terça-feira, 28 de março de 2017

Johnny is not B. Goode tonight

Chuck Berry (1926-2017) decerto foi o mais talentoso instrumentista, letrista, intérprete, compositor e performer do rock. 
Junto com Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Bill Haley, Little Richards e outros, ele paira entre os artistas seminais do gênero. Espécies de deuses malucos do mais popular dos gêneros de música popular de todos os tempos.


Chuck Berry e sua dança do pato
O rock and roll, mais conhecido rock'n'roll, já existia desde os anos 1940, mas seu primeiro grande estouro de popularidade se deu em meados dos anos 1950 com Chuck Berry incendiando o público.
Como gênero musical, o rock veio no vácuo de outros gêneros mais antigos como country, blues, rhythm’n’blues, jazz de ritmo acelerado de New Orleans, gospel e boogie woogie.
A batida do rock, uma mescla de blues com country acelerado, rapidamente se espalhou pelos EUA, Grã-Bretanha e resto do mundo.

Dada sua popularidade entre jovens de quase todos os idiomas e culturas, é provável que o rock se constitua no movimento cultural de maior impacto social dos nossos tempos.
Muito além de gênero musical, influenciou estilos de vida, moda, atitudes e linguagens. Houve época em que até os guerrilheiros de esquerda e padres da igreja católica tinham aparência de roqueiros.
Os artistas originais do rock eram músicos negros e brancos do circuito entre New Orleans (Luisiana) e Memphis (Tenessee), acompanhando o lento trajeto dos músicos de blues Mississipi acima, rumo ao Norte do país.

O fim dessa trajetória seria o surgimento do poderoso blues de Chicago (Illinois), na região dos Grandes Lagos.
Chuck Berry
, Elvis, Haley, Cash e Lewis começaram tocando blues e country. Eram todos caipiras de origem mais ou menos rural. Berry tinha descendência negra e apache.

Apresentação dos jovens Berry e Presley nos anos 1950
Bill Haley (no alto) e seus Cometas
Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Presley (ao piano) e Cash
Lewis, Berry e Little Richard

Mas Berry era aquele que nas letras achava os termos e expressões mais precisos, os quais logo as massas transformavam em gíria e em moda. E, com isso, vários outros artistas inevitavelmente gravaram aos tufos suas canções.
Sua influência é soberana até hoje. Nenhum dos grandes compositores seminais do gênero conseguiu manter na memória coletiva tantas canções como Roll over Beethoven, Sweet little sexteen, Johnny B. Goode, Nadine, Havana moon e outras.
Do outro lado do Atlântico, na Grã-Bretanha, na virada dos anos 1950 a grande sacada de um bando de jovens foi se ligar não só nos sucessos de momento do rock, mas em outros gêneros que lhe deram origem, principalmente o
rhythm’n’blues.
Da Inglaterra saiu a segunda grande explosão de popularidade do rock em meados dos anos 1960. Aliás, a maior delas, vindo a influenciar inclusive o rock norte-americano.
Mas toda essa geração de jovens talentosos bebeu das mesmas fontes: o rock'n'roll do Sul dos EUA e seus vários congêneres musicais.  
Inclusive um sujeitinho com cara de marginal chamado Keith Richards, filho de imigrantes galeses, assim como Jerry Lee Lewis, um dos patriarcas do rock americano.

Jerry Lee Lewis e Keith Richards
Richards, em sua autobiografia, diz que já gostava de rock'n'roll e blues desde moleque. Cresceu fã de Elvis Presley, Lewis, Chuck Berry, Muddy Waters e Willie Dixon, entre outros.
Na escola reencontrou o amigo de infância Mick Jagger, também aficionado em blues e country, e aí começa a longa trajetória da principal banda de rock de todos tempos: Rolling Stones.
Richards foi o principal responsável pela introdução do rhythm'n'blues no repertório da banda, o qual desenvolveu junto com o outro guitarrista, Brian Jones.
 
Keith Richards e Brian Jones

Considerado um dos maiores criadores de riffs da história do rock, Richards e seus companheiros de banda estouraram no Reino Unido e em todo o planeta a partir da segunda metade dos anos 60, fazendo uma música crua e de letras provocativas, misturando rock, blues, folk, pop, soul, country e gospel, vendendo milhões de discos e arrebatando plateias e fãs em todos os cantos do mundo.
Os Stones faziam a imagem dos meninos maus do rock, em contraponto aos Beatles, que eram os bonzinhos do gênero.
Ainda hoje paira a imagem de Keith Richards como um sujeito brigão e drogado incorrigível. Seu presumível heroísmo teria sido conseguir sobreviver a tudo isso. Mas a verdade é que Richards sempre foi o sujeito mais centrado do grupo.
Richards e o também inglês Eric Clapton – outro identificado com a imagem de doidão – foram os dois mais boa gente da panaceia internacional do rock a partir dos anos 1960.


Eric Clapton e Keith Richards
Não só pela importância do seu trabalho pessoal, mas por ter ajudado a recuperar a base da coisa toda, contribuindo para revelar músicos importantes que não haviam tido o devido reconhecimento nem nos EUA.
Há uma semana, quando soube da morte de Chuck Berry, pensei em escrever sobre algo que sempre me espezinhou a seu respeito.
Não quis jogar merda no ventilador num momento em que todos o enalteciam e lamentavam sua perda. Evidente que adoro suas músicas e apenas postei no Facebook uma versão de seu clássico Johnny B. Goode, interpretada em ritmo de reggae pelo jamaicano Peter Tosh.
Mas há questões esquisitas em sua trajetória, principalmente no que diz respeito ao Johnny real no qual se inspirou para escrever a letra de sua canção mais popular...



segunda-feira, 20 de março de 2017

As flores do jardim da nossa casa (conto)



               Querida Nana, que bom que você veio. Tenho de fazer uma pergunta assim, de imediato, para tirar uma dúvida que muito me afligiu esta noite. Quase não dormi ao pensar a respeito. Venha cá, bem pertinho, para que ninguém ouça nossa conversa. Responda do fundo do seu coração: você acredita mesmo na minha inocência? Acredita! Ah, eu sabia que sim. Que alívio!
               Teu juízo me é de extrema importância. Pouco importa o que digam a meu respeito. O mais importante é o que você acha. Podem me difamar o quanto quiserem. Jornais e emissoras de televisão podem repetir quantas vezes quiserem que sou um monstro, um facínora. Não dou a mínima. O mais importante é que nós dois saibamos a verdade e tenhamos plena consciência dela.
               Tem regado as plantas todos os dias? Ah, que bom! Isso também é muito, muito importante. Algumas mais, outras menos. Você sabe bem como diferenciá-las. Tive o cuidado de plantá-las em espaços distintos. É melhor usar pouca água com frequência, do que espaçar as regas e molhá-las em excesso para compensar. O que é excessivo nunca resolve. Plantas são como nós: exigem atenção constante. E respeito.
               As flores do jardim da nossa casa... Fale sempre com elas. Não têm mais a mim para conversar. Só elas sabem pelo que eu e você estamos passando. Filtram nossas emoções pelo ar que expiramos. Acredito muito nisso. Por isso converse bastante com todas. São ótimas ouvintes e têm sensibilidade para entender essa situação de extrema injustiça de que estou sendo vítima.
               Os vizinhos têm te incomodado? Mesmo dona Sebastiana, que se dizia tão tua amiga, não te cumprimenta mais? É mesmo?! Não ligue, boba. São pessoas baixas que não merecem consideração. Não valem o ar que respiram. Todas cúmplices dos que querem me condenar. Uns desclassificados que têm prazer mórbido de malhar quem está por baixo. Infelizmente sou eu o Judas da vez.
               Aquela filha duma puta (desculpe por exceder) disse que me viu levando moças para casa na tua ausência? Sim, a própria dona Sebastiana, que tantas vezes veio pedir coisas emprestadas em nossa casa. Onde já se viu! Sou um homem casto. Prezo mais o amor que o sexo. Você sabe disso. Sabe ou não sabe?  Jamais te trairia. Nosso amor é sagrado. Sagrado! Não será uma sirigaita como ela que mexerá com nossos mais puros sentimentos. Fique tranquila quanto a isso, Nana. Eu te amo e sempre te amarei.
               Tem pago as contas em dia? Água, luz, telefone, TV a cabo, IPTU, internet, prestação do carro... Todas! Tem certeza? Se faltar dinheiro recorra àquela aplicação. É para isso mesmo. Perdoe-me por não estar te ajudando quanto a isso. Até que esses cretinos cheguem à conclusão óbvia de que não tenho nada a ver com o imbróglio, não posso prever quando poderei cuidar dessas obrigações de rotina.
               Você tem visto a mami? Todas as semanas, é? Que bom, querida, que bom. Sou muito grato pelo que você tem feito por ela... e por mim. Eu sempre soube que poderia contar contigo num momento difícil como este. Às vezes penso tanto em mamã. É uma mulher inteligente e deve estar angustiada por eu não visitá-la mais. Pobrezinha. Algo muito importante: evite, a qualquer custo, que ela saiba o que está se passando comigo.
               É constrangedor, mas não tenho como dizer nada a ela por enquanto. Vou me explicar como? Aliás, nem ligar posso, pois o telefone aqui fica num corredor. Nas poucas vezes que o utilizei para falar com você, havia um bando de vagabundos em torno ouvindo tudo e fazendo chacotas. Inexiste nesta prisão um local com privacidade para que possamos falar de coisas pessoais. Um absurdo!
               Você tem se lembrado de olhar a água do carro? Água, óleo... sempre que for abastecer verifique tudo. Também é preciso calibrar os pneus. Não vacile, meu amor, porque não tem mais a mim por perto. É imprescindível cuidar de cada detalhe, porque quando ocorre um probleminha o gasto é maior. Lembre-se de que trabalhei em oficina e sei do que estou falando.
               Tem tido medo de dormir sozinha? Oh, queridinha, que pena. Abrace um travesseiro e pense que esse travesseiro sou eu. Faça isso, meu amor. Faça! Imagine minha situação por aqui. Por questão de segurança quase não durmo. Se pego no sono vou sonhar com você e sou capaz de não vou querer acordar mais. Na verdade, prefiro sonhar com você acordado. Todas as noites, todos os dias, todas as horas.
              
***
              
               Graças ao bom Deus você voltou! Ah, querida minha, não sabes a falta que me faz. Cada vez tenho dormindo menos e pensado mais em você. Principalmente depois que me disse que também tem tido dificuldade de pegar no sono. Isso me leva a ficar altas horas acordado, imaginando como você está, sozinha em nossa cama.
               Mais notícias de mami? Ela vai operar a catarata?! Oh, meu Deus, é grave? Quero que faça essa cirurgia no doutor Alfeu. É o médico de olhos da família. Só confio nele. Honestíssimo! O que é muito raro hoje em dia na classe médica. Quero que ele cuide dos olhos de mamã. Faço questão!
               Vou ligar para o meu irmão Máximo. Há mais de dez anos que não nos falamos, mas não há outro jeito. Vou ter de usar o esquema de telefonemas daqui mesmo, com os demais presos ouvindo a conversa. Ele tem de vir para te ajudar a cuidar de mamã durante a recuperação. De jeito nenhum quero que você assuma tudo sozinha. Já tem feito tanto por mim!
               Você é mesmo uma santa, querida. As coisas por aqui seguem na mesma, naquele clima pesado do xadrez, com uns de olho nos outros, não para ajudar, claro, mas para descobrir formas de fazer com que o colega se foda de vez. Perdoe-me pela linguagem, mas a gente acaba se habituando às palavras de baixo calão neste meio tão insalubre.
               Ontem colocaram um facínora na minha cela. Esquisitão, todo calado. Pode ter sido introduzido pela quadrilha de meganhas. Se assim for, é só baixar as pestanas que ele me talha. Fizeram isso com tantos outros, por que não farão comigo? Os meganhas me querem morto. Sei disso. É uma forma econômica de me imputarem a culpa e cessar de vez com as investigações.
               Sem contar que o crime de que injustamente me acusam é o mais condenado pela cartilha dos presos. Principalmente por eu ser alguém sobre o qual pairam suspeitas de que matou mulheres jovens. Os presos também têm irmãs, esposas, amantes. Já pensou?! Devem me ver como uma pústula cancerígena a ser extirpada do organismo da sociedade.
               Depois que colocaram esse indivíduo na minha cela, passo as noites de vigília. Quase não prego os olhos. Aproveito para também pensar em como você está dormindo. Fico horas e horas zelando por teu sono e sonhos, rezando baixinho para que você repouse em paz. Mesmo neste ambiente tenho desejos. Fico pensando: com que combinação ela está dormindo?
               Por favor, não use calcinha quando se deitar. É para que eu possa imaginar você dormindo de bruços, com tua bunda maravilhosa desnuda. Dispense também sutiã. Quero que você repouse com os seios às mostras e os pentelhos se sobressaindo pelas dobras do lençol. Ah, Nana, meu amor, que saudade do teu corpo!
               Procuro cochilar durante o dia. Isso porque os carcereiros passam de meia em meia hora e olham para ver o que rola em cada cela. Assim fica mais difícil de o trairão que puseram aqui me apagar. Se me levam para depor, você nem imagina o que os detentos falam quando passo pelo corredor. Nesses momentos, fico um tanto pessimista quanto ao que será de mim.
               Com exceção de você, parece que o mundo quer me condenar. Até o momento não entendo o motivo de me terem escolhido como bode expiatório de um crime que não cometi. Por que, meu Deus, por que eu?! Os próprios policiais sabem que sou inocente. Tanto é que durante os depoimentos pouco me interrogam.
               Precisam de uma explicação para o sumiço das moças e apareci como o otário ideal para ser acusado pelos crimes. Crimes a respeito dos quais sequer se conhece o paradeiro das vítimas. Ninguém sabe onde ocorreram e em quais circunstâncias. De concreto, há seis moças desaparecidas num determinado período. Mas não há corpos. Nada.
               Idealizaram-me como o possível suspeito, mas sem nenhuma prova. Evidente que não podem ter provas, pois não tenho nada a ver com isso. O mais terrível é saber que nossos vizinhos, aos quais ajudei em tantas ocasiões, falam o pior a meu reseito para os investigadores, querendo me prejudicar ainda mais.
               Além de dona Sebastiana, dois deles juram que me viram chegando a casa com uma das moças. Se isso de fato ocorreu, tudo indica que alguém conseguiu entrar com a tal moça em nossa casa, quando nenhum de nós estava por lá, para plantar tais evidências. Como, eu não sei. Esse alguém entrou com a moça lá, se fazendo passar por mim, com o claro propósito de me incriminar. Óbvia armação. Mas não me pergunte por quê. Só sei a mando de quem: da quadrilha de meganhas, que quer de todas as formas me destruir.
               Ah, ia me esquecendo: farão a reconstituição em nossa casa. Incrível, né? Reconstituição de algo que não aconteceu. Mas insistem em dizer que a casa foi a cena dos crimes. Não tenho como evitar. Usarão reagentes químicos para tentar descobrir manchas de sangue. Evidente que não encontrarão nenhuma.
               Na tal reconstituição obviamente serei forçado a fazer papel de palhaço. Com os vizinhos traíras de olho no desfecho e alguns até pedindo meu linchamento. O advogado me disse que preciso me manter tranquilo. Se não devo, disse ele, não tenho o que temer. Mas sei que não é bem assim. E as humilhações a que serei submetido? Essas são irreparáveis. Ah, não sei se devo continuar confiando nesse sujeito.
               Aqui no xilindró vivo outro drama: todo vagabundo com curso superior que chega é colocado na cela onde me encontro. Fora o esquisitão que já mencionei, trancafiaram mais dois comigo. Se a lotarem como as demais celas, receio que acabe com um bando de maus elementos ansiosos por trucidar um homem frágil como eu. Minhas feições são delicadas, se comparadas aos mastodontes que habitam essa merda. Desculpe a linguagem! Oh, querida, reze muito por mim.

***

               Amada Nana, finalmente podemos conversar. Naquela situação durante a reconstituição, não dava. O que achou da palhaçada toda? Que diacho, bem na nossa casa e na nossa cara! Antes tínhamos pudor até de convidar as pessoas conhecidas para nos visitar. Eis que de repente nossos aposentos são invadidos por uma multidão destrambelhada de estranhos.
               Nunca imaginei que o seu Anadir pudesse fazer aquilo. Viu como apontou o dedo na minha direção para afirmar que viu a tal moça entrando lá comigo? A palavra de um velho gagá, cachaceiro como ele, vale mais que a minha, que sou um honesto contribuinte. O canalha chamou-me de “assassino” sem titubear! Haverei de processá-lo quando sair daqui.
               Depois apareceu aquele filho de uma puta (desculpe a linguagem) do distribuidor de água. Nunca o vi mais gordo. Pois o sujeito assegurou aos meganhas que viu duas das garotas comigo no carro. Meu advogado acha que esse sujeito é apenas um débil mental e será fácil comprovar que não tem noção do que diz. Tomara! Esse advogado, não sei não...
               Imagino o quanto foi constrangedor para você. Utilizaram três veículos para me levar. Três! E quinze guardas armados até os dentes para dar cobertura. Quinze! Como se eu fosse um elemento de extrema periculosidade. Só rindo para não chorar. Estão cansados de saber que não tenho coragem para matar nem as baratas que circulam pela cela onde me trancafiaram. Mas tinham que armar todo aquele circo! Isso faz parte do jogo.
               Prometeram que te deixariam fora de tudo. Mas quando cheguei para a droga da reconstituição lá estava você acompanhada pelos meganhas que me arrastavam para lá e para cá, a fim de encenar aquelas bizarrices sem nexo. Tudo com base nos testemunhos dos idiotas que se prontificam a mentir para compor o enredo de baixo nível montado para me ridicularizar.
               Sou o pretexto para o espetáculo. E que droga de espetáculo! Estavam por lá os vizinhos todos, os curiosos, os jornalistas, os bisbilhoteiros desocupados e demais desqualificados. Você, pobrezinha, assistia a tudo num canto como uma estranha em nossa própria casa, vendo seu amor ser cruelmente submetido àquela humilhação. Nem tive tempo de ver como estão as nossas plantas.
               Você sempre foi tão cuidadosa com o asseio dos banheiros. Oh, Deus, deu-me pontadas no coração quando aquele policial estúpido urinou de porta aberta em nosso banheiro, fazendo aquele barulhão de propósito. O filho duma puta (desculpe) maculou de forma brutal um ambiente íntimo só de nós dois. Se a violência fosse dirigida apenas a mim. Mas não, lá estava você presenciando tudo.
               O que descobriram com aquela palhaçada? Nada. A polícia sabia de antemão que não tinha o que achar por lá. Não é só você, querida, que entende o quanto estou cem por cento isento. Os meganhas também estão cientes de que não sou culpado de nada. Mas, como já disse, isso faz parte do jogo para me usarem até onde for possível nessas artimanhas perversas.
               Sou apenas um bode expiatório desses crimes bárbaros a respeito dos quais a polícia tem sido incompetente para apontar os verdadeiros culpados. O que fazem comigo é apenas para desviar a atenção do público e da imprensa, já que minha flagrante inocência exporia o quanto estão sendo inaptos. Agora que têm a mim para imputar culpa – sem outro meio de defesa senão um advogado chinfrim de porta de cadeia – é claro que não vão procurar o verdadeiro culpado. Ou culpados, não é mesmo?
               Pois é bem provável que mais de uma pessoa esteja envolvida nesses crimes. Um sujeito sozinho não seria capaz de dar sumiço àquelas moças. Claro que não. Isto é, se essas moças de fato foram assassinadas. Já pensou? Tantos jovens desaparecem devido a conflitos com os pais e retornam algum tempo depois. Essas moças cujo desaparecimento apontam como de minha responsabilidade podem estar por aí, saudáveis, felizes e livres.
               Oh, minha querida Nina, quanto tempo durará esse suplício? Condenam-me sem que tenha havido um julgamento. Sem que haja sequer um processo e uma única prova concreta contra mim. Têm apenas os testemunhos falsos daqueles que procuram me incriminar. Deixa estar. Sairei dessa situação vexatória de cabeça erguida e meterei processos por danos morais e perjúrio em cada um desses difamadores. Ah, se vou!
               A justiça, a verdadeira justiça... não essa dos burocratas... há de me dar razão. Mas o que mais me importa, acima de tudo – isso eu disse várias vezes e não canso de repetir –, é que você esteja do meu lado para o que der e vier. Com teu apoio terei força para continuar enfrentando essa situação tão difícil, dure o quanto durar. Por favor, querida, cumpra a promessa feita diante do padre de ser minha companheira para sempre. Já o foste nos momentos de alegria. Agora te resta ser... nos momentos de dor.
               Esteja certa de que todo o sofrimento há de passar e teremos muitos motivos para sorrir no futuro, quando minha inocência for confirmada. Nosso Senhor, que está lá no céu vendo tudo com sua soberana parcimônia, há de nos compensar por todo esse infortúnio. Desde já me perdoe, meu bem, me perdoe por involuntariamente tê-la envolvido nisso.
               Não devia pensar nisso neste instante, mas preciso insistir na mesma pergunta: você está regando as plantas direitinho? Elas só ficam viçosas quando entendem que quem cuida realmente gosta delas. São melindrosas, sensíveis ao nosso afeto. Coloque um pouco de húmus a cada duas semanas e espalhe sobre a superfície dos canteiros. Vais ver como elas vão retribuir com mais beleza.
               Mas não é preciso enterrar o húmus. Apenas o espalhe sobre a terra. As plantas ornamentais detestam que revolvamos a camada do solo por onde suas delicadas raízes se espalham. Evite isso, querida. Não precisa revolver o solo, como esses jardineiros pés-de-chinelo costumam fazer.
               Um repórter fez insinuações até sobre minha sexualidade. Só porque falei publicamente das plantas do jardim da nossa casa. Você conhece meu desempenho e sabe do que sou capaz. Não tenho necessidade de sair por aí afirmando que sou homem com agá maiúsculo. Que os canalhas pensem o que quiserem. Não ligo. Mas ligo muito para o que você pensa.
               Ah, isso sim é importante. O mundo pode desabar sobre mim, porém se você estiver bem, confiante de que o que eu digo é verdade, isso me basta. Tudo o que quero nesta vida é o seu bem. E o de nossas plantas. Cuide delas com a mesma dedicação com que eu cuidava quando estava livre. Elas haverão de te fazer companhia enquanto eu estiver ausente.

***
              
               O pai de uma das moças esteve aqui ontem à tarde. Foi horrível! Insistiu que queria me ver e o delegado (contra minha vontade) permitiu. O homem comportou-se como um desiquilibrado. Lançou acusações na minha cara, como se eu fosse realmente o responsável pela morte de sua filha. O carcereiro que o acompanhou apenas assistiu impassível. Só me restou ficar calado, acuado, a ouvir aqueles absurdos.
               Jornalistas continuam a especular sobre minha personalidade. Fora as dúvidas lançadas sobre sexualidade, querem associar minha imagem a de um psicopata. Veja até onde vãos as coisas! Implicam até porque trabalhei tantos anos numa oficina mecânica embora seja engenheiro eletricista formado. Nunca tive oportunidades de trabalho na área na qual me formei, ora.
               Fizeram indagações sobre o que me leva a me submeter a trabalho braçal mesmo tendo curso superior e a receber baixos salários. Você bem sabe que nunca fui um sujeito ambicioso. Tanto faz que tenha recebido um dia um canudo de uma faculdade. Dinheiro para mim é para o estritamente necessário. Mais que isso é ambição. Sou religioso e considero o pecúlio um terrível pecado. Acho justo o que o dono da oficina me pagava, então por que raios iria pedir mais?
               Mas os repórteres insistem que sou um dissimulador, que sempre tive a atenção voltada para o crime e, só por isso, não fazia conta de trabalhar na oficina. Sugeriram, inclusive, que eu utilizava carros em conserto para praticar delitos. Santo Deus, quanta sandice. Quanta maldade com um pobre inocente!
               O filho de uma puta (me perdoe outra vez pela linguagem) do boy da oficina disse a um dos repórteres que o dono tentou me despediu várias vezes, mas voltava atrás por temer minha reação. Não é nada isso. Eu e meu patrão sempre nos demos bem. Sempre confiou muito em mim. Na verdade não era apenas um patrão, mas um amigo. Tanto que me mantinha a par de todas as suas transações financeiras. Deixei o trabalho porque quis, pois já me cansara da função.
               Implicam até por que, mesmo tendo conhecimentos de juros e finanças, eu nunca quis ter conta bancária. Ora, tenho sim, mas em teu nome. É óbvio que não vou revelar isso a eles, muito menos que tenho dinheiro aplicado. Você sabe que não gosto de caixas eletrônicos e computadores. Tenho arrepios só de pensar em administrar saldo, limite de cheque, essas coisas. Só por isso mantinha tudo em teu nome.
               Há implicância até porque a conta de lavanderia também não está em meu nome. Você sempre apanhou as roupas, portanto era natural que a conta estivesse no teu nome. Eu apenas deixava as roupas para serem lavadas. Afinal, sou mais cuidadoso que você para separar os pés de meia, roupas íntima, roupas cujas cores e tipos de fio devam ir para máquinas distintas.
               Por outro lado, você é mais habilidosa para conferir se as roupas estão bem lavadas ou passadas. Tem talento especial para ver certos aspectos que às vezes me escapam. Um tipo de atenção que eu, como homem, realmente não tenho. Então é natural que tudo estivesse mesmo em teu nome, porque sempre era você que costumava reclamar quando o serviço estava aquém do desejado.
               A implicância dessa gente não tem limites. Descobriram até que ainda tenho quarto na casa de mamã. E daí?! Isso é motivo para julgar um homem?  Na verdade se trata de uma determinação sentimental de mami. O Máximo, meu irmão, sempre foi mais independente, fazia visitas a ela com menos frequência e é só por isso que nunca teve um quarto próprio lá.
               Chegaram até a questionar por que, embora tenha sido mecânico de carros, tenho aversão a dirigir. Tenho Carteira de Motorista e até dirijo, sim, mas apenas em caso de extrema necessidade. Sempre preferi ter você na direção. Na tua ausência achava mais cômodo me locomover de táxi ou de ônibus. Realmente em raras oportunidades dirigi nosso carro. Ainda assim há testemunhos absurdos de que fui visto com uma das moças nele.
               Foram escarafunchar até o tempo que passei no seminário. Um ano e meio de estudos de teologia! Ora, a fé cristã para mim sempre foi algo espontâneo. Vem da minha educação familiar. Diria que é algo até afetivo. Acredito mesmo em Nosso Senhor Jesus Cristo e na Virgem Maria. Agora vêm afirmar que digo isso para tapear as pessoas, que tenho outra personalidade e que fingi ser o que não era para não revelar o monstro que escondo por trás dessa minha aparência.
               Também inventaram a estória imbecil de que havia trezentos gramas de maconha no quarto de despejo da nossa casa. Essa barbaridade veio a ser corroborada quando descobriram as tais fotos nas quais presumivelmente apareço consumindo cocaína. Depois apresentaram mais “provas”: as tais ampolas usadas nas quais havia, de fato, marcas do meu sangue. Só falta dizerem agora que sou um viciado. Ridículo! Sei que você não acredita em nada disso. Claro que não. É uma mulher sensível e inteligente. Sabe que eu jamais seria capaz de enganá-la, mesmo que tivesse esse perfil obscuro que me atribuem.
               As fotos que encontraram eram apenas de brincadeira, uma molecagem que fiz com os amigos para imitar o que suponho que façam os verdadeiros viciados. Imitação tosca, lógico, pois nunca estive nesse meio e nem sei como as drogas são manipuladas e utilizadas. Para imitar cocaína usamos pó de giz! Rarrarrá! As seringas e agulhas com sangue apareceram por uma infeliz coincidência. Eu estava fazendo aquele curso de técnico de enfermagem. Lembra? Então andei treinando em minhas próprias veias. Apenas isso.
               Houve alarde danado quando descobriram minha paixão por armas. Fui escoteiro, ora. É natural que goste de facas e canivetes. Depois servi o Exército por um ano e passei a gostar de armas de fogo. Mas apenas como prazer inocente, despido de qualquer impulso agressivo. Gosto de armas para guardá-las. Nada mais que isso.
               Quer saber mais? Em 2001 fiz mesmo um curso básico de tiro de defesa. Em abril de 2003 comprei duas facas, um canivete e um coldre estilo PT 58. Essas armas, no entanto, nunca foram usadas. A polícia chegou a mostrar anotações minhas sobre cotações de pistolas Glock, Bereta e até AR-15. Eram de quando eu ainda estava no Exército. Foi por mera curiosidade. Nem teria recursos financeiros para adquiri-las todas.
               É o tipo de bobagem que em uma investigação responsável ninguém teria levado a sério. Uma vez tive uma 380 mm, mas logo a vendi, por não ter gostado do design. A única arma que adquiri e mantive foi aquele revólver calibre 22 que era deixado sobre o guarda-roupas. Foi comprado em uma promoção. Estava muito barato. Mas nunca disparei um só tiro com ele.

***
                       
               Veja como são as coisas: não é que após a reconstituição surgiram mais testemunhos. Era de se prever. Uns exibicionistas! Quanto mais sensacionalismo, mais aparecem canalhas dispostos a se mostrar por meio do caso, mesmo que a custa de deslavadas mentiras. Gente que nem faz ideia de que eu existia agora se prontifica a plantar falsos depoimentos.
               Até o ordinário de um entregador de pizza veio à delegacia dizer que me viu cavando o jardim pela madrugada. Como poderia remexer na terra onde estão as plantas que tanto amo?! Ainda mais no escuro! Veja se há alguma planta danificada no jardim. Não, não há. Como conseguiu ver tais detalhes de uma moto em movimento? Isso nenhum dos investigadores questiona. O que esse sujeito estaria fazendo em nossa rua àquela hora da madrugada? Entregando pizzas certamente que não era. Quem pede pizzas de madrugada? Ninguém.
               Óbvio que está mentindo. Mas a polícia não questiona, pois está mais interessada em jogar novos indícios contra mim, para levar esse espetáculo macabro até onde der e, com isso, se omitir da responsabilidade de achar os verdadeiros culpados. Esse suplício durará tempo suficiente para que tenham provas reais contra quem realmente teria cometido esses
crimes. Se é que os crimes realmente existiram.
               Apareceu outro idiota que diz ser lavador de carros. Não o conheço mais gordo nem mais magro. Contou que fodi (desculpe o jargão) uma dona enquanto o carro passava pelo lava-jato onde ele trabalhava. Que coisa mais absurda! Sou um homem conservador, reservado. Jamais seria capaz desse tipo de exibicionismo! Em primeiro lugar porque te amo e sou absolutamente fiel. Em segundo, porque não tenho perfil de libertino.
               Cá para nós: haveria tempo de um sujeito tirar a roupa de uma moça, penetrá-la e gozar enquanto o carro passa por um equipamento de lava-jato? Nunca! O tempo que leva para a máquina ensaboar e enxaguar um carro não permite que um homem sequer consiga se masturbar. É uma denúncia absolutamente ridícula! Mas à polícia pouco importa o que possa ser verdade.
               Uma putinha escrota deu as caras na delegacia para dizer que fiz proposta indecorosa a ela e a outras senhoritas da mesma laia. Desculpe-me o palavreado, é fruto da revolta. Muita revolta! Juro que nunca vi essa sujeita em minha vida. É um tipo imoral que não merece qualquer consideração.
               É a essa gentinha a quem a polícia dá toda atenção. Ou finge que dá atenção. Enquanto isso eu, que sou um homem probo, trabalhador, cumpridor dos meus deveres, que pago meus impostos em dia, continuo exposto a situações vexatórias, sem condições de revelar a verdade que há por trás dos factoides. Agora eu te pergunto: é justo submeter um cidadão honesto como eu a esse ridículo todo?
              
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               Leu o que saiu hoje no Diário de Madrecitá? Não?! Então compre imediatamente um exemplar para não ser pega desprevenida. Infelizmente, minha querida, seu nome está citado na matéria, inclusive com chamada de primeira página. Embora sejam mais mentiras, é importante que você tome conhecimento e guarde a maldita reportagem.
               Quando me ver livre de tudo isso, vou processar o poder público, o jornal e todos esses vigaristas. Aliás, como seu nome foi mencionado na matéria de hoje, você pode, e deve, processar esse jornal. Faça isso o quanto antes. A reportagem ocupa toda a página policial. Há até um histórico cotando, passo a passo, como eu teria eliminado cada uma das moças. Calúnias atrás de calúnias.
               A droga da matéria foi feita por vingança, pois há coisa de um mês tive um pequeno entrevero com o indivíduo que a escreveu. Na ocasião, sem me consultar o canalha do carcereiro autorizou o jornalista a me fazer uma visita na cela. A conversa, de início, parecia amistosa. Mas logo notei que a intenção do repórter era me prejudicar e então pedi que se retirasse.
               Foi, a princípio, um pedido educado. Porém ele não me ouviu e continuou a fazer perguntas impertinentes. Supliquei ao carcereiro para que pusesse um fim naquilo. Não me atendeu. A certa altura, dominado pela cólera, ataquei o jornalista e fiz pequenos ferimentos com as unhas em seu rosto. Só assim consegui me livrar dele. Entretanto, fomentei no canalha o desejo de vingança. E aí está: escreveu a pior reportagem a meu respeito de toda cobertura ao caso.
               Embora seja totalmente inverídica, com base nos testemunhos mentirosos habituais e num dossiê com dados forjados pela polícia, é óbvio que será utilizada pelos advogados de acusação para tentar influenciar o jurado constituído na ocasião do julgamento. Por isso acho interessante que você entre, desde de já, com um processo contra o jornal por calúnia, tendo em vista que seu nome foi citado.
               Aguado notícias tuas a respeito.

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               Não, não acredito no que você acaba de me contar. Contratou mesmo um jardineiro? Deus do céu, meu bem, você enlouqueceu?! Quantas vezes eu disse que no nosso jardim ninguém, além de mim, deveria pôr as mãos. É um desejo meu. Tem de ser respeitado. Pois em nome do nosso amor, peço a você que dispense esse sujeito.
               Deixe o jardim como está. Não há o que fazer. Antes de ser preso providenciara uma adubação balanceada para manter as plantas vigorosas por pelo menos um ano. Basta regá-las conforme a orientei e espalhar de vez em quando pequenas porções de húmus sobre os canteiros. Só isso. Até lá tenho certeza de que reconquistarei a liberdade para dar segmento aos tratos culturais necessários.
               Sei que foi com boa intenção, mas não havia a menor necessidade de chamar esse jardineiro. Desde que adquirimos a casa tenho cuidado de tudo, inclusive da preparação dos canteiros. Você mesma me ajudou a escolher as plantas. Combinamos que eu cuidaria do trabalho braçal mais pesado e você das regas. Está lembrada do nosso trato?
               Não tenho intenção de que nada disso mude. Nunca! Esse jardim é fruto do nosso amor. Cada centímetro de área plantado tem um pedacinho do nosso esforço e do afeto comum entre nós. Os arranjos foram por nós dois providenciados. Discordamos a respeito de alguns detalhes, mas jamais discutimos acerca do quanto esse jardim é importante para ambos. Agora vem você me dizer que contratou esse jardineiro!
               Pelo amor de Deus, não admito, em hipótese alguma, que alguém de fora meta os bedelhos por lá. O que você disse?! O jardineiro já fez o serviço?! Mas que serviço, porra! O quê?! O jardineiro encontrou ossos?! Que ossos são esses?! É isso o que eu mais suspeitava: o filho duma puta (me desculpe) é mais um canalha a serviço da quadrilha. Está na cara que os meganhas o colocaram lá, no nosso jardim, para semear as evidências que faltavam para concluir o processo.
               Oh, Nana, como você foi ingênua! Foi ele, o jardineiro, que levou os ossos até lá, os enterrou enquanto você não estava por perto e agora diz que os encontrou. Na certa a polícia vai querer revirar todo o terreno e, é claro, encontrará novas evidências, que a essa altura já devem inclusive ter sido plantadas pelo tal jardineiro.
               Antecipo como será a cena. Tudo feito à vista de todos: vizinhos, jornalistas, curiosos e demais bobocas. Mais uma vez nossa casa estará repleta de detratores e, principalmente, de meganhas ávidos por obter quantas provas forjadas forem necessárias para me incriminar. Graças à tua imprudência, meu amor. Oh, será que vou poder te perdoar por isso algum dia?
               O quê?! A polícia já revirou todo o terreno?! Achou mais ossos! Era altamente previsível que isso ocorresse. Deus do céu, todas essas provas falsas serão arroladas no processo e utilizadas pela acusação. A desgraça está feita! Estou irremediavelmente perdido. Não há o que reparar quando certas provas – mesmo que falsas – aparecem. Preciso de tempo para refletir sobre o que fazer daqui por diante. Não confio mais nem no meu advogado. Sou eu mesmo que devo, a partir de agora, conduzir as decisões sobre meu caso.
               Responda-me uma coisa: em que estado ficou o jardim? Arrancaram todas as plantas! Oh, Deus! As roseiras, as azaleias, os beijinhos, os crisântemos... Todas! Pobrezinhas. As plantas são tão inocentes quanto você, meu amor.

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               Enfim, depois de dois anos nesse suplício o dia do julgamento se aproxima. Salvo o fato de eu e você sabermos que sou inocente, não tenho mais porque alimentar esperança de vir a ser absolvido. São muitas as evidências falsas reunidas pela quadrilha de meganhas. Tenho de dar mão à palmatória: esses cretinos fizeram um trabalho consistente.
               Não adianta se culpar, querida. Mesmo que você não tivesse permitido que revirassem o jardim, eles achariam outra maneira de semear provas. São poderosos esses canalhas. Precisamos ser realistas: vou ser condenado e não há qualquer perspectiva de que reconquiste a liberdade tão cedo.
               Significa que você, querida Nana, precisa se planejar para viver sem mim. Terá inclusive de arrumar um bom trabalho que lhe garanta a manutenção da casa sozinha, pois não há possibilidade, em curto prazo, de que eu esteja por aí para ajudá-la. Terá também de se adequar a uma vida solitária, só podendo contar consigo própria. Não chore, querida! Detesto vê-la assim.
               Caso eu seja condenado, o que de momento é mais do que provável, é preciso que você seja forte e esteja preparada emocionalmente para continuar tocando a vida. Sem minha presença física, evidente, pois de espírito estarei sempre do teu lado. Precisarei muito do teu apoio. Quero que continue me visitando, telefonando, escrevendo e tomando as providências cabíveis que eu lhe solicitar. Conto contigo para isso. Sem você, Nana, não sou ninguém. Você será minha metade livre do lado de fora do presídio.
               Tudo que de bom vier para mim daqui por diante terá de ser por intermédio de você. Meu alimento espiritual nos próximos anos serão as lembranças dos bons momentos que vivemos antes de a catástrofe se abater sobre nós. Por isso, insisto, conto com você para me dar apoio enquanto estiver cumprindo a pena à qual for condenado.
               Do jardim não sobrou nada. Nadinha mesmo? Que triste. Oh, meu bem, você terá de refazê-lo do zero. Agora sem minha ajuda física. Mas haverei de orientá-la daqui. Só te peço uma coisa: não quero que outra pessoa ponha as mãos. Só pode ser você. Faço questão, viu? Ah, que bom que você topa!
               Reconstruir o jardim será o plano de vida que me motivará daqui por diante. Escolheremos juntos os novos arranjos, as novas plantas. Tudo com minúcia e simetria. Será bem melhor do que nosso primeiro jardim, o que os meganhas destruíram. Vai ficar lindo! Quando começar a florir, será como se eu reconquistasse um cadinho da minha liberdade.
               Quem sabe até nos motive a escrever um livro sobre jardinagem. Já pensou? Tenho até uma ideia: que tal um livro sobre plantas ornamentais e aromáticas para pequenos espaços? Experiência nós temos de sobra e, sobretudo, bom gosto para ensinar o que sabemos aos outros.
               Esse livro fará o maior sucesso! Pode ser até que resulte em um meio de auxiliar tua subsistência, agora que não pode contar mais com meu trabalho. Depois que o livro for lançado, darei palestras a respeito do tema em instituições assistenciais, como exemplo de preso recuperado por boa conduta. Com isso poderei talvez reduzir alguns anos da minha pena.  Sabia? Pense nisso com carinho. Na cadeia terei todo o tempo para ajudá-la.
               De momento acho que você deve se concentrar no projeto do novo jardim. O livro fica para depois. Terei muitos anos pela frente para te ajudar a escrevê-lo. Quanto ao jardim, antes de tomar qualquer providência faça a relação das plantas e do que precisa ser comprado para o novo projeto. Quero que cheguemos à perfeição!
               Depois de efetivar o plantio, relate a evolução das plantas. Se possível todos os dias. Quais estão crescendo mais rápido. Quais deram flores. Quero vê-las evoluindo por meio dos teus olhos e sentir o odor de cada uma por meio do teu olfato. Esses relatos me farão sentir mais próximo de você e de nossa adorada casa. Quando as plantas estiverem crescidas, com o novo jardim formado, passaremos então à redação do livro.
               Oh, Nana, como te amo! Não vejo a hora de encerrar o julgamento, para definir de vez minha situação. Mas não estou nadinha preocupado. Juro que não. Quero apenas me ver livre desses aborrecimentos todos e, sobretudo, livrar você dessa exposição constante.
               Agora durma, meu amor. Durma com o coração tranquilo. Amanhã terá de estar restabelecida para suportar um dia de tribunal. Mas não se exalte. Principalmente ao ouvir as deslavadas mentiras que certamente dirão a meu respeito. Independente do que ocorrer, esteja certa de que nossos corações continuarão pulsando juntos. Graças ao nosso amor pelas flores. Pelas flores do jardim da nossa casa.