quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Quem conhece cadinho de literatura sabe que os avanços dos movimentos de vanguarda modernos – ocorridos ao longo do século XX – provêm do fluxo evolutivo do século anterior ou até de épocas mais remotas.

Aliás, não tenho a menor certeza de que tais "avanços" se deram, mesmo, na era moderna

Por exemplo, nenhum poeta moderno conseguiu produzir obra que se equipare à radicalidade, concisão e complexidade construtiva de Un coupe de dés (Um lance de dados), do poeta simbolista Stéphane Mallarmé (1842-1898), publicado em 1897.

A estrutura do poema, em forma de constelação, pressupõe que os vazios preencham os significados das palavras, como "subdivisões prismáticas", "ilhas de significação". Os espaços brancos também indicam o ritmo da leitura e as pausas.

A poesia tipográfica de Mallarmé deu origem a várias experiências praticadas no século XX, seja pelo futurismo italiano, pelo cubofuturismo russo ou pelo concretismo (movimento internacionalista com forte vertente no Brasil), com ênfase na visualidade da obra poética.

No Brasil, o poema foi traduzido pelo poeta concretista Haroldo de Campos, utilizando recursos visuais semelhantes aos do original.

A poesia de Mallarmé embora pouco volumosa não se limita a Un coupe de dés. Assim como o simbolismo não se limita a ele.

O simbolismo literário surgiu na França, na segunda metade do século XIX, como oposição ao parnasianismo, ao realismo e ao naturalismo.

O movimento revelou uma plêiade de geniais poetas cada qual com características próprias que inclui Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Jules Laforgue, Tristan Corbiére, Villiers d'Isle Adam, Raymond Roussell e outros.


Paul Verlaine

Quando ao conjunto de grandes poetas, somente se equipara ao dos simbolistas franceses o poderoso time de poetas russos das primeiras décadas do século XX que inclui Vladimir Maiakovski, Velímir Kliébnikov, Anna Akhmátova, Óssip Mandelatam, Marina Tzvietáieva, Boris Pasternak, Alexander Blok, Serguei Iessenin e dezenas de outros cabras cobras.

Mas os russos foram altamente influenciados pelos simbolistas franceses, assim como toda a poesia moderna. Muitos poetas modernos, como o português Fernando Pessoa e o brasileiro Manuel Bandeira, começaram escrevendo poesia simbolista.

O simbolismo francês, em sua época segunda metade do século XIX estendeu suas raízes para os demais países europeus e, também, para outras esferas, como o teatro e as artes plásticas.

Sua origem provém dos poetas da última fase do romantismo, sobretudo da poesia e crítica literária do norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) e do francês Charles Baudelaire (1821-1867), que traduziu toda obra de Poe para seu idioma.


Charles Baudelaire
Diferente do parnasianismo, do realismo e do naturalismo que priorizavam uma visão mais geral, sob os crivos histórico, sociológico ou psicológico os simbolistas tinham maior interesse pelo particular e pelo individual.

Foram os primeiros associar forma e conteúdo. A famosa frase de Maiakovski
"Não há arte revolucionária sem forma revolucionária" contaria certamente com o aval de Mallarmé e seu grupo.

Um dos princípios básicos dos simbolistas era sugerir através das palavras, sem nomear objetivamente os elementos da realidade.

A musicalidade era uma das características mais destacadas da sua estética.

Para conseguir aproximação da poesia com a música, lançaram mão de recursos como a aliteração, que consiste na repetição sistemática de um mesmo fonema consonantal, e a assonância, caracterizada pela repetição de fonemas vocálicos.

Ambos os recursos são comuns na poesia de Paul Verlaine, Tristan Corbiére, Jules Laforgue...



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A imagem do romantismo na Inglaterra é identificada às marcantes personalidades rebeldes e trágicas de George Gordon Byron (1788-1824), mais conhecido como Lord Byron, e Percy Bysshe Shelley (1792-1822).

Mas dois grandes poetas os antecederam como introdutores do romantismo nas letras inglesas:
Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) e William Wordsworth (1770-1850).

Retrato de Samuel Coleridge
Retrato de Wordsworth

O verdadeiro marco zero do romantismo no país foi a publicação por ambos, em 1798, do livro Lyrical ballads (Baladas líricas).

No prefácio, Wordsworth, em tom de manifesto pioneiro, declara guerra à artificialidade da poesia inglesa do século XVIII, defendendo o uso da linguagem coloquial, da valorização do cotidiano e da simplicidade.

Mas seu primeiro soneto romântico é ainda mais antigo, de 1787, inspirado nos ideais iluministas da Revolução Francesa. Razão pela qual chegou a migrar para a França, onde militou ao lado dos republicamos.


Em 1795, de volta à Inglaterra, iniciou sua longa amizade e parceria com Samuel Taylor Coleridge.

Coleridge é, ao lado de Edgar Allan Poe (1809-1849) e de Arthur Rimbaud (1854-1891), um dos mais peculiares poetas pré-modernos.


Edgar Allan Poe

Arthur Rimbaud

Sua obra poética é sucinta. Além das Lyrical ballads, resume-se ao segundo livro, Christabel (Cristabel, 1800), e a dois enigmáticos poemas The rime of the ancient mariner (A balada do velho marinheiro, 1797) e Kubla Khan (Kubla Khan, 1798).

Estes dois poemas são exemplares máximos dos chamados “poemas de mistério”, prato cheio para as leituras psicanalíticas contemporâneas.

Mais tarde os dois poemas exerceram forte influência sobre o movimento simbolista francês encabeçado pelo neo-romântico Charles Baudelaire, depois por Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Tristán Corbiére e outros grandes poetas.



Stéphane Mallarmé
The rime of the ancient mariner, como Kubla Khan, foi composto por uma técnica onírica guiada pelo automatismo, que no século XX seria vulgarizada pelo movimento surrealista de André Breton, Louis Aragon e outros...


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015




A vida vai e vem farta de farsas, fantasias e imprevistos. E assim se esvai. Para todos. Com fim muitíssimo mais definido que todos os nossos princípios, meios e irrestritas convicções, que quase sempre se exaurem e resultam em nada.


Em março do ano passado postei neste blog o artigo Emil Cioran, o pensador do não.


Cioran (1911-1995), ao contrário do que se imagina a partir de sua obra niilista e às vezes sarcástica, mordaz, infame, era figura bastante divertida, bom bebedor e fumador inveterado, como o bom escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005).

Emil Cioran

Foi parceiro de copo e de conversações de outras duas figuraças romenas que também imigraram para a França: o estudioso de mitologia e religião Mircea Eliade (1907-1986) e o dramaturgo Eugène Ionesco (1909-1994).


Cioran, Ionesco e Eliade

Reforçados pelo dramaturgo e prosador irlandês Samuel Beckett (1906-1989), formaram um admirável quarteto de intelectuais boêmios.
Samuel Beckett

Mas meu artigo anterior enquadra Cioran num perfil tendencioso: “pensador do não”. A verdade é que sua obra foi muito mais ampla que a definição negativista explicitada pelo título do meu artigo.


Creio que a aliteração paradoxal do título deste artigo melhor o define, tanto no que diz respeito ao humor dúbio quanto ao estilo.

Mas necas de chover no molhado. Aproveito aqui para dar mais algumas pinceladas sobre o autor, principalmente com o intuito de reforçar o estímulo para que outras pessoas o conheçam e se deliciem, como já me deliciei, com seu excelente texto, altos conhecimentos e inteligência.


Consta que Cioram era muito admirado sobretudo por seu jovens alunos franceses, aos quais dava mais atenção que aos estudantes mais maduros, com as convicções já um tanto estabilizadas.


Como poderão ver no final deste artigo, na entrevista concedida por sua esposa Simone Boué, também professora universitária, Cioran detestava sumidades, academias, homenagens e porcarias do tipo.
Cioron com músicos de rua em Paris

Preferia lidar com as cabeças novas, a serem feitas, mas sem o menor propósito de doutriná-las. Razão pela qual não existe um cioranismo, como há marxismo e outros ismos nominais. Todos os admiradores de Cioran independem do que dele absorveram.


Seus ensaios sucintos não foram publicados para influenciar pessoas. Talvez, sim, para instá-las a pensar com tino próprio e afastá-las de dogmas que, como disse no início, quase sempre nos levam a nada.


Cioran só saía de casa para cumprir com as obrigações acadêmicas, beber com os poucos amigos, comprar cigarros e ler nas bibliotecas que frequentava.

Mas não vivia afastado do mundo. Passava parte significativa do seu tempo doméstico atendendo a telefonemas – alguns por horas a fio – ou respondendo criteriosamente a todos que lhe escreviam, sobretudo os jovens.


Se tivesse chegado à era das redes sociais, certamente as utilizaria às turras para atender aos vários garotões e garotonas ávidos por saber um tiquinho do turbilhão de coisas que o romeno pensava.


Um dos missivistas certa vez escreveu que chegou a pensar em se matar ao ler um de seus corrosivos ensaios.


Cioran se inquietou muito com isso. Rapidamente respondeu com extensa carta ao admirador para explicar que de fato a vida é um completo vazio, repleta de sabotagens, sacanagens idiotas, competições ridículas, enfim, um verdadeiro covil de animais ferozes.


Mas que, apesar de o espetáculo cotidiano ser recheado por ilusões negras e viscosas, tragédias e catástrofes, merece ser assistido até o cerrar das cortinas. Pois, trocando em miúdos, é só o que nos resta.


No fundo Cioran foi quase um místico, embora provenha do niilismo do alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e tenha se expressado com ostensiva descrença.



Dá para se ter ideia do que escreveu só pelos títulos de alguns dos seus ensaios: Nos cumes do desespero, O livro dos engodos, Breviário dos vencidos, Breviário da decomposição, Silogismos da amargura, A tentação de existir, Das inconveniências de ter nascido, Opiniões e anátemas, Odisseia do rancor...