domingo, 24 de novembro de 2013

Brasileiros de outras terras

Nacionalismo em literatura e em qualquer arte é xenofobia das grossas.

Se for para existir alguma proteção à nossa produção cultural, esta deve se restringir às questões pertinentes às desigualdades de mercado.

De qualquer forma, acho pouco provável que esse tipo de regulamentação seja viável, sem que tenha o ranço esquerdista que faz com que cada passo para frente seja obscurecido por dez dados para trás.

No tocante às ideias e à produção em si, nem pensar.

Glauber Rocha debochou do sectarismo nacionalista de alguns dos seus colegas cineastas no auge do cinema novo.

Glauber Rocha
Estes alegavam que existia uma “cultura multinacional” norte-americana, cuja finalidade política estratégica era transformar cada brasileiro numa toupeira alienada, afastando-o das questões consideradas prementes para o país.

Glauber foi mais objetivo: devemos evitar Hollywood, sim, porque a maior parte dos filmes que vêm de lá é uma bosta...

Conversa com o artista plástico Alexandre Tiago


Para bom entendedor, meia palavra basta. Foi mais ou menos assim que rolou meu trabalho com o artista plástico Alexandre Tiago, responsável pelas ilustrações do livro que motiva a criação deste blog: o romance O homem que sabia ouvir.

Admirava seu trabalho, mas não o conhecia. Em nosso primeiro contato, expliquei rapidamente do que tratava o livro e minha proposta de trabalho. Não apontei nem exigi nada.

Apenas dei uma cópia dos originais a ele, para que fizesse sua “leitura” em forma de desenhos.

Em duas semanas estava tudo pronto, sem tirar nem pôr. Perfeito. Inclusive os desenhos da capa e da quarta capa.

Alexandre Tiago trabalha com várias técnicas de desenho e pintura, colagens, esculturas, design de móveis e objetos. Suas habilidades são impressionantes. De suas mãos já saíram uma infinidade de trabalhos, dos mais lúdicos aos mais práticos.

Além de artista plástico, ele é monitor de terapia ocupacional do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, de Campinas.


Alexandre Tiago (ao fundo suas telas) fotografado por Rosana Romanelli

Na entrevista a seguir ele fala sobre suas origens, formação, experiências de vida e visão das artes...

Classificações de Pound

Ezra Pound (1885-1922) foi ignorado pelo primeiro modernismo brasileiro. O de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros.

Mas foi bastante valorizado pelos poetas concretos, José Paulo Paes, Mário Faustino e José Lino Grünewald e na segunda metade do século XX.

Além de nos ter legado o principal poema épico moderno, belísimos poemas líricos, um grande número de tradições de poetas de várias épocas, de vários idiomas, procurou formalizar um paideuma para os futuros escritores. 

No tocante à literatura, Pound alertava para que não se desse tanta atenção a críticas de indivíduos que não tivessem escrito nenhuma obra de mérito.

Ou seja, evitar "críticos semi-informados ou semipensantes". 


Ezra Pound

Dividiu os escritores em seis categorias...

Lou Reed e Moreira da Silva como cronistas


Lou Reed, falecido recentemente, foi o cronista da Nova York out, aquela que não só nunca esteve nos roteiros de turismo da cidade, como estableshiment faz o possível para omitir que existe.

Ou seja, a Nova York dos veados, traficantes, travestis, drogados, pirados e outras figuras inadequáveis ao “modo de vida americano”. Reed fez parte desse time enquanto a saúde permitiu.

Sua maneira de mostrar os personagens do métier barra pesada foi sempre generosa, com uma compreensão da realidade dos excluídos que a sociologia, com suas abstrações ufanistas, jamais chegaria aos pés.

Uma pequena amostra:


Legou-nos dezenas de lindas canções sobre esses personagens por quem só os fodidos da mesma laia têm algum interesse...

Horror na literatura

De acordo com o mestre da literatura de suspense e horror Howard Lovecraft (1890-1937): “O medo é uma das mais antigas emoções... e também uma das mais sorrateiras”.

Queria dizer com isso que está próximo do humor e do drama quanto aos riscos de cair no ridículo.

Cenas e personagens monstruosos são numerosos na história da literatura de diferentes épocas.

A Odisseia de Homero está repleta deles. Na segunda parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri – Inferno – é quase só o que se vê.

Gravura de Gustave Doré para a Divina Comédia

Os exemplos são tantos, que é melhor ficarmos por aqui.

Como gênero, a chamada literatura de horror – de terror, suspense ou qualquer outro nome que se dê – começa a se delinear com a literatura gótica, surgida do final do século XVII para o século XVIII...

Prosa de alto nível pruduzida em puteiros

Willian Faulkner é um tipo dos mais esquisitos da literatura moderna.

Filho da aristocracia rural do Mississippi, derrotada pela Guerra da Sucessão, não era de forma alguma um racista. Vide sua literatura e suas preferências sexuais fora do lar, doce lar.

Ao contrário dos americanos típicos, era um baixinho, de pouco mais de um metro e meio de altura.


Willian Faulkner a caráter

Mas produziu uma literatura gigantesca. A meu ver, muito à frente de escritores como Ernest Hemingway, Jack Kerouac, John Steinbeck, entre outros escribas da gringolândia de grande popularidade.

No tocante às técnicas de narrativa, foi o único prosador norte-americano a se equiparar a um time do nível de James Joyce, Marcel Proust, Ferdinand Céline, Jorge Luis Borges, Lezama Lima e nosso Guimarães Rosa.

Suas invenções narrativas foram copiadas por diretores de Hollywood e adaptadas ao cinema.  Mas quando os mecenas da indústria cinematográfica o chamaram para criar roteiros, foi um fiasco.

Faulkner, debochadamente, tirou deles até o último centavo que pode e só produziu porcarias. Ao que tudo indica, de propósito...

O homem que não pôde chegar lá

Nos anos 1940, Ed Crane (interpretado por Billy Bob Thornton) é um barbeiro infeliz, que vive com sua esposa Doris (Frances McDormand).

Ao descobrir que ela o está traindo, planeja uma trama de chantagem, a fim de lhe dar uma lição.

O plano vai por água abaixo, com uma série de consequências desagradáveis, incluindo assassinatos.

Somado a tudo, entra na vida do homem uma ninfeta interpretada por Scarlett Johnsson, pela qual se apaixona e passa a cometer uma sequência de asneiras.

O homem que não estava lá (2001) é um dos melhores filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Corpo estranho da música popular brasileira – qual o gaúcho Joaquim José Maria Qorpo Santo para a dramaturgia – com Sérgio Sampaio (1947-1994) foi diferente: por mais que tenha tentado, não pôde estar lá.


Sampaio (à direita) com Jards Macalé

Muito do que produziu se perdeu. Parte de suas composições se encontra em cinco álbuns e vários compactos (formato de gravação hoje inacessível no Brasil).

Algumas de suas canções também receberam gravações esparsas de amigos...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Narrativa e crença (mesmo que cética) na literatura

As definições sobre narrativa literária normalmente estão associadas à segmentação convencional da prosa: romance, novela, conto, crônica, fábulas, etc.

Que, por sua vez, tem pouca ou nenhuma importância. Pelo menos para mim.
 

Meu livro O homem que sabia ouvir está fora desse contexto, pois mescla dois dos tipos relacionados acima: conto e fábulas.
 

Obras como Paradiso de Lezama Lima, Ulysses e Finnegans wake de James Joyce, A sangue frio de Truman Capote, idem.

Truman Capote

Mais importante que credenciar os tipos de narrativas, é entender seu encadeamento composicional...

Rio acima, sertão adentro, mar afora

Canto falado sobre solidão e frustrações amorosas.

Música de revolta, amarga, intimista, contra a realidade desfavorável, o preconceito, a violência e o estigma da miséria.

Tudo sob batidas básicas, repetitivas, de três a quatro acordes.


Dizem que veio das cantorias de negros escravos, enquanto trabalhavam nas plantações de algodão.


Inicialmente na forma de lamentos com conteúdos religiosos.

Depois migrou para as bodegas, puteiros e espeluncas para negros na periferia urbana e incorporou também conteúdos profanos.

Foi mais ou menos da mesma forma que surgiu o tango.


Em  ambientes similares nas cercanias de Buenos Aires, onde se reuniam imigrantes pobres expulsos da Europa e migrantes expulsos pelo êxodo rural das províncias platinas.

Também foi mais ou menos assim que surgiram os lamentos sertanejos no Brasil, por meio de artistas também forçados a migrar para os centros urbanos.


Primeiro para as capitais nordestinas e, depois, para Rio e São Paulo. E sempre saudosos das coisas de suas terras.

Luiz Gonzaga foi o principal deles. Algumas de suas belas canções são na forma de lamentos: Pau de arara, Assum preto e Asa branca.




Mas o blues, tema deste tópico, teve um poder de penetração maior. É hoje tocado e cultuado em todo o mundo, inclusive no Brasil...


O que temos de mais concreto?

Da segunda metade dos anos 1950 para cá eles influenciaram um bocado a produção cultural brasileira.

Inclusive a daqueles que a eles se opuseram sistematicamente.

Refiro-me ao trio que criou o movimento de poesia concreta no país: os irmãos Augusto (1931) e Haroldo de Campos (1929-2003) e Décio Pignatari (1927-2012).

Dos três, o único na ativa é Augusto.

Também foram importantes outros poetas e críticos que estiveram bem próximos deles: Ferreira Gullar, José Lino Grünewald, Mário Faustino, Boris Schnaiderman e José Paulo Paes.

A influência da estética construtivista da poesia concreta encontra-se entranhada na produção artística nacional dos meados do século XX para cá.

Na música popular é marcante na obra dos compositores do tropicalismo – sobretudo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé.

Disco Tropicalia: arranjos de Rogério Duprat e capa de Rogério Duarte

Rogério Duprat (1932-2006), arranjador da fase mais inventiva do tropicalismo, bem como do disco Construção, de Chico Buarque de Holanda, e dos três principais discos dos Mutantes, era do movimento concretista...

Do concreto ao abstrato

Tédio, certo ar depressivo, timidez.

Assim aparentava Walter Benjamin (1892-1940) nas poucas fotografias deixadas.

Sempre de cabeça baixa e evitando expor seu olhar míope a quem quer que desejasse vê-lo.

Walter Benjamin
Esse homem dúbio, que parece querer se esconder de si próprio, está entre os que melhor compreenderam a meleca cultural com a qual nos lambuzamos há décadas.

Ele, Marcel Duchamp (1987-1968), Marshall McLuhan (1911-1980) e Andy Warhol (1928-1987).


Marcel Duchamp
Mas Benjamin é uma grandeza à parte...

Mundos paralelos

Quentin Tarantino disse que todos os seus filmes são sobre filmes de sua preferência feitos por outros.
 

Não se trata de plágio ou de copiar.

Refere-se aos fios que nos ligam à linha de produção maior da qual somos parte e com a qual sempre temos o que aprender (e, com o tempo, ensinar).
 

Todo artista recria seus percursores.

Inclusive dá vida àqueles que passaram despercebidos pelos contemporâneos. Isso ocorre em qualquer arte. Inclusive na literatura.
 

De modo que cada intervenção criadora – cada obra ou autor novo que surge – traz na bagagem um impulso à ressurreição daqueles que o influenciaram.

Sob o crivo crítico dos poetas concretos, voltaram à cena grandes poetas brasileiros do passado.

Dentre os quais o maranhense Sousândrade (1832-1902) e o baiano Pedro Kilkerry (1885-1937).


Pedro Kilkerry
Mas há escritores (e artistas) que também apontam para o futuro e abrem perspectivas para novas tendências.

Como Edgar Allan Poe (1809-1849), que criou a literatura de mistério, a literatura policial e o poema simbolista...

Dostoiévski e o jornalismo

Para vários escritores o ganha-pão foi o jornalismo.
 

Julio Cortazar, Cabrera Infante, Truman Capote, Albert Camus, Edgar Allan Poe, Tom Wolf, Eça de Queiroz e Henrik Ibsen lá fora.

Aqui no Brasil: Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos (como revisor), Nelson Rodrigues e muitos outros.
 

Os irmãos Fiódor e Mikhail Dostoiévski passaram boa parte de suas vida nas redações de jornais e revistas russas.

Fiódor, que se tornou um dos maiores romancistas de todos os tempos, tirou a maior parte dos seus enredos do noticiário.


Ibsen na Noruega e Nelson Rodrigues por aqui, também.

Fiódor Dostoiévski

A trama de Os irmãos Karamazov teve início com uma série de reportagens do próprio autor sobre crianças maltratadas...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Por que escrever?

O escritor carioca Raphael Draccon, autor da série de fantasias Dragões do éter, que teria vendido mais de 200 mil exemplares, declarou recentemente: "A era dos escritores intimistas acabou".

Segundo ele, esta é a pergunta que qualquer candidato a escritor deve se fazer é: “O que eu ofereço para a editora além da minha obra?”.

E arremata: "É preciso que sua história de vida e sua personalidade sejam tão impactantes quanto a fantasia que você criou".

Ou seja, mais do que boa literatura, ele acha que o escritor tem de saber se vender.

Suas declarações vieram a público em agosto último, durante a 16ª Bienal do Livro do Rio.

O curioso é que Draccon se referia a Rubem Fonseca, um dos poucos autores razoáveis que ganham algum dinheiro com literatura no país.

Mas para Draccon, não há mais espaço para "escritores intimistas" como Fonseca.


Rubem Fonseca

Sem problemas. Na hora da xepa é assim mesmo: berra-se alto para vender seus peixes de qualidade duvidosa...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Início da oficina online

Encerrado o prazo de inscrições, inicia-se a oficina Acompanhando o Autor, a ser concluída no dia 20 de dezembro.

Os conteúdos veiculados, atualizados semanalmente, serão acessíveis neste blog a quaisquer interessados.
 

Porém os inscritos terão a atenção contínua do autor, por meio de trocas de e-mails pessoais com informações específicas e sugestões de atividades.

No final, receberão certificados com carga horária de 30 horas.
 

Desde já minhas desculpas por não contemplar na oficina maior número de participantes. Limitei as vagas para melhor corresponder às trocas de e-mails.
 

Não adotarei postura professoral. O que importa aqui é difundir dicas sobre como ampliar os conhecimentos a respeito de literatura e das artes em geral.

As fontes de informações serão disponibilizadas. Que cada qual opte por conhecê-las melhor.

Óbvio que minhas sugestões e as provenientes dos colaboradores por mim destacadas nas postagens do blog – sejam eles inscritos na oficina ou não – terão certo crivo crítico.
 

Não me restringirei à literatura, muito menos a escolas e tendências de épocas. Nem aos meios.

Acho, por exemplo, que o desenho de história em quadrinho Gerhard Shnobble, o homem que sabia voar, escrito e desenhado por Will Eisner (1917-2005), é um dos contos mais perfeitos.

Comparável às melhores obras dos mestres do gênero, como o russo Nicolai Gogol (1809-1852).

Claro que o título do meu romance faz referência à história de Eisner.  

Os dois vídeos a seguir são de uma entrevista concedida por Eisner a Jô Soares.


 
Durante a oficina, farei por meio deste blog comentários sobre assuntos diversos, porém todos contextualizados, direta ou indiretamente, com a produção literária.

Quero dizer, com isso, que a literatura não existe à parte.

Assim como as obras de qualquer autor são componentes de algo muito maior, que é a literatura de todas as épocas, dos vários povos e em vários idiomas, também compreendem aspectos de outras artes.

O que mais interessa aqui é técnica. Apuração conceitual e construtiva. Linguagem mais diversa e elaborada possível. Escolhas criteriosas. Síntese e objetividade. Melhores combinações entre fundo e forma.

Isso é o que de melhor, suponho, podemos passar uns para os outros. Porque imaginação, desempenho e habilidades natas são qualidades que não se transmitem.
 

A literatura, como todas as artes, dirige-se à percepção dos leitores. Mallarmé dizia: verso perfeito é aquele em que as intenções fazem com que suas palavras se apaguem ante as sensações.

Stéphane Mallarmé
Este blog contará com uma programação agregadora de conteúdos para a oficina nos próximos 40 dias, atualizada semanalmente. Serão seis semanas, portanto seis edições.
 

Para cada edição, os inscritos receberão mensagens instigadoras de debates paralelos, com sugestões de atividades complementares.

Ninguém é obrigado a corresponder. Mas decerto que a oficina, e o próprio blog, se tornará muito mais interessante com participações efetivas.


Leva e traz de grandes formadores

O concretismo, surgido na década de 1950 em torno dos poetas e críticos paulistas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, sucedeu ao modernismo como escola formadora no país.

Tratou-se, na verdade, de um movimento estético internacionalista, com núcleos em vários países, sobretudo na Alemanha e no Japão. Eugen Goringer, por exemplo, expoente do movimento na Suíça, era cidadão boliviano.



Haroldo, Décio e Augusto

O movimento brasileiro, embora surgido em São Paulo, agregou artistas dos vários estados.


Aliás, no seu início foi melhor acolhido pela crítica do Rio de Janeiro. Graças, sobretudo, ao piauiense Mário Faustino (1930-1963), ao maranhense Ferreira Gullar (nascido em 1930) e ao carioca José Lino Grünewald (1931-2000).
 

Gullar e Grünewald fizeram parte do movimento, embora o primeiro tenha mais tarde se indispondo com algumas de suas propostas...

Por uma literatura menor

O arquiteto Pedro Manuel Rivaben Sales enviou para este blog uma bela dica de leitura: o livro Kafka: por uma literatura menor, de Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992).

A versão por ele sugerida é a da Editora Imago, com tradução de Júlio Castañon Guimarães, de 1977.

Os franceses Deleuze e Guattarri estão entre os livre-pensadores mais influentes de meados do século XX para cá.

Deleuze e Guattari em foto de 1970
As principais obras por eles co-assinadas: Anti-Édipo, a série Mil Platôs e O que é a filosofia?.

O livro sobre Kafka foi o segundo trabalho em comum...

Literatura em cena

Em uma passagem de Havana para um infante defunto, o narrador (alterego do autor Guillermo Cabrera Infante) participa de um grupo de teatro mambembe que se apresenta pelo interior de Cuba.

Quase todos os integrantes são de esquerda ou se opõe à política opressora do então presidente Fugencio Batista. A precariedade é total. O cenário é carregado no lombo de um burrinho.

O que vem à tona nas apresentações hilárias desse grupo mambembe é o bom humor do povo cubano, capaz de debochar da própria miséria e, talvez por isso, tenha resistido a ela com tanta dignidade. 

Embora venha de uma família de comunistas, Cabrera Infante (1929-2005) se deu mal com o regime dos irmãos Castros.

Chegou a ministro de Estado após a revolução. Mas se posicionou contrário à marginalização de artistas cubanos homossexuais, dentre os quais dois que eram seus amigos pessoais: Lezama Lima (1910-1976) e Virgílio Piñera (1912-1979).

Lezama Lima e Virgílio Piñera: "El Gordo" e "El Flaco"

Mas as restrições do regime se ampliaram à classe artística de maneira geral. Ou esta apoiava o realismo socialista em vigor ou estava fadada ao ostracismo. Cabrera e sua mulher, a bailarina Mirian Gomes, tiveram de se exilar...

De onde as pedras rolam

Amigos de fé, irmãos, camaradas, minha formação “literária” nunca se limitou a livros. E é evidente que o romance que me motivou a criar este blog (O homem que sabia ouvir) reflete isso.

Passei a me interessar por literatura na infância, por meio dos gibis. Destes fui para os folhetins.

Bertolt Brecht, em sua fase comunista, escreveu e encenou Mãe coragem em Berlin, peça muito admirada pela esquerda brejeira na passagem dos anos 1960 para os anos 1970.

O poeta piauiense Torquato Neto (1944-1972), entre a ironia cáustica e o deboche, criou a linda letra de Mamãe, coragem, musicada por Caetano Veloso.

Numa das estrofes, sugere à mãe o tipo literatura que líamos no interior:

Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia "Elzira, a morta virgem", "O Grande Industrial"


Veja aqui a letra completa e ouça a canção interpretada por Gal Costa.
  
Na infância também ouvi novelas de rádio. Me lembro de Jerônimo, o herói do sertão. Foi criada por Moysés Weltman, no final dos anos 1950. Mais tarde foi adaptada para televisão.

Tratava-se de um bem-humorado pastiche dos faroestes norte-americanos. O vídeo a seguir é sobre a primeira versão televisiva da novela, pela extinta Tupi:


Literatura da pesada vim a conhecer em São José do Rio Preto (SP), por meio das publicações do grupo de Hamilton de Almeida Filho: a excelente revista Bondinho e o tabloide Jornalivo...

Jerry Lee Lewis e amigos

Jam sessions: tocar sem saber o que vem pela frente, de improviso. No jargão dos músicos nacionais é mais ou menos “dar uma canja”.

Muita boa literatura foi produzida assim, de improviso, a toque de caixa, sem muito planejamento. Oh The Road, de Jack Kerouac, e Naked Lunch, de Willian Burroughs, que o digam.

Nelson Rodrigues interrompia a redação de suas crônicas na redação do jornal onde trabalhava para tomar uma média (café com leite) num boteco. Era para aplacar a úlcera que o atormentou durante toda a vida.

Os amigos, de sacanagem, acrescentavam palavras ou trechos ao texto enquanto ele estava fora.

Alguns desses acréscimos ele tirava fora. Outros ele mantinha e dizia em voz alta para quem quer que os tivesse colocado: “Boa! Boa!”. E seguia em frente de onde o "colaborador" tinha parado.

Certa vez Bob Dylan alugou um estúdio só para promover jam sessions com os músicos com os quais tinha afinidade. Algumas dessas sessões foram pirateadas e podem ser hoje baixadas pela internet.

Apareceram por lá Eric Clapton, Neil Young, Paul McCartney, Mick Jagger, John Lennon, George Harrison e, principalmente, músicos country, como Johnny Cash.

Os Stones participaram de várias jam sessions com outros músicos. Um dos textos desta edição do blog refere-se a uma delas com Muddy Waters. 

Em 2006, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood levaram Jerry Lee Lewis, aos 71 anos, para um estúdio. Sem muito ensaio, começaram a gravar o que rolou.

A jam session era comemorativa a outra da qual Lewis participara, em 1956, com Elvis Presley, Johnny Cash e Carl Perkins.

Lewis, Perkins, Presley (ao piano) e Cash

Perkins, Presley e Cash já se foram. O velho Lewis continua por aí. É da estirpe do Richards: sobrevive a tudo...

Décio Pignatari e Tom Zé como atores

Sábado é o dia em que tudo ocorre no filme homônimo, de 1995, escrito e dirigido pelo cineasta e publicitário Ugo Giorgetti. O cenário é o centro decadente da cidade de São Paulo.

Uma equipe de publicidade ocupa o saguão do antigo Edifício das Américas para a gravação de um comercial. Mas um elevador quebrado obriga a equipe e os moradores a dividirem o mesmo espaço.

Desse convívio forçado surgem numerosos incidentes que tornam o tal sábado bastante agitado e divertido.

Uma legião de figuras conhecidas faz os personagens. O ator Otávio Augusto e o compositor Tom Zé vêm recolher o corpo de um morador morto (Gianni Ratto).

O elevador no qual transportam o defunto recebe também o personagem interpretado pelo músico André Abujamra, que veio participar de um churrasco na cobertura do prédio, e a assistente de arte da agência (Maria Padilha).

Mas o elevador trava com os quatro (mais o defunto).


Cena do elevador: Otávio Augusto, Maria Padilha,
Tom Zé e André Abujamra

O ajudante da assistente de arte vai ao apartamento do zelador pedir socorro. Trata-se do poeta concretista Décio Pignatari, que cuida da mãe caquética num apartamento repleto de pombos e outros pássaros...