terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sua vida foi repleta de percalços, sobretudo no tocante à dependência química e etílica.

Na juventude teve preferência pela mistura de anfetaminas e barbitúricos. Umas para ativar, as outras para conseguir dormir depois de dias e noites acordado.


Durante a maturidade passou para a cocaína, combinada com álcool. Mas também teve flertes temporários com heroína e outros troços.


Johnny Cash

As atitudes destemperadas foram muitas. Brigas, muitas brigas, algumas bastantes violentas.

Tinha atração por coisas perigosas, incluindo armas de fogo.


Não se pode dizer que foi um bom sujeito. Para começar, abandonou a primeira mulher e as filhas, embora tenha retomado a convivência com elas mais tarde, quando saiu de mais de suas temporadas no inferno.


Em uma dessas temporadas capotou um veículo em meio a uma reserva, o qual pegou fogo, provocando um incêndio que queimou vários de hectares de floresta e torrou centenas de animais silvestres.


Num país com evidentes problemas raciais, embora fosse descendente de de escoceses se dava melhor com os negros, os índios, os latinos e, sobretudo, com os marginalizados mais barra pesadas.


Seu público favorito eram os presidiários. Dois dos seus melhores shows ocorreram em presídios. Até hoje é um dos compositores norte-americanos mais populares entre os criminosos condenados.


Apesar de todas essas referências out, para Bob Dylan, Neil Young e demais músicos norte-americanos amantes das músicas folk e country, Johnny Cash (1932-2003) foi um dos seus melhores compositores e, sobretudo, um dos seus mais hábeis letristas...


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Big band é um termo de origem norte-americana para denominar grandes grupos instrumentais associados ao jazz.

Big Band

Uma história que começou no final do século XIX, quando negros norte-americanos criaram o ragtime.

Tratava-se do jazz dos primórdios que misturava música popular de domínio público, como canções rurais de acompanhamento ao trabalho, hinos religiosos, marchas militares a ritmos europeus como valsa, música irlandesa, polca, etc.


Começou como música rápida, para dança, como o tango e o samba. Ritmo sincopado, contagiante, com acentos melódicos entre as batidas métricas, o que lhe dava o característico swing.


Isso tudo teve início em cidades do sudeste dos EUA como New Orleans, Menphis e Saint Louis, que foram berço não só do jazz, como também do blues e do rock.

Scott Joplin (1868-1917) foi um dos principais compositores de ragtime. O jazz nasceria dessa fusão de estilos configurada por Joplin e seus contemporâneos na virada do século XIX para o XX.

Scott Joplin

Com o sucesso do ragtime começaram a se difundir as primeiras orquestras de rua que deram origem ao conceito e à estrutura das futuras big bands.

Na primeira metade do século XX essas orquestras, a maioria formada por músicos negros, deixaram as ruas e passaram a se apresentar em cassinos, bares, salões de clubes e de hotéis.


Até ambientes reservados a frequentadores brancos eram animados por essas big bands majoritariamente formadas por músicos negros.


Em meados dos anos 20 essas grandes orquestras já eram uma tradição.


Na década seguinte se popularizaram definitivamente, como resultado do interesse de músicos e arranjadores brancos pelo som dos crioulos.


Para se ter noção do ganho de popularidade, o swing das big bands foi a música oficial dos soldados norte-americanos no front da 2ª Guerra Mundial. Seu estímulo e identidade cultural.


Por décadas foram fundo musical dos filmes de entretenimento de Hollywood.


Compostas de 12 a mais músicos, basicamente as big bands antigas reuniam trompetes, trombones, saxofones, clarineta, piano, contrabaixo (ou baixo), guitarra, bateria, além de um crooner (cantor) e seus vocais.


Algumas tinham violino, viola e violoncelo. Ou instrumentos como flauta, clarinete e diversos de percussão.


Com base nessa estrutura de nipes de sons, existiram entre os anos 1930 a 1950 big bands enormes, com mais de 50 músicos.


As centenas de big bands de hoje, de qualquer país, mantêm mais ou menos essa composição. Todas continuam contando com arranjos personalizados, escritos para o conjunto de músicos que reúne.


Faz um tipo de música para instrumentistas “letrados”, que leem música.


Ao mesmo tempo os arranjos dão margem para improvisações. Não o tempo todo. Apenas em momentos especiais. E foi assim que há mais ou menos 90 anos surgiu a improvisação no jazz.

Em regra, as big bands têm seu band leader, qual seja, o artista – normalmente também arranjador – que determina a linguagem e a dinâmica da banda. Na tradição norte-americana, esse artista geralmente é o 1º trompetista.


Nos EUA, muitas big bands dos anos 1930 em diante eram identificadas com os músicos ou intérpretes para os quais tocavam: Maynard Ferguson, Dizzy Gillespie, Count Basie, Duke Ellington, Phil Collins, Glenn Miller, Benny Goodman, Frank Sinatra, etc.


Big Band de Dizzy Gillespie

A seguir, o som de Duke Ellington e sua big:


Inclusive nossa Carmen Miranda (1909-1955) teve sua big band quando era sucesso nos EUA.

As big bands se espalharam por todo o mundo – no Japão são numerosas – e também pelo Brasil.


Depois dos anos 1930, várias big bands nacionais surgiram para animar os antigos cassinos, gafieiras e salões de bailes das capitais brasileiras e das grandes cidades do interior. Aliás, animam até hoje.


Seu repertório inclui de tudo: de clássicos do jazz norte-americano a canções de sucesso com arranjos jazzísticos e, claro, muitas canções nacionais de Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Ary Barroso, entre outros.


As bigs nacionais adaptam-se ao que vier. Desde que tenham um pé no jazz e outro na dança. Quando é época de Carnaval, como nos próximos meses, tiram da cartola seu extenso repertório de marchinhas e animam folias de rua e de clubes por todo o país.


A Orquestra Tabajara, até hoje em atividade, é a principal referência do gênero no país, e a maior incentivadora da formação de novas gerações de big bands.


Neste artigo mencionarei algumas das bigs brasileiras na ativa, com destaque para a mais antiga delas (a Tabajara) e a mais jovem (Orquestra Imperial).


Isso dentre as bigs conhecidas, pois se sabe que há dezenas de outras espalhadas pelo país, conhecidas apenas localmente...


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Este artigo é sobre a rica tradição dos pastoris nordestinos profanos e de mal-dizer.

Principalmente o do Velho Faceta, do Recife, cuja influência foi marcante para Antonio Nóbrega, que nele se inspirou para criar o palhaço Tonheta, do grupo pernambucano Brincante, radicado em São Paulo há décadas.

Velho Faceta
Por sinal, Nóbrega e seus companheiros estão em vias de perder seu lindo teatro na rua Purpurina, Vila Madalena, para a especulação imobiliária. O prazo dado por uma juíza para permanecerem no teatro, cujo espaço é alugado, expira-se neste ano.

Antonio Nóbrega na pele Tonheta
O pastoril é um auto (abreviação de peça dramática popular) natalino muito difundido no Nordeste, geralmente apresentado no período que vai do Natal ao Dia de Reis, em 6 de janeiro.

Teve origem europeia, nos dramas litúrgicos apresentados nas igrejas, nos quais se fazia elogio aos personagens do Natal. Chegou ao Brasil trazido pelos jesuítas, por volta do século XVI.


Há registros de pastoris em Portugal no ano de 1223. Portanto, trata-se de uma tradição antiquíssima, mais ou menos do mesmo período da poesia trovadoresca, da qual alguns traços ainda resistem no Nordeste.


Sobretudo nos estados de Alagoas e Pernambuco, os autos natalinos, desde a sua introdução, ganharam força na cultura popular, possibilitando ao longo dos séculos o surgimento de dezenas de canções e jogos cênicos de domínio público.


Mas incorporaram outras tradições medievais, como o torneio de cavalhadas, no qual duas vertentes pastoris tradicionais – a do cordão Azul e a do cordão Encarnado – simulam competição.


As disputas entre os dois lados são, no final, apaziguadas pela angelical pastorinha Diana, que conduz o espetáculo em harmonia.


Pastoril religioso com seus dois cordões e, no centro, a pastora Diana
Apesar dessas incorporações todas, que não faziam parte dos antigos autos natalinos europeus, esse tipo de pastoril continua estritamente religioso.

Mas vou tratar neste artigo de uma vertente nacional realmente oposta aos autos natalinos importados: o pastoril profano.


No pastoril profano, as pastorinhas não têm nada de angelicais. São mesmo escrachadas, falam palavrões, erguem as saias, mostram as coisas íntimas e soltam palavrões dos mais cabeludos.


Também não entoam ladainhas religiosas. Seus cantos estão voltados para as sátiras sociais, sendo o sexo (no seu caráter mais chulo) o carro-chefe de seu humor e alegria.


Os apelidos dados a esse tipo de pastoril dizem tudo: “pastoril de ponta-de-rua”, “pastorial escabroso”, “pastoril esculachado”, entre outros.


Nele, as mocinhas dos cordões azul e encarnado foram substituídas por “mulheres-da-vida” – na verdade são cantoras populares que representam as figuras de prostitutas. Com tais referências, evidente que suas funções não se regulam pelo respeito à moral vigente.


Todo pastoril profano tem um mestre que rege a apresentação, o qual quase sempre leva antes do nome a alcunha de “velho”.

Não por ser necessariamente idoso. “Velho” aqui é sinônimo de sujeito safado, experiente, amoral e sem-vergonha. Qual seja, um sátiro das antigas.


Dos vários mestres de pastoris profanos, meu preferido é mesmo o Velho Faceta. Inclusive porque o conheci...



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015




O iluminismo, movimento cultural que representou a elite intelectual europeia do século XVIII – sobretudo francesa – procurou mobilizar o poder da razão, a fim de reformar a sociedade e o conhecimento herdado da tradição medieval.


Abarcou inúmeras tendências. Entre elas a que buscava um conhecimento apurado da natureza, com o objetivo de torná-la útil ao homem moderno.


Embora o centro tenha sido a França, o movimento foi despertado por um holandês – Baruch Spinoza (1632-1677) – e três ingleses – John Locke (1632-1704), Pierre Bayle (1647-1706) e o matemático e físico Isaac Newton (1643-1727).

Retrato de Rousseau

Na França, o iluminismo culminou com a publicação dos fascículos da Encyclopédie (de
1751 a 1772), editada por Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d'Alembert (1717-1783), com contribuições de centenas de intelectuais, dentre eles Voltaire (1694 -1778), Montesquieu (1689-1755) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

O movimento foi dominante até o final do século XVIII, dando lugar ao romantismo, cuja influência persiste até nossos dias.




Diferente de Diderot, d'Alembert e Voltaire, Rousseau não era da nobreza ou apadrinhado por ela. Provinha de uma família pequeno burguesa da Suíça (nasceu em Genebra).


Mas entre os filósofos e escritores iluministas foi aquele cuja influência mais se alastrou. Para o bem e para o mal...