segunda-feira, 21 de abril de 2014

“Onde está a malandragem/Que fundo em ruela empoeirada/De terra ou em perdidos povoados/Uma seita da faca e da coragem?”. Este trecho é do poema Tango, de Jorge Luís Borges.

Uma imagem de como o tango começou, lá pela segunda metade do século XIX – antes mesmo que o nosso samba –, nas cercanias de Buenos Aires, sobretudo na zona portuária.

Na década de 1910, já virara uma febre na Europa e era o gênero de música popular mais tocado em Paris. Mas até então apenas como música instrumental, voltada para a dança.

Os tangos originais, da “ruela empoeirada”, eram obscenos, satíricos, para agradar ao gosto do público em meio ao qual se desenvolveu: marujos, gaúchos broncos, putas, marginais e negros.

Sim, a Argentina ainda os tinha. Depois se miscigenaram de tal forma com as hordas de imigrantes europeus, que a cor de pele escura e os cabelos enrolados desapareceram.

Há várias teorias sobre a origem da palavra "tango". Todas apontam para suas raízes africanas. Segundo documentos da era colonial latino-americana, era o nome que os escravos negros davam ao local onde faziam suas festas.

O gênero musical surgiu em ambientes de classe baixa, na região portuária e prostibular de Buenos Aires. Por isso mesmo resultou em uma dança de forte apelo erótico.

Bola de Nieve (1911-1971), o grande cantor e pianista cubano, disse em entrevista que o tango teria mesmo raízes africanas e surgiu, simultaneamente, na Argentina e em Cuba.

Bola de Nieve

Verdade ou não, o certo é que o ritmo se desenvolveu numa época em que a periferia da capital argentina ainda era ocupada por cerca de 25% de descendentes de africanos.

Os demais eram filhos de europeus, como o “francesito” Charles Gardés ou gaúchos pobres vindos do interior, com suas indisfarçáveis cuias de chimarrão, expulsos por conflitos de terra...


A maior parte das músicas gravadas por Carlos Gardel foi de sua própria lavra. Escreveu poucas letras, mas era muito criterioso ao escolhê-las.

Seus letristas estavam entre os melhores de Buenos Aires. Encomendava a eles letras com os temas já definidos. Dezenas foram por ele rejeitadas.

Mas aquelas que decidiu musicar e interpretar, pode crer que os autores ficaram orgulhosíssimos, pois Gardel deu a todas roupagem musical perfeita.

Tanto é que se tornaram clássicos do tango e são até hoje muito ouvidas. Três, a meu ver, estão entre as melhores canções populares escritas no século XX: Mano a mano, Cuesta abajo e Por una cabeza.

Mano a mano foi composta sobre maravilhosa letra de Celedonio Flores (1896-1947). Cuesta abajo e Por una cabeza foram escritas pelo paulista Alfredo Le Pera (1900-1935) que, como Gardel, migrou muito jovem para Buenos Aires e se considerava mais argentino que brasileiro.

Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

Le Pera escreveu as letras de dezenas de belas canções musicadas por Gardel. Só para citar algumas: Mi Buenos Aires querido, El día que me quieras (não é tango, é bolero), Soledad , Sus ojos se cerraron, Volvió una noche, Cuando tu não estás e Volver...


De Araraquara (SP) saíram dois irmãos que, separadamente, exerceram forte influência sobre o teatro brasileiro dos anos 1960 para cá.

José Celso Marinez Corrêa, cuja trajetória está vinculada ao Teatro Oficina, ainda hoje dirigido por ele.

E Luiz Antonio Martinez Corrêa, que também atuou no Oficina, mas cujas atividades estiveram mais ligadas ao Rio de Janeiro, onde fundou o Grupo Pão e Circo nos anos 1970.

Luiz Antonio Martinez Corrêa

Luiz Antonio teve a carreira interrompida no Natal de 1987, quando foi brutalmente morto a facadas em seu apartamento na capital fluminense.

Como o trabalho de seu irmão mais famoso, o de Luiz Antonio se baseou nas concepções de Bertolt Brecht (1898-1956) sobre encenação e preparação de atores.

De Brecht montou Casamento do pequeno burguês e a adaptação Mahagony, com canções do dramaturgo alemão em parceria com Kurt Weill (1900-1950). Este mesmo espetáculo foi montado no pelo Grupo Ornintorrinco, em São Paulo.

Luiz Antonio realizou a melhor montagem sobre a dramaturgia do grande poeta russo Vladimir Maiakovski (1893-1930) no Brasil. Encenou O percevejo, em 1981, com cenografia de Helio Eichbauer e música de Caetano Veloso...



Jules Laforgue (1860-1887) pertence à categoria dos "poetas inventores" – aqueles que descobriram um processo em particular ou mais de um modo ou processo realmente determinante para a evolução da literatura – idealizada por Ezra Pound.

Desenho de Jules Laforgue feito por ele próprio

Sua poesia, altamente sucinta e inteligente, é fundamentada em jogos de palavras, trocadilhos, assonâncias e aliterações, em uma mescla de humor e cinismo.

Cujos experimentos linguísticos compreendem a utilização de frases correntes e coloquiais, inclusive o balbuciar e a descontinuidade sintática da fala das ruas.

Razão pela qual é repleta de exclamações e interjeições, o que se traduz em ritmos entrecortados e marcantes.

Ainda dentro das conceituações de Pound, a poesia de Laforgue é logopeia, ou seja, faz “a dança das ideias” por meio dos recursos de linguagem...


O barroco é uma das mais importantes escolas formalistas da história das artes. Seu stil floresceu entre o final do século XVI e meados do século XVIII. Inicialmente na Itália, depois em países católicos da Europa e das Américas.

Tem formato próprio associado à reforma protestante. Foi ainda um dos poucos movimentos culturais do ocidente a influenciar culturas orientais (chinesa, japonesa e indiana).


O formalismo barroco foi uma continuação do renascimento. Ambos são reinterpretações da antiguidade clássica.


Para o renascimento, o tratamento das temáticas enfatizava qualidades de moderação, economia formal, austeridade, equilíbrio e harmonia.


Para o barroco, preponderava o dinamismo, os contrastes fortes, a dramaticidade, a exuberância e o realismo.


Mas as interpretações sobre o barroco, e seu ressurgimento moderno nas Américas de predominância ibérica, são díspares, confusas.


Estudos do mexicano Octavio Paz (1914-1998), do cubano Lezama Lima (1910-1976), do argentino Néstor Perlongher (1949-1982), dos brasileiros Haroldo de Campos (1929-2003) e Affonso d’Avila (1928-2012) e do brasileiro naturalizado Otto Maria Caupeaux (1900-1978) trazem mais clareza sobre o que foi (e é) o barroco entre nós.


Affonso d'Avila
Destes, o que desenvolveu estudos mais sistemáticos foi Affonso d’Avila. Em especial sobre o que ocorreu em sua terra: Minas Gerais...


Em maio chega aos cinemas brasileiros o filme português Florbela, do diretor Vicente de Alves Ó. O longa, concluído em 2012, foi o mais visto em Portugal nos últimos anos.


Baseia-se na vida da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) e se passa em Portugal, no ano de 1920. Ela é apresentada como uma mulher à frente de seu tempo, que se sente entediada e inquieta, presa a um casamento tradicional.

Florbela Espanca

Abandona o marido e foge para Lisboa com o irmão Apeles Espanca – talvez sua única e verdadeira paixão – onde se lança com tudo na vida cultural e boêmia da capital.

Lembrem-se que essa era a época em que Fernando Pessoa (1988-1935), Almada Negreiros (1893-1970) e outros grandes autores modernistas estavam em plena atividade.

Fernando Pessoa

Segundo os críticos portugueses, o filme peca por apresentar o lado libertário (feminista) da poetisa e menosprezar a importância de sua obra...



Como todos da minha geração, gosto de cinema. Mais de um ou outro diretor e não do cinema como mero entretenimento. E nem sempre gosto dos diretores considerados como os tais.

Adoro, por exemplo, a obra cinematográfica do brasileiro Ivan Cardoso. Daí o camarada tasca com seus botões: “E quem é esse tal Ivan Cardoso?”

Ivan Cardoso

Para mim ele é tão relevante quanto Quentin Tarantino, que também adoro. Evidente que não estou comparando a visibilidade pública das obras de um e de outro.

Tarantino tem o cinemão da gringolândia por trás para estabelecer o reconhecimento do que vem fazendo.

Muito embora o público continue achando meio esquisitas suas tiradas de humor nada convencionais e as constantes citações dos filmes dos quais mais gosta. 

Quentin Tarantino

Ambos – Cardoso e Tarantino – fazem cinema sobre cinema. Usam e abusam de um troço mais velho que andar pra frente: a metalinguagem.

Metalinguagem é mais ou menos usar um tipo de linguagem para falar dela própria, mas como referencial crítico. 

Só que Tarantino foi aceito pelo mercado por fazer isso, se tornou o gênio da época, e Cordoso nem tanto, embora tenha feito filmes tão inventivos quanto os do gringo.

Ambos têm fixações relacionadas ao repertório dos filmes B, ou seja, aqueles que o mercado e o público não levam muito a sério ou faz de conta que nem conhece...