segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma das canções mais populares de todos os tempos foi a alemã Lili Marleen, com letra de Hans Leip (1893-1983) e melodia de Norbert Schultze (1911-2002).

Durante a 2ª Guerra Mundial a música foi ouvida por milhões de soldados dos dois lados do front nas gravações de suas duas principais intérpretes: Lale Andersen (1905-1972) e Marlene Dietrich (1901-1992).


Reza a lenda que batalhas foram interrompidas momentaneamente quando alguma rádio a sintonizava, para que os soldados dos dois lados pudessem ouvir.


Lale Andersen
Marlene Dietrich

A primeira gravação foi a de Lale Andersen, em 1939. Marlene gravou a canção em 1941. Mais tarde também a gravou em inglês, para atender aos insistentes pedidos de soldados norte-americanos e britânicos.

De início o ministro da propaganda do governo nazista, Joseph Goebbels, não gostou de
Lili Marleen e ordenou às rádios alemãs que não a retransmitissem mais.

Um dos senões que levara Goebbels a ser contra a gravação fora o fato de a primeira intérprete, Lale Andersen, ter vindo de ambientes considerados por ele como degenerados, num dos quais se envolvera com um músico judeu (Rolf Liebermann).

De fato Lale, antes de fazer sucesso como cantora, fora estrela de cabarés, assim como outra grande cantora alemã da época, Lotte Lenya (1898-1981), que também se envolveu com um músico judeu (Kurt Weill).

Por imposição de Goebbels, Lale não pôde aparecer em público por um longo período. Em desespero, ela chegou a tentar o suicídio.


Quando voltou a se apresentar, em 1941, as autoridades exigiram várias condições. Uma delas é que não poderia mais cantar Lili Marleen.


Mas foram tantas as cartas dos soldados alemães às rádios, pedindo que voltassem a tocar a canção, que Goebbels acabou por ceder.


Ele então ordenou que a canção fosse regravada pela cantora com uma versão militarista, o que foi feito em junho de 1942.

Sua popularidade cresceu ainda mais. Em pouco tempo tornou-se a música-tema do exército alemão. Nem por isso soldados norte-americanos, ingleses, russos e de outras nacionalidades deixaram de ouvi-la.


Nos últimos tempos da guerra, Lale Andersen também foi obrigada a aparecer em vários filmes de propaganda do regime nazista.

Quando a guerra estava quase no fim, também surgiu na Itália uma gravação de Lili Marleen por um coro de soldados, com a letra adaptada à propaganda pró-Mussolini.

Na URSS Lili Marleen também foi gravada por um coro de soldados, com a letra em russo, devidamente modificada para atender aos interesses da propaganda soviética.

Nos EUA foi produzido um desenho animado pró-Aliados tendo a música como fundo.

Depois da Guerra, Lale disse ter sido coagida a fazer propaganda para o regime, foi perdoada e prosseguiu carreira na Europa e nos EUA como cantora e compositora...


sábado, 20 de dezembro de 2014

Este blog foi disponibilizado em outubro de 2013 para oferecer uma oficina sobre produção literária, como contrapartida ao financiamento do romance O homem que sabia ouvir, cuja tiragem me foi entregue em dezembro do mesmo ano.

O projeto se encerrou. Centenas de exemplares do livro encalharam na sala de minha casa, sem qualquer perspectiva de distribuição.


Folder da época

Ficou este blog. Isso porque a diversidade de assuntos postados continua a despertar interesse de leitores cuja procedência desconheço.

Só continuo a produzir artigos porque sei que um número considerável de pessoas conferirá para saber do que tratam.

Dei exemplares do romance a vários conhecidos. Mesmo sabendo, de antemão, que poucos sequer iriam folheá-lo.

Uma das pessoas que o recebeu não me agradeceu e nem quis saber do que trata. O que mais importava para ela era uma dedicatória minha endereçada ao seu nome.

Ela me disse que também pretendia escrever um livro – afinal se eu tinha escrito um, claro que ela deveria fazer o dela – e me avisou que quando tivesse finalizado viria me procurar para que eu lhe “passasse os canais”.


É esse o contexto poluído da cultura selfie. Digo, cultura célere... que com um vago sopro se desmancha no ar.


As avalanches de citações de obras e artistas pelas redes sociais – no Facebook, em especial – não visam a qualquer qualificação. São meras apropriações cujo objetivo é dar destaque a quem as escolheu e as postou.

Cada qual procura mostrar que conhece mais coisas. Todos são doutos em tudo. E quase ninguém está interessado no que o outro tem a apresentar.


Vivemos sob essa supremacia do efêmero. As pessoas querem novidades e mais novidades, mesmo que a maior parte delas seja velhice requentada. O que importa é volume, quantidade.

O que o pensador marxista alemão Walter Benjamin  (1892-1940) previu em seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, vivenciamos com todas as letras nos dias atuais...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os notáveis compositores baianos Assis Valente (1911-1958) e Batatinha (1924-1997) representam com suas canções e letras características opostas ao que foram como pessoas.

Assis com seu acervo em diversos gêneros – marchinhas, choros, sambas e até canções de Natal e de Festas Juninas – personifica o lado alegre da música popular brasileira, de exaltação.


A marca do sorriso no tempo de sucesso (ao lado de Carmen)
A indisfarçável marca da amargura nos últimos anos

Batatinha o lado triste, melancólico, sofrido.

Mas enquanto Assis, apesar de sempre aparecer nas fotografias com seu largo sorriso, era um homem de altos e baixos, com vida bastante conturbada, Batatinha foi um plácido e tranquilo funcionário público e pai de família.


O primeiro se suicidou aos 47 anos, enquanto que o segundo chegou aos 73 anos, numa trajetória das mais tranquilas.


Tudo na vida de Assis Valente era um tanto dissimulado. Havia sempre a preocupação de afastar da sua produção artística a amargura pessoal. 


Somente sua popular Boas festas! – a única importante canção natalina genuinamente composta por um brasileiro – revela a faceta triste do compositor.


Pelo tom das respectivas letras, Boas festas! e Todo mundo vai ao circo, de Batatinha, se parecem.

Boas festas!

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar


Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel


Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
 


A seguir, Boas festas! em apresentação ao vivo do mestre João Gilberto.


Todo mundo vai ao circo

Todo mundo vai ao circo
Menos eu, menos eu
Como pagar ingresso,
Se eu não tenho nada?
Fico de fora
Escutando a gargalhada


A minha vida é um circo
Sou acrobata na raça
Só não posso é ser palhaço
Porque eu vivo sem graça


A seguir, Todo mundo vai ao circo, de Batatinha, com Maria Bethânia.



Assis Valente compôs cerca de 150 canções, a maioria nos anos 1930, quando, juntamente com Ary Barroso e Joubert de Carvalho, formou o trio dos compositores que sustentou o repertório da cantora Carmen Miranda...


Cresci ao som da prima-dona da cultura sertaneja (a viola caipira) em um sítio do noroeste paulista, quase na barranca do rio Grande, na divisa com o Triângulo Mineiro, a cerca de 600 quilômetros da capital São Paulo.

Fiquei por lá até os 10 anos. Depois fui me urbanizando, me tornando caipira da cidade. Mas isso aos poucos. E nunca totalmente.

Hoje fico parte do meu tempo no campo, onde cultivo seringueiras e plantas de várias espécies, outra na cidade, onde cultivo literatura, também de variadas espécies.


Na minha infância (anos 1960) só via televisão nas visitas a parentes que moravam em cidades maiores, onde o sinal das poucas emissoras existentes era próximo do razoável.

Ainda assim não me entusiasmava muito pelo veiculo.

Meu meio de comunicação predileto continuou sendo o rádio, por muito tempo, mesmo quando passei a residir na cidade.

Por meio dele ouvi muita música popular de todos os gêneros, jogos de futebol, radionovelas, programas de humor e o noticiário de rotina.


Quando residi em São José do Rio Preto, a maior cidade da região, havia um único televisor na casa. Sempre sintonizado nas detestáveis telenovelas e programas de auditório.

Saía de casa para não ouvir aquilo. Até hoje detesto macarrão com frango. Pois era o que minha tia servia aos domingos, enquanto o desgraçado do Sílvio Santos pipocava seu falatório pelo televisor da sala, com o volume no máximo. Dava uma indigestão das brabas.


De modo que continuei ouvinte de rádio. Até que entraram em minha vida o jornalismo escrito, os livros, o cinema e, com eles, a literatura, a política e uma diversidade cultural maior do que o rádio me proporcionara até então.

Mas ainda tenho apego especial por esse meio de comunicação. Especialmente porque continua sendo o principal divulgador de um gênero de canção popular que sempre ouvi com prazer e admiração: a "moda de viola".

Neste artigo, darei algumas pinceladas sobre o instrumento no qual se ampara essa antiquíssima tradição do cancioneiro popular e uns leves toques sobre artistas de diferentes épocas que nela se inseriram.

Calcula-se que a "moda de viola" exista no país há mais de três séculos. É muito anterior ao samba.


A chamada “música sertaneja”, contexto no local se situa a "moda de viola", propaga muita porcaria. Mas continua formando as chamadas duplas “de raiz”, ou seja, aquelas que fundamentam seu trabalho nessa rica tradição.


Não vou relacionar aqui todos os grandes instrumentistas, intérpretes e compositores que utilizaram e utilizam a viola caipira e fazem "moda de viola".

Isso porque o universo de referências é gigantesco, talvez o mais rico, diversificado e numeroso da música popular brasileira.

É também muito descentralizado. Há ótimas duplas em grandes, pequenas e médias cidades de quase todo o Brasil.


Me limitarei a alguns exemplos antigos e recentes dos estados do Sudeste e do Centro-Oeste, que sustentam os pilares da tradição da boa "moda de viola". Se bem que hoje em dia existam bons compositores e intérpretes de "moda de vila" até nos estados nordestinos e em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

Por falar no Nordeste, vou ter de deixar de fora uma outra grande tradição de música rural amparada na viola caipira, a da música repentista. Esta é, igualmente, muita rica e fica para uma próxima oportunidade.

Estes são alguns dos cabras que tratarei neste artigo:

Cornélio Pires, o maior divulgador da cultura caipira


Viola caipira, a estrela da "moda de viola" e da música repentista
Dois grandes compositores de "moda de viola"

A soberba violonista Helena Meirelles
O virtuose Renato Andrade


Mas entram na lambança abaixo vários outros nomes além destes...



A classe média mais ou menos letrada, de formação universitária, quando fala de música brasileira refere-se sempre à modorrenta música popular brasileira (MPB).


Qual seja, os protagonistas da Bossa Nova e seus sucessores: Chico, Caetano, Edu, Gil, Milton e tantos outros músicos de formação universitária, similar à de seu público preferencial, revelados a partir dos festivais de música dos anos 1960.


O restante da música popular produzida no país é visto com desdém, mesmo que para o mercado e para o restante de população brasileira represente muito mais que a MPB, essa Academia Brasileira de Letras da música popular nacional.


Com o cinema é o mesmo nabo. Se o papo são os filmes nacionais, só têm assunto para Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e demais diretores do Cinema Novo ou seus sucessores.


Um dos mais vigorosos movimentos do cinema nacional, muitíssimas vezes mais importante para a indústria cinematográfica (e para o público em geral) que o velho Cinema Novo, surgiu a partir da “Boca do Lixo” de São Paulo.

Mas como não era vinculado ao Cinema Novo, é visto com desdém pela classe média universitária (a mesma que forma a elite de esquerda e de direita da política nacional).

A filmografia proveniente "Boca do Lixo" foi a sustentação do cinema brasileiro por pelo menos três décadas. Sem ela, sequer o Cinema Novo teria tido tanto espaço.

Foi de lá que saiu o cinema brasileiro que realmente chegou às salas de exibição, porque era o único com o qual o público tinha afinidades.

Diferente do pomposo o Cinema Novo e seus congêneres, que foram bancados pelo Estado, mas tiveram mísera exibição, os filmes produzidos pela "Boca" tinham míseros orçamentos e tinham que dar retorno econômico às produtoras.


Embora esse chamado “cinema marginal” tenha sido o único que representou alguma joça quanto à venda de ingressos para exibição da produção cinematográfica nacional, suas obras não foram destacadas nas páginas do Estadão, Folha, O Globo, Veja, etc.

Ocorre que toda imprensa brasileira (de qualquer matiz ideológico) sempre esteve voltada para a pequena fração da população brasileira que a ela tem acesso. Qual seja, a dita classe média universitária.

Para a qual o que importa é a MPB, o Cinema Novo, o último livro do Chico, o último lançamento do José Saramago e obviedades do tipo.
Filme produzido e exibido em cinema da "Boca" nos anos 1970

O dito “cinema marginal” se desenvolveu em São Paulo principalmente dos anos 1960 a 1980, na região da Luz, e em particular nas ruas Vitória e do Triunfo, hoje uma das partes mais decadentes do centro paulistano, onde se encontra a Cracolândia e o maior comércio de produtos eletrônicos da cidade.


Diretores, atores e técnicos que lá atuavam não eram só paulistas. Havia gente de todas as partes do Brasil, e também de outros países.


Oswaldo Massaini, com sua Cinedistri, teria sido o primeiro a se instalar-se por lá, isso em 1949.

Nos anos 1960, a Cinedistri conseguiu um dos maiores feitos do cinema brasileiro: nossa única Palma de Ouro em Cannes, como filme O pagador de promessas, dirigido por Anselmo Duarte...

Dizia-se que, sóbrio, era um doce de pessoa. Mas, bêbado, era mesmo infernal. O problema é que dificilmente estava... sóbrio. Ainda mais quando acompanhado por sua esposa Zelda ou pelo amigo Henry Louis Mencken (1880-1956).

Dizia-se ainda que Zelda era uma flor da alta sociedade. Mas cuja pele exalava mais cheiro de uísque que de perfumes.


Scott e Zelda em Paris
Mencken garantiu que não era nada disso. Que seu amigo na verdade se fingia de bêbado quando queria aprontar. Que nem era tão beberrão assim. Se bem que Mencken, como Zelda, não era lá flor que se cheire.

Mencken foi uma espécie de Paulo Francis da primeira metade do século XX nos EUA. Um satirista político da pesada.


Segundo as más línguas, o jornalista que mais teve inimigos na história da imprensa norte-americana. Como Francis, escrevia sobre quase tudo: política, cena social, literatura, música, etc.

Era muito cético em relação a teorias econômicas. Também era anti-intelectual, antipopulista, anticristão (dizia que Deus fora a pior piada da humanidade) e anticapitalista – embora nunca tenha militado em nenhuma organização de esquerda.


Certa vez Scott, acompanhado por Mencken, perdeu o controle do carro e foi parar dentro de uma agência bancária da Filadélfia. Estavam tão bêbados que dormiram no local do acidente, em meio a estilhaços de vidro. A polícia teve de levá-los desmaiados para o xilindró.


Scott, Mencken e um amigo num momento de descontração
Scott Fitzgerald integrou a chamada “geração perdida” de escritores norte-americanos que migraram para Paris na passagem do século XIX para o século XX. Dela também fez parte Ernest Hemingway (1899-1961), que não se dava com Scott.

Aliás, quase nenhum dos norte-americanos residentes em Paris na época se dava bem com Scott. Gertrude Stein (1874-1946) e sua companheira Alice Toklas tinham uma paciência de Jó com Hemingway. Várias vezes o escritor grandalhão foi curar os porres na casa das duas.


Mas Scott e Zelda não queriam ver nem pintados. Gertrude, em sua autobiografia, se referiu aos dois como “aqueles bárbaros”...


Muito antes do Muro de Berlin ruir, em 1989, com todo o poder simbólico ou real que havia por trás dele, o marxismo – sustentação ideológica para os regimes do lado oriental do muro  teve quebras de dogma. Várias.

Por
conta delas muitos militantes e dirigentes comunistas caíram em desgraça. Foram expatriados ou meramente eliminados, a mando dos seus ex-companheiros.

O maior dos expurgos ocorreu na União da República Socialista Soviética (URSS) quando uma ação persecutória violenta movida pelo ditador Josef Stalin (1879-1953) contra seus opositores liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista, cerca de 5 mil oficiais do Exército Vermelho acima da patente de major e 13 dos seus 15 generais.

Uma limpa total, para não sobrar alma viva do contra.


Por fim, o próprio criador do Exército Vermelho e um dos principais líderes da revolução bolchevique de 1917, Leon Trotsky, foi assassinado no exílio, no México, em 21 de agosto de 1940.

Neste artigo, vou me limitar a duas quebras de dogma do marxismo. Como mencionado no título, ambas com tinturas anarquistas.


Paul Lafargue e Laura Marx
Antonio Gramsci
Mas não o anarquismo sectário da ação direta – que motivou atos terroristas porra-loucas muito parecidos aos dos radicais islâmicos atuais – e, sim, o da corrente libertária humanista, democrática e igualitária, à qual se alinhava o ativista russo Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842-1921) e o brasileiro Maurício Tragtenberg (1929-1998).

A primeira quebra de dogma do marxismo a que me refiro neste artigo – a do médico e ativista político franco-cubano Paul Lafargue (1842-1911) – ocorreu bem nas barbas de Karl Marx (1818-1833).

Posto que Lafargue era casado com a segunda filha de Marx, Laura, e era também um dos principais colaboradores do sogro, tanto como pesquisador quanto agitador político.

A outra foi a de Antonio Gramsci (1871-1937), um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PRI) e seu primeiro dirigente...



No artigo Artes e manhas do diabo na literatura, postado em 8 de fevereiro de 2014, tratei do mito de Mefisto (ou Mefistófeles), associado à lenda alemã de Fausto, um alquimista da Idade Média que teria feito um pacto com o “coisa ruim”.

O enredo do mito reverberou por várias obras da literatura e inspirou o grande poema dramático Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1853).

Neste artigo, tratarei de outro mito medieval que também inspirou muitas obras (não só literárias): narrenschiff ou "nau dos insensatos", também conhecida como "navio fantasma".


Ambos os mitos – Mefisto e narrenschiff  – vêm da Alemanha.

Narrencshiff em ilustração de Gustave Doré (1832-1883)
A primeira obra com registro literário sobre narrenchiff foi criada por Sebastian Brant (1457-1521), um poeta da Alsácia que publicou, em 1494, o poema satírico Das narrenschiff. Mas a partir de uma lenda popular já existente em sua época.


Retrato de Sebastian Brant
Trata-se de um poema alegórico, pré-barroco, que narra o episódio de um navio lotado por idiotas pestilentos que ruma para o Paraíso dos Tolos, a Narragônia.

Brant expõe com delicioso deboche as fraquezas e vícios do seu tempo. Qual Dante Alighieri (1265-1321) com a Divina commedia, também insere nos episódios narrados vários personagens reais do seu tempo, em especial os seus desafetos.

A obra de Brant, como a lenda de narrencshiff, remete à pandemia da chamada “peste negra”, que dizimou cerca de um terço da população mundial no século XIV...


Os cidadãos referenciados neste artigo são os das fotos abaixo: os poetas Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Torquato Neto, o cineasta Glauber Rocha e os índios kreen akraori.

Todos mortos. Uns mais, outros menos.

Manoel de Barros
João Cabral de Melo Neto
Torquato Neto
Glauber Rocha


Armas deixadas pelos kreen aos Villas-Boas

Comecemos pelo primeiro, morto mais recente. O mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) teve uma vida das mais longevas para um poeta: 96 anos.

Ninguém sobrevive de poesia. Nem Manoel, ora tão aclamado, declamado e citado.


Seus livros, como os da maioria dos bons poetas brasileiros, foram publicados com recursos próprios.

No final da longa jornada, já contemplado por dois Prêmios Jabuti e plenamente reconhecido, alguns foram republicados por editoras e podem ser adquiridos em livrarias.

Manoel foi pecuarista. Qual seja, criava bois para o abate. Seus admiradores vegans e de outras vertentes vegetarianas certamente não gostarão de saber disso.


Aliás, pecuarista dos mais eficientes. Seu pai era administrador de fazenda. Ao final da vida recebeu do latifundiário seu quinhão de terra, em reconhecimento aos serviços prestados.

Deste pedaço de terra do pai, Manoel herdou uma parte e quadruplicou o patrimônio, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, deixando aos descendentes senhora herança.

Fazendeiro exemplar, cujo manejo do gado e das pastagens seguiu com rigor recomendações técnicas para manter mais ou menos intactas as condições de permanência da farta fauna terrestre e aquática da região.


Vinte e tantos livros e alguns bons poemas.


Claro que poesia não se produz às toneladas, como carne bovina. Um livro seria suficiente para reunir o que de melhor versou.

Mas essa é uma questão que não diz respeito só a ele.


Aplica-se também a Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros poetas igualmente aclamados, declamados e numerosas vezes citados. Todos produziram muito.

A poesia de Manoel associa-se mais aos modernistas de primeira hora que à chamada Geração de 45, à qual corresponde cronologicamente.


A Geração de 45 se insurgiu contra os avanços modernistas. Tida como retroativa, portanto. Manoel, não, seguiu modernista.


Se bem que da "retrógrada" Geração de 45 saiu o melhor poeta brasileiro do século XX: o pernambucano João Cabral de Mello Neto (1920-1999), superior aos três aqui citados (Drummond, Bandeira e o próprio recém-falecido).


Ainda assim Cabral também produziu muito. Menos que os três, mas muito. Um volume também seria suficiente para reunir sua melhor poesia.

Poesia é uma arte do rigor (ou pelo menos deveria ser). O mais conciso dos gêneros literários. Uma arte mais de recusas que de aceitação.


Não por acaso seu nome vem de poética (ποιητικός), segmento da estética que trata dos modos de produção artística em geral. Especificamente na literatura, poética é a parte que lida com as normas construtivas dos textos. Inclusive em versos. Mas não só.

Qual seja, poesia vem de técnica. O principal livro de Cabral chama-se, adequadamente, O engenheiro. Cabral foi, mesmo, um poeta altamente técnico, um "engenheiro". Bons poetas têm mais a ver com esses profissionais do que com homens afetados de bons sentimentos...


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Povos europeus – quando ainda semitribais – passaram por dois fluxos expansionistas que foram fundamentais para encontrarem as trilhas do processo civilizatório que os levou à supremacia cultural contemporânea.

O primeiro, mediterrâneo, proveniente das clássicas culturas grega, judaica e romana.
Isso de 650 aC ao início da era cristã, que coincide com a decadência do Império Romano.


Com o fim da coesão romana, houve nova dispersão e então sobreveio o segundo fluxo, com a ocupação islâmica, a partir da Espanha – em 711 dC – a qual levou para a Europa um poderoso time de artistas, filósofos e cientistas persas, árabes e turcos.


Esses muçulmanos de alto repertório induziram os europeus de volta às culturas clássicas (grega, judaica e romana), que resutou no Renascimento, no século XIV.


Daí por diante, mediante ciclos de guerras, revoluções e acordos de paz que resultaram na formação das várias nações europeias qual as conhecemos hoje, as coisas mais ou menos entraram nos eixos a caminho da modernidade.


Curiosamente, os muçulmanos, que exerceram papel de vanguarda e deflagraram parte desse processo civilizatório durante séculos, voltaram-se para eles próprios e, hoje, adotam postura política agressiva, reativa e retrógrada.


O Alcorão, um livro religioso proveniente da cultura oral e, como tal, escrito para declamação, não se presta apenas à difusão das jihads atuais. Contém também belíssimos cantos de elogio à parcimônia, à compreensão entre os homens, à preservação da sabedoria e da paz.


O nacionalismo xenófobo predominante nos países de vertente ibero-americana (a chamada América Latina) mais ou menos converge para o irracionalismo irado que contaminou os povos muçulmanos.


É xenófobo e procura, como os grupos islâmicos radicais, salientar a importância dos artífices locais contra a influência estrangeira.

Mapa ilustrativo do Brasil colonial

São muitas as influências externas. Inclusive contemporâneas.

Por exemplo, a esquerda latino-americana sustenta por décadas sua aversão aos EUA, assim como os muçulmanos radicais, mas seus intelectuais mais sofisticados continuam sendo formados por universidades norte-americanas ou europeias.


Neste artigo vou me deter apenas a uma das vertentes estrangeiras que trouxeram grandes influências para nos constituirmos como nação e como povo, qual nos identificamos hoje: os viajantes europeus que aqui estiveram e deixaram relatos a respeito do que viram.


Muitos desses relatos foram aqui traduzidos e utilizados como referência para a formação dos intelectuais brasileiros...



Em dado momento as vidas dos três – Paulo Francis, Caetano Veloso e Mick Jagger – se cruzaram.

Francis dera o título de O Diário da Província a alguns de seus textos escritos para o tabloide O Pasquim. Isso enquanto estava no Brasil.


Quando foi morar nos EUA, como bolsista da Fundação Ford, passou a colaborar com jornais brasileiros escrevendo a coluna O Diário da Corte.


Em uma entrevista para uma TV brasileira perguntaram se sentia realmente na "corte" nos EUA. Respondeu em tom de deboche: “Sim, mas eu sou apenas o bobo dela.”

 
Paulo Francis


Tinha gosto refinado, inclusive para música. Assim como esculhambava a mediocridade dos políticos, especialmente os de esquerda, era também implacável com os músicos populares.

Mas, como tudo em Francis, suas críticas espalhafatosas eram mais motivadas pelo prazer da troça do que por convicções.

Não conseguia viver sem política. Embora ouvisse com mais frequência música clássica (óperas e, sobretudo, Wagner), também gostava de música popular.

Numa de suas crônicas, dos idos anos 1970, contou que viajara ao lado de Mick Jagger – este na poltrona da janela.


 
Caetano Veloso, Mick Jagger e Roberto D'Avilla


O músico se levantou seguidas vezes para ir ao banheiro durante o voo. Não pedia licença. Saltava sobre o acompanhante (Francis) “como um símio”.

Comentou que a curta e desagradável convivência com o músico inglês durante essa viagem aumentou ainda mais a falta de consideração que já tinha pela música dos Stones e dos Beatles.


No entanto, em outra oportunidade comentou a canção Citadel (Jagger-Richards), de 1967, salientando que era muito mais revolucionária que todos os discursos enfadonhos ouvidos nas passeatas que a ela se seguiram, em 1968.

À versão nacional da cultura pop – o tropicalismo – chamava comumente de “máfia do dendê”...


O dramaturgo, contista, roteirista, ator e diretor Sam Shepard é, pelo menos na aparência, um norte-americano interiorano típico: alto, magro, pernas compridas, arruaceiro e um exemplar bebedor de bourbon, o uísque da Gringolândia feito de milho.

Sam Shepard

Bem parecido com seu conterrâneo Bob Wilson, este texano, que também tem um jeitão de caipira jeca.

Ambos figuras de proa do teatro de vanguarda norte-americano. Wilson como diretor e Shepard como ator, diretor e dramaturgo.

Nosso camarada nasceu Samuel Shepard Rogers III em Fort Sheridan, Illinois, em 1943. O primeiro Samuel Shepard foi o avô, o segundo seu pai, que se dividia entre as funções de professor e agricultor.


Na adolescência, quando o pai voltou fisicamente destroçado da Segunda Guerra Mundial, Sam trabalhou duro na propriedade rural da família para sustentar a ele, ao pai então inválido e à mãe.


Lembra-se do pai com carinho e ironia: "Era um alcoólatra dedicado."


Shepard estudou brevemente agronomia, mas desistiu de vez da carreira quando descobriu a obra do dramaturgo e prosador irlandês Samuel Beckett, o jazz e o expressionismo abstrato.


O expressionismo também foi âncora do principal dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, figura igualmente criativa, inteligente e bem-humorada.

Depois que desistiu dos estudos, Shepard exerceu durante dois anos, ainda em Illinois, diversas profissões para sobrevier: guia de turismo, garçom, entre outras.


Até chegar em Nova York, onde logo se envolveu com teatro. Em pouco tempo o caipirão pernalta e magrelo de Illinois tornou-se um dos autores mais requisitado pelo circuito out do teatro noviorquino.


Várias de suas peças foram encenadas. Mas para públicos limitados, nos espaços restritos do teatro de vanguarda. Shepard nunca foi das esferas da Broadway e outras notadamente comerciais.


Sua primeira oportunidade como roteirista de cinema foi com o longa político Zabriskie Point, dirigido pelo italiano Michelangelo Antonioni em 1970.


Antonioni mistura as manifestações de rua com as canções das principais bandas de rock da época: Rolling Stones, Grateful Dead, Pink Floyd e outras . A seguir, o filme dublado em francês:



Para quem suporta a redundância do discurso político, antigo e atual, é um prato cheio.


Na ocasião, Shepard era habitué do famoso Chelsea Hotel, para onde foi a fim de manter contato com os diversos tipos de artistas que por lá moravam.

Nesse período, além de teatro, escrevia roteiros para shows – foi um dos autores do musical The rocky horror show, de Richard O'Brien – e compôs letras de música para a banda de folk psicodélico The Holy Modal Rounders.


Acompanhou Bob Dylan, em 1975, na turnê Rolling thunder revue, contratado para ser o roteirista de um documentário a ser produzido para divulgar o disco ao vivo lançado no final daquele ano.


Dylan e Shepard

Mas o filme foi totalmente improvisado e seus serviços não foram utilizados. Consta que Shepard, pago para nada fazer, bebeu quantidade incomparável de uísque durante a turnê.

Ainda em 1975 foi nomeado dramaturgo-residente do Magic Theatre, espaço de vanguarda de Nova York, onde suas peças mais importantes foram encenadas.

Shepard começou a sério, nesse período, sua carreira de ator e roteirista.


Desde então atuou em 48 filmes, foi roteirista de sete grandes filmes (incluindo Paris, Texas e Don’t come knocking, ambos com Wim Wenders) e dirigiu dois filmes, dos quais foi também o roteirista: Far North (1988) e Silent tongue (1994).


Shepard e Wenders

Sam está coroa – tem mais de 70 anos. Continua magrelão, mas grisalho e com a cara sulcada pelos anos de muita birita e outras coisitchas.

Quanto mais velho mais se sente "estranho, como se vivesse em lugares fraturados, com pessoas quebradas em pedaços, cujas peças realmente não se encaixam”.


A respeito dele próprio, brinca: “Sou como um Porsche... elegante, que faz exatamente o que as pessoas esperam que faça. E podem acelerar, que também mostro meus freios.”


Há dois anos lançou seu último livro: Day out of days. Segundo ele próprio, contos, poemas e desenhos narrativos de personagens e situações “ecoando como tomadas de filmes”.


A prosa de Shepard é sucinta, direta, crua. Lembra a objetividade dos ótimos contos curtos do escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904).


Infelizmente, uma das poucas pessoas que ouvi comentar que conhece os contos de Shepard foi o jornalista Paulo Reda, residente em Campinas. Eu, que também os li, posso afirmar que os muitos que não os leram não fazem ideia do que estão perdendo.


Shepard faz menos coisas atualmente, claro, mas continua produzindo suas histórias, escrevendo para teatro e dirigindo espetáculos. Atua em pelo menos um filme por ano.
Porém não quer mais voltar a dirigir cinema. Prefere ser diretor de teatro.


Suas paixões da vida privada são, principalmente, duas: jazz e mulheres.


Já passaram pelos seus lençóis as atrizes Joyce Aaron, Jessica Lange (mantiveram um caso durante décadas) e, entre tantas, a poetisa roqueira Patti Smith, interiorana como ele, a quem namorou sob o nome falso de Obie Award.

Shepard (já de caldo entornado) e Jessica

Ambos viviam no Chelsea Hotel na época, se entupindo de LSD e outras drogas. Patti andava carente, pois seu namorado Robert Mopplethorpe começara a guinar, obviamente sem perspectivas de volta, para o homossexualismo sadomasoquista.

Shaped (como Obie Award) e Patti

Tempo depois Patti recebeu o convite – que aceitou – para atuar numa das peças de Shepard. Qual não foi sua surpresa quando descobriu que o dramaturgo/diretor e seu antigo namorado Obie Award, do Chelsea, eram a mesma pessoa!

Dentre suas várias manias, houve época que Shepard se meteu a dirigir aviões. Mas se acidentou gravemente ao pilotar um durante umas filmagens no México.


Depois disso, deixou de usar aviões até como meio de transporte. Passou a transitar de norte a sul, de leste a oeste dos EUA dirigindo carros, motocicletas ou viajando de ônibus, quase sempre com um surrado chapéu texano enterrado na cabeça.


Costumava dirigir seus carros em alta velocidade. Ultimamente tem posto os pés no freio – como brincou na declaração citada neste artigo – depois de ter sido preso em Illinois com o carro acima da velocidade permitida e, o que foi pior, completamente bêbado.


Foi condenado a 24 meses de liberdade condicional. Teve de passar por um curso cacete de reabilitação de motoristas e a 100 horas de serviço comunitário.


Nesse aspecto o ator decadente de Don’t come knocking, dirigido por Wim Wenders e interpretado por Shepard, é parecidíssimo com ele próprio: doidão, meio imaturo e irresponsável, apesar de coroa.


Vejam o filme, a seguir, com roteiro de Shepard e o próprio no papel título do decadente ator de faroestes Howard Spence. As legendas estão em espanhol:



O filme recebeu, no Brasil, o título idiota de Estrela solitária. Mas é ótimo. A meu ver, melhor até que a parceria anterior dos dois (Paris, Texas). A fotografia também é de primeira.

Don’t come knocking passou despercebido no Brasil. Poucos o viram nas curtas temporadas em salas especiais.

André Prada, amigo de Campinas, me deu o toque de onde o estavam exibindo na cidade. Eu, minha mulher e mais meia dúzia de gatos pingados o vimos em plena segunda-feira à tarde, num horário morto de uma sala de cinema de um shopping.

O principal amigo de Shepard é o ator e comediante Johnny Dark. Uma amizade de 50 anos, regada a muitas farras,
bebedeiras e viagens de motocicletas.

A amizade rendeu o tema do documentário Shepard & Dark, dirigido pela linda Treva Wurmfeld, produzido em 2013.

Treva Wurmfeld

Vejam o trailer do documentário:


Ao longo dos anos, Shepard tem trabalhado como professor, ensinando jovens a escrever peças e outros aspectos do teatro. Suas aulas e seminários ocorrem em oficinas oferecidas em espaços culturais e universidades do seu país.


Dentre os muitos artistas influenciados pelo seu trabalho, um dos mais significativos foi o ator e diretor Joseph Chaikin , um veterano do Living Theatre que ajudou a fundar o grupo Open Theatre.


Os dois, que se conheceram durante as filmagens de Zabriskie Point, de Antonioni, em 1970, cujos atores foram ensaiados por Chaikin, trabalharam juntos em vários projetos.

Shepard e Chaikin
Compositores populares que compuseram lindas melodias sem saber tocar nenhum instrumento são vários. Não só na música popular brasileira.


Um deles – Mick Jagger – é citado em outra matéria desta edição. Jagger sempre fingiu tocar guitarra nos shows dos Stones. Para mero efeito cênico, pois muitas vezes o instrumento sequer se encontrava plugado.


Não ser instrumentista não significa que os compositores em questão não são músicos. Evidente que conhecem música – pelos menos para o contexto popular.


Neste artigo me deterei a quatro grandes compositores que não foram instrumentistas: Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa, Lupicínio Rodrigues e o astro do rock norte-americano Jim Morrison.

Fotomontagem de Adoniran Barbosa com Paulo Vanzolini


Lupicínio Rodrigues
 
Jim Morrison
 
Vanzolini, um dos ícones do samba paulista, foi cientista respeitado internacionalmente. É considerado um dos mais importantes zoólogos brasileiros, especialista em répteis e batráquios.


Não se sabe como, conciliava perfeitamente a rotina de pesquisador com a de boêmio. Virava a noite nos botecos, mas no seguinte dava aulas e trabalhava full time em seu laboratório no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).


Compôs mais de 70 canções — dentre as quais os clássicos sambas Ronda e Volta por cima — e escreveu cerca de 150 artigos científicos...


Enquanto a comédia britânica vem dos diálogos afiados e a brasileira do ambiente circense – vide Os Trapalhões e outros – a comédia americana nasceu nos palcos do burlesco vaudeville.

Vaudeville foi um gênero de entretenimento de variedades predominante nos EUA e no Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930.


Desenvolvia-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, "circos de horror", museus baratos e literatura burlesca.


Buster Keaton com sua imagem literalmente enquadrada

O vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos. A cada anoitecer, uma série de números era levada ao palco, sem nenhum relacionamento direto entre eles.

Entre outros tipos, reunia músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarinos, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmes populares.


Era uma baratíssima forma de entretenimento popular que unia dança, comédia, drama e até strip-tease. Muitos grandes artistas de cinema, incluindo Charles Chaplin, Buster Keaton e Os Irmão Marx começaram ali...



Em direção oposta à consensual opinião pública "politicamente correta" das últimas décadas, o roteirista de histórias em quadrinhos francês Sanchez Abuli, radicado na Espanha, criou vários personagens despidos de qualquer pendor à bondade ou pretensão de querer consertar o mundo.

Um deles é o assassino de aluguel Torpedo, cujo nome verdadeiro é Luca Borelli. Cresceu no submundo, onde se tornou um “prestador de serviços”.


Quanto me pagam para aparecer neste artigo?
Os gestos típicos do personagem – desenhado pelo catalão Jordi Benet – é cuspir no chão, pôr o cigarro no canto da boca, dar uma talagada nalguma bebida forte e executar a ação. Ou seja, matar quem estiver encomendado.

Torpedo não é nada generoso. Bate em mulheres e despreza homossexuais.


Nasceu na Sicilia, em 1903, em uma família pobre e bastante problemática.


Seu pai alcoólatra constantemente espancava os filhos e a mulher. Em um de seus ataques causados pela bebida, acabou matando seu filho mais velho.


Luca, por vingança, participou do assassinato do próprio pai.


Fugindo dos possíveis problemas advindos do crime, migra, ainda bem jovem, para Nova York, onde trabalha inicialmente como engraxate.


Com o tempo, vai se metendo com a bandidagem novaiorquina e praticando pequenos delitos até se tornar um conhecido assassino de aluguel.


"Torpedo" é a gíria para assassinos pagos na década de 1920...



Os mestres orientadores da música erudita contemporânea continuam sendo, acredito, Edgar Varése (1883-1965), Claude Debussy (1862-1912), Arnold Schöenberg (1874-1951) e o principal pupilo deste, Anton Webern (1883-1945), o mais perfeccionista e inventivo de todos.

Webern aprofundou a revolução dodecafônica deflagrada por Schöenberg e teve como principais continuadores o francês Pierre Boulez, o alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007) e o norte-americano John Cage (1912-992
).

Pierre Boulez

Boulez (que continua na ativa) é, suponho, o mais importante herdeiro de Webern.

É com ele que vou encerrar a série de artigos sobre música de vanguarda moderna, que iniciei há cinco edições neste blog. Sobre Cage, Schöenberg e Webern já escrevi (bastar procurar
em artigos anteriores deste blog). Sobre Alban Berg, também. Stockhausen fica para outra ocasião.

Arnold Schöenberg


John Cage

Karlheinz Stockhausen

Anton Webern

Enfim, esses foram os principais cabras que trouxeram algo fundamental para os domínios da música erudita com bases racionalistas dos nossos dias.

A música serial, aleatória, eletrônica e concreta não constituem metas definitivas. Mas trazem os fomentos para a busca pelo desconhecido, com experimentação resultante de uma profunda renovação da consciência artística contemporânea...