terça-feira, 27 de outubro de 2015

A música Tropicália apareceu no segundo álbum do cantor e compositor Caetano Veloso, lançado em 1967 pela gravadora Philips Records.

O disco, chamado apenas Caetano Veloso, teve arranjos de Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen. A capa era do poeta e artista gráfico Rogério Duarte.

Trata-se da letra-manifesto do movimento de mesmo nome que depois teria um disco coletivo chamado Tropicalia ou Panis et Circencis, com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, José Carlos Capinan, Torquato Neto e o arranjador Rogério Duprat.


Também pela gravadora Philips Records, em 1968.

O tropicalismo se propôs a mesclar manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais, como as correntes artísticas de vanguarda e a cultura pop nacional e estrangeira.

Antes dos manjados fins sociais e políticos, o tropicalismo foi um movimento nitidamente estético e comportamental.

Quase tudo o que representou encontra-se sugerido na letra de Caetano, feita um ano antes, em cujos estribilhos em forma de onomatopeias soam alguns dos principais elos de referência.

Dentre eles a violência, o deboche e a irreverência do mais radical dos movimentos de vanguarda modernos: DADA.

“Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da
Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da”
Capa da revista DADA, de Zurich

Uma saudação especial àquele bando heterogêneo que reunira sujeitos muito loucos e criativos nas duas primeiras décadas do século XX.


DADA, como marco, surgiu em 1916 com a fundação do Cabaret Voltaire, em Zurich (Suíça), pelo poeta, escritor, filósofo, músico e diretor de teatro alemão Hugo Ball (1886-1927).

Em princípio, era para ser um pequeno teatro de variedades e, ao mesmo tempo, um bar. Apenas um meio de sobrevivência para Ball e sua esposa, a atriz e cantora Emmy Hennings.


Cabeça mecânica: o espírito de nossa época, de Raoul Hausmann
Mas se tornou muito mais que isso...


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Recentemente realizei uma palestra interativa para associados da entidade JPI (Jovens, Pessoas de meia idade e Idosos unidos). O tema foi por eles sugerido: “Por que literatura?”

O combinado fora que os participantes me indicariam alguns motes sobre os quais eu deveria falar. Assim foi. Se bem que em alguns momentos me prestei apenas a ouvi-los.


Imagem do pequeno público presente
Um dos representantes iniciou as atividades falando sobre a formação da maioria deles. Explicou que realizavam ciclos permanentes de palestras relacionados àquilo que convinha à maioria.

Como eu era tido como um sujeito meio versátil – ora escrevo sobre literatura e artes em geral, ora me meto a escrever sobre política (cada vez menos), bichos, plantas, etc. – acharam por bem me convidar.

Ele disse que a maioria fora educada para dois universos do conhecimento: as artes e as ciências. Como se fossem o que de mais essencial há nesta vida.

Mas mesmo os mais jovens sabiam que seguiriam trajetórias afastadas de tudo que aprendiam. Pois teriam de encarar a vida real e se tornar adeptos de um monte de outras porcarias que nada teriam a ver com os conceitos puristas que lhes eram ensinados.
  
No entanto, algumas das formulações permaneciam nas memórias de cada um deles.


Por exemplo, a de que no “campo das artes” está a literatura e também o desenho, a pintura, a escultura, o teatro, a música, a moda, a arquitetura, o design, a publicidade, o cinema, as histórias em quadrinhos, a fotografia, o artesanato, os arranjos florais, etc.

Enfim, os JPIs realizavam tais ciclos de palestras para aprender a digerir questões pouco resolvidas que não lhes de saía da cabeça ao longo da vida.


Por que as grandes glórias das civilizações eram quase sempre atribuídas aos artistas e cientistas?

Um político, um religioso, um esportista, etc., podiam se tornar célebres, mas nada que se comparasse a um grande artista ou a um grande cientista.

Entre tantos conceitos sobre “arte”, disse o JPI que introduzia o evento, foi a eles ensinado que se trata do culto do belo.

Ou então que a função do artista é expressar emoções: alegria, paixão, culpa, dor, arrependimento, etc. E que por meio da arte qualquer uma delas pode vir à tona.


Nos tempos antigos os gregos atribuíam a isso o nome de catarse.

Hoje temos festivais de rock nos quais cada qual solta toda alegria e maluquices, dançando, gritando, se beijando, cheirando pó, fumando maconha, tomando todas sem moderação, exprimindo todo amor e ódio represados e o que mais possa ser feito por impulso nos ambientes coletivos.

E muitos artistas, óbvio, se tornam extremamente hábeis em expressar essas emoções para o público.

Um dos JPIs perguntou o que eu achava do fato de os artes em geral exercerem essa função de externar as emoções, variando apenas os métodos, as formas e a capacidade criadora.

Pedi um tempo, pois realmente não tinha nada formulado para dizer naquele momento.

Ao notar meu constrangimento, o JPI que apresentava o encontro prosseguiu. Disse que fora ensinado a eles que todas as artes têm, entre si, mais semelhanças que diferenças.


Música e literatura, por exemplo, usam o som sob medidas temporais.

Na música, o som vem em sentido mais material, vinculado aos instrumentos, à voz.


Na literatura, os sons têm algumas das qualidades da música, mas acrescidas de significados a que chamamos de palavras, frases, etc.

Lembrei a ele que Anthony Burgess dizia que literatura, grosso modo, pode ser definida como o uso de palavras maximamente trabalhadas. Que, essencialmente, é a arte da exploração das palavras.


Anthony Burgess e um amigo
Portanto, alguns textos que não são considerados “arte” literária, como a notável tradução da Bíblia para o inglês médio conhecida como a Bíblia de Wycliffe (de 1383), o tratado Origens das espécies, do médico Charles Darwin têm mais qualidade no trato com as palavras do que obras declaradamente literárias.

Emendei para Ezra Pound, que dizia que literatura é linguagem carregada de significados. E que grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.


Ezra Pound sob tratamento psiquiátrico
Mas que essa concentração de significados não peque por excessos. Deve ter em alta conta outros aspectos essenciais como a clareza, a objetividade, a condensação.
Perguntei a todos: “O que lhes foi ensinado sobre formas literárias?”

Um JPI logo respondeu que a literatura está dividida entre prosa e poesia...