sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Piauí é aqui

Embora paulistas caipiras, eu e meus amigos de São José do Rio Preto nos ligávamos mais nas coisas que rolavam no Rio de Janeiro. Isso quando éramos garotos, claro.

Vocês nem imaginam o quanto éramos ridículos imitando o sotaque carioca!

Adorávamos o jornal O Pasquim da primeira fase, quando quem tocava a linha editorial era o porretíssimo gaúcho Tarso de Castro.

Bela figura o Tarso. O homem que mais tomava vodca no Rio. O homem que namorou a na época belíssima atriz norte-americana Candice Bergen sem falar uma palavra em inglês.


Candice e Tarso em alguma praia do Rio no início dos anos 1970

Paulo Francis e Sérgio Augusto eram outros cabras de nossa referência.

Depois passamos a nos ligar também no que rolava em São Paulo.

Principalmente nas publicações de Hamilton de Almeida Filho (Haf) e seu time de ótimos jornalistas independentes. Aliás, Haf era paulista por adoção. Na verdade nascera no Rio.

Seu grupo era de esquerda, como o de O Pasquim, mas com jeitão mais hippie. Todos tinham baita cabelões e eram mucho locos.


Um pouco mais adiante, passamos a dar atenção a uns críticos da pesada que assinavam colunas nos jornais paulistanos.

Antônio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado e o alemão Anatol Rosenfeld.

Na sequência passamos a nos ligar no grupo concretista. Especialmente Augusto de Campos.

Paulo Francis na época do jornal O Pasquim,
na fase mais hippie, quando ainda fazia teatro
Os piauienses começaram, então, a passar por minha trajetória. Achava estranha a visão que se tinha no sul desse estado nordestino, tido como o mais atrasado do país.

Como podia ser tão atrasado se só conhecíamos figuras de alto nível de lá?

Líamos com atenção a coluna de Carlos Castelo Branco (1920-1993), o Castelinho. Depois conhecemos os textos de Mário Faustino (1930-1962), poeta e formador de cabeças como as nossas, abertas a tudo que fosse novo.

O cronista político Castelinho
Veio o tropicalismo e nos ligamos muito nas canções diferenciadas daqueles cabeludos cheios de colares e cores.

E quem era um dos cabras mais interessantes daquele grupo? Um piauiense: Torquato Neto.

Foto do disco manifesto Tropicália: Rogério Duprat,
Os Mutantes, Tom Zé, Caetano, Nara Leão (no quadro),
Gal, Torquato, Gil e Capinan (no quadro)

Poesia de amor e guerra

Os grandes momentos coletivos da poesia – não de autor mas de grupos de autores afins – são raros na história da literatura.

De trás para frente, cito de letra os que me ocorrem.


Na era moderna, apenas o cubofuturismo russo, com dezenas de poetas de alto calibre como Vladimir Maiakóvski, Vielimir Kliebnikov, Boris Pasternak , David Burliuk e outros reunidos no mesmo time.



Boris Pasternak
De meados do século XIX em diante, o simbolismo de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Laforgue e outros.

No século XVII, a poesia metafísica inglesa com John Donne, George Herbert, Richard Crashow, Thomas Traherne e demais grandes autores ingleses.


A poesia metafísica foi continuidade de um dos principais momentos da poesia coletiva de todos os tempos, do mais alto nível técnico: o barroco do século XVI, com grandes poetas na Itália, Espanha e Portugal.


E também no Brasil, sobretudo com Gregório de Matos (1636-1696) e padre Antônio Vieira (1608-1697).

Cinco séculos antes do barroco, houve a grande escola de trovadores provençais – em uma região que abrangia o sul da França, parte da Espanha e também parte da Itália –, cuja poesia ainda hoje é muito influente...

Filme dos irmãos Coen exibe cena folk dos anos 1960

Inside Llewyn Davis, aqui versado como Balada de um homem comum, é mais um bom filme dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen.

Ora comédia, ora drama, tem como pano de fundo a cena folk de Nova York nos anos 1960. Um longa sobre um músico fracassado do período pré-Bob Dylan.



Llewyn Davis (interpretado por Oscar Isaac) é um cantor e violonista que tenta se recuperar da morte do parceiro compondo músicas tristes e folclóricas em 1961, quando as paradas eram dominadas por trios e quartetos vocais alegres.

Não consegue vender discos e nem atrair multidões para vê-lo nos bares. Porém, sua música é linda e antecipa um fenômeno que ganharia corpo dois anos depois com Dylan lançando The freewheelin' Bob Dylan.

Os chamados Irmãos Coen são os mais importantes cineastas estadunidenses das últimas décadas, ao lado de Quentin Tarantino, Martin Scorcese, Fracis Ford Coppola e Jim Jarmush...

O apetite sexual do camarada Bertolt Brecht

Quando o poeta, dramaturgo e diretor alemão Bertolt Brecht (1898-1956) chegou aos EUA, nos anos 1940, foi cerimoniosamente recepcionado pelos artistas comunistas norte-americanos.


Fotomontagem sobre imagem de Bertolt Brecht
Não eram poucos na ocasião. Dentre eles estavam muitos roteiristas de filmes comerciais de Hollywood, atores e escritores, como o popular romancista policial Dashiell Hammett.

Hammett era um dos escritores comunistas dos EUA
Com base em sua poesia e teatro engajados, os comunas da gringolândia esperavam receber um colega austero, como muitos alemães que já haviam imigrado para lá em fuga do nazismo ou em fuga das atrocidades do camarada Stalin, na URSS...

Sweet junkies

O grupo Cowboy Junkies, apesar do nome, não tem nada a ver com música rural e muito menos com drogas pesadas.

Trata-se apenas de uma marca diferenciada que define o repertório cult da turma.

São bons intérpretes de canções de Lou Reed, Bruce Sprigsteen, The Cure, Neil Young, Johny Cash e outros bambas da música popular de língua inglesa.

O CJ foi formado em Toronto, Canadá, no início dos anos 1980, pelos irmãos Michael (guitarra), Margo (vocal) e Peter Timmins (bateria) e o amigo Alan Anton (baixo).

A linda Margo Timmins tem um timbre voz diferente, que dá um tom meio blasé a quase tudo que o grupo grava.


Mesmo em estúdio canta despojada, como se estivesse num boteco...


Lupicíni© Rodrigues

Houve tempo que a esquerda brasileira quis banir a poesia concreta do cenário cultural.

Até hoje o chamado concretismo, passado mais de meio século do seu surgimento, é um tabu.


O curioso é que entre os artistas identificados com a poesia concreta – poetas propriamente, músicos populares e eruditos, artistas plásticos, gente de cinema, gente de teatro, etc. – nunca houve um único direitista.


O problema não era ideológico. O ódio vem da histórica antipatia à arte de vanguarda, não só no Brasil, que tradicionalmente coloca no mesmo time de opositores a ela direitistas e esquerdistas.



Para a esquerda, esse senhor com mais de 80 anos ainda é um maldito

No tocante à produção cultural mais avançada, a caretice e o reacionarismo prepondera nos dois extremos.

Enquanto guerreavam entre si, na década de 1940, os governos soviéticos e nazistas mandavam para o paredão seus respectivos artistas de vanguarda.

No Brasil, há muito sob presumíveis governos de esquerda – primeiro PSDB, depois PT – os 80 anos do poeta Augusto de Campos, em 2011, logicamente passaram despercebidos.


Augusto de Campos é o mais importante poeta brasileiro vivo. Mas para Lulas, Dilmas, FHCs, Serras e outros bolhas, continua ignorado.


Para a esquerda de todos os matizes só importa a chamada “cultura popular”, ou seja, a porcaria populista apoiada pelas claques pró-governo que essa brejeira Marta Suplicy promete, à frente do Ministério da Cultura, transformar em “padrão Fifa”.

Deus do céu...


Lâmina que não se aLima

Há vários exemplos de grande literatura irregular.

Dentre os quais os clássicos Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), e Fausto, de Wolfgang Goethe (1749-1832).


As primeiras e as segundas partes de ambos, escritas com diferença de décadas, são completamente diferentes.


Mas são duas grandes obras descontínuas de máxima grandeza.

Fiódor Dostoievski (1821-1881) produziu seus principais romances por encomenda, para jornais e revistas. O número de páginas era pré-estabelecido antes mesmo de ter os temas e as tramas.

É óbvio que para chegar aos calhamaços contratados o escritor russo teve de encher muita linguiça.


Idem para o nosso Nelson Rodrigues (1912-1980). Seus romances eram folhetins, publicados em espaços  delimitados dos jornais. Por isso os capítulos têm quase o mesmo número de caracteres.


Como durava mais de ano escrevendo e publicando-os, isso enquanto trabalhava com várias atividades simultâneas de jornalismo e teatro para continuar tocando a vida, é evidente que cometeu inúmeros lapsos.


Em um deles, um dos personagens começa com um nome e termina com outro.

Graciliano Ramos tem uma particularidade curiosa: sua obra produzida enquanto foi preso político é mais coesa, pois dispunha de mais tempo para produzi-la.

Torna-se mais descontínua quando ganha a liberdade e tem de se dividir entre dois empregos, por quase 12 horas de trabalho diárias, para sustentar a família.

A partir daí seu tempo e fôlego para produzir literatura se tornam exíguos. E é lógico que isso se reflete no resultado dos seus contos e romances, escritos à noite ou de madrugada, no limite do cansaço.

Ainda assim, alguns trechos de sua obra no período estão entre os mais perfeitos da literatura de língua portuguesa.

Um dos grandes escritores brasileiros com produção bastante irregular foi Lima Barreto (1881-1922).


Lima Barreto
Motivos não lhe faltaram para isso...