sábado, 8 de fevereiro de 2014

O voo leve da ave na trova de Bernart de Ventador

Prossegue a sequência de artigos que prometi, na edição anterior, sobre a poesia cantada dos trovadores medievais, em especial os da região da Provença (os chamados occitano trobaritz), no sul da França.

A língua occitana ou provençal, também conhecida como langue d'oc, é uma língua românica falada no sul da França (ao sul do rio Loire), assim como em alguns vales alpinos na Itália e no Val d'Aran, na Espanha.

O nome da língua vem de òc, a palavra occitana para sim, em contraste com oïl, (o ancestral do francês moderno oui), francês do norte — a langue d'oïl.

A palavra òc provém do latim hoc, enquanto oïl se origina da voz latina hoc ille.

A palavra occitano é derivada da região histórica da Occitânia, que por sua vez é derivada de Aquitânia, uma antiga região administrativa do Império Romano.

Na edição passada comentei a imponente e provocativa poesia do trovador guerreiro Bertran de Born.

Agora comento a poesia leve e sensual de Bernart de Ventador (1130-1200).

Imagem de Bernart em iluminura

Can vei la lauzeta mover (Ao ver a ave leve mover) é uma de suas canções mais conhecidas.

É sobre o sentimento do amante por um amor não correspondido, tornando-se triste e melancólico...

Literatura de verdade


É salutar que o mercado editorial seja pujante, mesmo que por meio de muito lixo impresso, para que a produção literária viceje?

Em outras palavras, que se venda livros (mesmo que porcarias) para que os originais de quem faz literatura de  verdade saiam das gavetas – ou dos arquivos dos computadores – e venham a público?

Sei não.

Hoje temos grandes livrarias, venda online de livros e a possibilidade de comercializá-los digitalizados. Mas as oportunidades de publicação de novas boas obras, em particular as mais inventivas, estão cada vez mais restritas.

Publica-se muito mais que nas décadas anteriores, mas apenas aquilo que tem viabilidade comercial garantida.

Ou seja, obras ou autores já consolidados, biografias a dar no pau, livros religiosos ou de autoajuda, literatura fantástica de quinta categoria e outras abobrinhas que dependem mais de um bom aparato de marketing que de qualidade para serem aceitos pelos editores.

Autores novos – ou nem tanto, como o meu caso – bancam as próprias edições ou recorrem a concursos para ter vaga visibilidade.

Mas nada vendem.

E quando vendem são meia dúzia de exemplares por meio de eventos de lançamento, nos quais a aceitação se dá por parte de amigos e familiares que os adquirem “para dar uma força” e muitas vezes nem leem.

Resumindo, a literatura de verdade, aquela que viabiliza a permanência do processo cultural, que possibilita novas maneiras de expressar pensamentos e opiniões, permanece no limbo.

Qualidade literária não se mede propriamente pelo que se faz, mas pelo que não se faz. Como diria Augusto de Campos: evidencia-se pelo número de recusas e não pelos acertos cosméticos.

Diria Ezra Pound (sempre ele!):

"Salvo raros casos de invenções nas várias ciências, nas artes plásticas, na arquitetura e na música, o indivíduo não pode pensar e comunicar seu pensamento, os governantes e os legisladores não podem agir efetivamente ou estruturar suas leis sem as palavras.


"De modo que a solidez e validade das palavras ficam a cargo dos malditos e desprezados litterati."

Quando o trabalho deles se deteriora, se torna inexpressivo, malformatado e inexato, ou então excessivo ou empolado, todo o mecanismo do pensamento e da ordem social e individual fica arruinado.

Os grandes escritores – malditamente famosos ou malditamente desconhecidos – não precisam de identidade política, projetos de marketing, apoio governamental, apelo comercial ou o raio que o parta.

Pouco importa se o autor é maluco de pedra, homem ou mulher, veado ou não veado, feio ou bonito, branco, preto, azul ou cor de rosa, se se entope de álcool e drogas, se é direitista ou esquerdista, se age movido por vaidade pessoal ou não.

Como diria a figura abaixo:


Paulo Leminski e poema de sua autoria
 O xis da questão é mais objetivo, mecânico até.

Na medida em que teu trabalho for exato, fiel à consciência humana, à verdade mais digna e latente, à natureza do homem como exato na formulação dos seus desejos, será durável, “útil”...

A dama do puteiro

Em 1993, a revista americana Guitar Player elegeu uma mulher brasileira como um dos 100 melhores instrumentistas do mundo, por seu desempenho com a viola caipira e os violão.

Com voto de Eric Clapton a brasileira recebeu o Prêmio Spolight, como instrumentista revelação do ano.

A exímia violeira era uma cabocla do pantanal matogrossense analfabeta, com 69 anos, desconhecida pelo público brasileiro até então.

Helena Meirelles

A partir daí passou a ser observada e valorizada...

Gertrude is a rose is a prose is a proesia

Cena 1:

Em 1931, um jovem visitante estava ao piano na sala de uma conhecida casa de Paris que costumava receber norte-americanos candidatos a escritores e artistas. Muitos haviam passado por aquele endereço.

Há semanas ele estava por ali, sem saber para onde ir e o que fazer da vida. Publicara um romance, dois livros de poemas, mas não estava convicto da qualidade de sua obra. Esse dilema o perseguiu por toda a vida.

Na sala da casa tinha como ouvintes suas duas anfitriãs. Um casal de mulheres, diga-se de passagem.

A certa altura, aquela com a qual tinha mais afinidades, a mais máscula do par, inquiriu do seu jeito provocativo:

Paul, é um desperdício um homem com teu talento ser apenas escritor.

– Como ser “apenas escritor”?! Saiba você que para chegar a uma mísera página trabalho durante semanas, meses. Será possível que você acha que escrevo num piscar de olhos.

– Não seja reativo, querido. Não se esqueça de que também sou escriba.

– Mas tua literatura é diferente, é uma não-literatura.

– Não me diga que você concorda com aqueles que dizem não passo de uma piadista inspirada.

– Por Deus, Gert, vamos parar com isso. Não estou com disposição para discutir.

– Então se volte para a música. Você é um excelente pianista, tem conhecimentos, técnica e sensibilidade para compor. Por favor, não se torne presa do silêncio como a maioria dos escritores. Que pelo menos você possa ser ouvido.

Cena 2:

Lá estava ele em mais uma das visitas intempestivas. Sempre aparecia à casa de surpresa, bêbado e cheirando mal. Desta vez não foi diferente.

Vinha com um ferimento na perna. Estrepara-se durante um safári.

Tinha uma capacidade ímpar de se ferir. Por estilhaços de granada durante a guerra. Por ter se metido a entrar numa arena de touros na Espanha. E o ferimento mais comum: por ter sido abandonado por mais uma de suas lindas namoradas.

Estava febril. Não se sabia se por decorrência do ferimento ou da bebedeira. De qualquer forma necessitava de cuidados.

A primeira providência foi reunir umas trocas de roupas de coubessem em seus quase 1m90, para que pudesse se desfazer daquele seu uniforme de caçador surrado, cheirando a urina e merda de animais.

Após ter tomado banho, ele trouxe um calhamaço de folhas soltas e entregou à sua amiga, a anfitriã máscula. Ela leu página por página. Depois veio com as habituais considerações:

– Isto é uma reportagem?

– Claro que não, Gert. É um conto!

– Mas a linguagem não é de ficção.

– Ah, não tente me irritar...

– Engano seu, Hank. Sempre fui tolerante com teus escritos.

– Vê problemas no conto?

– Não. Mas deveria ver, Hank. Se teu conto não me incomoda, é porque não é grande coisa. Literatura não é como fazer crochê ou dar tiros em animais.

– Meus leitores, que não são poucos, não costumam reclamar.

– Mas deveriam. Quem não reclama carece de entusiasmo. 

– Ah, Gert, possa cochilar um pouco? Estou com uma dor de cabeça terrível. Depois conversamos.

– Depois, sempre depois...

– Poxa, não vê que estou devastado pela bebida.

– E a literatura, Hank? Quando você começará a escrevê-la?

– Estou no quarto romance e você vem me fazer essa pergunta.

– Você nunca escreveu romances, vocês sempre escreveu reportagens. Aliás, isso que você me deu para ler é mais uma. Não seja preguiçoso, Hank. Faça literatura de fato. É mais trabalhoso, mas será mais honesto com aqueles que te admiram.

Ambas as cenas ocorreram na década de 1930 na residência do casal Gertrude Stein (1874-1946) e Alice Toklas (1877-1976), em Paris.

Gertrude Stein e Alice Toklas

A primeira com Paulo Bowles (1909-1999), a segunda com Ernest Hemingway (1899-1961). Ambos norte-americanos, como as duas...

Artes e manhas do diabo na literatura


A literatura, desde os seus primórdios, é repleta de seres demoníacos. Todos os grandes livros sagrados têm os seus.

Um dos mais populares é Satanás, a encarnação do mal da tradição judaico-cristã, contra a qual os pastores de algumas igrejas evangélicas vociferam enfaticamente nos dias de hoje em seus cultos.

O demônio mais reverberado pela literatura ocidental é Mefisto (ou Mefistófeles), associado à lenda alemã de Fausto, um alquimista alemão da Idade Média que teria feito um pacto com o “coisa ruim”.
Fausto assina o contrato com Mefisto

Com o intuito de compilar tudo quanto se acreditava e dizia acerca de Fausto, Johann Spiess, livreiro e escritor de Frankfurt, compôs no ano de 1587 a primeira narrativa literária dessa personagem: Historia von dr. Johann Fausten.

O livro visava à doutrinação luterana.

A primeira obra famosa sobre o mito foi uma peça do dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1563-1593) – The tragical history of the life anda death of Doctor Faustus –, encenada em 1592.

Retrata o dilema do novo homem ocidental, então dividido entre a religiosidade medieval e o humanismo renascentista...

Quando a realidade é mais ousada que a ficção

O escritor inglês Frederick Forsyth foi piloto da Royal Air Force (RAF) na 2ª Guerra Mundial.

Depois cobriu os bastidores da guerra fria como correspondente da Agência Reuters em vários países, dentre os quais a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia.

As informações sobre o mundo da espionagem reunidas durante o período que foi jornalista foram mais tarde utilizadas em seus romances e novelas policiais.

Uma das obras que lhe trouxe maior notoriedade foi O Dia do Chacal, sobre as articulações da extrema direita francesa para assassinar o general Charles De Gaulle, em 1963.

Frederick Forsyth

Além de vender milhares de exemplares, o romance resultou em dois filmes longa-metragem.

E passou a obra mítica quando, no início dos anos 1970, um dos exemplares foi encontrado no quarto do hotel onde se hospedara um terrorista cuja identidade até então era desconhecida pelos vários serviços secretos que o caçavam.

O jovem Ilich Ramírez Sánchez, quando ainda não era o temido "Chacal"

Antes que se soubesse que o nome do terrorista era Ilich Ramírez Sánchez, e que se tratava de um cidadão de classe média alta venezuelana que frequentava até a high society londrina, o romance rendeu ao terrorista o apelido de “Chacal”.

“Carlos” era o verdadeiro nome de guerra de Sánchez. O apelido "Chacal" foi-lhe dado pela imprensa, com base no título da novela de Frederick Forsyth que ela andava lendo.

Mas, convenhamos, o terrorista real – o “Carlos” da pesada – foi muitíssimo mais interessante que o personagem inventado por Forsyth...

A dança tribal da arquitetura moderna

Nos anos 1930, após ser fechada sucessivas vezes pelo regime nazista em ascensão, a escola de design, artes plástica e arquitetura de vanguarda Bauhaus foi extinta em solo alemão.

Walter Gropius, seu fundador, migrou com parte do grupo para os EUA, onde teve excelente acolhimento.
Primeiro prédio da escola Bauhaus

Dizem as más línguas que o grande arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright ficou para lá de enciumado com a presença dos gringos e não suportava mais ouvir falar deles.

Mas os europeus admiravam a obra de Wright até mais que os americanos. Groupius quis imediatamente conhecê-lo. Interlocutores armaram num encontro no escritório do norte-americano, em Chicago.

Qual não foi a surpresa da turma de Groupius ao encontrá-lo com uma garrafa de bourbon pela metade, de casaco, sem camisa, com a gravata desatada, cueca, sapato e meias, dançando bêbado em torno das pranchetas.

Os alemães quiseram saber se tratava de algum ritual nativo. “Não”, disse Wright, “é assim que fazemos arquitetura por aqui”.

Frank Lloyd Wright

Saudadas as primeiras más impressões, com o tempo Wright aprendeu a digerir os Bauhaus e Groupius, Mies Van Der Rohe & Cia idem a ele...