quarta-feira, 2 de março de 2016

James Joyce (1882-1941) escreveu dois livros de poemas, um livro de contos, dois dramas para teatro, dois romances, uma “sinfonia de palavras” (Finnegans wake) e três obras póstumas menores.


James Joyce

Dos escritores inventores (na acepção poundiana), é talvez o mais popular. Mas mais popular que lido. Para a maioria dos leitores, acostumados à literatura feijão-com-arroz, Joyce é considerado um chato e poucos se empenham para digerir alguma de suas obras de cabo a rabo.

Para Ezra Pound (1885-1972), inventores são os escritores que trazem inovações à arte da escrita. Mestres  são os escritores que selecionam as melhores inovações e as colocam no contexto de sua época. Diluidores – a maioria – são aqueles que imitam os mestres, mas sem o mesmo brilho.



Ezra Pound
Há outras categorias menores, como os beletristas e os criadores de modas. Mas esses nem vêm ao caso ao se tratar de James Joyce. Embora pouco lido pelo leitor comum, foi o escritor mais lido pelos bons escritores que vieram depois dele, portanto foi fundamental para quase toda literatura que o sucedeu.

Por que a literatura de Joyce é considerada difícil para o leitor comum? Porque tem alta concentração de recursos construtivos e de informações, não segue a lógica aristotélica de princípio, meio e fim, e não tem enredos facilmente compreensíveis para deleite e entretenimento de quem lê.


É “obra aberta”, na acepção de um dos principais teóricos da linguagem e da comunicação do século XX, o italiano Umberto Eco (1932-2016). Ou seja, exige alto envolvimento do leitor.


Umberto Eco
É impossível ler alguma obra de Joyce numa tacada, por envolver ene desdobramentos e, principalmente, por exigir experimentação do leitor, que tem de ir fundo e desvendá-la.

A obra de Joyce tem sua parcela quente (hot) e fria (cool), conforme outro importante teórico da linguagem e da comunicação do século XX, Marshall McLuhan (1911-1980).


Em outras palavras, requer grande participação para a construção de significados, prolonga os sentidos (a audição, a visão, o tato, o olfato, etc.) e tem baixa definição. Qual seja, não é nada explícita e fomenta a imaginação do leitor para ser assimilada.


Marshall McLuhan
Envolve vários sentidos simultaneamente, disponibiliza máximas informações com o mínimo de recursos, exigindo a intervenção do leitor que precisa aperfeiçoar sua atenção e conhecimentos para interpretar e completar livremente os vazios deixados.

O autor procurou produzir obras com estruturas construtivas bastante diferentes umas das outras, No entanto, seus personagens de referência são pessoas do seu círculo pessoal enquanto viveu na Irlanda: parentes próximos e de sua esposa, amigos, conhecidos e figuras populares de sua época.

A bem da verdade, Joyce escreveu sempre sobre os mesmos personagens e sobre as mesmas histórias. Para começar, retratou-se em vários personagens. Não porque se achasse especial. Talvez para mostrar que não precisava abordar nada de diferente para produzir uma literatura altamente complexa e diversificada.

Não há um só personagem principal que não seja autobiográfico. Stephan Dedalus, Leopoldo Bloom, Richard Rowan, Gabriel Conroy, Erwicker e outros são a cara do próprio autor.

Por meio deles expôs suas fixações, defeitos, vícios e virtudes, qual Fernando Pessoa (1888-1935), que se subdividiu em heterônimos.


Fernando Pessoa
Embora dissesse ter vergonha de ser irlandês, Joyce sempre escreveu sobre seus país e seu povo.

A estrutura construtiva de suas obras é discrepante. Repetiu ideias, conceitos, mas nunca da mesma forma que já utilizara.

Além deste ensaio, dedicarei outros dois à obra de Joyce neste blog. Neste, me concentrarei naquela que considero sua primeira obra importante: o conto The dead, o último do livro Dubliners (Dublinenses).


O próximo artigo será sobre o romance Ulisses e o último sobre Finnegans wake...