domingo, 20 de setembro de 2015

Muitas das chamadas grandes obras – sobretudo as que seguem a rigor o modelo construtivo aristotélico e são tidas como “clássicos” – não foram assim consideradas por alguns dos seus autores, que elegeram outras de suas produções como as mais importantes.

É o que ocorreu com o romancista francês Gustave Flaubert (1821-1880), célebre por seus “clássicos” Madema Bovary (1857), Salammbô (1862) e A educação sentimental (1869).

Gustave Flaubert
Mas mais importantes, segundo ele próprio, foram o romance Bouvard e Pécuchet e as histórias reunidas em Três contos.

Produto de um esforço para muitos insano, Bouvard e Pécuchet custou a Flaubert cerca de trinta anos só de pesquisas, durante os quais leu cerca de três mil livros sobre assuntos diversos para reunir as informações de que precisava.

Depois de catalogá-las metodicamente, começou a escrever o romance nos últimos sete anos de sua vida. Escreveu o primeiro volume, farsesco e muito divertido, mas uma hemorragia cerebral fulminante impediu que concluísse o segundo.


Morreu como queria: escrevendo.


Bouvard e Pécuchet é o primeiro dos quatro grandes romances modernos inacabados.


Os outros são O processo (1925) de Franz Kafka, O homem sem qualidades (1930) de Robert Musil, e Finnegans wake (1939) de James Joyce.

Este foi publicado na íntegra, mas as condições físicas de Joyce ao finalizá-lo eram precárias. Teve as páginas finais escritas por amigos, dentre eles seu conterrâneo Samuel Beckett, aos quais ditava o texto.

Joyce estava de quase cego. Ficava a maior parte do tempo numa poltrona, na qual ditava os textos, dormia, acordava e voltava ao livro.

Os ajudantes tinham de escrever os textos em cartolinas, com letras imensas, porque Joyce fazia meticulosas correções e mudava tudo numerosas vezes. Havia dias que o trabalho se resumia a uma frase.

As duas obras maiores de Joyce, Ulisses e Finnegans wake vieram da herança revolucionária de Bouvard e Pécuchet.

O livro de Flaubert segue, no tocante ao humor e à ironia crítica, a tradição de obras satíricas ou picarescas como Elogio à loucura (1512) de Erasmus, Gargantuá e Pantagruel (1532) de François Rabelais, Dom Quixote (1615) de Miguel de Cervantes, Viagens de Gulliver (1726) de Jonathan Swift e a primeira parte do poema dramático Fausto (1806) de Wolfgang Goethe.

Bouvard e Pécuchet foi projetado, desde o início, para ser uma comédia crítica sobre a imbecilidade e a fragilidade humana.


Um livro radical na construção e na linguagem sobre a cultura tal como nos chega por meio do ensino (inclusive superior), das críticas de jornais e da cultura de massas, que começou a se delinear na segunda metade do século XIX.

O livro narra o encontro de dois copistas de escritório que se conhecem por acaso e, percebendo inúmeras afinidades, resolvem depois de um tempo juntar as economias e a herança de um deles para comprar uma propriedade rural com o propósito de lá estudar e fazer experiências.

As áreas do conhecimento pelas quais mais se interessam têm denominações subjetivas: “o amor”, “o sujeito filosófico”, “a política”, “o socialismo”, “o belo”, “a estética”, “o sublime”, “a escrita”, “Deus”, “a Bíblia”, “a educação”, “as etiquetas sociais” e por aí afora.

Capítulo após capítulo, a partir de um esquema narrativo absolutamente bem amarrado e estruturado, os personagens mergulham em estudos heterodoxos: agricultura, química, medicina, história, literatura, filosofia, religião, jardinagem, mnemônica, literatura, veterinária, educação e muitos outros.

Flaubert fez do livro um repositório de citações de autores anônimos, desconhecidos ou célebres, unidos por um denominador comum: a tolice.

Mas foi além e idealizou uma obra na qual desaparece sua própria autoria.

Optou por sequer criar um roteiro. Emprestou-o deliberadamente de uma novela popular da época chamada Les deux greffiers (Os dois escrivães), de Bartlélemy Maurice.

A linguagem é neutra, sem qualquer propósito de brilho.

Os protagonistas são pessoas comuns. Protótipos de qualquer homem, como a sigla/entidade HCE de Finnegans wake. Para começar o título do romance e4 parece nome de firma. Bouvard e Pécuchet SA ou Bouvard e Pécuchet Ltda.

Quem pode ser mais estúpido que Bouvard e Pécuchet? Todo mundo.

Os personagens de Flaubert só se movimentam, a rigor, quando fracassam em mais uma tentativa. Como todos nós.

A busca quixotesca pelo conhecimento é um claro deboche do autor a todas as correntes de pensamento modernas que se idealizam avançadas ou progressistas.

Alguns dos processos construtivos por ele adotados seriam mais tarde reproduzidos por outros artistas modernos.

Vide Marcel Duchamp com seus readymade – objetos escolhidos ao acaso, assinados e denominados “arte”. Gertrude Stein com sua linguagem redundante. John Cage com sua música de sons captados ao acaso, mediante regras de jogos. Willian Borroughs com seu romance composto com frases recortadas de jornais e combinadas aleatoriamente.

O incrível é que Flaubert, enquanto criava o romance realista com Madame Bovary, Salammbô e A educação sentimental – cujo modelo é predominante até os nossos dias – também se preparava para destruí-lo com Bouvard e Pécuchet...