sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O vilarejo onde fui criado, no noroeste paulista, é pobre, como a maioria dos vilarejos rurais. Chama-se Tupinambá. Pertence a Indiaporã, município a 600 quilômetros da capital. Margeia o rio Grande, no limite do estado com o Triângulo Mineiro.

Tupinambá tem nove quarteirões em meio a seis ruas que se cruzam. No centro há uma praça com a igreja e o barracão de festas. Em torno da praça há a igreja evangélica, dois botecos e um campo de futebol que também serve de pasto para os animais. 

Tudo muito modesto, precário, meio zoneado, mas bem melhor que as favelas urbanas. Há muita vagabundagem, mas a criminalidade felizmente ainda é rara.


Bebe-se. E muito. A cerveja campeã de vendas é a Cristal, barata e de péssima qualidade. A cachaça, bebida mais consumida é a industrial, produzida em alta escala. Razoável para batidas e caipirinhas, mas Deus nos livre de tomá-la pura todos os dias.

A população é bem mesclada e de origens diversas. Predominam descendentes de migrantes nordestinos. São raros o
s remanescentes dos chamados “antigos paulistas”, famílias centenárias que carregam misturas entre descendentes dos bandeirantes, índios e negros.

Do interior baiano vieram as primeiras levas de nordestinos no final do século XIX, para o trabalho bruto de arrancar tocos de árvores nativas derrubadas para dar lugar aos cafezais que já não existem.

Em diferentes fases do século XX vieram levas menos expressivas de potiguares, cearenses e, mais recentemente, de maranhenses – estes para trabalhar na lavoura canavieira.

Além de nordestinos, há na região descendentes de imigrantes italianos, espanhóis, árabes e japoneses.

O caboclo atual é uma mescla dessas procedências todas.


Passei a infância por lá, entre o final dos anos 1950 e meados dos anos 1960, e sempre voltei durante as férias de estudos e, depois, de trabalho.


Mais recentemente venho me dedicando às atividades que tenho em meu sítio, a um quilômetro da vila, e voltei a ser um frequentador costumaz da vila, pois é lá que residem os amigos locais.

Minha memória musical mais remota vem da infância vivida por lá. Soma do que ouvi nas rodas de violeiros, no rádio de casa, no cinema de Indiaporã, nos eventuais espetáculos de circos de touradas e nas várias festas.

Sem dúvida o compositor brasileiro que mais permeou essa salada de referências foi o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989). E olha que não estava no seu auge. Sua popularidade maior se deu entre os da geração do meu pai.


O "rei" Luiz Gonzaga
De 1941, quando Gonzaga gravou sua primeira música, até o final dos anos 1970, quando fez sua última turnê de shows pelo Brasil ao lado do filho Gonzaguinha, o homem reinou por todos os sertões brasileiros, de norte a sul, como o músico brasileiro mais popular.

Sua obra tornou nacionais três gêneros do sertão nordestino: baião, xaxado e xote.

A maioria das músicas para festas de São João que hoje animam quadrilhas por todo o país foi composta por ele e pelo sanfoneiro ítalo-paulista Mário Zan (1920-2006).


Mário Zan
O sucesso de Gonzaga popularizou como nunca os vários tipos de sanfonas (ou acordeons), estimulando a formação de instrumentistas por todo o país.

Dia desses vi pela televisão o sanfoneiro gaúcho Renato Borguetti esmerilhando um pot-pourri instrumental com obras de Gonzaga.


Renato Borguetti
Sanfoneiros de qualquer geração e de qualquer região do país aprenderam a tocar a partir do repertório de canções compostas ou gravadas por Gonzaga.

O maior fã de Gonzaga em Tupinambá era o sanfoneiro Lazinho, responsável pela animação dos “arrasta-pés” (bailes) e festas de São João.


Lazinho meio que incorporava a figura extrovertida do compositor ao interpretar sua obra. Até imitava o sotaque esquisito do “rei”: mistura de “o” e “e” abertos, proveniente do Nordeste, com o “r” puxado para o padrão italiano instituído nos palcos do Rio e de São Paulo.

Contava piadas maliciosas, imitava as pessoas, provocava os casais, dizia sutis obscenidades e não deixava ninguém se prostrar durante as festas. Igualzinho o “rei do baião”.

Somado ao que ouvia no rádio, às canções Asa branca e Assum preto que a professorinha nos ensinara na escola rural e, sobretudo, ao que vinha da sanfona e da voz de Lazinho nas festas, várias músicas de Gonzaga se entranharam para sempre na minha memória.

Na solidão do colégio interno para o qual fui mandado, quando batia saudade de casa vinha à mente No meu pé de serra. Em Tupinambá nem existe serra, mas a cantarolava com o coração embargado de emoção.



Gonzaga não competia com a grande tradição paulista de músicas sertanejas de viola. Pelo contrário, até inseriu algumas no seu repertório, como a
Moda da mula preta de Raul Torres. Assim como canções suas foram gravadas por duplas caipiras.



Meu único contato direto com Gonzaga foi como participante do Grupo de Teatro Pedra, de Brasília.

Entre 1974 e 1975, montamos um texto medieval de autoria anônima chamado Farsa do advogado Pathelin, o qual foi apresentado em vários locais, dentre eles um palco ambulante chamado Carrossel da Cultura.

Em certa data nosso espetáculo foi escalado para anteceder a uma apresentação de Gonzaga numa das cidades satélites. Quando chegamos lá, o público era enorme. Não para nos ver, claro.

Houve atraso na programação e quando nos preparávamos para entrar em cena, chegou Gonzaga com sua comitiva. óbvio que o público endoidou.

Deveríamos ter tido o bom-senso de desistir e deixar que o “rei” assumisse, mas teimamos em nos apresentar de qualquer forma, conforme o que fora programado.

Evidente que não conseguimos. Sequer ouvíamos as falas uns dos outros. Por fim tivemos de cair fora para que a voz e a sanfona do “rei” trouxesse a explosão de alegria que todos aguardavam ansiosos. E lógico que nós, do grupo, também ficamos por lá para usufruir dela...


domingo, 9 de agosto de 2015

Dos sete melhores romances europeus do século XX, três foram escritos em alemão: O processo (de Franz Kafka), Doutor Fausto (de Thomas Mann) e O homem sem qualidades (de Robert Musil).

Os outros quatro são: Ulisses e Finnegans wake (do irlandês James Joyce), Viagem ao fim da noite (do francês Louis-Ferdinand Céline) e Petersburgo (do russo Andrei Biéli).

Embora tenha nascido na Áustria, um país pródigo de grandes escritores, Robert Musil (1880-1942) morreu em Genebra, Suíça, durante a II Guerra Mundial, pobre, esquecido e dependendo da ajuda de amigos.



Robert Musil na velhice
De família humilde, aos dez anos foi enviado pelo pai para uma escola militar, única forma de um garoto austríaco pobre ter formação educacional consistente na época.

Aos 21 anos, quando conseguiu se diplomar em engenharia, largou a carreira militar. Mas logo foi convocado pelo exército de seu país para combater na I Guerra Mundial, de 1914 a 1918.

Ao final dos combates chegou a capitão, condecorado com a principal ordem de guerra do moribundo Império Austro-Húngaro.

Em 1923 mudou-se para Berlim, Alemanha, onde teve rápido reconhecimento como dramaturgo, prosador e crítico literário. Mas veio a ascensão do nazismo, em 1933, e teve de fugir para Viena.

Nesse período, vivendo na penúria como refugiado de guerra, escreveu a maior parte de sua grande obra, O homem sem qualidades, que permaneceu inacabada quando o autor faleceu em 15 de abril de 1942, em Genebra...