ele, para tê-lo pronto quando o fato de que será vítima vier à tona. Ele merece!
            – Sei que você não tem qualquer benefício material com esse teu trabalho maluco. Então por que continua?
            – Apenas me presto a configurar a materialidade dos fatos futuros, mesmo que para pessoas como você pareçam imaginários. Meus vínculos profissionais com o Diário do Amanhã não vêm ao caso. Tenho consciência de que por aqui sou quase um personagem de ficção.
            – Não é sobre isso que estou falando...
            – É sobre o quê?
            – Quero te propor uma parceria.
            – Ah, não, eu não fui um bom parceiro nem para minha esposa. Não tenho perfil de sujeito empreendedor para me tornar sócio de alguém. Da última vez que tentei montar um negócio próprio contraí uma dívida enorme junto à Receita Federal. Sou pessoa sem capacidade para administrar. Fora do Diário do Amanhã, não tenho para onde ir, nem o que fazer.
            – De modo algum quero tirá-lo deste site. Proponho que utilize sistematicamente minhas histórias e me dê mais motivos para extorquir tua chefe. Podemos dividir a fatura meio a meio. É uma forma de você receber algum...
            – As coisas comigo não funcionam dessa forma. Os plágios que cometo... se é que possam mesmo ser chamados de plágios... só se fazem verdadeiros quando involuntários. Lembre-se de que tudo que escrevo resulta de fagulhas do acaso. Sem contar que a realidade do futuro não perdoa aqueles que a trapaceiam e, cá para nós, não tenho a menor coragem e disposição de contrariá-la.
            – Deixe de pudores! É possível inserir qualquer coisa nessa tua coluna.
            – Você não sabe do que está falando. Vá tomar teus traguinhos e me deixe em paz.
            Millazzo deixa a redação assobiando um xote rasteiro do mestre Luiz Gonzaga, “rei” da cultura sertaneja brasileira ontem, hoje e sempre. Segue tranquilo, pois acaba de confirmar que não há o que ser revisto nos nexos inexplicáveis entre o que ele escreve e Davi Burliesco prevê. Nexos seguidamente imputáveis à sua obra, face às inegáveis semelhanças. Em trâmite intermediário entre o que pode e não pode ser, os imprevistos de Burliesco imperam e a indefinição opera entre as palavras desatadas por sua mente obscura.
            Todos nós temos nossos demônios interiores, que nos levam a nos tornarmos seres beligerantes. Os demônios latejam em nossas mentes, vísceras, artérias, genitálias ou onde quer que tenham se alojado em cada um de nós. David Burliesco também tem os dele; nem é preciso indagar a respeito de onde se encontram em seu corpo e mente. Há muito tempo, Burliesco foi um criador incontestável. Veio então a súbita tragédia que lhe consumiu toda paixão e fúria inventiva. Desde então se encontra acomodado às vicissitudes do improvável.
            Mais uma manhã se extingue e a população de Madreincitá prossegue em seu labor cotidiano em prol da rude sobrevivência. David Burliesco, o “repórter do amanhã”, continuará em sua função de antecipar o que os demônios da sina armarão para cima daqueles que tiverem a má sorte de figurar em suas premonições. Nem ele próprio sabe o que ocorrerá com seus personagens, embora esteja convicto de que o juízo dos que acreditam no que escreve é o maior prejuízo que o futuro lhes possa reservar.

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