quinta-feira, 23 de julho de 2015

Manifesto futurista de Filippo Marinetti, publicado em Paris em 1909, teve grande repercussão por toda Europa, incluindo a grande Rússia.

Tanto é que logo depois esteve por lá em duas oportunidades: em 1910 e em 1914.

Trupe cubofutista reunida: Maiakóvski é o mais alto no centro
No início do século XX o caldeirão das transformações entrara em estado de fervura nos dois principais centros culturais da Rússia Moscou e Petersburgo nos quais o simbolismo ainda tinha fortes raízes.

O simbolismo russo e o alemão foram os mais ricos depois do francês, matriz deste movimento de vanguarda.

Mas o simbolismo era de meados do século XIX. Na virada para o novo século, era o momento de ser ultrapassado.

Em oposição a ele, por volta de 1905 surgiram na Rússia duas correntes literárias de vanguarda: o acmeísmo e o adamismo.

Ambas já continham alguns dos elementos apregoados pelo manifesto pioneiro de Marinetti, que abriu as portas para os vários movimentos de vanguarda modernistas.

No mesmo ano que o italiano publicou seu manifesto no jornal francês Le Figaro, em 1909, surgiram em Moscou e Petersburgo dois movimentos com características afins.

O egofuturismo de Igor Severjànin e o cubofuturismo de Vladimir Maiakóvski, David Burliuk, Vielímir Khlébnikov e Vassíli Kamiênski.

Burliuk costumava desenhar na própria face

Khlébnikov fotografado por Eisenstein

Vassíli Kamiênski, o "parafusador das nuvens"

Severjànin era uma figura debochada e festiva, como o italiano Marinetti. Em seus poemas satíricos, declamados nos salões, bradava provocações do tipo: "Ofereço à multidão de criados enquadrados/ a importância do meu ego libertário".

O quarteto cubofuturista de Moscou tinha propósitos bem mais ambiciosos do que escandalizar a burguesia e a nobreza. Sua intenção era lançar uma revolução estética à altura da ampla revolução social que se avizinhava.

Mas, qual Severjànin, eram também exibicionistas e debochados. Vestiam roupas espalhafatosas e coloridas que lembravam as que seriam usadas sessenta anos depois pela geração hippie e pelos músicos brasileiros do tropicalismo.

Seus eventos não chegaram a ser tão diversificados quanto os dos futuristas italianos, mas eram também animados e escandalosos. Deram muito o que falar no auge do movimento, de 1910 a 1915.

Entretanto, a identificação do quarteto moscovita com o futurismo de Marinetti durou pouco. Devido, em parte, a contratempos gerados pelo temperamento apimentado do italiano.

A antipatia começou a se constituir quando Marinetti fez sua primeira visita a Moscou, em 1910.

Em suas palestras e entrevistas para os jornais locais, ele não fez qualquer menção aos cubofuturistas, cuja existência tinha conhecimento inclusive fora visitado por Burliuk em Milão.

A antipatia se estabeleceu de vez quando, passados dois anos da visita, o italiano anunciou adesão ao ascendente Partido Nacional Fascista, de Benito Mussolini.

Como os cubofuturistas eram todos de esquerda – David Burliuk e Maiakóvski militavam pelo então clandestino Partido Bolchevique – logo tomaram providência de divulgar que seu movimento nada tinha a ver com o italiano.

Mas tinha sim, como veremos adiante.

A relação de Marinetti com os cubofuturistas se azedou de vez quando o Marinetti realizou sua segunda viagem a Moscou, em 1914.

No início daquele ano, Vladimir Maiakóvski e seus companheiros haviam feito uma grande turnê por várias cidades russas, para divulgar os objetivos do movimento com palestras e leituras de poemas.

Por meio de amigos russos, Marinetti estabeleceu contatos antecipados com Burliuk, nos quais manifestou o desejo de ver os cubofuturistas logo que chegasse a Moscou.

Contava, como isso, ser recebido como o grande inspirador dos vanguardistas russos quando descesse na estação de trens da capital.

Mas os russos resolveram dar o troco à desfeita da visita anterior, quando foram ignorados pelo italiano. Marinetti desceu na estação e não havia nennhum acólito à sua espera.

Deparou-se com autoridades, jornalistas, os puxa-sacos de sempre e uma multidão de pessoas curiosas, que queriam apenas saber quem era o cidadão ilustre.

Marinetti aproveitou a concentração de populares e a presença de jornalistas para dar seu show. Recitou poemas e soltou declarações bombásticas em francês (a segunda língua da Rússia na época) que tiveram lá seu efeito.

Kamiênski e Khliébnikov foram designados a entregar ao italiano, no hotel onde se encontrava hospedado, uma carta na qual reafirmavam não haver qualquer vínculo entre o futurismo e o cubofuturismo.

A elite moscovita preparou uma recepção para Marinetti num teatro da cidade. Khliébnikov chegou às pressas ao local para distribuir panfletos difamatórios contra o visitante.

O italiano, que na certa não entendeu o que estava se passando, achou tudo aquilo muito divertido. Começou a discursar com entusiasmo, depois declamou poemas, representou um monólogo e, logo que surgiram as primeiras vaias, se sentiu em casa.

Afinal, receber vaias era o que mais o motivava.

Kamiênski, que também estava presente, gritou: “Viva Maiakóvski!” Era uma clara afronta a Marinetti. Mas este aproveitou a deixa e também gritou: “Viva Maiakóvski!” E foi bastante aplaudido por dar apoio a um prata da casa.

Na semana que o italiano permaneceu em Moscou, em nenhum momento houve o pretendido encontro tête-à-tête com os cubofuturistas. Suas arlequinadas e bizarrices fizeram com que os jornais todos os dias soltassem alguma matéria a seu respeito, mesmo que pejorativa.

Seu modo fanfarrão e extrovertido, parecido com o do cidadão moscovita mediano, também festivo e piadista, acabou por torná-lo popular até para os que não faziam a menor ideia do que era futurismo.

O que, obviamente, deixou os cubofuturistas ainda mais furiosos, pois quanto mais destratavam aquele gringo verborrágico, mais ele se dava bem em sua própria terra.

Na verdade, as principais diferenças (e semelhanças) entre o futurismo italiano e o cubofuturismo russo não foram ideológicas e muito menos resultantes dos desencontros folclóricos provenientes das duas visitas de Marinetti a Moscou.

Embora inicialmente inspirado no movimento italiano, o cubofuturismo foi, a meu ver, o mais fecundo movimento de vanguarda moderno.

Dele saíram o suprematismo, o construtivismo e a escola de pensamento denominada formalismo russo. Estas três correntes influenciaram (e continuam a influenciar) a produção artística e os estudos sobre linguagem mais avançados do nosso tempo.

No artigo que se segue, espero ser capaz de deixar para vocês noções genéricas do que representa o cubufuturismo russo para toda arte moderna que o sucedeu...


sábado, 4 de julho de 2015

Minha série de artigos sobre movimentos de vanguarda chega agora aos dois primeiros do modernismo, no século XX: o futurismo italiano (de 1909) e o cubofuturismo russo (de 1912).

Ambos foram “motores das vanguardas europeias e da renovação geral” das artes, segundo as palavras de Aurora Fornoni Bernardini, ensaísta, escritora e tradutora italiana especialista em literatura russa radicada entre nós.


Mas tomaram rumos opostos quando seus integrantes se engajaram nos processos políticos que vieram à tona nos respectivos países.


Os italianos, liderados por Filippo Marinetti, se alinharam ao Partido Nacional Fascista, de Benito Mussolini, cuja ascensão ao poder na Itália se consolidou a partir dos anos 1920.



Filippo Marinetti
Os cubofuturistas russos se comprometeram com a revolução bolchevique de 1917, que resultou na criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a primeira pátria do comunismo.

Embora o título do artigo frise as diferenças ideológicas, me remeterei mais às diretivas estéticas dos dois grupos modernistas e menos às questões políticas. Mas adianto que a convivência com seus respectivos aliados políticos não foi harmoniosa.


Mussolini, após ter passado por consecutivas saias-justas com os anárquicos futuristas (sobretudo Marinetti) manteve distância deles e, por fim, cortou todo apoio econômico, restringiu-lhes a liberdade e o movimento se diluiu.


Na URSS, Vladimir Maiakovski e seus companheiros trabalharam duramente pela vitória do regime bolchevique, mas este, uma vez consolidado, marginalizou, prendeu ou assassinou a maioria deles.



Vladimir Maiakovski
Enfim, os dois primeiros movimentos modernistas são exemplos cabais do quanto as relações entre os artistas e o poder político são sinuosas, para não dizer altamente perigosas, não importa o matiz ideológico.

Um terceiro exemplo foi a República de Weimar, na Alemanha, outro epicentro gerador de movimentos de vanguarda do século XX.


Weimar surgiu após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, e durou até o início do regime nazista, em 1933. Esteve à beira de se transformar em país socialista, como a vizinha URSS, com apoio da maioria de seus intelectuais e artistas.


Mas com a ascensão de Hitler houve vários assassinatos e prisões. Os artistas que sobreviveram se espalharam por vários países quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, em 1939.


Como a importância do futurismo italiano e do cubofuturismo russo foi determinante para tudo que ocorreu de mais avançado na produção cultural do ocidente do início do século XX até o momento, decidi dividir o artigo em duas partes.


Nesta abordarei o surgimento do futurismo italiano, em 1909, que, por sua vez, inspirou os vanguardistas russos (objeto da segunda parte do artigo) a lançarem o cubofuturismo três anos depois.


Salientarei nas duas postagens as diretrizes principais de ambos, seus artistas mais importantes e a influência que tiveram sobre os movimentos modernistas que os sucederam...