sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Diabo do Guimarães

Conhece-se bastante o homem público João Guimarães Rosa (1908-1967), médico, diplomata, embaixador e laureado escritor nascido em Cordisburgo, município com cerca de oito mil habitantes localizado na região central do Estado de Minas Gerais.
Para os menos informados, é só conferir as várias biografias sobre ele disponíveis pela internet ou impressas, incluindo uma extensa elaborada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), a conhecida casa onde servem chás e quitutes para velhos escritores oficialescos.
Tais apontamentos biográficos repetem as discrições sobre sua
paixão por idiomas desde muito jovem, a brilhante trajetória como estudante humilde que, graças ao apoio de um tio endinheirado, se formou médico em Belo Horizonte, capital.
As pitorescas passagens do período em que clinicou pelo interior mineiro indo de casa em casa da zona rural montado a cavalo, como também fazia seu conterrâneo e contemporâneo Juscelino Kubitschek.

Guimarães Rosa a caráter
Mas Rosa foi médico de província por pouco tempo.
Uma sucessão de indicações para cargos públicos, somada aos seus vastos conhecimentos gerais e à fluência em vários idiomas o levaram ao Itamaraty, o órgão que, com ipsilon e tudo mais, capitaneia a política externa nacional.
Foi vice-cônsul em Hamburgo, Alemanha, entre 1938 e 1942, justamente quando estourou a 2ª Grande Guerra Mundial.
Depois serviu na França e, por fim, comandou o Departamento de Fronteiras do Itamaraty, com sede na antiga capital federal, Rio de Janeiro, onde colaborou para resolver várias pendências de demarcações com os países vizinhos.
Ao vir para o Rio trouxe uma antiga funcionária do consulado, Aracy de Carvalho, sua última esposa e seu grande amor.

A paranaense Aracy foi a única mulher condecorada por Israel por ter livrado dezenas de judeus alemães do holocausto, com o apoio do seu chefe, o então vice-cônsul João Guimarães Rosa.
Rosa e seu grande e derradeiro amor, Aracy de Carvalho
Paralelo a todo desempenho protocolar e burocrático da carreira de diplomata, coexistiam em Guimarães Rosa o mineiro interiorano, rudimentar, místico, com racionalidade e irracionalidade próprias, e o homem de grande cultura em ciências naturais (medicina, biologia, geografia física, zoologia, botânica, etc.), bem como o grande conhecedor de línguas.
E da soma de tudo isso, o escritor.
Sua obra é uma das preferidas pelo leitor médio do país. A maior parte dos mais ou menos letrados já leu alguma coisa dele. É um dos autores mais estudados nas universidades. A ABL, a tal casa de chás e quitutes, até ostenta uma cadeira em seu nome.
Em Cordisburgo existe um Museu Casa Guimarães Rosa e rotas turísticas por locais referenciados em passagens de seus contos, novelas e do único romance, Grande sertão: veredas.
Peões que serviram de modelo para seus personagens chegaram a fazer fama. Alguns apareceram em veículos de circulação nacional dando entrevistas alusivas ao convívio com o escritor.
Bom, para alguém tão conhecido não faz o menor sentido que neste artigo eu chova no molhado e me limite a divulgar informações que o público já está careca de saber.
Procurarei, portanto, me deter a aspectos menos conhecidos sobre o homem Guimarães Rosa e sua produção literária...



sábado, 22 de julho de 2017

Mulatos democráticos


Gilberto Gil, em um vídeo disponível pelo YouTube, conta como ele e Chico Buarque compuseram a canção Cálice. Fala sobre a escolha das metáforas fortes e de outras referências que os levaram a elaborar a letra e a melodia juntos, da forma como ficou.
Gil vem de família do Recôncavo Baiano, como seu companheiro do movimento tropicalista Caetano Veloso. Tiveram ambos educação severa, mas liberal, com apreço pela boa educação, cordialidade e serenidade ao se expressar. A certa altura do vídeo, o compositor diz que até hoje se encrespa ao cantar o refrão de duplo sentido: “Pai, afasta de mim esse cálice...”
Conta que sempre que o entoa sente desconforto pelo tom impositivo, que é o oposto do seu modo de pensar tolerante e ponderado. Ainda mais por se referir ao "pai", seja como figura divina ou como o pai propriamente, já que ele e seu pai de verdade, um médico, se davam muito bem.
O compositor diz no vídeo que essa coisa de mandar Deus ou quem quer que seja se calar nunca lhe moveu as ideias e, por isso, até hoje não gosta da canção tanto quanto seu público. Por fim, cita um ou outro verso que também lhe causam certo mal-estar ao cantá-la, por destoarem do que realmente sente e pensa.
Para quem quiser conferir, segue o link do vídeo:


Um dos álbuns mais intrigantes de Caetano Veloso é Araçá azul, lançado em 1973. É oposto a Transa, de dois anos antes, este um disco muito bem definido, com repertório redondo e músicos de primeiro time.
Em Araçá azul tudo é experimental e até um tanto improvisado. Um disco comparável ao que foi o álbum duplo branco e preto dos Beatles, de 1968, também experimental e pouco convencional no conjunto da produção do grupo britânico.
Caetano gravou Araçá azul sozinho em estúdio. Uma das faixas é a canção-colagem Sugar cane fields forever, na qual o compositor cita a composição dos Beatles Strawberry fields forever. A canção de Caetano diz num trecho:

“Sou um mulato nato
No sentido lato
Mulato democrático do litoral”...



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beligerância do ser (conto)


            Tragédias são instantâneos da realidade destinados a serem esquecidos, seja qual for a proporção. Quanto mais expressivas, efêmeras. Há pessoas que a elas se dão, outras procuram a todo custo evitá-las. Também há os quem têm mórbido prazer de especulá-las. Porém poucos são aqueles que se presta a esboçá-las antes que aconteçam, como Davi Burliesco, o “repórter do futuro”. Gente como Burliesco dá voz às vicissitudes do incomum e acaba escrava de um estigma.

            Não é fácil conviver com essa capacidade de antecipar situações que incidam sobre as vidas de outros. É como se essa faculdade tão peculiar lhe imputasse certa dose de cumplicidade com o que está por vir. Quando enfim a previsão se consuma, é tomado por atávica impotência e sofre silenciosamente ao comprovar que o destino consumiu de verdade os que foram abarcados por suas premonições.

            Como último recurso, Burliesco empenha-se para que a memória dos que sucumbiram não desapareça sem deixar vestígios. Faz o que pode para que suas lembranças persistam. Infelizmente, a realidade é provida por uma lógica sinistra que caminha noutra direção. E tende a relegar ao esquecimento a existência daqueles que já se encontram ausentes, muitas vezes minutos após a ocorrência. Tal como se limpa o lixo de uma casa, o presente se desfaz daqueles que já não se encontram a mercê de seus desígnios.

            As recordações dos que já se foram dão lugar aos novos acontecimentos, que ao entrarem em evidência empurram para fora do cenário os que há pouco o precederam. No caso das tragédias, centelhas do que foram os vitimados persistem por algum tempo nas mentes dos mais próximos; ainda assim numa esfera fronteiriça, com um rito de passagem que nunca se complementa. As adversidades sob as quais sucumbiram os lançam na alienável travessia para um plano do qual se sabe que nunca terão retorno.

            Nesse campo transitório de ocorrências mais ou menos impactantes – e que estão por vir – atua o principal colunista do Diário do Amanhã, site comandado pela austera editora Ana Colutus. O “repórter do futuro” Prediz o aleatório, na medida de sua capacidade de apreendê-lo; uma profissão tão incomum quanto pouco qualificável. Narra episódios conforme vêm à mente, com desprendimento, humor e picardia. A população segue atenta aos episódios por ele narrados, porque sabe que de alguma forma ocorrerão. Graças a Burliesco, o Diário do Amanhã é um dos sites mais acessados em Madreincitá e até dá a impressão de que o jornalismo ainda existe e pode ter sua importância em nossos dias.

            Mais uma madrugada se encerra. Logo, o frenesi diurno imporá seu turbilhão de ruídos e movimentação insensata de veículos, pessoas. A redação do Diário do Amanhã se encontra no momento vazia, pois há pouco foram para suas casas os repórteres e profissionais do período noturno. Dentro de meia hora começará a chegar a leva do diurno. Entre os que trabalharam à noite, somente Burliesco continua de pé. Ultimamente não deixa a redação por nada.

            Será por que a realidade e seus instantâneos nunca cessam? Realmente, os acontecimentos de impacto, conforme ele os narra, se sucedem num moto-contínuo circunstancial, qual se tivessem por trás mecanismos ocultos para encadeá-las numa rede factual predeterminada. Parece ser essa a lógica oculta que Burliesco obstinadamente persegue. Razão pela qual quase nunca dorme; trabalha até o quanto seu corpo permite, no limite entre a razão e o delírio...


terça-feira, 28 de março de 2017

Johnny is not B. Goode tonight

Chuck Berry (1926-2017) decerto foi o mais talentoso instrumentista, letrista, intérprete, compositor e performer do rock. 
Junto com Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Bill Haley, Little Richards e outros, ele paira entre os artistas seminais do gênero. Espécies de deuses malucos do mais popular dos gêneros de música popular de todos os tempos.


Chuck Berry e sua dança do pato
O rock and roll, mais conhecido rock'n'roll, já existia desde os anos 1940, mas seu primeiro grande estouro de popularidade se deu em meados dos anos 1950 com Chuck Berry incendiando o público.
Como gênero musical, o rock veio no vácuo de outros gêneros mais antigos como country, blues, rhythm’n’blues, jazz de ritmo acelerado de New Orleans, gospel e boogie woogie.
A batida do rock, uma mescla de blues com country acelerado, rapidamente se espalhou pelos EUA, Grã-Bretanha e resto do mundo.

Dada sua popularidade entre jovens de quase todos os idiomas e culturas, é provável que o rock se constitua no movimento cultural de maior impacto social dos nossos tempos.
Muito além de gênero musical, influenciou estilos de vida, moda, atitudes e linguagens. Houve época em que até os guerrilheiros de esquerda e padres da igreja católica tinham aparência de roqueiros.
Os artistas originais do rock eram músicos negros e brancos do circuito entre New Orleans (Luisiana) e Memphis (Tenessee), acompanhando o lento trajeto dos músicos de blues Mississipi acima, rumo ao Norte do país.

O fim dessa trajetória seria o surgimento do poderoso blues de Chicago (Illinois), na região dos Grandes Lagos.
Chuck Berry
, Elvis, Haley, Cash e Lewis começaram tocando blues e country. Eram todos caipiras de origem mais ou menos rural. Berry tinha descendência negra e apache.

Apresentação dos jovens Berry e Presley nos anos 1950
Bill Haley (no alto) e seus Cometas
Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Presley (ao piano) e Cash
Lewis, Berry e Little Richard

Mas Berry era aquele que nas letras achava os termos e expressões mais precisos, os quais logo as massas transformavam em gíria e em moda. E, com isso, vários outros artistas inevitavelmente gravaram aos tufos suas canções.
Sua influência é soberana até hoje. Nenhum dos grandes compositores seminais do gênero conseguiu manter na memória coletiva tantas canções como Roll over Beethoven, Sweet little sexteen, Johnny B. Goode, Nadine, Havana moon e outras...



segunda-feira, 20 de março de 2017

As flores do jardim da nossa casa (conto)



               Querida Nana, que bom que você veio. Tenho de fazer uma pergunta assim, de imediato, para tirar uma dúvida que muito me afligiu esta noite. Quase não dormi ao pensar a respeito. Venha cá, bem pertinho, para que ninguém ouça nossa conversa. Responda do fundo do seu coração: você acredita mesmo na minha inocência? Acredita! Ah, eu sabia que sim. Que alívio!
               Teu juízo me é de extrema importância. Pouco importa o que digam a meu respeito. O mais importante é o que você acha. Podem me difamar o quanto quiserem. Jornais e emissoras de televisão podem repetir quantas vezes quiserem que sou um monstro, um facínora. Não dou a mínima. O mais importante é que nós dois saibamos a verdade e tenhamos plena consciência dela.
               Tem regado as plantas todos os dias? Ah, que bom! Isso também é muito, muito importante. Algumas mais, outras menos. Você sabe bem como diferenciá-las. Tive o cuidado de plantá-las em espaços distintos. É melhor usar pouca água com frequência, do que espaçar as regas e molhá-las em excesso para compensar. O que é excessivo nunca resolve. Plantas são como nós: exigem atenção constante. E respeito.
               As flores do jardim da nossa casa...


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Bolan pra frente


Outro dia vi postagem sobre o grupo de rock inglês T.Rex, dissolvido nos idos anos 1970, e me veio à memória a curiosa figura do seu líder, o guitarrista, compositor e vocalista Marc Bolan (1947-1977).
Marc Bolan
Bolan foi um dos primeiros astros performáticos do rock, antes mesmo de David Bowie, Lou Reed, Alice Cooper, o stone Mick Jagger e outros entrarem nessa.
A primeira vez que li considerações a seu respeito foi numa edição da revista Rolling Stone norte-americana.
O trocadilho do título é referente à gíria “pra frente” da época da nossa ingênua Jovem Guarda, muito usada principalmente pelo “rei” Roberto Carlos.
Marc Bolan se lançou como um sujeito avançado do rock, "pra frente". Bonito, bom músico, bom ator, bom inventor de histórias e bastante inovador no contexto dos shows ao vivo.
Representava um personagem andrógino. Moda que pegou muitos artistas pops da época, em especial aqueles que se dedicaram aos shows performáticos.
O personagem Marc Bolan misturava, de forma paradoxal, a aparente feminilidade de sua imagem e voz com o som pesado de sua guitarra, que em algumas canções antecipou o heavy metal.
Visualmente era muito interessante essa mescla. Bolan era mesmo muito bom de palco. Estava o tempo todo centrado no personagem – inclusive durante entrevistas – e mantinha boa qualidade como instrumentista e cantor.
Com todas suas roupas, recursos de maquiagem, a cabeleira de mulato, etc., fazia uma figura altamente sensualizada, dúbia...



sábado, 18 de fevereiro de 2017

De Eliot a Chandler “the women come and go talking of Michelangelo”

Em sua História da literatura ocidental, Otto Maria Carpeaux (1900-1978) sustenta que a literatura policial teria se originado do romantismo gótico do século XVIII, a partir de obras como o drama em versos Fausto, de Wolfgang Goethe (1749-1832),  os contos de suspense e mistério do alemão Ernest Hoffmann (1776-1822) e o já popularesco Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851). 
Acredita-se que o marco do surgimento do gênero se deu em 1841, quando Edgar Allan Poe (1809-1849) publicou nas colunas de um periódico da Filadélfia, o Graham's Magazine, o conto The murders in the Rue Morgue (Assassinatos na Rua Morgue).
Edgar Allan Poe
Nos anos seguintes, mais duas histórias de Poe com o mesmo formato policialesco foram publicadas: The nustery of Marie Rogêt (O mistério de Mary Roget), em 1842, e The purloined letter (A carta roubada), em 1845.
Paralelamente, Poe publicava contos de outra natureza – fantásticos, de horror, de suspense, de ficção histórica e outros gêneros – reunidos mais tarde no volume Histórias extraordinárias, como foram denominadas no Brasil.
A gênese da literatura policial está associada ao advento da cultura de massa, principalmente a partir de meados do século XIX, que possibilitou a popularização dos jornais, revistas e folhetins.

Outros gêneros popularescos similares surgiram nesse período: a literatura fantástica, a literatura de ficção científica e a literatura de horror e suspense.
Mas realmente o DNA de todos remete mesmo aos folhetins góticos do romantismo, como assevera Carpeaux...