terça-feira, 24 de outubro de 2017

Por que palavra (adjetivo) poética?
Arroubo de emoção. Uma paisagem bonita. Pessoa pela qual se enamora. Cena que toca profundamente. Por exemplo, um gol. Um pôr-do-sol. Uma pata desavisada que atravessa o trânsito com vários filhotes. Uma canção popular inesquecível. Um "fato histórico" que quase nunca é tão histórico quanto se imagina. A fé com que se espera. As coisas do coração. Por alguns desses muitos motivos ou outros que nunca vão nos ocorrer, vem aquela expressão quase espontânea de êxtase: “Que lindo!” E para alguns um pouco mais: “Que poético!”

Será isso mesmo?!
Por que não a palavra (substantivo) poética?
Talvez nem tenha nada a ver com elementos inspiradores, nem com emoção, intuição, paixão, etc. Em princípio, era uma disciplina do pensamento grego antigo que se propunha a investigar as razões, as causas e os processos construtivos da poesia. E, por encomenda, de qualquer obra de arte, pois para os gregos a poesia era a mãe das artes.

Mas de um outro tipo de arte. Arte como técnica. Atividade superior dos artífices. Dos melhores entre os melhores artesãos. Homens de grande talento, habilidades e conhecimentos práticos.
Além da grega, somente duas grandes culturas antigas continuam altamente influentes nos nossos dias: a judaica e a chinesa. Por razões distintas. A judaica porque dela saíram os princípios das duas principais religiões monoteístas do planeta: o cristianismo e o islamismo. De certo modo, essas três culturas primordiais estão por trás da maior parte das tradições e contradições que norteiam a evolução civilizatória que as sucedeu.
Os gregos resultaram de uma miscigenação de povos. Como primeiros falantes mediterrâneos de uma língua primitiva ligeiramente semelhante ao grego estava um povo proveniente do Cáucaso, região da Ásia Central entre os mares Negro e Cáspio. Uma gente que se fixou nas costas da Ilha de Creta, no Mar Mediterrâneo. 

O Mediterrâneo recebeu do Cáucaso várias outras levas de povos. Dentre eles os eritreus, fundadores de Roma, que iniciaram na Itália central um processo civilizatório determinante para o surgimento do Império Romano. Os povos turcos migraram em vários períodos, porém a leva definitiva chegou no século XIII, para acabar com o último império grego na Constantinopla, o Bizantino. A partir dali os turcos constituíram o Império Otomano, que se expandiu para outros continentes e só se dissolveu no século XX. Mas os turcos ficaram por lá e transformaram a antiga Anatolia grega na moderna Turquia. Do Cáucaso provém muita coisa. Inclusive a denominação que agrupa os povos europeus e indo-arianos em um mesmo grupo: caucasianos.
Esses caucasianos que se fixaram na Ilha de Creta, no coração do Mediterrâneo, constituíram ali a chamada civilização minoica, que subsistiu de 3000 a 1400 aC. Teria decaído no esplendor, por decorrência de um período de fortes erupções vulcânicas e terremotos que devastaram suas aglomerações em torno da ilha. Mas até ocorrer o desastre, os minoicos já haviam transformado Creta numa eficiente rede de entrepostos portuários para o comércio com os demais povos navegantes do Mediterrâneo.
Novas correntes migratórias provenientes da Ásia Central chegaram para se somar aos minoicos sobreviventes e constituir outras redes portuárias em faixas continentais do Mediterrâneo. Partes dessas ocupações se deram nas costas do que hoje é a Grécia, em trechos costeiros que vão da atual Turquia ao sul do Líbano, no sul da Itália e em pontos do norte da África. Foi o p
eríodo da chamada civilização micênica.
Ativos comerciantes, os micênios tiveram dominante influência econômica e cultural sobre todos os povos do Mediterrâneo entre 1600 a 1200 aC. Sua sociedade era dominada por uma culta aristocracia de guerreiros, que viviam em conflito sobretudo entre eles próprios. A civilização micênica teria implodido pela soma de guerras internos entre seus quatro principais agrupamentos: dóricos, aqueus, jônicos e eólicos.
A cultura micênica já falava um idioma grego antigo e dispunha de uma escrita definida, embora não tenha deixado registros literários. Sobreviveu principalmente nas tradições religiosas e na literatura grega da cultura que a sucedeu, notadamente nas obras capitais da poesia épica ocidental, Ilíada e Odisseia, presumivelmente escritas pelo aedo (poeta cantor) cego Homero. Os dois poemas, cuja temática aborda presumíveis passagens das grandes guerras entre os quatro agrupamentos citados, teriam sido compostos nos últimos anos do século IV aC, ou seja, cerca de sete séculos após o declínio da civilização micênica, por um poeta (ou conjunto de poetas) que não pertenceu a ela.

Aqui há um grande divisor de águas. Como as demais grandes civilizações da antiguidade cuja memória remonta ao século XIII aC, os gregos se reinventaram a partir das artes e passaram a criar imagens de seu próprio passado que não correspondem ao que os arqueólogos e historiadores vieram a descobrir.
O que se sabe de concreto é que os micênios revolucionaram as artes, a engenharia e a arquitetura. Deixaram resquícios de obras arquitetônicas e técnicas ceramistas não suplantadas por seus sucessores. Embora não haja registros escritos que revelassem o que foram, forneceram as sementes para o auge da civilização grega clássica, de 1.100 a 146 aC, quando se deu o domínio romano. Nesse quase milênio, os gregos criaram os mais altos conhecimentos sobre as artes e o pensamento em geral, as principais ciências, os princípios elementares da legislação, compreendendo os conceitos de urbanidade, de Estado e de soberania dos povos.

Paideia era a denominação do sistema de educação e formação ética dessa civilização, que incluía disciplinas como ginástica, gramática, retórica, música, matemática, geografia, história natural e filosofia, com o propósito de formar um cidadão capaz de desempenhar um papel construtivo na sociedade.
Esse conceito surgiu nos tempos homéricos e permaneceu em sua essência inalterado ao longo dos demais períodos da cultura grega clássica, variando apenas suas formas de aplicação e as disciplinas envolvidas. Esse modelo continua preponderante até os nossos dias. Serve de parâmetro para a educação básica em todos os países modernos, de todas as culturas, regimes políticos e religiões.

Mas o paideia grego era muitíssimo mais abrangente que o referencial do sistema de ensino massificado moderno. Era um conceito o mais abrangente possível do que podia ser essencial para a formação do grego culto de sua época. A poética, para o paideia do período clássico, era a disciplina que visava esclarecer e aprimorar as características gerais e técnicas da poesia, bem como das artes em geral.
Registros mais abrangentes sobre o que era a disciplina são encontrados no conjunto da obra atribuída ao filósofo Aristóteles (384-322 aC), cujas partes foram reunidas por seus seguidores na obra Poética. Antes dele, aspectos da disciplina estavam implícitos em trechos dos diferentes volumes dos Diálogos de Platão (427-347 aC), registrados por seus discípulos.
Na civilização romana, herdeira cultural da grega, o poeta Horácio (65-8 aC) nos legou sua Arte poética e o pensador Caio Cássio Longino (213-273) seu Do sublime.

De lá para cá, estes foram os principais estudos relevantes diretamente voltados para a compreensão ou desdobramento teórico da poética:
  • A arte poética, do poeta italiano Antonio Minturno (1500-1574)
  • Discursos sobre a arte poética, do poeta italiano Torquato Tasso (1544-1595)
  • Arte poética, do poeta francês Nicolas Boileau (1636-1711)
  • Ensaio de uma arte poética crítica, do dramaturgo alemão Johann Christoph Gottsched (1700-1766)
  • Estética, do filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831)

No entanto, há um conjunto de obras importantes que resvala ou se aprofunda em aspectos da disciplina:
 
  • Arte nova de fazer comédias, do dramaturgo e poeta espanhol Lope de Vega (1562-1635) 
  • Da poesia dramática, do enciclopedista francês Denis Diderot (1713-1784)
  • Hölderlin e a essência da poesia, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) 
  • Filosofia da composição, do poeta e contista norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849)
  • Ensaios e textos esparsos, porém essenciais, dos poetas franceses Charles Baudelaire (1821-1867) e Sthéfane Mallarmé (1842-1898)
  • Introdução ao método de Leonardo da Vinci, do poeta francês Paul Valéry (1871-1945) 
  • Obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica e outros ensaios sobre literatura e artes em geral do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940)
  • O ensaio-manifesto Como fazer versos?, do poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930)
  • Ensaios sobre poesia e literatura do poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972)
  • Conjunto da obra do linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), chamado pelo poeta brasileiro Augusto de Campos de “poeta da linguagem”
  • Estudos pontuais no âmbito dos vários círculos de linguistas, em especial os do suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913)
  • Estudos pontuais no âmbito da semiótica, em especial os do filólogo e matemático norte-americano Charles Sanders Pierce (1839-1914)
  • Estudos pontuais no âmbito do formalismo russo e seu sucedâneo, o estruturalismo sediado na França
  • Estudos pontuais no âmbito da construção poética das línguas orientais, sobretudo dos ideogramas de origem chinesa  
  • Pequena estética, do pensador franco-alemão Max Bense (1910-1990)
  • Obras do estudioso de literatura canadense Marshall McLuhan (1911-1980) que transcendem os enfoques de época sobre os chamados meios de comunicação de massa

A poética de diferentes épocas, autores e culturas foi, é e continuará determinante. Não resolve todas as dúvidas. Não aponta todos os caminhos. Não “ensina” tudo que se possa saber sobre a poesia e as artes em geral. Mas sem ela nenhum voo se sustenta.
No Brasil, a produção teórica mais relevante a respeito é, ao meu ver, recente. Encontra-se em ensaios de Augusto de Campos (n. 1931), Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012), José Lino Grünewald (1931-2000) e dos poetas-críticos
João Paulo Paes (1926-1998) e Mário Faustino (1930-1962), não notadamente pertencentes ao movimento de poesia concreta, mas que foram afinados ao que o fundamentou.
Mais recentemente, em textos quase manifestos dos poetas Waly Salomão (1943-2003), Torquato Neto (1944-1972), Paulo Leminski (1944-1989) e do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980).



Apolo - Deus Grego da Poesia

sábado, 14 de outubro de 2017

   Papai era de origem humilde. Começou como vendedor ambulante, passou a motorista de caminhão, por fim a grande empresário do setor de logística e transporte de cargas. Isso graças ao meu avô e, não há como negar, à sua visão de futuro. Chegou a prefeito de Medincitá por dois mandatos. O difícil é entender por que acabou de forma tão vexatória.
   O casamento com mamãe estabelecera a ponte entre a boleia e a coordenação da frota de caminhões graneleiros pertencente a meu avô. Primeiramente, foi chamado para coordenar os motoristas, com os quais se entendia. Afinal, pouco tempo antes fora um deles. Em poucos anos transformou a frota herdada de vovô na Transportadora Nogueira Furtado, uma das maiores do país.
   Nossos vizinhos atuais, aqui na vila onde eu e mamãe moramos, não acreditam quando conto que ela foi uma das mulheres mais bonitas e elegantes da cidade. Avançadíssima! A primeira medincitense a aprender a dirigir. O que representava muito, muito mesmo naquele tempo. Vovô deu a ela uma Mercedez personalizada, toda revestida com acabamento de jacarandá. Circulava com esse carro pela cidade de luvas brancas, xale de seda e óculos escuros. Um luxo!
   Concluiu curso superior, o que também era raro para as mulheres de sua geração, mas nunca trabalhou. Vovô não deixava. Achava que não seria preciso gastar seu esmalte para ganhar miséria com profissional. Bastava representar a família nas rodas sociais. Para isso precisava se manter bonita e espirituosa. Isso ela era de sobra. No máximo vovô permitia que se dedicasse a obras sociais, como outras moças bem nascidas daquele tempo.
   Mesmo antes de o casamento se consumar, papai assumiu a direção operacional da frota de caminhões. Vovô orgulhava-se por ter apostado naquele genro rude, mas impetuoso, que se dava por inteiro ao que fazia. Tão logo adoentou-se, vovô o pôs à frente dos negócios. Com papai no comando, em pouco tempo a Nogueira Furtado tornou-se uma prestigiada transportadora.
   Fê-la crescer e diversificar as atividades. Quando assumiu, a frota de caminhões se limitava a levar soja ou milho para os portos no litoral. Fez com que voltassem de lá carregados de adubo para ser descarregado pelo interior do país. Não trafegavam vazios. A Nogueira Furtado passou também a ter barcaças para transporte hidroviário de grãos, associado à rede ferroviária que fazia o desembarque final no porto de Diliteincitá, no litoral.
   Chegou a atuar no transporte internacional de cargas, inaugurando no país leasing para aviões e navios. Mas o que rendeu maior fortuna foi transportar cargas perigosas com caminhões tanques especiais. A partir daí, a empresa criou uma rede para socorrer acidentes, cujos serviços incluíam a limpeza de produtos de alto risco despejados acidentalmente em rodovias. Um nicho altamente especializado, destinado a atender não só transportadoras brasileiras como de outros países sul-americanos.
   Sem dúvida papai era um homem com grande visão de futuro. Por consequência natural veio o convite para que entrasse para a política. Nem havia se filiado a partido quando um jornal anunciou, de primeira mão, que concorreria à prefeitura. Ganhou com ampla vantagem. Em dois pleitos. Nos oito anos à frente do Executivo municipal dinamizou a cidade, tal como dinamizara os negócios de vovô.
   Ainda hoje os medincitenses se lembram saudosos de suas duas gestões. Conseguiu a proeza de ser tão benquisto pelos eleitores humildes quanto pelos da alta sociedade. O curioso é que permaneceu um homem tosco. Nunca o vi conjugar uma só frase que não tivesse erro gramatical. Era, sim, muito animado e engraçado. Aonde chegava, homens e mulheres o cercavam para compartilhar de sua simpatia festiva.
   Dos filhos que teve com mamãe sou a única mulher. Mas nunca gostou de mim. Dizia que eu tinha cara de maria-mole, era sem graça e nem parecia ser filha dele. Pelo menos nisso foi sincero. Sarcástico, tinha o costume de me chamar de “fofa”. A depender do estado de humor, chamava-me também de “bolostrô”, “qualquer coisa que pisa pesado”, “pamonha azeda”, “bofe de sapatão”, “cagada de elefante” e por aí afora. Eu ainda era obrigada a rir para não deixá-lo mais enfurecido.
   A certa altura de nossas vidas ficou obsecado por transformar meus irmãos em homens de negócios. Enaltecia qualidades que não tinham. Mesmo quando cometiam erros estúpidos, eram elogiados. Achava que certa irresponsabilidade devesse mesmo fazer parte da formação dos três enquanto jovens. Em dado momento “os meninos” haveriam de amadurecer para serem incorporados à empresa.
   Já tinha até cargos designados para cada um. O conselho administrativo considerava determinados diretores provisórios, pois em algum momento seriam substituídos pelos “doutoresinhos”. O problema é que meus irmãos não amadureceram e nem demonstraram as aptidões que deles papai esperava. Em dado momento, concluiu que não conseguiria encaminhá-los para coisa alguma e os deixou à deriva.
   Passei a desconfiar que meu irmão mais velho, Vinicius, gostava de garotos. Não de qualquer garoto. Desses entre oito e doze anos, bonitos, espertos, com cara de Peter Pan. Era vidrado no personagem. Tinha coleção de bonequinhos dele no quarto. Não era de ler, mas sabia tudo sobre o dramaturgo escocês James Matthew Barrie, que criara esse garoto com o sobrenome do deus grego das florestas, cujas aventuras imaginadas na Terra do Nunca supostamente se tornaram reais. Um pequeno homem-pássaro tocador de flauta que se recusou a crescer.
   Mamãe trabalhava como voluntária numa clínica de assistência para jovens infratores. Vinicius fazia questão de levá-la e buscá-la nos finais de expedientes. Chamava-me para ir junto. Meu papel não era propriamente fazer companhia, mas ajudá-lo a dissimular. Obrigava-me a manter os fones do aparelho de som fincados nos ouvidos. Ainda assim percebia que dizia coisas para os meninos.
   No princípio achei que se limitasse a fazer troças e brincadeiras provocativas. Um dia tirei os fones para ouvir melhor e descobri que não eram insinuações inocentes. Tratavam-se de gracejos sedutores, cantadas. Mesmo que em nada resultassem, era sinal de que desejava desesperadamente fazer algo mais com eles.
   Bem provável que até aquele momento se tratasse apenas de uma tentação. Suponho mesmo que meu irmão desejou se relacionar com meninos, esteve em vias disso, mas o sentimento de culpa e a covardia por ter de enfrentar a condenação moral de toda a sociedade medincitense o atormentavam tanto que nem conseguiu. Mas o desejo, por si só, foi o bastante para destruí-lo.
   Estava noivo de uma moça amiga da família que não saía lá de casa. Filha do melhor amigo de papai. Crescera conosco. Moça séria, casamenteira, predestinada a formar par com algum dos bons partidos da cidade. Era muito apegada à mãe religiosa, que por sua vez não se desgrudava dos padres. Aos 18 anos já tinha cara de senhora.  Podem até dizer que sou preconceituosa, mas vou ser franca: padres e cabeleireiros, a maioria homossexual, têm capacidade nata de tornar as mulheres desinteressantes.
   Na semana que antecedeu o casamento, meu irmão a chamou para uma conversa e rompeu o compromisso. Mais que noiva, ela era sua principal confidente e insistiu muito para que revelasse o motivo. Vinicius então confessou a dolorosa atração por meninos. A reação da moça foi de histeria. Num momento de fúria, contou a várias pessoas o motivo do cancelamento do noivado. Em poucos dias toda a sociedade medincitense comentava esse lado obscuro do meu irmão.
   O escândalo marcou para sempre minha família. A tal moça, coitada, apesar de ter cometido a bobagem, ficou realmente arrasada e nunca mais se reergueu. Ao contrário de mim que sou uma gorda festiva, tornou-se uma “fofa” depressiva. Meu irmão sentiu-se tão culpado por tê-la deixado naquele estado que não saía mais de casa, para não ter de dar explicações às pessoas conhecidas.
   Papai então o pôs para trabalhar no escritório da transportadora da cidade portuária de Diletincitá, para onde se mudou. Depois disso não retornou mais. Até que um dia recebemos a notícia de que morrera em um acidente de carro. Choque frontal contra a pilastra de uma ponte, em alta velocidade. Provável suicídio, embora nunca comprovado. Somando-se tudo, até a causa real de sua morte Vinicius conseguiu esconder das pessoas.
   Homero, o irmão logo abaixo dele, gostava de filosofia oriental e de crenças espiritualistas. Só falava nisso! Vivia pelos jardins da nossa grande casa em constante estado de meditação. Papai não suportava aquilo. A certa altura começou a implicar até com as “roupas de veado” que ele usava. Sabia que esse meu irmão não era homossexual. Dizia isso para ofendê-lo.
   Para se ver livre de Homero por algum tempo, franqueou a ele uma viagem até a Índia, com direito a permanecer por lá o quanto quisesse. Meu irmão morou na Índia por três anos, sempre mantido por papai. Quando voltou já não tinha qualquer interesse pelas crenças e ideias espiritualistas que motivaram sua viagem de ida. Aparentemente, seu novo interesse era por computadores.
   Vivia agitado pela casa, com aparência de que fazia mil coisas. No fundo, sabíamos que ele não fazia nada. Era um óbvio usuário de cocaína. A surpresa maior foi quando descobrimos que também consumia crack. Em momento algum deixou de receber a mesada, quase toda repassada aos traficantes. Talvez papai até achasse cômodo o fato de aquele seu filho desajustado ser um drogado.
   Homero começou a ficar paranoico. Trancava-se em sua suíte por dias seguidos. Passavam roupas e comidas para ele pelos vãos do vitrô do banheiro. Um dia ouviram estalidos. Suspeitaram de um curto-circuito ou coisa parecida. Quando a porta foi arrombada, um dos empregados o encontrou com uma única marca de tiro na têmpora. Papai estava tão ocupado naquele dia que não apareceu no velório e nem acompanhou o sepultamento.
   Virgílio, abaixo de mim, era o filho caçula. Houve época que gostava muito de cavalos. Era difícil vê-lo sem botas e demais indumentárias de equitação. Chegou a ser relacionado entre os atletas de pentatlo com possibilidades de representar o Brasil nos Jogos Olímpicos. Praticava quatro modalidades hípicas: salto, dressage, corridas e polo. Era bom, sobretudo, nas provas de salto.
   De repente se cansou dos treinos e passou a dizer que achava o esporte um tipo de vagabundagem disfarçada. Anunciou então que queria trabalhar duro e dar sentido produtivo à sua vida, como fizera papai na juventude. Este, claro, ficou envaidecido. Finalmente um filho seu saíra com talento empreendedor! Anunciou na empresa que prepararia Virgílio para sucedê-lo e liberou o cargo a ele destinado na direção.
   Para sua surpresa, meu irmão recusou a oferta. Argumentou que queria crescer como papai, a partir da própria capacidade de trabalho. Pediu uma única ajuda: que fosse o avalista de um financiamento bancário para comprar seu primeiro caminhão. Quem iria dirigi-lo? Ele próprio, ora! Ao volante do veículo pretendia fazer o pé de meia para comprar outros caminhões e montar sua própria transportadora.
   Papai achou aquilo um absurdo. Que tirasse aquela ideia estúpida da cabeça. Imagine o que diriam dele se descobrissem que o filho era reles motorista de caminhão. Não, nunca! Também era bobagem tê-lo como exemplo profissional. Os tempos eram outros. Ninguém mais chegava a empresário a partir de uma boleia de caminhão.
   Discutiram feio a respeito. Após o ocorrido, Virgílio se calou. A cada dia se mostrava mais ausente e decepcionado com tudo. Deixou de ir às festas. Nunca mais foi visto nos almoços de domingo da família na chácara da represa. Permanecia em casa, apático, completamente inativo. A namorada, por quem fora até então apaixonado, trocou-o por outro e ele aceitou com resignação.
   Todos sabiam que fazia coisas escondidas em casa. Mas demorou para descobrirem que surrupiava bebidas do bar de papai. Quando se deram conta disso já era tarde e ele estava com cirrose em estado avançado. Morreu aos 21 anos. Lembro-me de vê-lo no caixão com os pés bastante inchados, os olhos esbugalhados, a face afundada e os dentes amarelados pela nicotina saltando para fora. Algo parecido com um velho de cara jovem, um jovem de cara velha ou coisa parecida.
   Sobrei eu, a “fofa”. Não era só papai que não me queria bem. Ninguém gostava de mim. Meu primeiro apelido no colégio foi “Bete Balança Rabo”. Isso porque dançava nas festas como uma doida, esbarrando em todos com meu quadril volumoso. Por sentir na pele toda rejeição às gordas, procurei me relacionar com pessoas de ambos os sexos; com a óbvia intenção de apenas me aproximar delas. Não posso dizer que sou bissexual. Há muito tempo nem faço sexo.
   Algumas gordinhas se enamoram dos pais. Comigo não houve esse problema, porque papai nunca me deu chance de lhe dar um beijo, um abraço, o que dirá ter vislumbres incestuosos. Que eu me lembre, nunca me pegou no colo quando criança. Brincava de luta com meus irmãos, carregava-os de cavalinho, mas em mim nunca encostou um dedo.
   Vida de gorda não é fácil. Se você emagrece, perguntam se está doente. Se engorda, te condenam. Nas conversas em grupo só há duas alternativas: calar a boca ou se fazer de engraçada. A gorda tem de ser sempre muito divertida, mesmo que esteja de péssimo humor. Gordos incomodam as pessoas só pela presença.
   Quando a bacaninha emagrece, todos vibram. “Oh, como ela está linda!” A sociedade em peso indaga: “Será que faz academia?” “Pilates?” “É vegetariana?!” “Ora, sabia!” “O principal é que ela está com estima acima do Everest.” “Se sente gostosa, bem-amada.” “Para que pensar em comida se já é tão bem comida, não é mesmo?”
   Agora se a “fofa” engorda, o mundo desaba. “Ih, desta vez a baranga está chutando o pau da barraca para valer.” “É incrivelmente problemática essa aí.” “Muito complexada!” “Tão ansiosa que costuma roer as unhas até as raízes.” “Vive bichada. Tem problemas de intestino.” “Só vai ao banheiro uma vez por mês e olhe lá!” “Está sempre para baixo.” “Não tem mesmo jeito” “Daqui a pouco vai virar uma baleia.”
   O preconceito contra as gordas vem de toda parte. Principalmente das ex-gordas. São como ex-alcoólatras: misturam a culpa à tentação e saem por aí com rompantes reacionários contra aquilo de que ainda se sentem parte. É incrível! Basta uma gorda perder uns quilos e já difama cruelmente as colegas que continuam cheinhas.
   Nós, gordos, não somos minoria. O mundo tem bilhões de gordos. De todas as raças, crenças, cores e idades. Não se trata de gente meio gorda, como eu, mas gorda para valer, com peso de cem, duzentos quilos, até mais. Nos EUA, que lideram a população de gordos, a obesidade dobrou a partir dos anos 1980 e o Brasil vem imitando os americanos: 51% da população nacional está acima do peso.
   Até que sou bem resolvida nesse aspecto. Não gostou de mim gordinha como sou? Então vá se foder! Nasci espaçosa desde o berço e não vou mudar meu modo de ser só porque beltraninho ou sicraninha não gostam de mim. Também não sou, como a maioria das mulheres, neuróticas por controlar o peso. Sei lá quantos quilos tenho. Não subo em balança há décadas!
   Conheço mulheres que só falam de dietas. O tempo todo. Morrem de culpa por comer um pedacinho de bolo. Eu como logo uns dez! Se têm previsão de férias ou passeios, essas infelizes correm para as academias e malham como umas desgraçadas para perder alguns gramas que ninguém irá notar. As menos esforçadas tomam remédios para diminuir o apetite e ficam doidonas, desagradáveis.
   Algumas dondocas malham para valer e até adquirem músculos. Isso de mulher ser musculosa é de uma breguice equina. Tudo bem. O corpo é delas, portanto que o deformem como quiserem. Sabe de uma coisa? Esse tipo de dona nunca se sentirá bem o suficiente com coisa alguma.
   Com o avanço da idade enlouquecerá ao constatar que a musculatura ficou flácida. Terá papadas enormes dos lados dos ombros. Como não há academia e personal trainer que possa reverter isso, fará da vida do marido um purgatório até que os infeliz permita que se submeta a sucessivas cirurgias plásticas que dará a ela aparência cada vez mais monstruosa. Deveria viver a vida enquanto há tempo e parar com tanto sacrifício por nada.
   A condição de “fofa” é tão humilhante que um grupo de alunos de uma das mais importantes universidades do país organizou o chamado Rodeio das Gordas. O objetivo era agarrar as colegas rotundas, como os peões fazem com bois e cavalos numa arena, e simular um rodeio. Ganharia o que ficasse o maior tempo possível montado sobre a sua. As gordas levavam tapas nas nádegas para permanecer de quatro enquanto eram cavalgadas.
   Que esses cabeças de crilas entendam de uma vez por todas que uma pessoa gorda não é pior que uma magra. Nem mais preguiçosa. Nem mais relapsa. Nem mais burra. Seu corpo... Ora, deixem-na ter seus quilos a mais em paz! E não venham como essa cretinice politicamente correta de exaltar os gordos. Precisamos ser realistas: ser gordo não é bonito.
   Meu único pedido como gorda assumida é que ninguém me olhe feio quando quiser comer bastante. Nem use de argumentos sobre o que é bom para minha saúde, despejando mil regras a respeito de como devo ser. Ingiro e expilo o que quiser. O corpo é meu, já disse, sou eu quem carrega os malefícios que ele pode me causar.
   Após as mortes dos meus três irmãos, papai foi se tornando depressivo e suas condições de saúde se complicaram. Bebia cada vez mais. De pessoa positiva e simpática, passou a depressivo e inconveniente. Em especial com as mulheres. Dizia a elas coisas que as levaram a evitá-lo para não passarem vergonha. Inclusive muitas que chegaram a gostar dele e foram suas amantes.
   A complicação maior se deu numa celebração cívica organizada pela Câmara Municipal de Medincitá, para a qual foram convidados todos os ex-prefeitos vivos, inclusive ele. Meu pai, sem mais nem menos, agarrou os seios da mulher de um vereador na frente de todos. O parlamentar era baixo, magro e não ousou medir forças com ele. A desgraça foi os fotógrafos e cinegrafistas terem flagrado o episódio. Como aquilo pegou mal! Imagens do incidente foram divulgadas até por sites internacionais.
   Seus correligionários políticos marcaram uma reunião em nossa casa após o ocorrido. Nesse dia papai conseguiu se manter sóbrio e ouviu, calado, tudo o que tinham para dizer. Procuraram convencê-lo de que era o momento de deixar de vez a bebida e não se expor mais daquela maneira. Argumentaram que a sociedade medincitence não admitia sucessivas transgressões por parte de quem, como ele, tivera tanto prestígio. Se voltasse a se candidatar, o que era desejável, certamente a má impressão deixada por incidentes como aquele iriam refletir negativamente nos resultados.
   Papai se manteve cabisbaixo e acatou as críticas. Nunca o vi tão abatido. Porém não teve tempo de refletir a respeito. Naquela mesma noite a bolha do perigo veio subindo pela sua corrente sanguínea, lenta e gradualmente, na direção do cérebro. Em determinado momento chegou ao limite da artéria com os vasos, forçou, forçou, até que estourou.
   Ficou vegetativo por quase três anos. De início foi cuidado por um enfermeiro. Logo que os negócios foram à breca e começamos a ter complicações por falta de dinheiro, eu e mamãe nos revezamos para assisti-lo. Quando não tínhamos qualquer esperança de que se recuperasse, recobrou a consciência e desandou a falar como se nada tivesse ocorrido.
   Uma recuperação súbita, que deixou os médicos mais encabulados que entusiasmados. Chegou a me enxotar do quarto. Um sinal de que voltara a ser o papai de sempre. No dia em que os médicos anunciaram a alta, teve uma recaída e, semana depois, morreu por decorrência de uma infecção hospitalar.
   Sua longa convalescença levou a transportadora à ruína. A empresa tinha alto custo operacional, o que demandava movimento constante para manter fluxo de caixa positivo. Ocorre que quem fechava todos os contratos sempre fora ele, papai. Os empresários não confiavam em outro representante e se recusavam a conversar com quem quer que fosse procurá-los em nome da empresa.
   No período em que papai esteve internado, eu e mamãe descobrimos que tinha outra família. Essa mulher e os três filhos tiveram a pachorra de visitá-lo no hospital. Era nítido pelos traços que a moça e os dois rapazes eram meus meio-irmãos. Saudáveis, trabalhadores e independentes. Opostos de mim e do que foram meus irmãos verdadeiros. Soube mais tarde que os três bastardos nunca contaram com a presença física dele e nem com apoio financeiro.
   Com o falecimento de papai, a partilha da herança foi a juízo. Eu e mamãe contratamos a melhor junta de advogados da cidade. O juiz admitiu, em conversa informal, que venceríamos facilmente como principais herdeiras. Foi o que ocorreu. Escolhemos os bens considerados de maior valor: dois apartamentos, a casa ampla onde moramos, o prédio comercial no centro da cidade, a casa da chácara e a casa de praia.
   À outra família coube a massa falida da transportadora, com seus galpões quase vazios e alguns caminhões avariados. Descobrimos, tarde demais, que os bens que escolhemos já haviam entrado como caução para cobrir dívidas antigas contraídas pelo falecido junto aos bancos e agiotas. Ficamos pasmas. Sequer sabíamos o que fazia um agiota. Viemos a saber quando um deles bateu à nossa porta tarde da noite para nos ameaçar.
   Tivemos de vender um a um dos imóveis para pagar as dívidas e os honorários dos advogados. Aos quais mamãe ainda insistia em chamar de “amigos da família”. Os causídicos nos abocanharam o prédio comercial no centro da cidade. E ainda tivemos de vender a casa ampla onde morávamos para pagar dívidas. Fomos obrigadas a residir no único imóvel que nos restou: um pequeno apartamento com dois quartos e um único banheiro.
   A sala, a cozinha e a área de serviço desse imóvel eram minúsculas. Confinadas naquele cubículo, a relação entre nós duas piorou, envolvendo muita angústia e mesquinharia por falta de dinheiro. As brigas eram constantes. Terminavam sempre com uma acusando a outra pela dilapidação do patrimônio.
   Não tínhamos mais dúvida de que o destino nos fora adverso. Portanto era preciso chegarmos a um acordo, pois não havia alternativa senão sermos práticas. A primeira medida foi parar com as brigas para conseguirmos enfrentar a avalanche de problemas juntas. Então vendemos também o pequenos apartamento onde morávamos, já que não tínhamos outra fonte de renda, e alugamos uma casa minúscula na periferia.
   Sequer precisamos despedir a empregada. Ela simplesmente foi embora sem nos avisar. Abandonou-nos e, como acerto de contas por ela própria arbitrado, levou um valioso conjunto de talheres de prata. Em pouco tempo tivemos de aprender a cuidar da faxina e a viver modestamente com o mínimo de que dispúnhamos.
   Certo dia recebemos visita da “outra”. Ela nos revelou com orgulho que os filhos trabalhavam firme na transportadora, haviam recuperado os caminhões que restaram do espólio e obtiveram financiamento para adquirir veículos novos. Segundo ela, eram sólidas as perspectivas de a empresa voltar a crescer. Depois dessa conversa, bastante agradável por sinal, nos convenceu a visitar sua casa.
   Residia também na periferia, coincidentemente em endereço bem próximo de onde morávamos. Sua casa era simples, porém mais ampla e aprazível que a nossa. Pela primeira vez pude conversar com meus meio-irmãos. Trabalhavam parte do dia na transportadora, mas mantinham as antigas ocupações.
   O mais velho tinha um escritório de contabilidade, o outro uma pequena academia de ginástica e a moça atuava como enfermeira padrão em uma instituição hospitalar. Haviam se formado com dificuldade, trabalhando desde jovens para auxiliar nos gastos da casa e pagar os próprios estudos.
   A partir desse primeiro encontro, as duas famílias – a que fora um dia a titular e a que fora um dia a clandestina – tornaram-se cada vez mais próximas. Foi uma dádiva quando meus meio-irmãos me convidaram para trabalhar com eles na transportadora. Chamaram também mamãe, mas ela declinou do convite. Se quando jovem não fizera parte daquele antigo negócio fundado por seu pai, não seria agora, idosa, que aceitaria.
   Preferiu continuar na clínica veterinária que a contratara para fazer tosas e dar banho nos cães. Juntando o que passei a ganhar na transportadora com o salário de mamãe na clínica, nosso padrão de vida melhorou bastante. Conseguimos até comprar um carro. De segunda mão, claro. Após a decadência de papai, que fulminou o patrimônio da família, eu e mamãe não só ficamos sem os bens, como perdemos o convívio com os amigos e os parentes endinheirados. De modo que só nos restou como amigos próximos a “outra” e seus três filhos.
   Passamos então a comemorar todas as datas festivas juntos. Natal, Ano Novo, aniversários, etc. Minha mãe e dona Vivi, a “outra”, tornaram-se confidentes. Desde então não tomam decisões sem se consultarem. Ontem à noite dona Vivi veio consultar mamãe sobre uma novidade e tanto. Disse que meus meio-irmãos compraram um lote grande, não muito longe de onde moramos. A ideia é financiar a construção de uma casa ampla que nos abrigue a todos. Quis saber se mamãe estava de acordo. Lógico que sim.
   Nem papai, com sua sagaz visão de futuro, seria capaz de imaginar esse desfecho.

sábado, 23 de setembro de 2017



Droga aqui não é qualificação da literatura produzida, embora grande parte do que se publique hoje em dia assim seja. As drogas desta parada são as que alguns escritores costumaram usar ao longo da história da literatura; isso sem querer afirmar que é regra entre os que escrevem se valer das drogas.
Os escritores, e artistas em geral, usam drogas porque a população as usa. Seus nomes vêm à torna como usuários porque são vitrines da sociedade.
Bom, mas o certo é que além do rock’n’roll, cuja imagem é associada a drogas e a sexo, a boa literatura sempre foi produzida por parcela significativa de doidões.
Nem vou me referir aos consumidores da principal das drogas, o álcool, pois o mais difícil é encontrar um escritor que não seja.

Beber para escrever é hábito mais antigo do que se pensa. Em Roma, o poeta Horácio (65-8 aC) anunciava aos quatro ventos os efeitos inspiradores que o vinho lhe proporcionava. Ainda advertia: "Quem só bebe água não consegue escrever bons poemas".
Limitarei-me a alguns dos que foram chegados a outros tipos de “paraísos artificiais”. Ressalte-se que a lista é muito maior que a deste artigo. E aproveitarei para fornecer algumas informações sobre os "parsos" citados; mais para desmistificá-los que enaltecê-los.

Les paradis artificiels é o nome de um artigo escrito pelo poeta pré-simbolista francês Charles Baudelaire (1821-1867), publicado em 1860, sobre os efeitos de três substâncias muito populares na sua época e pelas quais ele tinha especial afeição: o haxixe, o ópio e o vinho.


Charles Baudelaire

Baudelaire residia num hotel de artistas de Paris chamado Pimodan, onde existia o informal Club des Hachichins, frequentado por escritores como Théophile Gautier (1811-1872), Victor Hugo (1802-1885), Honoré de Balzac (1799-1850) e Alexandre Dumas (1802-1870)...


segunda-feira, 4 de setembro de 2017



            À margem da margem da margem, mas por dentro das engrenagens que rangem os mecanismos do mundo, Mia Miranda passa os olhos logo cedo pelos sites noticiosos. Detém-se numa notícia sobre as vaias recebidas pelo ministro da Saúde após ter discursado em um evento político a favor do Plebiscito Nacional pela Descriminalização do Aborto. Integrantes da Frente pela Vida Contra o Aborto levaram faixas para protestar contra o ministro. Uma delas trazia a indignada indagação: “Será que os pais dele também eram pró-aborto?”
            O deputado Luizão Pastor, apontado como articulador do protesto e autoproclamado líder da Frente dos Parlamentares Tementes a Deus, garantiu que conta com o apoio de 189 deputados para lançar mão de uma ação de repúdio ao projeto. Pastor e seus correligionários defendem o “direito inviolável do ser humano de procriar”. No final, o deputado entregou ao ministro um "filme científico" sobre o tema.

            Mia se afasta do computador e concentra-se agora em preparar o espírito para mais uma detestável consulta ginecológica. Dentro de hora fará exames para avaliar se é portadora de cromossomos com potenciais viabilidades reprodutivas. O sonho de ter um filho é antigo. Há de ser agora ou nunca. Além do limite de idade, há outros impedimentos de ordem prática. Precisa mudar a rotina para se dedicar à maternidade. Como fazer isso se vive de bicos e com demandas de trabalho das mais imprevisíveis? Não pode contar com a família. Aliás, a mãe e o irmão é que dependem do apoio dela.

            Se for mesmo para procriar, será uma produção independente, sem compromisso com o fornecedor do sêmen. Vê o homem que ama, Maninho, apenas uma vez por ano, durante o Carnaval. Não pode contar com ele para nada. Coitado! Vive o dilema de nem conseguir dar apoio aos filhos gerados. Seria uma crueldade incumbi-lo de mais um. Não tem intenção de dar para um homem só para conseguir se engravidar. É conservadora nesse aspecto. Sexo é sexo, filho é filho. Além do ginecologista, só abre as pernas para gozar e ser gozada. Caso opte por se engravidar, será mesmo por inseminação de um doador anônimo.

            O banho é mais demorado que de costume. Lava a periquita com o máximo de cuidado. Não quer fazer feio perante o médico. Ao se perfumar, confronta-se no espelho. Vê o quanto é gostosa não só com os próprios olhos, mas com os olhares dos que a cobiçam no dia a dia. É loira, muito loira. Tem os olhos de um colorido dúbio, ora verdes, ora azuis. Seus lábios e as maçãs salientes no rosto não são obra de cirurgião plástico. Nem os seios mais firmes que os de muitas adolescentes. O quadril tem a mesma proporção de quando tinha 18 anos. A face ficou um pouco maior, a voz mais grave, a pele menos aveludada, mas seu corpão continua com todos os predicativos que mexem com os hormônios de outros e outras.

            Sente-se desejada até demais. Há momentos que tem dúvida se ser bonita é qualidade ou estigma. Em sua profissão – é jornalista – crê até que atrapalhe. Em todos os locais por onde trabalhou teve de provar que é muito mais que bonita. Os amigos de redação, quase todos homens, costumam dizer que ela é uma mulher atípica. É bonita. Tem senso de humor. Vai aos estádios de futebol com eles. Não é mística. Não é vegetariana. Gosta de beber cachaça. Gosta de charutos. Não sangra quando menstruada e nunca soube o que é ter TPM.

            Cada vez que pensa no dilema da gravidez se sente como a acidaúrica Ágata, irmã-amante de Ulrich, personagens do não finalizado homem sem qualidades do Musil. Se por um lado os atributos físicos e o bom humor a tornam uma mulher sociável, seus comentários nem sempre agradam a todos. Muitas vezes o caráter jocoso de suas colocações lhe reservou dissabores. Tem autocrítica a respeito disso. Sabe que é preciso ter mais cuidado ao emitir certas opiniões, pois um número significativo de pessoas a consideram esnobe e até esquisita.

            Antes de sair, dá uns pegas na ponta de um baseado. Terá tempo de sobra para chegar. Quarenta minutos! Uma eternidade para quem, como ela, tem rotina tão limitada. Caminhará até o consultório sem muita pressa. A porcaria do carro ficará descansando os amortecedores frouxos na garagem do prédio. Passa pela esquina onde faz ponto um flanelinha seu conhecido. O garoto faz boca de pó num dos cruzamentos mais movimentadas do centro da cidade. Se a polícia aparece, se safa no meio da multidão.

            Ouvira fogos durante a madrugada. Quer saber com ele se chegou coisa nova na favela. Confirma que sim. Mia aproveita para reclamar da última encomenda e ele promete caprichar desta vez. Combina de vir apanhar o pedido no final da tarde. Motoristas parados no semáforo buzinam maliciosos. O que leva uma loura gostosa como aquela a papear demoradamente com um crioulinho magrelo de chinelos de dedos e bermudão? Só pode ser venda de drogas.

            Mia ignora as insinuações e segue pela calçada. Ninguém de um lado e do outro, aproveita para acender a sobra da ponta do baseado. Dá mais alguns pegas. Quando não consegue mais segurar a bagana, atira-a numa boca-de-lobo. Passa a mascar um chiclete para disfarçar o hálito. Na sala de recepção do consultório se depara com aquele clima de velório. Todas as mulheres que ali se encontram sabem que as outras, como elas, vão escancarar as pernas e permitir que o médico as espie por dentro.

            Quase nem se olham. Para não denunciar o pavor, a apatia e, quando o caso, o pudor que lhes acomete. Exemplares da revista Caras passeiam nervosamente de mão em mão. Mia apanha uma edição antiga de uma revista semanal, a qual repercute os resultados de uma pesquisa sobre a pena de morte. Já havia se esquecido do quanto o assunto fora polêmico na ocasião.

            A maioria dos entrevistados se posicionou favorável à pena capital. Mas a mesma pesquisa apontou que parcela significativa deles não queria mudanças na legislação do aborto. Se por um lado eram favoráveis à garantia aos meios naturais de reprodução – sem interrompê-los, independente das circunstâncias do coito – por outro queriam que o Estado continuasse a utilizar meios nada naturais para excluir os indivíduos indesejáveis.

            Anotara numa caderneta parte do que o ginecologista dissera na consulta anterior. Ele insistira muito em explicar o que são os cromossomos. Disse que são vinte e quatro tipos identificados por métodos de bandeamento nos laboratórios de citogenética. O número é fixo para cada espécie. Achou engraçado quando mencionou os números de alguns cromossomos diploides: drosófilas (gênero de pequenas moscas), 8; galinhas, 32; mulheres, 46; planta do trigo, 42; e planta do tabaco, 48.

            Uma mocinha olha rapidamente para ela. Também é loira a coisinha portadora de fatores hereditários ativos diante dela. Deve estar em pânico ante a possibilidade de ter aquele tubo frio enfiado na xotinha estreita. É provável que nunca tenha experimentado uma coisa roliça com pele, carne, músculos, cheia de vida, bem quentinha, que no final se estremece em êxtase e expele aquele líquido morno por dentro.

            Continua a conferir as anotações na caderneta. O médico dissera ainda que em uma célula somática cada cromossomo de um tipo corresponde a um segundo cromossomo homólogo. Cromossomos sexuais, no entanto, não têm homólogos. São ímpares. Durante o ciclo celular passam por estágios ordenados de condensação e descondensação. Quando condensados ao máximo, o DNA mede cerca de 1/10 mil do comprimento natural. Se as células completam a meiose, se descondensam e retornam ao estado relaxado, prontos para recomeçar o ciclo.

            Uma boazuda morena deixa o consultório com os óculos escuros tortos. Acaba de ser examinada. Talvez pense que ao esconder os olhos esconda o que o médico fez por dentro de sua xota. Está desnorteada. Caminha às tontas em busca da saída. À indagação da secretária se deseja marcar retorno, apenas faz um gesto para deixar para outra hora. Mia a vê cambaleando pelo hall dos elevadores.

            Finalmente chega sua vez. O médico é um velho conhecido. Faz-lhe série de perguntas que, aparentemente, nada têm a ver com a consulta. Quer saber se já conseguiu trabalho fixo. Claro que não. Pretende constituir relação estável com o parceiro? Claro que não. Maninho tem uma vida tão complicada que seria covardia exigir dele um papel para o qual seria incapaz de corresponder. Continuarão amantes, sim, mas apenas amantes.

            O médico vai direto ao assunto:

            Mesmo assim a senhorita quer fazer exames para...

            Não, não sabe ao certo se quer ter filhos. Mas já que ele terá de vê-la por dentro com o maldito aparelho, que providencie logo material para exames completos acerca de suas possibilidades de se engravidar. Entra na minúscula sala de vestiário. Sem fechar a cortina, despe-se com movimentos mecânicos, veste o avental e deita-se de pernas abertas. O médico passa a manipular suas intimidades.

            Ele fala pelos cotovelos. Tem esse hábito com todas as pacientes. Acha que ao conversar com elas sobre qualquer assunto que lhe vem à cabeça, consegue de alguma forma distraí-las. Conta que está preocupado com o surto de dengue no condomínio onde mora. Tem conhecimento de várias piscinas pessimamente cuidadas, em imóveis não ocupados, propícias à reprodução de larvas.

            Mia ouve quase nada do que o médico diz. Olha para seus movimentos práticos e objetivos. Talvez para ele mexer em sua xota seja algo tão comum quanto regar as plantas de casa. Contrai-se quando sente o tubo frio entrando pelo canal da vagina. Procura controlar a respiração para não entrar em pânico. Cessado o sufoco, passa a pensar no que fará no restante da tarde, após se ver livre daquilo.

            O médico volta a falar de cromossomos. Diz que o genoma humano, na sua forma diploide, consiste em aproximadamente seis a sete milhões de pares de cromossomos alinhados linearmente. Segundo estimativas, cada genoma humano contém de dez a cinquenta mil genes, os quais codificam um número igual de proteínas que controlam todos os aspectos da embriogênese: desenvolvimento, crescimento, reprodução e metabolismo.

            Mia volta a pensar na agenda a ser cumprida. Irá à agência bancária negociar o estouro do cheque especial. Passará na Associação dos Empresários da Construção Civil para conversar sobre o projeto da reforma editorial do site. Na primeira reunião um dos diretores quase a comeu com os olhos. Tomara que tenha o mesmo apetite quanto à proposta que pretende apresentar. Depois fará uma visita à agência do amigo Brazuca para tomar cafezinho e saber se tem frila para ela.

            Nesse meio tempo já terá ligado para a clínica onde Julinho se encontra. Precisa saber como vem suportando a oitava semana de abstinência. O irmão sempre foi dependente das mulheres. Primeiro mamou as economias da mãe, de quem arrancou até o último centavo. Só não fez o mesmo com a esposa porque esta o pôs para fora de casa após ter sustentado seu vício por quase uma década. Quando ela o deixou, debandou de vez para a dependência química e passou a depender de Mia.

            Se tiver tempo apanhará os dois tapetes no apartamento para levá-los à lavanderia. Mas não pode, em hipótese alguma, deixar de pegar a encomenda com a flanelinha. Após passar por essa consulta torturante será preciso algo estimulante para reativar o ânimo. Ninguém é de ferro! Só então Mia se dá conta de que o médico concluiu os trabalhos e apenas conversa a esmo, à espera que ela se levante e vá se trocar. Desatenta, Mia continua lá, de xota escancarada, fingindo que está a ouvi-lo.

            Levanta-se envergonhada, entra na sala de vestiário, põe as roupas e a sandália. Do lado de fora prossegue o falatório do médico. Mia explica a ele que esteve tão entretida a pensar em questões pessoais que não ouviu nada do que dissera durante a consulta. O médico ri. Não importa. Todas as pacientes são como ela: nunca ouvem seus esclarecimentos. Mia se desculpa e promete que da próxima vez virá mais concentrada.

            Pelo interfone o médico orienta a secretária a providenciar uma data para o retorno da paciente Mia Aparecida Miranda. Se possível no final da semana seguinte, quando terá todos os resultados de exames em mãos. Após Mia ter deixado o consultório, a secretária a interpela na sala de recepção:

            Podemos marcar para quinta-feira às quinzes horas?

            Mia:

            Deixemos para outro dia, dona Clara Eugênia. Preciso de mais tempo para digerir essa estória de cromossomos.



Armórica latrina



            Mamãe está alegrona. Nem o baixo astral do asilo derruba seu humor. Ouve Mia falar com alguém pelo celular no viva-voz. Um homem pergunta se ela não tem nenhum impedimento para passar dois dias em Montevidéu, capital do Uruguai. Enquanto ouve a conversa, mamãe fantasia. A filha está por cima da carne seca. Faz até viagens internacionais. Sinal de que dispõe de dinheiro para levá-la à missa do papa em Aparecida do Norte. Quando toca no assunto, Mia logo corta seus lampejos de dissipação:

            – Não, mãezinha, as coisas continuam na mesma. Não se trata de uma viagem internacional, como as que a senhora fazia quando torrou toda a grana da família nas idas e vindas para a Europa.

            Se a viagem para o Uruguai de fato se confirmar, trata-se de um bico, apenas um bico como tantos que vem fazendo ultimamente para conseguir pagar o asilo, comprar remédios, bancar o tratamento do Julinho e tocar a própria vida. Mamãe é dura na queda. Insiste muito que quer ver o papa, que esse é o maior desejo de sua vida. Que tem muita simpatia “pela pessoa” do papa, um “verdadeiro homem santo”. Mia a chama à realidade:

            – Mamãe, esqueça! Não teremos droga nenhuma de papa. Já disse que preciso labutar para ganhar a vida por mim, você e Julinho. Não há tempo a perder com esse tipo de bobagem.

            – Você chama o papa de bobagem?!

            – Convenhamos, a senhora nunca foi religiosa. Visitou Jerusalém porque era moda entre as dondocas de sua época fazer essa viagem idiota. No momento, a senhora está se deixando infantilizar por essas suas colegas esclerosadas de asilo. Esqueça de vez essa jequice de ver o papa!

            Mamãe fica um tanto borocoxô, mas o que se há de fazer? Não pode se deixar levar por seus devaneios. Delírios é o que não faltam à sua pequena família. Antes de ser internado, o irmão telefonou para dizer que o dono do bingo no qual teve o último emprego, isso há mais de dez anos, estava agora na cola dele para que devolvesse uma bolsa com quinze mil reais que se encontrava sob sua guarda.

            Por que cargas d’água o dono do bingo deixaria uma bolsa recheada de grama por tanto tempo com um sujeito totalmente à deriva, que não consegue cuidar nem dele próprio?! Mas o irmão insistiu, com a maior convicção, que se não arrumasse o dinheiro em questão de horas os capangas do dono do bingo dariam cabo dele. Uma estória e tanto. Para uma história em quadrinhos fuleira, pode ser, mas para a vida real não colava.

            A fissura do irmão por droga é tamanha que ele acreditava mesmo na trama absurda. Sentia-se realmente perseguido e ligou várias vezes a fim de saber se Mia já arrumara o dinheiro. A suposta quantia existente na bolsa de repente baixou para dez mil reais, depois para cinco e, na última ligação, assegurou que o dono do bingo ficaria satisfeito se devolvesse apenas mil e quinhentos reais. Mia gritou ao telefone:

            – Julinho, pelo amor de Deus, acorde! Você só é maluco de drogas. Não é pinel de verdade. Jamais vou acreditar nessa conversa. Mesmo que você estivesse falando a verdade, eu não teria de onde tirar esse dinheiro.

            – Você será capaz de deixar que me matem?

            – Claro que sim.

            A ligação ouvida pela mãe durante a visita no asilo é de Ribamar, assessor do deputado Agamenon de Barros. Lá vem o Vozeirão com mais uma oferta de trabalho. Desta vez em Montevidéu. Apesar da aparência de chato inescrupuloso, Ribamar até que é um bom sujeito e realmente parece determinado a ajudá-la. Sabe de suas recorrentes dificuldades e tentou várias vezes incluí-la em alguma das miraculosas formas de ganhar dinheiro com a patifaria política da qual faz parte. Por enquanto nenhuma de suas ofertas deu certo.

            Obviamente que Ribamar quer comê-la, como a maioria dos homens. Até seus amigos próximos querem. Mia recebe cantadas todos os dias, de todos os tipos. De choferes de táxi a chefes de Estado. Mulheres também a assediam. Foi cantada até por um chefe veado! Mas não mistura sexo com trabalho. Assim como não mistura sexo com procriação.

            Ribamar, o Vozeirão, é um sujeito desinibido, mas sem libido. Quando se vê no espelho deve se enxergar como um misto de Che Guevara com Rodolfo Valentino. Tem aquele ridículo sotaque latino, como de praxe entre todos os assessores de deputados de esquerda, porém sua conversa soa como má tradução de falas de novelas mexicanas.

            Também conhece de longa data o deputado Agamenon de Castro, cujo comitê eleitoral fica no mesmo endereço da ONG por ele dirigida, num dos prédios mais vistosos do centro financeiro de Madrincitá. Além da localização de luxo, tudo por ali é estranho. É grande movimento de pessoas, o dia todo, saindo e entrando de reuniões. Não se sabe exatamente se trabalham para o deputado ou para a organização.

            Ribamar e o deputado discordam um do outro o tempo todo. Desentendem-se com tal frequência, que mal se falam. Tudo o que um sugere, o outro contesta. Em sua última tentativa de conquistá-la, Ribamar inventou que Agamenon precisava de uma coordenadora de comunicação e convidou-a para ir ao comitê do deputado apresentar proposta de trabalho. O deputado ficou surpreso quando lhe informaram a pauta da reunião. Como contratar uma coordenadora de comunicação se as eleições só ocorreriam dentro de dois anos?!

            O celular vibra. É ligação dele para confirmar que o trabalho em Montevidéu vai mesmo rolar.

            – E o que eu farei por lá?

            – A jornalista mais bonita do país representará o nobre deputado Agamenon no Encontro Sul-Americano dos Movimentos Sociais.

            – Ele está sabendo disso?

            – Óbvio que sim.

            – Você sabe que eu não tenho a menor identidade ideológica com vocês.

            – Não seja reativa, paixão da minha vida! Todo humanista é um socialista. Você é uma humanista, portanto no teu íntimo você é uma socialista. Tenho certeza de que representará o nobre deputado com louvores.

            Salienta que o evento em Montevidéu é muito importante. Para se ter ideia, será financiado pelo governo venezuelano. Mia fica surpresa. Como um evento num país conta com financiamento de outro?! Ribamar explica que “faz parte do contexto”. Mas que contexto será esse? Ele encerra a conversa e pede que ela compareça a uma reunião com o deputado no dia seguinte.

            Logo que entra na sala de reunião, Mia expõe uma de suas dúvidas:

            – Por que diabos o governo venezuelano patrocina um troço que ocorrerá no Uruguai?

            O deputado procura elucidar:

            – Cara jornalista, excelentíssimo presidente da Venezuela é muito atuante, amigo do povo sul-americano em geral. Em razão disso, costuma financiar atividades progressistas por toda a América Latina. Já bancou até desfiles de escolas de samba no Brasil!

            Mia:

            E existem desfiles de escola de samba progressistas?!

            O deputado:

            Calma, caríssima! Não se tratou de um desfile qualquer. Na ocasião a Escola de Samba Unidos por Todos Nós defendeu um samba-enredo sobre Simón Bolívar. Está lembrada?

            Mia não se lembra de droga nenhuma de samba-enredo e procura mudar o tom da conversa:

            – O que farei para representar o deputado?

            É Ribamar quem responde:

            – Nada, paixão da minha vida. Absolutamente nada!

            Agamenon ergue a mão em evidente discordância:

            Peraí, Ribamar! Você está passando a carroça adiante dos bois.

            – Tô não, nobre deputado!

            – Tá sim, caro assessor!

            Ribamar se irrita e passa a dirigir a palavra apenas a Mia:

            – Teu trabalho será fazer presença, minha querida. Só isso. Não precisará abrir a boca. Bastará se apresentar bem vestida, com esse teu corpão delicioso, pelo qual todo homem de bom gosto baba de desejo, e pode crer que o deputado terá uma excelente representação.

            Agamenon de Castro não parece tão convencido disso:

            A senhorita Mia Miranda precisa de um treinamento eficaz.

            O assessor não dá atenção ao deputado. Diz a Mia que o organizador do evento, um uruguaio de nome Herzinger, amicíssimo do deputado, cuidará de tudo. Incumbiu-se de espalhar pela capital o boato de que o prestigiado parlamentar será representado pela “mais bela e famosa articulista de política brasileira”.

            A discordância agora é de Mia:

            Pode me chamar de bonita, o que for... o critério é todo teu. Mas não sou articulista política. Nunca fui!

            – Esse é um detalhe de menor importância.

            – Não é não! Nós, jornalistas, levamos as informações a sério.

            Mia olha para o deputado. Agora são os dois contrariados com o que o assessor diz. Mia pergunta:

            – Esse alemão... o Hersinger... é com ele que terei de falar?

            O deputado quase tem um troço.

            – Pelo amor de Deus, minha cara! Não chame o Herzinger de alemão. Nunca!!! O sujeito é marxista linha dura, não tolera esse tipo de afronta.

            Ribamar:

            – Agora sou forçado a concordar com o nobre deputado. Se você chamar o Herzinger de alemão, nem imagino qual será sua reação.

            Ainda aflito com a possibilidade de Mia cometer tal escorregão, o deputado acrescenta:

            – Para você ter ideia de com quem está lidando, o Herzinger é o mais importante líder indígena sul-americano.

            Ribamar:

            – Deve inclusive ser eleito o novo presidente da Federação dos Movimentos Sociais Unidos da América do Sul.

            – Exato!

            Mia:

            – Tudo bem, juro que não vou chamar o alemão de alemão. Mas quanto vocês vão me pagar pela palhaçada toda?

            Agamenon se irrita com ela e retira-se da reunião. Ribamar espera que o deputado se afaste para lhe chamar a atenção:

            – Pô, galega, agora tu pisaste na bola! Não pode chamar de palhaçada algo que o deputado tanto preza. O homem ficou ofendido.

            Mia:

            Se ele preza tanto o encontro, por que não participa? Agora responda: se eu for mesmo, quanto vão me pagar?

            Ribamar chuta um valor qualquer. Mia prontamente aceita. Trata-se de uma quantia muito superior ao que receberia para uma cobertura jornalística. O assessor pede que ela retorne ao comitê no dia seguinte para apanhar com o diretor financeiro as passagens, a reserva de estadia e o adiantamento para os gastos de viagem. Lá está ela, no dia seguinte, em meio ao entre e sai incessante de pessoas do comitê do deputado. A recepcionista ri muito quando ela pergunta pelo diretor financeiro.

            Oh, querida, a única funcionária daqui sou eu. Mas é comigo mesmo que você deve tratar.

            A secretária lhe dá um envelope. Quando Mia o abre, a primeira ingrata surpresa é que as passagens de ia e volta para Montevidéu são de ônibus. Terá de partir com um dia e meio de antecedência para chegar a tempo de acompanhar a abertura do evento. Ocorre-lhe de desistir. Mas se permanecer em Madrincitá, fará o quê nesse período? Como o mar não está para peixe, conclui que o melhor é abraçar o imbróglio e seguir adiante.

            Além de roupas e paramentos pessoais, leva na mochila um bloco de apontamentos, canetas, o celular, o tablet, o gravador, a máquina fotográfica e um bom estoque de pílulas para dormir. Dezoito horas depois, ela é acordada. Sob forte efeito de soníferos, não viu a viagem passar. A mocinha do serviço de bordo anuncia em portunhol a chegada à Estación Terminal de Ómnibus de Montivideo.

            Mia tem expectativa de que Herzinger esteja à sua espera. Escreve MIA em letras garrafais no tablet. Mostra aos homens que se encontram pelo saguão de desembarque. Nenhum deles se identifica como Herzinger. A coisa começa mal, muito mal. Seu celular está sem carga. Por intermédio de um telefone público, liga para o número de celular que lhe deram como sendo de Herzinger. Toca, toca e cai na caixa postal.

            Montevidéu é uma cidade de tamanho médio se comparada às brasileiras. Sua mochila não está pesada. Pode muito bem se virar sozinha. O hotel fica na área central. Toma um banho demorado e deita-se para descansar. No final da tarde dará um giro pelas cercanias. Faz nova ligação telefônica para Herzinger quando acorda. Outra vez cai na caixa postal. Tentará mais uma vez. Se não atendê-la, deixará para procurá-lo durante a noite, no evento.

            Sai em caminhada até o centro histórico da cidade. Passa pela Praça da Independencia. Entra em uma loja de artesanatos chamada Hecho Acá, onde é recebida por um rapazinho magro de nome Isidoro. Ele apresenta o estabelecimento e a diversidade de produtos disponíveis. Mia impressiona-se, em especial, com os tradicionais artefatos confeccionados em lã e couro.

            Isidoro é um adolescente com boa desenvoltura. Filho do dono. Mia lembra-se de telefonar pela última vez para Hersinger. Vasculha na bolsa e constata que deixou o celular no hotel. Isidoro lhe oferece o telefone da loja. A chamada volta a cair na caixa postal. Logo que ela desliga, o rapaz pergunta se o Herzinger a quem ela procura é o mesmo que se faz passar por líder indígena. Confirma que sim. As referências que ele lhe dá não são das melhores.

            Para comprovar, mostra a ela um jornal do dia com chamada de primeira página anunciando que o presidente da república proibiu o evento coordenado por Hersinger. Mia quase cai de quatro. Por alguns minutos permanece sob impacto. Será possível que viajou de ônibus por cerca de vinte horas em vão?!

            O rapaz faz breve preleção sobre os acontecimentos recentes. Conta que o presidente do Uruguai teria ficado indignado ao saber que o evento lhe era desfavorável e, pior, tinha o apoio do seu antagonista venezuelano. Ao lado da foto do presidente uruguaio aparece, em destaque, a imagem de um sujeito loiro. Isidoro aponta incisivo:

            Eso es Herzinger!

            Devido à suspensão do encontro, Hersinger declara que promoverá uma ampla passeata favorável ao patrocinador venezuelano e contra o presidente do seu próprio país. Mia pede licença para novo telefonema. Liga mais uma vez para o celular de Herzinger, espera o sinal da caixa postal e deixa esta mensagem:

            Aquí el hablante es Mia Miranda, representante del diputado brasileño Agamenon de Castro. Sólo llamo para decir che puede meter el teléfono en el culo, hijo de puta.

            Isidoro ri muito logo que ela desliga. Mia pede para fazer uma terceira ligação, desta vez a cobrar, para o Brasil. Destina-se ao comitê do deputado Agamenon de Castro. Quem atende é a pessoa com quem deseja falar: o assessor Ribamar, o vozeirão. Antes que ela solte os cachorros, pergunta se tudo correra bem durante a viagem, se o clima em Montevidéu está bom, se o hotel é razoável e, por fim, desculpa-se pelo desfecho. Explica que o cancelamento se deu quando ela já havia embarcado e não teve como avisá-la. Mas procura tranquilizá-la:

            O valor correspondente a teus serviços será religiosamente pago, conforme combinamos.

            A respeito de Herzinger, ele aconselha.

            Não o procure mais. Trata-se de um líder indígena muito ativo, cujo trabalho está voltado para as bases. Por conta disso, é muito difícil falar diretamente com ele.

            Mia diz que tudo bem, que até deixou um recado afetuoso na caixa postal do seu celular. Ribamar então sugere que ela aproveite a viagem para conhecer “as maravilhas” da capital. Tão logo retorne a Madrincitá, quer ter uma conversa com ela para propor uma alternativa de trabalho “muito mais interessante” que aquela.

            – É uma proposta tão boa que merece ser anunciada em ambiente mais íntimo. Está me entendendo?

            Mia desliga para não ouvir mais bobagens. Já que a vaca foi mesmo para o brejo, segue a sugestão de Ribamar e decide chutar o balde para valer. Pede indicações a Isidoro sobre lugares “calientes” para visitar. O pai do rapaz gentilmente o autoriza a deixar a loja para ciceroneá-la. Isidoro a leva primeiramente a uma galeria de artes próxima para ver as mostras dos pintores Figari e de Joaquín Torres García. No trajeto explica a origem da cidade. Havia uma colina que era vista a distância pelos navegantes. Chamaram-na Montevidéu e assim ficou. Mia debocha:

            – ¡Vamos a contar esta historia para los turistas, chico! Pero recuerde que no soy una.

Isidoro ri. Depois de verem os trabalhos dos dois pintores platenses, vão até o Mercado del Puerto, que já foi um dia estação ferroviária, e hoje abriga dezenas de pequenos restaurantes nos quais é servida “la parrillada” – churrasco assado em lenha – e drinques especiais à base de vinhos artesanais chamados “medio y médio”. Ocupam a mesa de um dos restaurantes. Isidoro:

            – La intelectualidad bohemia frecuenta ese lugar. E también los homosexuales y las putas.

Conta que é filho único e o pai insiste em mandá-lo a Paris para estudar engenharia. Mas que em hipótese alguma pretende ir para a “velha Europa”.

            – Incluso porque compatriotas como Laforgue y Ducasse no se dieron bien por allá.

Tudo de que mais gosta está mesmo em Montevidéu ou do outro lado da bacia do Plata, em Buenos Aires. Mia ri dos seus comentários. Isidoro se entusiasma e, em tom insinuante, comenta que o clima portenho é essencial para as “pasiones tortuosas” e a “embriaguez mystique”. Valores que, a seu ver, permeiam a boa literatura. Diz que leva uma vida de cenobita na capital, tendo apreço intelectual apenas pela mestre Lisa Block de Behar.

Se o pai o obrigar a ir para a Europa, será tomado pelo desalento ou talvez passe a ter vida extravagante, cúmplice da vilania desenvolvida sob a ótica dos solitários. Teme, pois, ser aprisionado “por esa erosión psíquica” que destruiu a sanidade de alguns escritores patrícios. Chegam à mesa dois dos seus amigos: Nuno, “un poeta que goza de combinaciones verbales y juegos de palabras”, e Horacio, “que escribe historias sobre desastres”. Também se dizem pupilos de Lisa Behar.

            Quando Mia se dá conta, já é madrugada. Ela e seus acompanhantes consumiram quantias consideráveis de "medio y medio". Tocos de habaneros lançam seus derradeiros suspiros de fumaça num cinzeiro repleto. Bastante ébrios, os três rapazes têm os olhos fixos na brasileira. Quase babam de entusiasmo. Pelos vãos das pálpebras cansadas, Mia vê em cada um deles a mesma indagação impossível de se confirmar: “¿Quién de nosotros será el elegido?”



Pá!Pá!Pá!Pã



            Os encontros entre Mia e Maninho ocorrem há muitos carnavais. Todos no Rio, onde ele mora. Começam no primeiro sábado, quando Mia chega de Madrincitá, e termina no domingo seguinte cedo, quando ela embarca de volta. Houve tempo que ele era casado e tinham de conciliar os programas às escondidas com seus compromissos familiares. O Carnaval, propriamente, com seus blocos e desfiles de escolas de samba que atraem a atenção de milhões de pessoas todos os anos, nunca interessou aos dois.

            Mia conheceu Maninho quando ainda estudante. Ele fora palestrante em um evento em sua faculdade. Tornou-se então seu ídolo na profissão. Ambicionou um dia ser repórter com aquele seu estilo independente, arrojado, indo a fundo em cada pauta para trazer não só informações precisas como também algo inusitado.

            Com pouco mais de vinte anos, Maninho já tinha feito história como jornalista. Integrara uma equipe de primeira linha do jornalismo independente, comandado por Virgílio Pompeu. Além de poderosa dupla de profissionais, Pompeu e Maninho eram muito amigos. O vai e vem da profissão os separou algumas vezes, mas sempre se mantiveram próximos. Um indicava o outro quando assumia nova função no corpo editorial de algum veículo.

            Na ocasião da palestra, o convidado Maninho Araújo dissera que, além do lead e da estrutura de pirâmide invertida, o texto jornalístico precisava ter algo mais que fatos e informações. Do contrário, para que assinar autoria? Exemplificou sua apresentação com vários títulos, olhos de matérias e aberturas criados por Virgílio Pompeu. Mas este logo saiu de cena, fulminado por uma parada cardíaca.

            A morte de Pompeu coincidiu com um período em que tudo mudou no jornalismo, inclusive o conceito do que é bom ou ruim, razoável ou desprezível. Os diferenciais dos textos de Maninho, tão referendados noutros tempos, passaram a ter nenhuma importância para o jornalismo objetivo que acabou se impondo, fundamentado em dados, prestações de serviços e participação do público.

            Para a nova safra de editores, Maninho tinha outra cabeça e se prendia a minúcias que não mais interessavam ao jornalismo dinâmico dos novos dias. Criticavam-no por exercer a profissão com excessivo personalismo e certo descompromisso no cumprimento dos prazos para concluir as matérias. Diziam que seus textos eram dissertativos, adjetivados e que chegava ao cúmulo de narrar episódios na primeira pessoa, tendo a ele próprio como testemunha dos acontecimentos.

            Em curto prazo, Maninho deixou de ser exemplo de excelência e passou a ser visto como tudo que havia de mais retrógrado no jornalismo. Até sua imagem contrastava de modo negativo com o padrão dândi que aos poucos se impôs nas redações. Foi então despedido de uma revista semanal que ele próprio ajudara a criar. Um grande jornal o contratou como editor chefe. Mas em pouco tempo foi transferido para a função de repórter especial. Por fim, demitido.

            Em menos de um ano, Maninho transitou pelos principais veículos madrincitenses. Dizia-se que por onde ele passava as redações entravam em insolúveis conflitos. Até que ele próprio começou a se cansar daquilo e raramente era visto nos locais frequentados pelo métier. Mas sua influência ainda persistia entre alguns redatores que se lembravam dele como um colega doidão que não se adequava a esquemas, justamente por ser muito correto e perfeccionista.

            Seu último vínculo com a imprensa madrincitense foi escrever uma coluna semanal para uma rede de jornais de bairro. Era época da supremacia dos partidos de esquerda, aos quais criticou em sua coluna pelos desmandos e despotismo. Devido aos insistentes apelos de políticos aos quais seus patrões deviam favores, tiraram-lhe a coluna. Sacramentou-se, assim, que Maninho era um jornalista velho, descartável. Velho aos quarenta e dois anos!

            O estranho é que ele aceitou a marginalização com certo conformismo. Casado e com dois filhos pequenos, se sua situação econômica antes nunca fora cômoda, despencou de vez. A sorte foi a esposa ter sido aprovada em um concurso público. Amparado no salário dela, voltou ao Rio, sua cidade natal. Logo que chegou, procurou as redações e teve a satisfação de descobrir que ainda existia nelas quem reconhecesse sua importância como profissional.

            Dada à boa acolhida nos primeiros contatos, Maninho acreditou que era questão de tempo para lhe fazerem alguma proposta de trabalho. Sua mulher, mais otimista, sugeriu que fosse se preparando para escolher onde e com quem gostaria de trabalhar. Chegou a organizar uma relação dos profissionais com quem melhor se dava. Mas as semanas se passaram e ninguém telefonou.

            Como o salário da esposa cobria com folga as despesas domésticas, recebeu sinal verde para fazer o que gostava e não ficar tão aflito por conseguir trabalho em curto prazo. Se a relação do casal não tivesse se desvirtuado, essa condição cômoda de ser sustentado pela mulher talvez tivesse durado por mais tempo. Ninguém abandonou ninguém. Abandonaram-se, simplesmente!

            Passaram a ter vidas afetivas paralelas. Quando se deram conta, não havia mais nada de efetivo entre os dois. Maninho achou injusto continuar dependendo dela e anunciou que sairia de casa. A ex lhe deu a garantia de que manteria os filhos até que conseguisse ganhar o suficiente para ajudá-la. Mas nunca mais conseguiu colaborar com um centavo.

            Mia e Maninho, além de amantes, são muito amigos. No encontro do último Carnaval ficou preocupada. Notou que estava demasiado melancólico. Falou sobre literatura e nada sobre o noticiário em evidência. Insistia na tese de que houve três tendências determinantes na literatura norte-americana do século 20: a empírica de herança inglesa, a ético-religiosa de herança puritana e a pragmática de vínculos construtivistas.

            A empírica considerava a realidade e o ambiente mais importante que o homem. Dela provieram Caldwell, Crane, Chandler, Hammett e Steinbeck, com seus personagens quase sempre afogados pelo contexto. A ético-religiosa, a mais numerosa, fundamentava-se no fatalismo e na predestinação; propiciou obras com características afins, embora ás vezes adversas, de autores como Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, os dramaturgos Miller e Williams, a beat generation e boa parte dos repórteres prosadores do new journalism. Da vertente pragmática, menos numerosa, vieram Pound, Eliot, Gertrude Stein, Cummings, Cage e outros poucos.

            Mia pediu, insistentemente, para que ele mudasse de assunto. Poxa vida, estavam em plena festa popular! Não precisava apelar para uma conversa de tão pouco regozijo. Ousou provocá-lo para afastar sua atenção daquilo:

            – O que menos importa para nós, mulheres, é pinto.

            Maninho fez que não entendeu e continuou de cabeça baixa. Pelo menos não retomou a modorrenta conversa sobre as tais vertentes literárias norte-americanas. Mia seguiu no seu escopo vulgar. Disse que as bocetas são elásticas, adaptam-se tanto a uma jebinha minúscula quanto a um pau enorme. E enfatizou:

            Trepada bem dada não envolve só performance.

            Segundo ela, o bem bom de uma transa não tem nada a ver com os fetiches da indústria pornográfica. Afinal, muito mais frustrante que as qualidades físicas, é o namorado não ter cabeça; não a do pau, a pensante. Pois se o parceiro depois de uma bimba não segura um segundo de bom papo, ah, isso sim era pior do que não ter tido orgasmo.

            – Quando não há uma cabecinha em cima, é dispensável que exista um cabeção abaixo.

            Maninho nada comentou. Continuou tristonho, com seu corpo arcado pelas agruras de anos de frustrações, montado naquelas mesmas perninhas finas e barriga saliente. Mia observou que, quando pelado, ele se parecia com uma rã estripada. No entanto, embora seu desempenho sexual não fosse grande coisa, era o seu escolhido. Valia muito mais a pena estar com ele, sem fazer nada, do que com qualquer garotão maratonista.

            Por falar em maratona, Mia informou que aproveitaria a vinda ao Rio para ganhar algum dinheiro como repórter de uma emissora de TV a cabo. Logo após a quarta-feira de cinzas, faria entrevistas sobre a tradicional corrida em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, prevista para o sábado seguinte. A grana que lhe pagariam era pouca, mas somada ao adiantamento para os gastos, dava para cobrir as noitadas com Maninho, já que este nunca tinha dinheiro.

            Aquela era a primeira vez que ela se hospedava em sua nova casa, num pé de morro. Os proprietários anteriores haviam montado no porão um estúdio, alugado para ensaios de grupos de rock. Todos os equipamentos foram roubados e desistiram tanto do negócio quanto do imóvel. Maninho o comprou por uma pechincha; ainda assim financiado.

            Refez o estúdio, adequando-o para ensaios de vários tipos de grupos: de rock, samba, funk e até música sertaneja. Os equipamentos de que dispunha possibilitavam gravações domésticas de demos de CDs para os músicos divulgarem seus trabalhos. Enquanto punha um desses CDs para tocar, Mia observou o entra e sai constante de pessoas do porão, onde ficava o estúdio. Não era possível que um mero ensaio envolvesse tanta gente! Maninho informou que o CD que pusera para tocar era de uma cantora de funk da Baixada Fluminense.

            O Carnaval chegara ao fim e Mia ficou à disposição da equipe de TV. Tarefa difícil aquela de recolher depoimentos dos foliões hipoglicêmicos a caminhar trôpegos pela pista da lagoa para curar a ressaca acumulada de quatro dias. Veio o sábado do evento e Mia passou o dia trabalhando.

            Encontrou Maninho num botequim do Baixo Leblon para a noitada de despedida. Voltaram para casa por volta das três da manhã. O ambiente por lá continuava agitado. Pessoas entravam e saíam do estúdio o tempo todo. Mia indagou a respeito da segurança dos equipamentos, tendo em vista que os dos antigos proprietários haviam sido surrupiados. Ele assegurou que seu patrimônio estava mais seguro do que se estivesse dentro de um batalhão da Polícia Militar.

            – Por quê?

            – Ora, é a própria bandidagem que toma conta.

            Uns negrões parados em frente da casa ofereceram a eles um baseado. Mia e Maninho ficaram por algum tempo a fumar com eles. De repente espocou uma barulheira infernal e o morro ficou todo iluminado. Parecia uma gigantesca árvore de Natal! Os negrões do lado deles tiraram seus tresoitões das cinturas e deram vários tiros para o alto. Mia quase teve um troço. Maninho procurou acalmá-la. Não se tratava de tiroteio. A barulheira nos morros era um comunicado à sociedade de que seria feita uma trégua durante os Jogos Olímpicos.

            Trégua?!

            – Sim, a realização dos jogos trará à cidade centenas de turistas. A malandragem também vai tirar disso. Veja só! Uma parte significativa dos turistas que virão é chegada às coisas ilícitas. Isso o morro tem de sobra.

            Maninho entrou na casa e voltou com seu tresoitão para também disparar várias vezes para o alto. Naquela madrugada os dois cheiraram várias carreirinhas e tiveram uma conversa tão entusiasmada que o dia amanheceu sem que tivessem feito amor. Chegara o momento da partida. Depois disso não mais se viram.



Com puta dor



            Mia está com o braço na tipoia há mais de mês. Começou com uma dorzinha próxima do cotovelo. Piorou, piorou. Até que não conseguiu mais mover o antebraço. Conseguiu passar dois dias de repouso e, sem sinais de melhora, voltou a trabalhar. Agora com um braço só. O dilema físico a levou a ler sobre enfermidades causadas por esforço contínuo diante de computadores. É de onde supõe que provém a sua.

            Em meados do século passado, os computadores deram os primeiros sinais de que poderiam sair dos nichos específicos aos quais serviam e chegar ao cotidiano das pessoas em geral. Houve muita idealização fantasiosa acerca das mudanças que trariam. Nessa época, não se falava ainda de informática, mas de “automação”.

            O físico e matemático norte-americano Norbert Wiener idealizou com outros cientistas uma superciência, a cibernética, que tinha como um dos propósitos realizar estudos comparativos sobre controle automatizado. Previa-se que as “máquinas inteligentes” seriam capazes até de pensar pelos homens. E, obviamente, trariam profundas transformações culturais.

            Segundo o estudioso de literatura canadense Marshall McLuhan, os computadores poderiam proporcionar uma revolução mais abrangente que a de Johannes Gutenberg, no século 15, quando criou a prensa de tipos móveis. Ao surfar nessa onda futurista, o músico brasileiro Caetano Veloso compôs Alfômega, canção na qual sugeria que a população marginalizada, graças ao advento da nova plataforma tecnológica, saltaria do analfabetismo crônico para um ambiente revolucionário de alto repertório.

            No âmbito das relações de trabalho, o sociólogo francês Edgar Morin fez deduções sobre as possíveis mudanças introduzidas pela automação. A mais importante delas seria a abolição dos limites entre lazer e trabalho na cadeia produtiva. Em seu livro O espírito dos tempos, de 1967, escreveu que no futuro não se pensaria mais em tempo de repouso e de recuperação para os trabalhadores, mas em tempo de permanente atividade lúdica, já que as máquinas, ao fazerem o trabalho por eles, proporcionariam uma incrível disponibilidade para o “ócio produtivo”.

            Morin preconizou então uma “civilização do bem-estar”, na qual o lazer teria preponderância sobre o trabalho, integrando-se ambos nos mesmos ambientes. Férias convencionais perderiam o sentido. Provável até que deixassem de existir. Chegou a comparar a era da automação ao auge da civilização grega helênica. E denominou os trabalhadores do futuro de “olimpianos modernos”.

            Algumas das novidades anunciadas por Morin já haviam sido apontadas pelo franco-cubano Paul Lafargue, genro de Karl Marx e um dos colaboradores ocultos de O Capital quando, em 1883, divulgou o panfleto O direito à preguiça. Lafargue causou profundo mal-estar nos meios sindicais sob influência do sogro; do qual, por isso, acabou se afastando.

            O sociólogo italiano Domenico De Mais também pregou a não separação entre lazer e trabalho. Segundo ele, numa sociedade sob tal molde cada um teria tempo livre para construir um mundo novo, no qual pudesse exercitar com maior liberdade seu corpo e sua mente. Autor de Ócio criativo, Di Masi se tornou um arauto do “aperfeiçoamento pessoal” e, da mesma forma que Morin, evocou a Grécia como exemplo. Entre outras coisas, Di Mais previu que o “trabalho-labuta” seria substituído pelo “trabalho intelectual”, visto como atividade criativa e motivadora, unida ao lazer.

            Mia Miranda – ainda com um dos braços imobilizado na tipoia – debruça-se sobre essas questões no encerramento da primeira década do terceiro milênio da Era Cristã, em um período no qual a chamada era da informática encontra-se mais que consolidada. Ela cresceu, educou e se formou utilizando os computadores e seus periféricos. Mas sua realidade de vida e trabalho é muito diferente daquela idealizada por Wiener, McLuhan, Caetano, Morin, Lafargue, De Masi e outros.

            Nos nossos dias, a internet – que nem estava prevista no início pela “cibernética” – e suas várias extensões permeiam todos os extratos sociais, da cadeia produtiva à vida privada. Está presente em todos os continentes e culturas. No entanto, os trabalhadores, ao contrário do que se acreditava, seguem altamente comprometidos com a dura labuta, a qual continua desgastante, alienante e cada vez mais afastada das idílicas associações aqui citadas.

            Após mais décadas como jornalista, Mia trabalha cada vez mais; agora com um braço só. Vê aumentar a instabilidade na medida em que acirram as exigências quanto aos padrões de qualidade e competência. Não há o menor sinal de que o tempo de lazer possa ser ampliado e muito menos mesclado ao tempo do trabalho. Pelo contrário, as obrigações profissionais atuais ocupam gradativamente o tempo antes destinado ao descanso. Para os profissionais de sua época, levar tarefas do expediente para casa, por não conseguir concluí-las no tempo em que são pagos para fazê-las, tornou-se rotina.

            Também é comum perderem noites de sono a pensar sobre os problemas recorrentes nos ambientes de trabalho, comprometendo-lhes a saúde e as próprias relações familiares. Vivem obcecados pelo que fazem. Não pelo retorno que lhes proporciona e, sim, por se sentirem sempre atemorizados pela possibilidade de perder as fontes de provimento. Muitos não conseguem se desligar das atividades profissionais nem durante o sono e adormecem tendo pesadelos com elas.

            Note-se que falo aqui dos que ainda têm o privilégio de trabalhar sob contratos de trabalho consolidados e gozam dos seus privilégios. Não é o caso de Mia e da maioria dos jornalistas do seu tempo. Ela integra o contingente cada vez maior de prestadores de serviços por contratos temporários. Acaba de ter o seu rescindido por não conseguir render o combinado com um único braço.

            Como sua lesão não apresenta sinais de melhora, os amigos insistem para que descanse por mais tempo. Mia não pode parar. É tomada por indescritível sensação de culpa ao ver as pessoas seguirem todos os dias para as respectivas ocupações. Até as crianças a caminho das escolas a deixam constrangida quando se depara com elas a sair de casa todos os dias pelas manhãs.

            Ela não consegue descansar. Faz contatos o tempo todo. Elabora projetos atrás de projetos – alguns meramente com o propósito de ocupar o tempo para se sentir útil – e se sente cada vez mais só, intranquila, às vezes com a sensação de que pode ter um colapso a qualquer momento se não mudar o modus operandi.

            Até a branquinha das horas de embalo deixou de lado. Também abandonou definitivamente a ideia de se engravidar. Danem-se os cromossomos! Não é o tipo de mulher para desempenhar função reprodutiva. Os constantes cuidados com a mãe e o irmão, seus dependentes diretos, já lhe bastam. Sem contar que volta e meia também precisa ajudar os amigos em situação mais frágil. E são tantos! Como deixar o fotógrafo Alissom, seu parceiro de reportagem por tantos anos, abandonado naquele quarto de hospital? Visita-o rotineiramente, conversa com o médico incumbido de acompanhá-lo e procura estimular o amigo a reagir.

            Com o braço ainda imobilizado – sua tipoia já está um bocado surrada – Mia sente na própria pele o quanto as pessoas da época informatizada ou automatizada (como queriam os profetas do passado recente) só se sentem vivas e ativas por meio da cada vez mais escrava rotina do trabalho.



Sócios nos negócios do ócio



            O mundo dá voltas e as pessoas à volta de Mia se veem jogadas de uma parte para outra. Quase sempre à revelia de tudo o que idealizaram. Mudanças involuntárias fazem com que aquilo que teve sentido nefasto em uma época, ganhe significados aprazíveis noutra. Lembra-se do assessor do deputado Agamenon de Barros, por ela apelidado Vozeirão, e por cuja indicação fora parar em Montevidéu para trabalhar num evento que nunca foi realizado?

            Com o passar dos anos, Ribamar, o nome do assessor, perdeu o ímpeto de seduzi-la, assim como perdeu a fé no ideário do partido político ao qual serviu por décadas. A correlação de atrativos entre os dois também mudou substancialmente. Mia se tornou uma quarentona das mais bonitas. Ribamar engordou muito. Da imagem do amante latino resta somente a caricatura. Perdeu os cabelos. As orelhas ficaram enormes. A voz, sua principal marca, é agora rouca e áspera.

            Persiste com os gracejos de conquistador, mas apenas para fazer graça. Após sucessivos encontros e desencontros, os dois se tornaram muito próximos. Uma noite, bastante bêbados, derramaram lágrimas ao descobrir que aqueles tropeços todos propiciaram aos dois uma amizade de décadas.

            A vida do ex-deputado Agamenon de Barros também passou por radicais mudanças. Não tem mais aquela legião de pessoas disponíveis e nem dirige mais nenhuma ONG. Ele e Ribamar continuam parceiros. Continuam a discutir um com outro, mas por motivos banais. Não querem mais saber dos contratempos trazidos pela esbornia política. Perderam a conta de quantas vezes passaram por constrangimento público. Já foram vaiados em bares, supermercados, restaurantes, aeroportos, farmácias, padarias...

            O motivo de tudo é terem sido alvos de uma CPI que durou anos escancarada no noticiário. Mudaram o estilo de se vestir, os cortes de barba e de cabelo e a própria maneira de falar. Não se tratam mais pelos nomes. Chamam-se pelas respectivas origens. Ribamar tornou-se Maranhão e o ex-deputado Agamenon tornou-se Jequié. Ainda assim, volta e meia alguém os reconhece.

            Sem as generosas ajudas de custo de outros tempos, ambos se hospedam no apartamento de Mia quando vêm a Madreincitá. Após a CPI lhe ter inviabilizado novas candidaturas, o ex-deputado se sentiu desmotivado a fazer parte das composições políticas. Até que se retirou de vez dos holofotes do partido. Quando Mia o encontra, muda de assunto todas as vezes que a conversa resvala em política.

            Jequié e Maranhão estão sumidos por longo período. Mia não tem notícia deles. O que poderia ter ocorrido? Em meio a um frila para uma revista de moda, seu celular toca insistentemente. Do outro lado é Maranhão. Mia explica em voz baixa que está no meio de uma entrevista e precisa ser breve. Grava o número discado e promete telefonar em seguida. Quando, enfim, conclui os trabalhos, sente alívio enorme por poder ouvir novamente a fala arrastada do amigo em meio a uma sucessão de ruídos.            Maranhão quase grita do outro lado para se fazer ouvido:

            – Como você está, paixão da minha vida?

            – No de sempre, Maranhão. Trabalhando...

            – Deus do céu, é um crime contra a natureza uma mulher com tua graça e beleza se desgastar por coisas fúteis. Se ao menos ouvisse meus apelos...

            – Vem que não tem!

            – Diga uma coisa, quantas vezes fiz a você propostas de trabalho que resultaram em nada?

            Ela ri um bocado, depois responde:

            – Muitas!

            – Estou agora ligando para finalmente propor algo que está à tua altura.

            – Veja lá! Não tenho mais idade para amarrar frustrações.

            – Calma, princesa! Trata-se de uma proposta irrecusável.

            – Primeiro diga o que é para que eu mesma avalie se é mesmo... irrecusável.

            – Estás ouvindo esse chuá?

            – Parece cachoeira.

            – Não, meu amor, são as ondas do mar. O mar mais bonito e puro deste planeta. Você nem imagina onde.

            – Onde?

            – Fernando de Noronha.

            – Só conheço por fotografia. Deve ser maravilhoso.

            – Bem mais do que parece nas fotografias. Não estou aqui a passeio. O tempo das vacas gordas se foi. Tanto pra mim quanto pro meu chapa Jequié.

            – Ele está aí contigo?

            – Claro. Bem do meu lado, falando atrapalhado depois de ter tomado pelo menos meia dúzia de caipirinhas.

            – Afinal, o que vocês dois fazem aí?

            – Graças a favores políticos prestados no passado, ganhamos uma concessão na ilha. Bom, vendemos tudo que tínhamos e viemos de mala e cuia. Qual não foi nossa surpresa quando constatamos que não se tratava apenas de um terreno. Havia nele uma senhora construção, já em fase de acabamento. O sujeito que investiu teve um desentendimento com a mulher, se decepcionou com a vida e voltou para seu estado. Com nossas reservas econômicas conseguimos concluir a obra. Agora temos uma pousada pronta para funcionamento. Eu e Jequié, você bem sabe, nunca fomos chegados ao batente. Precisamos de uma mulher de presença, que ponha a coisa para funcionar e serva de atrativo para os hóspedes. Só pode ser você!

            – Está propondo que eu me torne prostitua ou coisa parecida?

            – Que é isso, galeguinha?! De jeito nenhum!

            – Então seja objetivo e diga o que querem de mim.

            – Queremos você de sócia. E gerente.

            – Sócia?! É muita areia pro meu caminhão. Não tenho um puto e nem entendo nada de pousadas.

            – Não precisamos de grana. Queremos é tua gana, graça e inteligência. Oferecemos sociedade de igual para igual, com documentação passada e tudo mais. Você será nossa gerente. Errando ou acertando, terá nosso apoio.

            Maranhão põe o celular no viva-voz:

            – Não é, Jequié?

            O outro:

            – É sim, Maranhão.

            Mia:

            – Tudo bem. Vá que eu aceite essa maluquice de ser gerente. E vocês dois... farão o quê?

            Jequié:

            – Seremos os publiquê releixon do negócio.

            Os três riem a mais valer.

            Maranhão:

            – Mas o que o nobre amigo disse é correto. Você atrai a atenção dos turistas homens como gerente, enquanto eu e Jequié levamos aquela boa conversa pé de orelha com a turistada mulher. Tá me entendendo? Tu jogas o charme do lugar para o lado masculino e nós nosso conversê para o feminino.

            Jequié:

            Graças a Deus são todos estrangeiros e não conhecem nossas máculas na política.

            Maranhão:

            – Mandamos passagens e cobrimos teus gastos com a mudança.

            Jequié:

            – Você só não topa se for burra.

            Mia:   

            – Não tenho como responder nada de momento.

            Maranhão:     

            – Evidente que não. Realmente é uma decisão a ser bem pensada.

             Jequié:

            – Mas pense bem, pois uma vez que puser teus pés nesta terra, duvido que queira voltar ao continente.

            Ela cancela encontro com os amigos para aquela noite. Prefere ficar em casa, sozinha, a fim de digerir o telefonema. Movimenta-se agitada pelo apartamento. Gira de um lado para o outro da cama e não consegue dormir. A possibilidade de uma mudança tão radical nunca lhe passara pela cabeça. Em momento algum desejou morar num local paradisíaco. Achava predestinada a uma velhice de muito trabalho e dificuldades, como a maior parte dos profissionais de sua área. Sente-se repórter nata e acredita, como seus colegas, que a crise conjuntural do jornalismo haverá de passar um dia.

            Por outro lado, sua vida pessoal está cada vez mais complicada. Cuidar da mãe e do irmão tem exigido não só mais recursos financeiros como também mais tempo de dedicação. Enfim, o telefonema caíra como uma bomba para aumentar ainda seu emaranhado de dúvidas. Pelas três da madrugada, liga para Maninho, no Rio. Este atende do outro lado com uma voz de quem esteve ou está na gandaia:

            – Que... quem?

            – Sou eu, idiota.

            – Oi, amor. Estava pensando em você.

            Ouve uma voz feminina ao fundo e fica irritada.

            – Não seja cretino!

            – Juro que estava pensando em você... agorinha mesmo.

            – Meu bem, acho que não vai dar para nos encontrarmos em Cabo Frio.

            – Não tem problema. Também estou sem grana. Podemos passar o próximo Carnaval aqui mesmo no Rio, na minha casa.

            – Creio que também não vai dar.

            – Você não vem me ver no Carnaval?!

            – Não, querido. Recebi uma proposta danada de atrativa.

            – Mais uma! Não me diga que foi do teu amigo Maranhão.

            – Do próprio.

            – Iiiih!

            – Parece que desta vez é coisa séria.

            – Espero que ele não esteja se propondo a me substituir.

            – Tem nada de sexo no meio. Nunca rolará nada entre eu e Maranhão. Recebi convite para cuidar de uma pousada em Fernando de Noronha. É dele e do Jequié. Estou tentada a aceitar. Só ainda não sei o que fazer com mamãe e meu irmão. Também não sei se quero mesmo deixar a profissão.

            – Você bem sabe que nessa putaria... digo, profissão... estamos todos predestinados a ser descartados. Antes que isso ocorra com você, reúna tuas coisas e se mande com dignidade.

            – O problema é... E se não der certo? Se eu ficar um ano fora de Madrincitá, quando voltar não conhecerei mais ninguém do mercado.

            – E daí?!

            – Tem mais. E nós dois... como ficamos? Não vou mais poder passar os carnavais contigo. Essa é uma época em que Fernando de Noronha certamente está bombando de turistas.

            – Esquenta não, querida. Foi muito bom enquanto durou. Nosso amor, você sabe, só morrerá quando um de nós se for.

            Depois de encerrada a conversa com Maninho, liga para Maranhão. Nem tem tempo de dizer o que ensaiara. O amigo grita como um alucinado do outro lado.

            Ela topou, Jequié! Ela topou!

            Mia:

            – Desculpe por ter acordado vocês. Estava aflita e não conseguia dormir.

            – E tu acha que eu e Jequié conseguimos pregar os olhos? Estamos aqui varando a noite, ansiosos por ouvir tua resposta.

            – Topo sim. Mas ainda não sei o que fazer com mamãe e meu irmão.

            – Traga os dois. Enviamos passagens para eles também.

            – Mas dão muito trabalho...

            – Oh, meu bem, isto aqui é uma ilha incrivelmente longe de tudo. Pode soltá-los despreocupada. Asseguro-te que do mar não passam.

            Esta conversa ocorreu há mais de ano. Mia já se encontra no comando daquela que deveria ser a Pousada Leviatã, mas acabou batizada Pousada da Galega. Trabalha feito uma maluca, dia e noite envolvida com detalhes do funcionamento. Toda aquela agitação é para proporcionar aos turistas um ambiente o mais calmo, agradável e prazeroso possível. Há hóspedes que voltam seguidas vezes à ilha só para se hospedar por lá; e, claro, maravilhar o espírito ao rever essa doçura de pessoa que é a gerente Galega.

            O cenário na pousada no final de tarde é quase sempre o mesmo. Turistas circulam pelos deques abertos em todas as direções. Do bar e da piscina se ouve conversas em diferentes idiomas. Maranhão e Jequié, invariavelmente falastrões, fazem suas graças, encarnando os papéis de figuras folclóricas do lugar. Teimam constantemente um com o outro. Após mais uma discordância, qual se estivessem no palco de um espetáculo de humor, um contesta o outro com os mesmos jargões:

            – Tá não, Maranhão!

            – Tá sim, Jequié!

            Os hóspedes riem, mesmo sem entender patavina do que dizem. No horizonte o sol expõe seus raios sobre o azul das ondas e Mia Miranda se sente vitoriosa por ter encerrado mais um dia sem imprevistos indesejáveis.