quarta-feira, 25 de março de 2015

Un negrito con gran talento llamado Bola de Nieve

O "negrito" ao qual me refiro, para os que não o conhecem, é este aqui:

Conforme as palavras registradas sobre a foto, seu nome era Ignacio Villa (1911-1971), mais conhecido como Bola de Nieve. Exímio cantor, compositor e pianista.

Origem: Cuba, um dos países americanos com mais rica musicalidade do continente americano, ao lado do Brasil e dos EUA.

Clique aqui e, a seguir, no link do vídeo produzido pelo cineasta cubano Jorge Molina para apresentar nosso "negrito".

É nítido que Cuba vive os últimos momentos dos seus mais de meio século como símbolo das idiossincrasias de esquerda que marcaram sua história desde que, em janeiro de 1959, o Movimento 26 de Julho, liderado pelo então revolucionário Fidel Castro, chegou ao poder.

Tomada de Havana em 1959
A partir de então se apoderaram da ilha duas simbologias distintas.

Para os que professam seu ideário, o país representa um paradisíaco e aguerrido regime socialista que se notabilizou pela implantação de série de programas sociais e econômicos, especialmente no tocante ao acesso à educação e aos serviços de saúde providos pelo Estado.

Para os que não acreditam no ideário de esquerda, representa mais um regime socialista inviável, com economia capenga e caracterizado pelas perseguições políticas. Enfim, um governo comunista centralizador, autoritário, gerido por um só partido, fadado a ser extinto com o passar dos anos.

Apesar dos discursos sempre inflamados e arrebatadores dos irmãos Castro, no velho estilo ufanista anti-yankee (radicalmente contra os EUA), nos bastidores o governo aproxima-se cada vez mais do vizinho capitalista.

Qual o governo chavista de Nicolás Maduro na Venezuela, que acusa conspirações norte-americanas para prender opositores, mas mantém a maior parte das relações comerciais com seu principal “inimigo” (os mesmos EUA).

No momento, hordas de turistas norte-americanos têm ido a Cuba com suas máquinas fotográficas e dólares, em busca das últimas imagens e souvenirs revolucionários.

Isso antes que empresas norte-americanas se aportem por lá e a transforme em um cenário comum de qualquer paraíso turístico do Golfo do México.
Um país com as marcas do barroco
Turistas tiram fotos dos ícones da revolução

Havana, uma capital parada no tempo
Enfim, a velha Cuba castrista se transformou na “terra santa” do velho socialismo, qual Jerusalém para as religiões monoteístas, cujos crentes vão até lá adquirir alguma saudosa relíquia.

Imagens de Che Guevara por toda parte
Carros antigos servem de cenários para fotografias
Mas o que importa neste artigo não é o nanismo das desdentadas apologias políticas e, sim, o gigantismo real de Cuba, que está em sua poderosa cultura, tanto popular quanto erudita.

É a terra do poeta José Martí (1853-1895), do pintor Francis Picabia (1879-1953) e da contista especialista em temas eróticos Aniis Nin (1903-1977) ­– nascidos na França, mas criados por lá – dos prosadores Lezama Lima (1910-1976) e Cabrera Infante (1929-2005), do dramaturgo Virgílio Piñera (1912-1979), do poeta e ensaísta Severo Sarduy (1937-1994), entre outros.

Lezama Lima: grande escritor marginalizado pelo regime
Cabrera com os amigos brasileiros Caetano, Gil e Haroldo de Campos
A música popular cubana é de uma diversidade impressionante para um país de 114.525 km² (menor que a maioria dos estados brasileiros) e uma população com pouco mais de 10 milhões de habitantes.

A ilha gerou dezenas de gêneros.

Só vou citar os principais: bolero, cha-cha-cha, conga, contradanza, danzón, danzonete, guaguancó, guajira, guaracha, mambo, merengue, nueva trova, pachanga, rumba, salsa, son, son montuno e timba.

Cabrera Infante aponta inclusive um tipo de tango cubano, surgido como variante do bolero em época concomitante à do tango argentino.

Mas neste artigo não pretendo ir tão longe. Enfatizarei aqui a obra deste que é um dos mais importantes ícones da música ibero-americana: o pequenino Ignacio Jacinto Villa Fernández, o "negrito" Bola de Nieve.

Villa foi tão marcante para a música cubana – e de outros países – quanto o portenho Carlos Gardel e o brasileiro João Gilberto o foram, respectivamente, para as músicas populares argentina e brasileira.

Com grande talento também para os improvisos teatrais (tanto cômicos quanto trágicos), tornou-se um esplêndido show man.

Nos EUA era comparado ao cantor, compositor e trompetista/saxofonista Louis Armstrong (1901-1971), o grande show man do jazz, nascido em New Orleans, nas terras vizinhas da Louisiana...


quarta-feira, 18 de março de 2015

Marcel Duchamp significa alto repertório, concepção, invenção – signo fica

Toda generalização é burra. Superlativos idem.

Mas se for relacionar os mais representativos artistas modernos, alguns nomes sempre me vêm à mente.


Na prosa, James Joyce.


Na poesia, Ezra Pound, Vladimir Maiakovski, Velímir Khlebnikov, Fernando Pessoa e, mais moderno que todos, o simbolista Stéphane Mallarmé, este do século XIX.

Na música, o trio Arnold Schönberg, Anton Webern e Alban Berg.

No cinema, Seguei Eisenstein.

No teatro, Vsevolod Meyerhold.

Nas artes plásticas, o "não-artista" Marcel Duchamp (1887-1978).

Não sou louco de declarar que a arte moderna se resume a esses cabras. Mas foram essenciais, imprescindíveis. 


Um irlandês, um norte-americano, um português, quatro russos, três alemães e dois franceses. Mas os dois franceses (Mallarmé e Duchamp) representam muito. Muito mesmo!

Foram (e continuam a ser) determinantes para o que se produziu a partir deles.

Ainda escreverei sobre Mallarmé, como já fiz com seu colega simbolista Paul Verlaine.


O papo aqui é sobre Marcel Duchamp, referência conceitual para toda arte contemporânea, inclusive para a literatura.

Embora tenha sido pedra de toque de três movimentos de vanguarda – cubismo, dadá e surrealismo – e participado indiretamente de outros (expressionismo, fauvismo, simbolismo, impressionismo e surrealismo), Duchamp sempre foi avesso aos "ismos" e não firmou identidade com nenhum.

Viveu de forma modesta, quase anônimo. Nunca vendeu uma só de suas obras. Todas foram doadas a colecionadores, com a condição de que fossem expostas ao público e jamais viessem a ser comercializadas.


Nu descendant l'escalier nº 2
Abandonou  a pintura, na sua decisiva virada contra a arte "retiniana". Nunca se acomodou. Foi um misto de artista e inventor da modernidade mais próximo do que representou Leonardo da Vinci para o renascimento...

domingo, 8 de março de 2015

Farsas medievais tinham muito improviso, deboche, crítica social e irreverência

Meu chapa Reginaldo Menegazzo, de Campinas, batalha por produção cultural. Bota batalha nisso!

Busca espaço para projetos culturais dele e de outros. Seu métier como artista é o teatro.

Graças ao seu esforço como produtor cultural consegui publicar meu romance O homem que sabia ouvir, em dezembro de 2013.

Exemplares do livro
O livro veio de uma sucessão de tentativas frustradas. Começou como ideia de um espetáculo farsesco em meados dos anos 1980, quando ainda residia em São Paulo.

O qual girava em torno de dois personagens: os clowns Binga e Dunga. Fora idealizado para ser um espetáculo simples, ágil, cujo cenário, figurinos, material para maquiagem e adereços coubessem numa mala.

Remetia-o, assim, às origens ambulantes dos bufões que montavam as farsas na Idade Média. Eram mais camelôs que utilizavam encenações em locais públicas para ganhar a vida que atores.
Desenho de espetáculo farsesco em iluminura
A mala, no espetáculo, seria o apetrecho cenográfico mais simbólico. Seriam tiradas delas coisas imprevistas, qual das cartolas dos mágicos, para contar série de histórias.

Apenas dois atores, com custo baixo, para rodar o país. Os dois clowns fariam o elo entre as várias histórias, por eles próprios interpretadas, todas com fundo moral, tendo como personagens animais que representavam qualidades humanas. Qual seja, fábulas.

De início éramos eu e Cristina Roberto, hoje empresária do setor de alimentação em Brasília.

Com a volta de Cristina para o Distrito Federal, de onde eu também saíra, tentei o projeto com outros dois atores, que o deixaram pelo meio porque surgiram oportunidades irrecusáveis para ambos.

O projeto foi para a gaveta. Passados alguns anos, retomei-o no formato de livro.

Binga e Dunga foram então transformados em personagens secundários e surgiu um novo personagem como elo, Simão Sei-não, o “homem que sabia ouvir”.

Mas o livro, uma vez concluído, também foi para a gaveta, por falta de alternativa para editá-lo.

O compositor e diretor de teatro Kha Machado, também de Campinas, me apresentou a Reginaldo.

Este me estimulou a enviá-lo para um concurso e deu no que deu: foi finalmente impresso, com as ilustrações – internas e de capa – do artista plástico mineiro Alexandre Tiago, radicado em Campinas.

Reginaldo, que conhece toda a gestação do projeto, me propôs recentemente o caminho inverso: transformar o livro em espetáculo de teatro.

Mais ou menos como era a ideia original: de modo que quase tudo caiba numa mala e o elenco se resuma a dois atores. Algo simples, didático, fácil de ser levado para diferentes palcos, de modo a atingir o maior número de pessoas possível.

Estamos pensando a respeito. Talvez Binga e Dunga voltem a ser elos de ligação entre o conto que narra o que ocorreu com Simão Sei-não e as fábulas por ele imaginadas. Vamos ver no que dá!

Os dois atores deverão se desdobrar. Farão os dois clowns e os demais personagens. Qual ocorria no teatro medieval farsesco, de onde a ideia foi pinçada. Tudo muito simples, econômico, mas bem elaborado.

O teatro farsesco foi tão rico no contexto das artes cênicas quanto os trovadores seus contemporâneos, nos contextos da poesia e da música.

Aliás, toda cultura medieval foi muito rica, apesar do horror e perseguições instituídos pela Igreja por meio da Inquisição, da barbárie patrocinada pelos senhores feudais, das cruzadas insanas, da alta criminalidade, das invasões mouras e das várias pestes que eliminaram milhões de pessoas.

Quase todos os grandes autores dramáticos ocidentais – dentre eles Shakespeare, todos da Commedia Dell'arte francesa, Gil Vicente, Moliére, Calderon de La Barca, os brasileiros Martins Penna, Qorpo Santo e, mais recentemente, Ariano Suassuna e João Cabral de Mello Neto – beberam das vicejantes fontes criativas do teatro medieval.

Foi graças à paixão pela riqueza do teatro farsesco medieval que eu, Durvalino Couto, Pedro Anísio, Everaldinho, Cristina Roberto, Arão Paranaguá, Paulo Sérgio Santos e vários outros cabras criamos o Grupo Pedra, em Brasília, no início dos anos 1970.

Em plena ditadura, levávamos às cidades satélites as diatribes da Farsa do advogado Pathelin, texto medieval de autoria anônima.

Coincidentemente, enquanto Reginaldo me estimulava a pensar no livro O homem que sabia ouvir para transpô-lo de volta ao teatro, Durvalino Couto, com quem sempre mantive correspondência – ele reside em Teresina (PI)me desafiou a escrever sobre teatro medieval farsesco neste blog.

Então vamos lá! Tentarei especular coisas sobre esse "teatro do capeta". Claro que não acredito em demônios que não sejam os humanos de carne e osso que azucrinam nossas vidas, graças aos desmandos na economia e na política.

O "capeta" (uma das denominações populares para o demônio) é para frisar o quanto o teatro farsesco foi criativamente endiabrado...


segunda-feira, 2 de março de 2015

Cesária Évora, a rainha de pés descalços

Cabo Verde é uma nação africana das mais destoantes. A começar por sua localização, em meio ao Oceano Atlântico, a mais de 500 quilômetros do continente.


Cantora cabo-verdeana Cesária Évora
Sua extensão territorial – apenas 4 mil quilômetros quadrados – também é contrastante com o imenso continente com mais de 30 bilhões de km².

O país é na verdade um arquipélago de origem vulcânica, composto por dez ilhas habitadas e várias ilhotas desertas.  




Do continente africano saíram os primeiros humanos para povoar os demais continentes. No entanto, Cabo verde não tinha um único habitante até os primeiros navegadores portugueses chegarem lá em 1480.

Ilhas vulcânicas normalmente têm origem recente. O arquipélago de Cabo Verde, não. Geólogos calculam que a maior parte de suas ilhas e ilhotas se formaram há mais de 20 milhões de ano.

Por que os habilidosos navegadores artesanais africanos não chegaram lá antes, se ocuparam ilhas bem mais distantes no Oceano Índico, algumas a milhares de quilômetros do continente africano? Mistério.

Com o tempo o arquipélago se tornou estratégico para os portugueses, como rota de passagem dos navios de comércio de escravos do continente para as Américas.

Alguns portugueses e escravos por lá permaneceram. Os escravos provinham de diferentes etnias africanas. Depois foram chegando aventureiros europeus: franceses, espanhóis, holandeses... A população atual, miscigenada, resulta dessa mistura.

O cabo-verdeano comum tem pele escura, mas não há negros puros no país. Todos são mulatos e trazem nos genes de várias etnias africanas misturados com europeus.

Situado na faixa saariana, o arquipélago tem baixa pluviosidade. Há pouca agricultura, a qual depende da dessalinização da água do mar, das poucas chuvas e das brisas que se sedimentam nas encostas férteis do vulcão da Ilha do Fogo.
Vulcão da Ilha do Fogo
Mas a última erupção do vulcão soterrou com lavas as plantações de uva e até a sede da vinícola da cooperativa local.

Há também cultivos de banana, de hortifrutis e a intenção de prospectar petróleo no fundo do mar.

Por enquanto, a economia cabo-verdeana é dependente do turismo – por sua privilegiada paisagem, bom clima e ótimas praiasda atividade portuária, da pesca e da riqueza cultural, sobretudo a música popular.

O país tem em torno de 450 mil habitantes. Devido às limitações econômicas, há tantos cabo-verdianos no país quanto espalhados pelos EUA, Portugal, França e Brasil.

A língua oficial é o português. Mas o português crioulo, com grandes variações locais, dado que se misturou aos vários dialetos dos antigos escravos e a outras línguas dos imigrantes europeus que por lá se fixaram.

Para se ter ideia, cada uma das 10 ilhas habitadas tem um dialeto próprio que mescla o português a dialetos africanos continentais e a outros idiomas europeus, especialmente o francês.

Os vários crioulos são as línguas faladas. O português culto, normatizado conforme as regras vigentes em Portugal, é o que se aprende nas escolas, ao lado do francês.

Essa mescla de idiomas fez com que, em média, a população cabo-verdeana seja bem instruída. Principalmente em música. A pujança musical nas 10 ilhas é superior até a de Cuba, outro país com vigorosa musicalidade popular.

Não é por acaso que Cesária Evora (1941-2011), a mais importante cantora luso-africana, veio de lá.


Cesária no palco, sempre descalça
As raízes da musicalidade cabo-verdeana são também de procedências diversas.

As influências principais vêm, por ordem de importância, de Portugal e da França, depois do Brasil, dos vários países africanos da costa atlântica, dos países antilhanos e dos EUA (principalmente com o jazz e o blues).

O principal ritmo local, a morna, é clara derivação do fado. Mas também tem influências do samba-canção brasileiro e do blues norte-americano, no tocante ao teor das letras.

Ouçam, a seguir, Cesária interpretando a morna Dor di sodade:




Os demais gêneros cabo-verdeanos: a kozomba, o funaná, a tabanca, o lundum, a coladeira e o batuque.

A bossa nova e o samba tradicional brasileiros, o jazz, o  blues e o hip-hop norte-americanos, a cúmbia colombiana, o reggae jamaicano, a rumba cubana, o zouk das ilhas antilhanas têm numerosos intérpretes no país.

A identificação com o Brasil é tão grande que Cabo Verde comemora festejos carnavalescos chamados “Brazilim”, ou seja, “pequeno Brasil”...