sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O Rei Lagarto

O desprendimento do poeta Jim Morrison (1943-1971), mais conhecido como o vocalista da banda de rock californiana The Doors, era total.
"Viver a vida a cada segundo." A famosa frase acima é do seu contemporâneo Jimi Hendrix, um do trio de jotas referenciais do rock mortos precocemente na virada dos anos 1960 para os anos 1970. Os outros foram Janis (Joplin) e o próprio Jim.
Jimi e Janis se foram em 1970. Jim em meados de 1971. Os três com 27 anos.
Jim Morrison
Janis morrera acidentalmente numa recaída com heroína. Encontrava-se em um dos períodos em que andava "limpa". Finalmente acertara boa banda, tinha um bom empresário e estava em vias de reatar seu mais importante relacionamento amoroso.
Houve a recaída, na qual tomou uma dosagem compatível a que tomava quando se encontrava na ativa, mas seu corpo se desabituara e por isso se deu a overdose.
Nos momentos de lazer, Jimi era doidão alegrão que transitava por várias drogas, como a maioria dos músicos de sua época. Mas mais pelo pique festivo do que por ser um junkie como o também guitarrista Eric Clapton. O mesmo se dava Janis. "Para se divertir".
No dia em que morreu, Jimi havia tomado barbitúrico para conseguir descansar e suportar a intensa agenda de trabalho que teria na sequência. Tomara algum álcool, como de costume, apagou-se no sono e morreu por sufocamento com vômito enquanto dormia.
Dos três jotas, Morrison era o único autodestrutivo da pesada. Não que fosse um sujeito negativo. O mundo real não é maniqueísta como a maioria dos dogmas religiosos, políticos e filosóficos o apresentam.
Mas os exemplos do seu empenho em testar os limites da vida eram constantes.
Brigava por diversão.
Se exibiu equilibrando-se em pedras na beira de abismos. As pessoas até saíam de perto para não ver a desgraça.
Jogou-se de uma lancha em pleno alto-mar, com as ondas nas alturas. Era forte e bom nadador. Mas é o tipo de coisa que os que temem a morte não fazem.
Atravessou à noite, a pé, de um lado ao outro, uma rodovia com várias pistas em alto movimento.
Equilibrou-se em parapeitos de janelas de apartamentos completamente bêbado. Num deles dependurou-se certa vez com as mãos, e o corpo para fora, para desespero da namorada Pamela Courson.
Destruiu carros em acidentes inconsequentes por rodovias.
Tomou doses cavalares de drogas com efeitos opostos para testar até onde seu corpo e sua mente seriam capazes de suportar.
Quando bebia ia para ir até o limite em qualquer situação.
Como os dois jotas mortos no ano anterior, Morrison era um sujeito alegrão, bem-humorado, sem traços de melancolia e depressão.  No entanto, seu misticismo poético repleto de extravagâncias cênicas era abusivo nos elogios à violência, ao distúrbio, ao caos.
Suas letras e poemas se referenciavam numa mitologia existencialista que priorizava a tensão, a loucura, a catarse e a própria morte em detrimento da calmaria apolínea do bem viver.
Dizia aos companheiros do The Doors, desde o início, em 1966, que precisavam fazer as coisas rápido, porque ele não teria muito tempo.  Quatro anos depois, no auge do sucesso, os companheiros jogaram a toalha e pediram o fim das apresentações ao vivo.
Nem havia indisposições entre eles, como no caso de outras bandas que se extinguiram. Eram malucões, mas não como Morrison. Não aguentavam mais a doidura extrema a que ele levava a cada apresentação da banda.
Para Jim Morrison, a morte não vinha para destruir, mas para dar finalidade à vida, de modo que fosse extrema e verdadeira enquanto durasse. A cada segundo, como foi dito por Hendrix em entrevista.
A morte foi a catarse final de Jim Morrison.
Desde os 16 anos seus poemas adolescentes apontavam para a necessidade de um rápido desfecho.
O fato e a coisa é um livro de poemas da adolescência do poeta e letrista brasileiro Torquato Neto (1044-1972). Mas de incrível maturidade. E parecem escritos pelo cidadão objeto deste artigo.
Torquato e Morrison estavam sempre a anunciar seu próprio fim. O brasileiro morreu um ano depois do norte-americano, aos 28 anos.
Após Morrison ter sido encontrado morto dentro de uma banheira em Paris, à la Jean-Paul Marat, apunhalado pela própria sina, os cinco álbuns do Doors por ele estrelados haviam vendido milhões de cópias.
Vendem muito até hoje.
Quando o grupo viajava para os shows, cada um dos integrantes levava sua bagagem. Morrison ia com a roupa do corpo e, no máximo, um livro numa mão e uma garrafa de bourbon noutra.
Tudo que ganhava, torrava desbragadamente, em total desprezo pela seguridade do amanhã. 
Residia de hotel em hotel, de qualquer categoria, incluindo os mais fuleiros, onde ele e sua companheira Pamela Courson paravam e passavam dias trancados só trepando, bebendo e se drogando.

Morrison e Pamela Courson
Dada à familiaridade do poeta com os hotéis, o último disco dos Doors chama-se Morrison Hotel.
Costumava comprar carros antigos e sair com Pamela por qualquer rodovia, sem nenhum objetivo definido. Quando quebrava, capotava ou batia o carro, abandonava-o e o casal pegava carona até a cidade mais próxima para comprar outro e seguir adiante.
As roupas que vestia e tudo o mais que usava eram descartáveis. Costumava se definir como um lagarto. Quais esses répteis, precisava trocar de pele sempre.
Só não trocava Pamela. Esta esteve com ele até o fim...
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Figuras de linguagem

Para o principal poeta/crítico moderno, o norte-americano Ezra Pound (1885-1972), literatura é linguagem carregada de significado.

Ezra Pound
Conceito pragmático, afora escolas, gêneros, tendências, estilos, ismos e aquilo.

Tanto faz se prosa ou poesia.


Era mais ou menos o que achavam dois dos seus contemporâneos, os russos Roman Jakobson (1896-1972), o "poeta da linguística", e Vladimir Maiakóski (1893-1930), poeta de fato.



Roman Jakobson

Vladimir Maiakóvski

E o que é grande literatura? Antes que se espere pela citação dos “clássicos”, carimbo outra resposta à la Pound/Jakobson/Maiakóvski: grande literatura é linguagem carregada de significado em maior grau possível.



Pode até ter a ver com um ou outro “clássico”, mas na maior parte dos casos não.



Gustave Flaubert (1821-1880), por exemplo. Quais seus “clássicos” segundo a velha noção de equilíbrio, erudição e profundidade perpetuada pela cultura ocidental desde a Grécia antiga? Madame Bovary, Salammbô e A educação sentimental.



Gustave Flaubert

Mas para gente como os três cabras citados acima, o ápice da prosa de Flaubert é o inacabado romance picaresco Bouvard e Pécuchet, que traz como glossário o Dicionário das ideias feitas.

Qual seja, para Pound/Jakobson/Maiakóvski grande literatura é a literatura de invenção, que propõe novos processos, rompendo com as convenções.

Como gerar literatura inovadora?

Impossível de se prever e de se determinar.

Escritores inventores vêm a seu tempo com qualidades inatas que ninguém ensina.

Surgem inclusive em contextos um tanto isolados, como o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), o sueco August Strinderb (1849-1912) e o cubano Lezama Lima (1910-1976).


Henrik Ibsen
August Strindberg

Lezama Lima

Mas há iniciativas práticas que melhoram as possibilidades.
 
Pra começar, é preciso qualificar quem lê e/ou escreve.

Não se trata apenas de ensinar como escrever bem com base nas cartilhas acadêmicas sobre “língua culta”, regras básicas de sintaxe e... os velhos e mesmos "clássicos".


A maioria dos referenciais criativos da linguagem existe há milênios, quando nem se fazia ideia de que um dia haveria ensino, conhecimento acadêmico e toda essa farinha intelectual pro pirão primeiro.

Alguns vêm de época em que nem existia escrita.



Neste artigo me limitarei à série de referenciais que compõem as figuras de linguagem.



Figura, por definição, está associada à forma exterior, emblema, representação, imagem, impressão que as pessoas, seres e coisas produzem.



No tocante à literatura, as figuras de linguagem são recursos não convencionais que o escritor dispõe para dar maior expressividade ao que escreve. Ou seja, são referenciais criativos e, não, normativos.



A importância de reconhecer figuras de linguagem está no fato de que tal conhecimento, além de auxiliar a compreender melhor os textos literários, deixa-nos mais sensíveis à beleza da linguagem e ao significado simbólico das palavras e dos textos.



Constituem recursos linguísticos para expressar experiências comuns de formas diferentes, conferindo originalidade, emotividade e poeticidade ao texto.



As figuras de linguagem revelam muito da sensibilidade e inventividade de quem produz o texto, traduzindo particularidades estilísticas do autor.



Dessa forma, as palavras, empregadas em sentido não-denotativo, passam a pertencer a outros campos de significação, mais amplos que os da escrita direta.



São fundamentais para toda produção literária, sobretudo para a poesia. Mas se fazem presentes em qualquer tipo de texto.



A título de exemplo, são gritantes as diferenças de letras de canções populares nacionais compostas por letristas que conhecem as figuras de linguagem e não apenas as usam intuitivamente.



As figuras de linguagem a serem apresentadas neste artigo estão amiúde em letras de Noel Rosa, Humberto Teixeira, Lupicínio Rodrigues, Newton Mendonça, Vinícius de Moraes, Torquato Neto, Waly Salomão, Chico Buarque, Walter Franco, Paulo Leminski, Caetano Veloso, Tom Zé, Cazuza, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e outros poucos.



Prosadores, poetas, letristas de canções populares, redatores de publicidade, jornalistas e outros escribas de métier que ignoram as figuras de linguagem estão no mesmo nível de proponentes a cozinheiros que não sabem usar temperos.



As figuras de linguagem se subdividem em quatro grupos: figuras de palavras, figuras de som ou de harmonia, figuras de pensamento e figuras de sintaxe ou construção.



A seguir, apresentarei as definições de cada uma das principais – há outras menos usadas que não cito aqui – e os respectivos exemplos.



Figuras de palavra



As figuras de palavra são figuras de linguagem que consistem no emprego de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais expressivo.



São estas as principais figuras de palavras: alegoria, antonomásia, catacrese, comparação, metáfora, metonímia, sinédoque e sinestesia.



ALEGORIA

A alegoria é uma acumulação de metáforas referente ao mesmo objeto. Figura iminentemente poética – sobretudo durante o barroco – consiste em expressar uma situação global por meio de outra que a evoque e intensifique o seu significado. Na alegoria, as palavras são transladadas para um plano que não lhes é comum, aludindo a significados para além dos usuais.

Exemplo:
“A vida é uma ópera, é uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestra é excelente…” (Machado de Assis)



ANTONOMÁSIA

Ocorre antonomásia quando designamos uma pessoa por uma qualidade, característica ou fato que a distingue. Na linguagem coloquial, antonomásia é o mesmo que apelido, alcunha ou cognome, cuja origem é um aposto (descritivo, especificativo, etc.) do nome próprio.

Exemplos:

Pelé (= Edson Arantes do Nascimento)

O poeta dos escravos (= Castro Alves)

O Dante Negro (= Cruz e Souza)



CATACRESE

É uma metáfora desgastada, tão usual que já não percebemos. Assim, a catacrese é o emprego de uma palavra no sentido figurado por falta de um termo próprio.

Exemplos:

O menino quebrou o braço da cadeira.

A manga da camisa rasgou.



COMPARAÇÃO

Consiste em atribuir características de um ser a outro, em virtude de determinada semelhança.

Exemplos:

O meu coração está igual a um céu cinzento.

O carro dele é rápido como um avião.



METÁFORA

É o emprego de uma palavra com o significado de outra em vista de uma relação de semelhanças entre ambas. É uma comparação subentendida.

Exemplos:

Minha boca é um túmulo.

Essa rua é um verdadeiro deserto.

"Meu pensamento é um rio subterrâneo." (Fernando Pessoa)



METONÍMIA

É a substituição de uma palavra por outra, quando existe uma relação lógica, uma proximidade de sentidos que permite essa troca. Ocorre metonímia quando empregamos:

O autor pela obra.

Exemplo:

Li Guimarães Rosa dezenas de vezes. (a obra de Guimarães Rosa)

O local pelo conteúdo.

Exemplo:

O estádio aplaudiu a Seleção. (estádio está substituindo os torcedores)

A parte pelo todo.

Exemplo:

Vários brasileiros vivem sem teto, ao relento. (teto substitui casa)

O efeito pela causa.

Exemplo:

Suou muito para conseguir a casa própria. (suor substitui trabalho)



SINÉDOQUE

Ocorre sinédoque quando há substituição de um termo por outro, havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra numa relação quantitativa. Encontramos sinédoque nos seguintes casos:

– O todo pela parte e vice-versa:

A cidade inteira viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de ladrão, fugindo nos cascos de seu cavalo.

– O singular pelo plural e vice-versa:

“O paulista é tímido; o carioca, atrevido.”

– O indivíduo pela espécie:

Para os artistas ele foi um mecenas protetor.

Modernamente, a metonímia engloba a sinédoque.



SINESTESIA

Consiste na fusão de impressões sensoriais diferentes.

Exemplos:

Raquel tem um olhar frio, desesperador.

Aquela criança tem um sorriso tão doce.



Figuras de som ou harmonia



Chamam-se figuras de som ou de harmonia os efeitos produzidos na linguagem quando há repetição de sons ou, ainda, quando se procura “imitar”sons produzidos por coisas ou seres.



São estas as principais figuras de linguagem de som ou harmonia: aliteração, assonância, onomatopeia e paronomásia.



ALITERAÇÃO

Consiste na repetição de um determinado som consonantal no início ou interior das palavras.

Exemplo:

 “Toda gente homenageia Januária na janela.” (Chico Buarque)



ASSONÂNCIA

Ocorre assonância quando há repetição da mesma vogal ao longo de um verso ou poema.

Exemplo:

“Sou Ana, da cama/da cana, fulana, bacana/Sou Ana de Amsterdam.” (do mesmo Chico Buarque)



ONOMATOPEIA

Consiste na reprodução ou imitação do som ou voz natural dos seres.

Exemplos:

Com o au-au dos cachorros, os gatos desapareceram.

Miau-miau. – Eram os gatos miando no telhado a noite toda.



PARONOMÁSIA

Ocorre paronomásia quando há reprodução de sons semelhantes em palavras de significados diferentes.

Exemplo:

“Berro pelo aterro pelo desterro/berro por seu berro pelo seu erro/quero que você ganhe que você me apanhe/sou o seu bezerro gritando mamãe.” (Caetano Veloso)



Figuras de pensamento



As figuras de pensamento são recursos de linguagem que se referem ao significado das palavras, ou seja, ao seu aspecto semântico.



São estas as principais figuras de linguagem de pensamento: antítese, apóstrofe, eufemismo, gradação, hipérbole, ironia, paradoxo, perífrase e prosopopeia.



ANTÍTESE

Consiste no uso de palavras de sentidos opostos.

Exemplo:

Nada com Deus é tudo. Mas tudo sem Deus é nada.



APÓSTROFE

Ocorre apóstrofe quando há invocação de uma pessoa ou algo, real ou imaginário, que pode estar presente ou ausente. Corresponde ao vocativo na análise sintática e é utilizada para dar ênfase à expressão.

Exemplo:

“Deus! ó Deus! Onde estás, que não respondes?” (Castro Alves)



EUFEMISMO

Consiste em suavizar palavras ou expressões que são desagradáveis.

Exemplos:

Ele foi repousar no céu, junto ao Pai. (repousar no céu = morrer)

Os homens públicos envergonham o povo. (homens públicos = políticos)



GRADAÇÃO

Ocorre gradação quando há uma sequência de palavras que intensificam uma mesma ideia.

Exemplo:

“Aqui… além… mais longe por onde eu movo o passo.” (Castro Alves)



HIPÉRBOLE

É um exagero intencional com a finalidade de tornar mais expressiva a ideia.

Exemplos:

Ela chorou rios de lágrimas.

Muitas pessoas morriam de medo da perna cabeluda.



IRONIA

Consiste na inversão dos sentidos, ou seja, afirmamos o contrário do que pensamos.

Exemplos:

Que alunos inteligentes, não sabem nem somar!

Se você gritar mais alto, eu agradeço.



PARADOXO

Consiste numa proposição aparentemente absurda, resultante da união de ideias contraditórias.
Exemplo:

Na reunião, o funcionário afirmou que o operário quanto mais trabalha mais tem dificuldades econômicas.



PERÍFRASE

É a designação de um ser por meio de alguma de suas características ou atributos, ou de um fato que o celebrizou.

Exemplos:

A Veneza Brasileira também é palco de grandes espetáculos. (Veneza Brasileira = Recife)

A Cidade Maravilhosa está tomada pela violência. (Cidade Maravilhosa = Rio de Janeiro)



PROSOPOPEIA

É uma figura de linguagem que atribui características humanas a seres inanimados. Também é chamada de PERSONIFICAÇÃO.

Exemplos:

O céu está mostrando sua face mais bela.

O cão mostrou grande sisudez.



Figuras de sintaxe ou de construção



Sintaxe está associada à ordenação. Trata da disposição das palavras na frase e das frases no discurso, incluindo a sua relação lógica, entre as múltiplas combinações possíveis para transmitir um significado completo e compreensível.



As figuras de sintaxe ou de construção dizem respeito a desvios em relação à concordância entre os termos da oração, sua ordem, possíveis repetições ou omissões. Ou seja, não são referenciais de regras e, sim, de exceções a elas.



Elas podem ser construídas por:



a) omissão: assíndeto, elipse e zeugma;

b) repetição: anáfora, pleonasmo e polissíndeto;

c) inversão: anástrofe, hipálage, hipérbato e sínquise;

d) ruptura: anacoluto;

e) concordância ideológica: silepse.



A seguir, apresentarei as definições e exemplos dessas 12 figuras de sintaxe – pertencentes aos cinco tipos – por ordem alfabética:



ANACOLUTO

Consiste numa mudança repentina da construção sintática da frase.

Exemplo:

Ele, nada podia assustá-lo.

Nota: o anacoluto ocorre com frequência na linguagem falada, quando o falante interrompe a frase, abandonando o que havia dito para reconstruí-la novamente.



ANÁFORA

Consiste na repetição de uma palavra ou expressão para reforçar o sentido, contribuindo para uma maior expressividade.

Exemplo:

“Cada alma é uma escada para Deus,/Cada alma é um corredor-Universo para Deus,/Cada alma é um rio correndo por margens de Externo/Para Deus e em Deus com um sussurro noturno.” (Fernando Pessoa)



ANÁSTROFE

Ocorre anástrofe quando há uma simples inversão de palavras vizinhas.

Exemplo: “Tão leve estou que nem sombra tenho.” (Mário Quintana)



ASSÍNDETO

Ocorre quando há a ausência da conjunção entre duas orações com sentidos subentendidos.

Exemplo:

Fui a São Paulo, pensei muito em você.



ELIPSE

Consiste na omissão de um termo que fica subentendido no contexto, identificado facilmente.

Exemplo:

Após a queda, nenhuma fratura.



HIPÁLAGE

Ocorre hipálage quando há inversão da posição do adjetivo ou uma qualidade que pertence a um objeto é atribuída a outro, na mesma frase.

Exemplo:

“… as lojas loquazes dos barbeiros.” (Eça de Queiros). Ou seja, as lojas dos barbeiros loquazes.



HIPÉRBATO

Ocorre hipérbato quando há uma inversão completa dos elementos da frase.

Exemplo:

Passeiam à tarde, as belas na avenida. Ou seja, as belas passeiam na avenida à tarde.



PLEONASMO

Consiste na intensificação de um termo por meio da sua repetição, reforçando seu significado.

Exemplo:

Nós cantamos um canto glorioso.



POLISSÍNDETO

É a repetição da conjunção entre as orações de um período ou entre os termos da oração.

Exemplo:

Chegamos de viagem e tomamos banho e saímos para dançar.



SILEPSE

Ocorre quando a concordância é realizada com a ideia e não sua forma gramatical. Existem três tipos de silepse: gênero, número e pessoa.

De gênero.

Exemplo:

Vossa excelência está preocupado com as notícias. (a palavra vossa excelência é feminina quanto à forma, mas nesse exemplo a concordância se deu com a pessoa a que se refere o pronome de tratamento e não com o sujeito).

De número.

Exemplo:

A boiada ficou furiosa com o peão e derrubaram a cerca. (nesse caso a concordância se deu com a ideia de plural da palavra boiada).

De pessoa

Exemplo:

As mulheres decidimos não votar em determinado partido até prestarem conta ao povo. (nesse tipo de silepse, o falante ou narrador se inclui mentalmente entre os participantes na 3ª pessoa).



SÍNQUESE

Ocorre sínquese quando há uma inversão violenta de distantes partes da frase. É um hipérbato exagerado.

Exemplo: “A grita se alevanta ao Céu, da gente.” (Camões) Ou seja, a grita da gente se alevanta ao céu.



ZEUGMA

Consiste na omissão de um termo já empregado anteriormente.

Exemplo:

Ele come carne, eu verduras.