sábado, 30 de agosto de 2014

Hélio Oiticica, Lygia Clark, arte concreta... construtivismo no Brasil

O interesse pela produção cultural de melhor qualidade pela minha geração teve como faróis pessoas inventivas que viveram em momentos próximos do nosso.

No âmbito nacional: Glauber Rocha, Caetano Veloso, Torquato Neto, Hélio Oiticica, Waly Salomão, Rogério Duarte, Paulo Leminski, Hamilton de Almeida Filho e, um pouco antes destes, a turma da arte concreta (poeta, músicos e artistas plásticos).



Fotocolagem de Hélio Oiticica para a revista Navilouca, sobre
imagem do corpo do bandido Cara de Cavalo, morto em 1964

Lógico que não estávamos estritamente atentos a esses. Viouvíamos de tudo.


De Beatles/Rolling Stones a Paulo Francis e Tarso de Castro. Estes dois no contexto do jornalismo político sofisticado, não estritamente partidário-ideológico

Mas os que estavam mais antenados na produção cultural de ponta eram atentos aos assuntos nos quais fossem arrolados os nomes de Glauber, Caetano e algum dos citados acima.

Quando comecei a me ligar no que rolava, na virada dos anos 1960 para 1970, morava ainda na provinciana São José do Rio Preto, interior paulista.


Sabia que Torquato, Hélio, Waly e Rogério eram de uma trupe do Rio, da qual faziam parte outros caras interessantes. Alguns dos quais já foram mencionados em artigos específicos deste blog.

Só mais tarde vim a saber que Torquato fora, também, um dos nossos melhores letristas, como figura de ponta do movimento tropicalista.


A turma porreta do Rio aparecia em publicações meio marginais como Navilouca (teve uma única edição), Pólen, Malasarte e, um pouco mais tarde, Almanaque Biotônico Fontoura Vitalidade, da Nuvem Cigana de Charles, Chacal e outros bons cabras.

Hamilton, o Hafi, era de um grupo de São Paulo mais voltado para o jornalismo – inclusive político, mas não só. Hamilton, diferente dos seus colegas, não era amarrado a cabrestos ideológicos partidários e, inclusive por isso, era o mais porreta da trupe.

Hamilton e sua turma publicavam Bondinho, Jornalivro, Extra e outros bichos.


Capa de edição da Bondinho com Caetano Veloso

Leminski suportou o quanto pôde a fria Curitiba. Depois se encheu da capital com cara de interior, bem mais provinciana que Londrina, e transitou pelas bocas de Rio e São Paulo.


Leminski (à esq.) com Waly e este com
seu principal parceiro, Jards Macalé
Com aquele seu jeitão despachado, Leminski dava banho de inteligência, audácia e criatividade nos quatrocentrões caretas do eixão Rio-Sampa, os quais, pendurados na USP, PUCs e UFRJ da limitada vida, ainda hoje acham que comandam a cultura nacional.

Fora do eixão Rio-Sampa havia outras revistas muito boas: Código (da Bahia), José (de Minas Gerais), Samurai (do Paraná) e, cadinho mais tarde, Bric a Brac (do Distrito Federal).

Existiram outras publicações interessantes. Cito apenas as que me ocorrem de momento.


A arte concreta, bom, esta pairava anos-luz à frente do que rolava no país desde o início dos anos 1950.


Quanto mais os ressentidos (especialmente os da caquética esquerda zdnovista) falavam mal dos concretos, mais convictos ficávamos de que representavam o que havia de melhor.


Por volta da época que saí do útero de minha mãe, os concretos publicavam duas revistas marcantes – Invenção e Noigandres –, concomitante às quais o crítico e poeta piauiense Mário Faustino comandava, no Rio, as importantes edições dominicais do suplemento literário do Jornal do Brasil.


Faustino tinha como parceiro o carioca José Lino Grünewald, que também colaborava com as publicações dos concretos editadas em São Paulo.


Nesta matéria vou me alongar sobre um dos citados no início deste artigo: Hélio Oiticica (1937-1980). E também um pouco sobre 
a mineira Lygia Clark (1920-1988), sua parceira de aventuras e questionamentos...


Dylan lalinho, o caipira que pirou o mundo

Entre os vários bons letristas da musica pop norte-americana, três produziram versos interessantes de se ler, mesmo que desgarrados das respectivas canções para os quais foram compostos: Bob Dylan, Lou Reed e Jim Morrison.

Refiro-me ao contexto pop. Lá atrás há o mestre Cole Porter, o Noel Rosa das Américas. 

Neil Young e Johnny Cash também escreveram boas letras, mas indissociáveis das respectivas melodias.
   
Da música popular brasileira, consigo ler, com relativo interesse, letras de Noel Rosa, algumas de Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Caetano Veloso, e quase todas de Torquato Neto e Waly Salomão.

Nos casos destes porque as canções compostas com os parceiros músicos eram poemas musicados.

Bob Dylan, neto de imigrantes judeus russos, nasceu com o nome de Robert Allen Zimmerman.
 
 
Bob Dylan

O pai era um pequeno comerciante da cidade mineira Hibbing, do estado de Minnesota.

Até a adolescência ajudou o pai na loja de materiais elétricos. Era gordinho, introspectivo e detestava a escola. Aproveitava o tempo livre para ouvir cantores country e de rock’n’roll das paradas de sucesso interioranas.

Aprendeu os primeiros acordes no velho piano da família, até ganhar do pai um violão e uma gaita.

Não teve professores de música, até porque não existia nenhum na pequena Hibbing (cerca de 15 mil habitantes). Tudo o que aprendeu foi como autodidata.

Formou duas bandas de rock na cidade, nas quais tocava guitarra elétrica e fazia covers de Elvis Presley e Johnny Cash...


Trajetórias trágicas de Dylão lalão e crânio Crane

Bons poetas são cerebrais, mesmo que muito loucos e vivam, precariamente, aos pedaços, com suas almas oscilando, penduradas pela corda no fundo do poço.

Jamais são intuitivos ou inspirados, como os maus poetas, que ululam às dezenas pelas academias e meios afins, como coros de sapos nos brejos ante a tempestade ao anoitecer.

Neste artigo trato de dois bons poetas muito loucos, mas cerebrais: o galês Dylan Thomas (1914-1953) e o norte-americano Hart Crane (1899-1933).


Dylan Thomas
Hurt Crane

Os dois estão no ótimo livro de poemas escolhidos a dedo e vertidos para esta nossa sonora língua de curupiras por nosso melhor poeta tradutor, Augusto de Campos, no livro Poesia de recusa.

Thomas e Crane foram recusados porque não se adequaram e remaram contra a maré até o o último impulso, expostos a todos os riscos, para se manterem fiéis à poesia na qual acreditavam.

A verdadeira poesia: difícil, de alto repertório técnico, cuja maior riqueza está na linguagem e nos recursos construtivos.

Como diria Torquato Neto, poetas de verdade nunca traem sua poesia.

Thomas e Crane não tiveram pretensões sociais ou acadêmicas. De seus livros jorravam densas emoções e paixões intensas, mas sempre tratadas com rigor técnico, sob parâmetros nada improvisados.

Mas ambos tinham personalidades bastante difíceis...


O ego engasga o logos em Gogol

Dos gêneros de prosa, o que mais me leva a reler, por prazer, é o conto.

Como diria Jorge Luís Borges, é o que, por ser mais compacto, permite maior precisão construtiva e refinamento de linguagem. Com isso, é o mais se aproxima do acabamento técnico da poesia.

Não é coincidência o fato de terem existido tantos poetas que foram, também, bons contistas. O próprio Borges é um exemplo. Edgar Allan Poe, outro.

Dois que foram mais poetas que prosadores: James Joyce e Guimarães Rosa. Escreveram vários gêneros de prosa, mas foram excelentes contistas.

Meu tio Iauretê, de Rosa, é obra perfeita, a meu ver superior a Grandes sertões: veredas, quanto ao acabamento. Claro que o segundo é uma obra monumental, muito mais complexa.

A literatura russa tem excelentes contistas. Meu preferido, sem nenhum demérito a Anton Tchekov, Ivan Turguêniev e aos demais, é o ucraniano Nikolai Vasilievich Gogol (1809 – 1852).


Retrato de Nikolai Gogol

Com 20 anos (1829), o jovem Gogol foi para São Petersburgo, onde conheceu o grande poeta, dramaturgo e prosador Alexandre Puchkin (1799-1837), o maior escritor de então, que indicou sua obra de estreia, Noites na herdade de Dikanka, para publicação.


Retrato de Puchkin, "o eritreu"

O êxito foi imediato. Mal saíra da adolescência, Gogol se tornou um dos escritores mais populares da Rússia.

Mas desde o início revelou ter uma cabeça complexa, sempre dividido entre várias outras preocupações que influenciaram de modo decisivo sua produção literária...


"Para fazer um filme é preciso uma garota (como Anna Karina) e uma arma"

Qual Glauber Rocha no Brasil – que dizia que para fazer um filme bastavam uma câmara e uma boa ideia – o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard dizia que, para ele, bastavam “uma garota e uma arma”.

Armas, Godard teve aos montes em seus filmes, de vários tipos, literais ou metafóricas.


Mas com garotas foi diferente.

Durante um bom tempo, houve apenas uma garota para o diretor. Aquela que serviu como seu alter ego. Um lindo rosto jovem no qual o cineasta — e também os espectadores — poderia projetar seus sonhos.


No início dos anos 1960, para fazer um filme, o que Godard precisava mesmo era de Anna Karina.


Anna Karina em cena

Godard e Anna em pose sugestiva

Com sua beleza estonteante, olhar ingênuo, sapeca e, ao mesmo tempo, irônico, abusado, a atriz participou de sete longas-metragens de Godard e de dezenas de outros filmes importantes realizados na conturbada década de 1960.

Esteve em filmes de Luchino Visconti, George Cukor e Rainer Werner Fassbinder. Participou de musicais – também cantava – e chegou a gravar um disco com Serge Gainsbourg.


Foi, sem dúvida, a principal estrela da nouvelle vague. Principalmente de Godard, com quem esteve casada por tórridos
seis anos.

Consta que a adoração de Godard por Anna só se dava de forma plena quando havia uma câmera entre os dois. Na vida privada não se entendiam.

Em suas memórias, Anna conta que houve períodos – enquanto estiveram casados – que via Godard mais nos sets de filmagens que sob os lençóis.


Quando saía de casa e ela indagava a respeito do que ia fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vou comprar cigarros.”


Ocorre que em muitas dessas saídas para “comprar cigarros” ele demorou semanas e até meses para retornar...


Existe som, existe silêncio, existem séries, existe Anton Webern

Uma música sucinta, sintética, com espaços que funcionam como notas.

Segundo Augusto de Campos, embora sejam de universos musicais distintos, há semelhanças entre o cantor popular brasileiro João Gilberto e o compositor de música erudita moderna Anton Webern (1883 - 1945).


Anton Webern

Ambos perfeccionistas e sucintos ao extremo.


Em um de seus morfogramas – poemas visuais feitos a partir de imagens justapostas – Augusto sobrepõe imagens dos dois músicos.


Anton Webern foi um compositor austríaco pertencente à chamada Segunda Escola de Viena, liderada por Arnold Schöenberg (1874-1951), determinante para o surgimento da música dodecafônica – já era embrionária na obra de outros compositores anteriores a eles.


Arnold Schöenberg

Schöenberg, Webern e Alban Berg (1885-1935), que Webern conheceu tempo depois, revolucionariam a música no século XX.


Alban Berg

Berg foi um grande compositor. Trágico, de insatisfação constante, autodestrutivo, genial, arrogante, sarcástico, personalíssimo. O típico ariano.

Webern também era ariano. Mas modesto, tímido, austero, cerebral, impessoal, avesso ao estrelato, trabalhador incansável.

Webern é conhecido e admirado pelas inovações rítmicas, timbrísticas e dinâmicas que formaram um estilo musical próprio conhecido como serialismo, o principal legado inventivo pós-dodecafônico.


Dentre os pupilos de Schöenberg (provinha de uma família judia de origem húngara), Webern foi o que mais avançou, a partir dos elementos empregados, para resultados inovadores dentro do contexto da música atonal.


Webern começou como filiado ao expressionismo. A partir do atonalismo passa, gradativamente, a trabalhar com sutis combinações de timbre e som...



Literatura e demais artes: coisas em comum e à parte

As relações entre a literatura – em especial a poesia – com as artes plásticas e a música são frequentes, mas difusas.

Isso sem contar que há autores que tramitam por diferentes artes, além da literatura. Não falo de pintores ou músicos que escreveram livros, mas de escritores de fato.

O poeta inglês Willian Blake (1757-1827) era também pintor e designer gráfico. Ilustrou as próprias obras, embora não com o vigor, a técnica e a profundidade de sua poesia.


Ilustração de William Blake

Já citei neste blog diferentes exemplos de escritores que foram também músicos.

Paul Bowles (1910-1999), além de importante prosador, foi prestigiado compositor.

Anthony Burgess (1917-1993) e Ezra Pound (1875-1972) deixaram peças eruditas.

James Joyce (1882-1941) era um bom cantor e tinha profundos conhecimentos musicais.

John Cage (1912-1992) foi tão inventivo na música quanto na poesia.

Na evolução dos estilos e escolas, ora literatura/artes plásticas/pintura estão próximas, ora afastadas...